segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A Assinatura

Sentado no colchonete encardido,
Ergueu pelos dedos o cabide a conservar a casaca
E constatou que as lantejoulas mal se prendiam à costura,
Além duns rasgões sob as mangas que aumentavam a cada dia,
Entretanto, vestiu-se com lisura e assinou o seu espírito.
Abriu o armário velho e lá estavam os seus sapatos,
Não tão lustrados quanto deveriam estar
- Em um pé faltava o solado e no outro o calcanhar -,
Contudo, calçou-os sem muita pressa e assinou o seu espírito.
Abriu o seu estojo e havia pouca maquiagem
Para conseguir ser mais vivo do que acha que é,
Muito pouco de amarelo e quase nada de vermelho,
Porém, muniu-se da esponja e assinou o seu espírito.
Pôs a touca que conseguiu emprestada da namorada
- Cabeleireira que o ama, mas quase nunca o entendeu -,
Tinha uns buracos nas extremidades, todavia, dava para improvisar;
Prendeu os apliques de cabelo verde e assinou o seu espírito.
Entrou saltitando no picadeiro,
Caindo,
Levantando,
Fazendo-se de bobo,
Fazendo de bobos quem queria graça
- Todas aquelas pessoas de poucos dentes na boca,
Poucos tostões nos bolsos,
Pouco em quase tudo,
Exceto na fé em Deus -
E assinou a sua alma.