terça-feira, 5 de agosto de 2008

Desejar e Querer

Pressentindo que me encontraria com Aninha assim que saísse da minha consulta com a dentista, desliguei o celular para não receber uma possível ligação de Alessandra, garota com quem venho saindo, pois não estava paciente o bastante para responder as questões intrusivas daquela mulher. Um certo dia, quando a minha vida parecia ter se aprofundado nas mais temíveis trevas da estupidez, eu me relacionei intimamente com Aninha; era garota ainda, dezessete, baixa e gorda, perspicaz mas mimada, masoquista, traumatizada por ser filha de uma beldade e a própria aparência ser repugnante, enfim, um problema que eu poderia ter evitado.

Não precisei me sentir um Nostradamus, porque, como era de se esperar, lá estava ela, em pé, defronte ao balção da clínica, este que se alinhava no parapeito ao queixo da quase anã. Maldita hora em que comentei que iria à dentista para a estorvosa, abrindo o semblante em dentes assim que me viu.

- Que saudade, Deco! Esqueceu que eu existo? - saudou-me para perguntar o que eu não tinha coragem de responder com todos os 'F's e 'P's.

- Você sabe, Aninha, o trabalho me toma. Como está?

- Estou melhor agora, obrigada. E aí, vai fazer alguma coisa agora?

- Vou para casa, tô sem ânimo para sair. - torcendo para que ela partisse para bem longe de mim.

- Posso ir contigo? - fez a expressão facial que sempre fazia quando queria parecer um personagem de quadrinhos mangá que apetece por algo sem poder, mas, devido a feiúra deplorável, sempre me condicionou à vergonha quando em público.

- Você quem sabe. - tentei ser sutil, porém sabia que aquela catástrofe me acompanharia.

- Então vamos, senhor! - estendeu-me o braço, que segurei meio sem jeito, quando, na verdade, desejava empurrar aquela bolha de carne pelas escadas da saída.