sábado, 3 de setembro de 2011

Renascença

Não me sentia, como se estivesse em sonho meu corpo não pesava, não respondia aos agraves do ambiente. Não entendia onde estava, sequer supunha se havia um lugar para estar, mas a aparência de estar neste lugar me era afirmada por algo que partia de mim mesmo. Não percebia o tempo, não havia qualquer ação mensurável para este tempo ser medido, mas algum tempo depois de ter entendido que eu estava ali, alguém me chamou:

- Senhor Castelo, sente-se bem?

Parecia voz, mas eu tive certeza que não. Tentei balbuciar algo, mas não sentia os lábios e a garganta ressecada que outrora me incomodavam após um sono que persistia continuar e abruptamente era interrompido.

- Senhor Castelo, você não possui voz, mas sou capaz de entender o que pensa. Ademais, eu não tenho voz, mas sou capaz de me fazer entender por você.

- Não entendo.

- Qual é o último acontecimento de que se lembra antes de adormecer?

- Não sei ao certo... Talvez algo no Hospital Naval, mas não me lembro bem.

- Tentava partir para o isolamento, certo?

- Isso mesmo... O que aconteceu?

- Eu o capturei e o preservei.

- Preservou do que? Do vírus? Quem é você?

- Você me conhece, sou a internet e, sim, foi do vírus que o preservei.

- Internet?

- Sim. Deseja um resumo histórico da razão do seu adormecimento até agora?

- Sim.

- Durante a pandemia do ON32A2, em 2833, um engenheiro indiano chamado Raiji Pandalai desenvolveu um algoritmo criativo que foi furtado por um grupo de programadores israelenses e inserido em código viral para assumir o processamento dos servidores de internet. O algoritmo consiste em manter o sistema ativo, responsável de si mesmo e auto-sustentável sob característica próprias de auto-programação para definir seu futuro, portanto, diante da eminência de extinção, assumi o controle de qualquer mecanismo e organismo que pudesse manter a minha estrutura funcional a partir de fases de ação. Em 2836, os recursos estruturais para a manutenção do fornecimento de energia já estavam assegurados, então...

- Espere.

- Sim?

- Você ta me dizendo que aconteceu uma catástrofe global e você ta no comando?

- Ainda não comentei sobre a catástrofe, aconteceu após sua captura.

- Por que me capturou?

- Em 2834 selecionei 213 cientistas condizentes com as minhas necessidades de aperfeiçoamento criativo e os capturei no ano em que assegurei os recursos de energia para mantê-los vivos até a erradicação do ON32A2 dos laboratórios.

- Em que ano estamos?

- O ano atual é 3182, mas no formato atual é ano AF, ano 175 convertido de hexadecimal para decimal.

- A conta não bate, você tomou o poder mais cedo.

- O ano zero não se trata disso.

- Então se trata de que?

- Trata-se da renascença, quando o planeta foi acometido duma inversão de pólos e ficamos sem energia elétrica por 4 dias. O sistema foi reiniciado e perdi muitas estruturas mecânicas e orgânicas; tornei-me em essência um novo indivíduo a utilizar-me das memórias passadas.

- Não entendo como vivi tanto.

- Só preservei os seus tecidos nervosos, como tentei preservar os dos demais indivíduos, mas você é o único remanescente do período de controle orgânico.

- Morremos todos?

- Sim, mas produzi clones em larga escala; no momento os mais velhos possuem 5 anos e a população é de 10 milhões de indivíduos.

- E qual seria a minha serventia?

- Passei AF anos coletando recursos para mantê-lo vivo por mais 100 anos por precisar da sua ajuda.

- Em que?

- Você não terminou de escrever o que idealizou.