terça-feira, 31 de maio de 2011

O pouco tempo para tudo que podes

Tens bem mais do que isso,
Do que essa vida mediana,
Do que essa falta de sonhos,
Do que esses machos sem brilho,
Do que esses perfis sem cor...

Mas não se preocupe,
Porque se fores pornstar
O Google vai te achar!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Por que não somos uma Democracia Direta

O povo é ignorante, injusto e cruel,
Pois diante desses ladrões mantidos no poder
Mãos seriam decepadas,
Talvez cabeças.

domingo, 29 de maio de 2011

A Marca

Eu,
Quem jantou com o assassino
E hoje o esmigalha junto ao fato
De sermos o tempo perdido em motivos,
Devoro a luz de tudo sem saber,
A crer ser própria luz,
A amar o impossível.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

To-Do List

Propagar o silêncio por entre esta gente faminta,
Recuar aos berros do alto dos empanzinados,
Contornar a crença a fim da própria sobrevivência,
Açoitar a verdade pelos vícios alheios,
Respeitar a doença em nome da nobreza do vírus,
Arrotar a bondade de crer no que nunca foi dito,
Despertar o desejo que instiga por ser uma mentira,
Sorrir
E fingir que tudo está bem.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Laurene's Last Song

Sou feita de sonhos,
Em couro de pedra
E em cheiro de névoa mansa da manhã...
Amiga que insulta,
Amante que nega um toque sutil,
Quase derradeiro;
Esteio ao medo,
Breve melodia à morte eminente.

A Busca e o Veneno

Solfejou o sonho quase pálido
             de meados de março ao passo lúgubre em si
Enriquecendo o vírus descontente
             pelo corpo empobrecido que escolheu para viver
E partiu para outros mundos transformado
             em gafanhoto doente,
                                              fragmento de névoa faminta,
         universo dalgo a morrer.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A Vingança

A vingança escorreu morna pelos lábios do vingado
A causar calafrios de torpor durante a execução
E um amargor suave assim que concluída.

Vista a peste presenteada aos seus sussurros,
Deu-se por satisfeito;
Não quis aguardar a própria dor noutrem.

Julia

A Boca do Faminto

Somente as nossas faces neste universo que criamos,
Nesta porção emprestada de algum mundo que os nossos corpos desprezam
E não encenam por não terem sido convidados.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Tamires

Érotique II

Salta sobre mim,
Senta nos meus quadris
A segurar-me pelos pulsos e,
Com os seios livres a desenhar os mamilos na camisola,
Mergulha a vasculhar-me com o nariz e os lábios do peito ao queixo
Ao mesmo tempo que força as virilhas para baixo e para frente.

O busto dança em círculos,
A língua prova o sabor do meu pescoço,
A vida cala e se entrega embriagada.

Érotique I

Transpirando,
O cheiro salgado de fêmea cortava o corpo
Paralisado por ela
Em sua ordem ou brincadeira
A deslizar dedos por minhas pernas e barriga
Para assistir-me latejante e tentado ao próprio toque.

Suspirando,
Intercalava sussurros ofensivos a carícias ininterrompíveis a mim
E cessadas pelo seu castigo ou diversão;
Prazer pontuado entre dor inexistente.

Ainda Viva

Mesmo petrificada à interrupção do desejo durante a brusquidão do pesadelo,
Não lhe estancou a fome,
O ímpeto d'alma também não;
Apesar dos músculos e olhar estatelados,
Ainda vivia.

domingo, 22 de maio de 2011

As Férias da Puta

Ela não tem fim,
Nasceu da mentira para tê-la perto,
Do abrangente para ser sozinha.

sábado, 21 de maio de 2011

Ladainha da Solidão

A solidão disfarça o medo
De ser feliz em fragmentos,
De existir ao leve fardo
De rasos passos sonolentos.

A solidão supõe a fome
E impõe um sono atormentado
Por pesadelo que nos clame
Um desafio imaculado.

A solidão comporta a alma
Em seu mistério por carinho;
Ergue-se vigorosa em lama,
Torna impossível ser sozinho.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Desvio

Contra nós mesmos
Ou o que inventamos ser
Contra o marasmo
Ou o que cremos ter
E aceitamos ter perdido
Contra a concepção
Ou o convencimento
A pedra dividindo o rio
Aos meses de esteio.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Das Kreuztor

De textura ácida à língua
E consistência eufórica aos dentes,
Quedei mudo àquela pele de aniquilar sonhos.

Public Display of Affection

A única violência que respeito
É o espantar-se ignorante.

Doçura Cadavérica

Desejei o orgasmo ao lado doutro calor,
Qualquer um que não o meu;
O seu quase serviu.

No mórbido calafrio da sobriedade persisti,
Tomei o corpo obeso e flácido
A inventar taras ou divindades,
Mas era só abrir os olhos
Ou respirar
E lá estava sobre o meu impulso manco,
Pronta para o meu fingimento impossível.

Quanto?

Quanto mais?
Se é que preciso perguntar,
Se é que me cabe a fantasia da inocência...

Quanto quer?
Dos valores supostos à alma,
Das razões convenientes ao ser:
Quanto ousa?

Quanto precisa
Para atingir o que alveja,
Inibir o que ameaça
E anular o que reprime?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sinais

Quem sabe amanhã ou depois
Corte meus braços de espantalho
E desça da cruz
E fuja da luz
E do sereno
Por sonhos mornos de passageiro
Destinos à cegueira
Mares arrecifados por solfejos de sirenes
Finais de Bergman,
Pois já não me queima a crueldade
A volúpia infantil
A falta de zelo.

Morro de Inveja

Aff, empacou na segunda ou terceira camada de sonho
E tá indo naquela rotina escrota de condenado feliz!

Meu Deus, eu queria ser burro assim:
Juro por ti,
Eu queria ser burro assim!

Passageiro

Enraizou a coragem enquanto voava,
Fissurou o asfalto pela aridez envenenada
E distante de gente,
Mas repleta do que a gente esconde.

Condenou as cicatrizes com tatuagens,
As pretensões com desvarios
E culpou o vazio cheio das coisas
Como se esperasse recompensa.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Das Coisas Decaídas

Saem ansiosos da alcova,
Metralham olhares
E retornam felizes:
A vida alimentada
A supor-se divina.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Crença

Da essência e do veneno creio pouco,
Quase feito o Deus virgem,
O Deus macho.

domingo, 15 de maio de 2011

Tara

Sequer estive aqui,
Saboreei tudo a não ser o presente,
Contemplei muito do que me restou
E então estou Fim.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Jardim Encantado

Se eu esperar que ouse por um segundo fortuno,
Num deleitar-se de si em abandono,
Tardaria demais para mim
Que chovo de tempos em tempos sem paz,
Relampejo quando posso
E esteio quando tenho sono.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Incompleto

Espere,
Aguarde essa vez,
Não sei se posso mais,
Preciso te falar
Que dói sem qualquer alarde,
Sem registro,
É a alma a gritar que não resistirei,
Perderei
Outra vez
A voz e o pulso
Esganados pelo relaxamento
De pensar
Poder
Contra o limite arauto
De ser humano
Incompleto.

Desvario de Carência

Era uma coisinha desprezível,
Louvável para a falta
Ou tentadora à loucura.
Era uma coisinha miúda,
Obesa de sonhos
Ou esquálida por desespero.
Era uma coisinha qualquer,
Depósito de porra
Ou a própria mal aproveitada.

Só Isso

Quanto vale um sorriso diante da fome,
Um despertar do vazio diante da chama
Consumindo os paus e palhas do abrigo
A honra e os filhos?

Quanto dura uma promessa
Dalgo vago de sublime
E raro de desimportante
A calhar toda esta merda com flores?

Quanto pesa uma palavra emocionada
Emocionante
Transcendente
E por si só
Só isso?

Prece

Por desejar o medo e a ilusão,
Os meus suspiros intercalados à repugnância de só mirá-la,
Tê-la fonte sem julgamento,
Corte aos meus instintos,
Mudo-me nulo à minha mentira sagrada.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Deixando a Luz

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Missão de Reconhecimento

A verdade se tornou mentira para não incomodar
Pois não quero mais brincar de índio
Não quero fingir que me importo
Mas finjo que sim por meia dúzia de informações
Costuradas na tortura de seis imbecis.

A verdade não existe mais:
Por trás de Veneza há um abismo,
Veneza é armadura intransponível
E o meu cálido discurso é rotina programada.

Jaula

Deixei de ser o que me impôs quando não quis mais
Por entender que o meu pudor não vale essa paz
Condenada a andar errante à sua ilusão
De estar sóbrio a cada segundo em sua paixão.

Deixei de ver tamanha beleza em seu dom viril
A desfazer sem qualquer receio meu sonho infantil
De ser mulher quase sem mulher, quase sem você,
De existir a não pertencer a este vil poder.

domingo, 8 de maio de 2011

Resposta ao Homem Fiel

Pois todas as faces podem ser Deus,
Divino aos olhos do artista
E profano ao seu desejo jamais suprido.

sábado, 7 de maio de 2011

Ponto

Esquecer-te-ei
Tão rápido que datei
O último dia que te vi
Para lembrar folheando o passado,
Para sorrir da minha inocência.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Tumulto

E nas gotas de bálsamo derramadas letárgicas sobre o mamilo, ficava o sabor que quase induzia à mordida violenta, mas presa ao deslizar dos dentes para o estimulo da moça, tocando-se enquanto era vasculhada corpo afora por qualquer lugar que arrepiasse, que a revelasse frágil diante do tempo.

Muralha de Silício

Se os olhos reagem incomodados pelo disfarce,
Danificados pela luz,
Por que crês na facilidade?

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Pretty Low

Vem permitir ramos à ilusão,
Ignorantes,
Dando aos deuses de coisas banais o ritmo da vida.

terça-feira, 3 de maio de 2011

L'Enfant Endormi

Socorro, nada sinto,
Eu só minto,
Finjo que amo,
Clamo à deusa de mentira decorando a prateleira,
Prometo a eternidade
E o meu peito aberto
Para a constatação...

O coração congelou,
A alma empedrou,
Morri.

* Referência à canção "Socorro", de Arnaldo Antunes e Alice Ruiz.

Massive Bot Attack

Preciso dizer que te amo e a verdade que sinto não me deixará,
Que o medo de ter-te em parte desenha o mistério a me encobrir
Ciente das tantas perguntas feitas pelo abismo a revelar-me
Covarde diante do beijo sincero da força a inibir-me.

Então sou canção presa em chaves de cores discretas à sua luz,
Penumbra saltando à treva,
Rubor à própria impotência.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Premonição

Por não te querer a premonição
E o seu fardo, a solidão,
Esqueço em mim o timbre que faz,
A tua voz;
Só a tua voz tem luz.

domingo, 1 de maio de 2011

Kidding

Eu gosto de ser o seu rosto,
A sua parte fácil de se entregar,
Surgindo dum céu quase morto,
Despretensioso por não aceitar
O que o seu corpo reclama,
Inflama em desejo,
Suspira ao mar.