domingo, 24 de abril de 2011

Pierre

Pierre não respondia.

Após a morte de Desirée,
O homem passou a viver feito máquina,
Ou melhor,
Feito peça duma geringonça fútil
Que de útil só o reaproveitamento das velharias;
Ele,
A roldana reciclada,
O pedaço de metal escovado pelo fim da ferrugem
E da fadiga,
Posto em encaixe menor para a otimização do que sobrou de si mesmo.

Pierre tinha quebrado.

Sempre que voltava para casa,
Com o pedaço que não conseguia arrancar da sua casa
(A decoração e as suas cores,
Os cosméticos e as suas luzes,
As roupas e o seu cheiro
Marcado nos vestidos e lingerie),
Propunha o seu transe de não existir,
Voltar e não conseguir,
Adiar-se covarde e reprimido em sua letargia.