quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Em Nome do Personagem

Pelo desejo da imortalidade
Vou morrendo no que sou
E sendo o artifício
No limite do artifício,
Na sua aparência fantástica para quem chega
E invejável para quem já está,
Mas não sou eu;
Desisti de mim.

Imagem e Palavra

http://diario.weyll.com/wp-content/uploads/2010/09/Palavra-e-Imagem1.swf

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

011

Em sua paixão reprimida pela mãe, fazia-me deitar ao lado delas para ouvir as histórias de quando ainda moravam em Maringá, acompanhá-las vendado de experiência até que o sono tomasse a jovem senhora e ela a abraçasse a sentir seu aroma de sais de banho. Com os quadris, em movimentos suaves, atiçava a minha libido para que a tocasse, excitasse-a em sua - digamos - perversão pela progenitora a dormir. Afogada nas melenas loiras e brilhantes, suprimia os gemidos e mantinha o tato capado às mãos percorrendo o corpo do objeto de desejo a um ou dois centímetros de altura.

Das inúmeras vezes em que a ajudei a eliminar a angústia pela porta lateral, percebi que eu mesmo não deveria estar ali para ela, meus impulsos deveriam vir feito vindos do corpo dormido como se estivesse acordado, evitando a brusquidão para que não despertasse; um malabarismo que, mesmo sentindo a minha alma em terceira pessoa, amava-me louco em crueldade.

Uma das Muitas Selvas no Rigor da Crueldade

A rajada seca de sonhos desconexos mal tocou o meu corpo para parti-lo em dois, consumi-lo do desejo de findar-me, arrotar-me feito o prazer da Coca-Cola bem golada. A temperança ida, extirpada de mim (uma iídiche mama cansada e desnutrida), pôs-me cruel, tornou-me gata polonesa ou apenas ração providencial para a minha sobrevivência, porta aberta com frieza de interpretação ao desfile da bestialidade dos homens.

Amor e Lâminas

Nem as mulheres bem comidas merecem a morosidade da monogamia, pois, na acepção sartriana do sobreviver, do definir-se ser social em meio à amoralidade dos organismos e coisas em si, o arquétipo medieval do amor cristão entre sexos distintos morreu juntamente com a tirania da época, com o cessar da demonização do sexo e da terra para a coesão daqueles quem os próprios tiranos semearam a escuridão.

Se a união de iguais num bem comum exige a contenção dos instintos de fera inatos a cada uma das partes neste inchaço excessivo para o próprio macro-organismo que os comporta e o instinto a ser domado neste caso é uma questão de saúde individual, unir elementos em pares para a mera procriação e contrato social sob a égide dum aforismo simplório (o amor) torna-se um insulto para a espécie, um encalacrar das possibilidades para a manutenção da própria às claras.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Que Deus nos ajude

Semeamos uma história fácil de amor
Para insultar nossa distopia;
Escolhemos a mentira mais bela
E prosseguimos neste todo em meio ao nada.

O Idiota

Da fúria mendaz,
O peito em chamas gélidas,
Mal me recordo,
Só aceito o que dizes por confiar em ti.

domingo, 26 de setembro de 2010

Pathicus

E havia os teus problemas para escutar,
Problemas que jamais tive saco para compreender
Migrado ao meu universículo enquanto fixava os olhos tornados cegos aos teus.
E havia a tua crise,
O teu corpo chafurdado na lama açucarada,
A tua fé em tua aparente imortalidade
Em contraponto ao teu cessar brotando silencioso.

sábado, 25 de setembro de 2010

Pop, Cult e Inveja

Formalmente criticado por renegar a empáfia acadêmica,
Indispor-se ao bisturi ornado para louvarmos à terça
E esquecermos à quarta em nome do passado,
Continuou a alumiar e lustrar os primeiros degraus
Como se fossem os próximos em sua vida;
Os tornados abismo de tanto entrevamento,
Os lacrados em farsa por temor da paz do indivíduo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Trouxas Feitas

Um zumbido a acobertar a palpitação,
Rasgando a paciência do universo a formar outro,
Mal me permitia entendê-la,
Sequer me autorizava ser-me.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Também Sonho

Poderia amar-te como se desaparecesse,
Não existisse,
Tornasse-me tua extensão,
Corpo para teus devaneios,
Mas não consigo;
Também sonho.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sedimento


Não crio o amor ao toque da mão,
Sequer distraio o meu brio sem fim.
Nunca nutri o meu sangue pagão,
Jamais cumpri tal destino em mim.

Só sei que me sede a alma
Com o teu sonho que se desfaz
Às prisões desta urbe morta,
Cansada da própria paz.

Tensão e Relaxamento

- Meu pau tá duro pra você! -
Diria,
Excitado pela imagem,
O mago.

Mas que expressão é esta,
Calhada apenas pelo senso que se projeta
Faminto pelas vibrações do universo?

- Eu tô em cima,
Tô cortando o seu dobrado,
Tô amando o seu balanço
Que começa manso
Até que insano antes do repouso absoluto,
Da preguiça da vida
A agradecê-la.
Eu tô de soslaio
Ou fixado sem que perceba,
Apaixonado pelo silêncio
Quedado aos meus cheiros e sabores,
Texturas e esteroides. -
Completaria a revirar-se em seu fim.

De espectador do passado,
Louva a própria criação pelo seu animal
E se cospe depois de sanado.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Contramão

Por não ter aonde ir,
Volta aqui
Para a atenção de um pretérito deteriorado,
Deprimente,
Amado ao esquecimento.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Adeus

Foi-se janela afora até que a perdêssemos de vista,
Acompanhando o mastro da fé,
Alforriando um suspiro para que fosse verdade.

Foi-se e não deu mais notícias,
Morreu para o cosmo de mim,
Explodiu-se à serenidade de quem só observa.

domingo, 19 de setembro de 2010

Ciranda na Casa em Chamas

A minha alma tem cor:
Preta, branca, cinza, roxa...
A minha alma tem cor:
Amarela, castanha, verde-limão...
A minha alma tem cor,
Cor de burro quando foge...
A minha alma tem cor,
Cor de puta penetrada!

A minha voz tem sabor
Tão amargo que me cega
E na paixão tenho um amor
Que acorrenta os meus bichos.

Não se engane

Por não ser você,
Apenas pintura,
Expressão da usura que sinto a partir-me,
Não há o que medir,
Sequer dissecar,
Não deve conter minha alma gritando de dor.

Por não estar aí
Neste imenso vazio
De um corpo frio que se amedronta em não ser,
Não deve furtá-lo,
Sequer distorcê-lo,
Pois sua ganância de vida deseja tomar-lhe
A insana atenção,
A fome de fuga,
O arquétipo coxo da deusa que pensa que é.

sábado, 18 de setembro de 2010

Feito Anjo

Pra que esta noite me mate de rir,
Impressiono-me com cantadas hipócritas,
Tendencio-me a uma vida patética,
Creio em Deus,
Não creio em mim;
Nada mais que impulso alheio.

Tiro a tua roupa com minhas mãos criadoras,
Expresso-te mais farta,
Mais puta,
Voraz
E te fodo sobre a mesa com o meu egoísmo animal.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Mais um Capítulo Ridículo

Nasceu sem querer,
À beira do orgasmo da Deusa e de todos espelhos em que me dispus.
Foi vã ao que fiz,
Mas fincou suas raízes de tétano e ácido em meu coração.
Livrou-me do mal
E criou outro mal muito mais tenebroso do que minhas manhãs.
Calhou o meu querer
Com a seminudez sem vergonha e inflamada sobre o que não fiz...

Só me resta tentar recolher o de mim inemendável.

Incapable d'atteindre les anges

Dilacerado por estas revoluções em minh'alma, o que esperar duma gota de paraíso que jamais despenca das alturas dum mundo confortável para si e inviável para mim? Trepidante de tais lonjuras, enganando-me num quase saltar dali, frustrando-me a determinar a aparente firmeza de suas bases contra a gravidade do ser, às vezes parece nem se importar, noutras teimo crer que mimetiza a indiferença das coisas mortas só para provocar.

Onde estou senão afogado nos seios fartos de si, estonteado pelo desejo sacrossanto de reconhecer todos os seus aromas, vagando tardio pela destreza de seus lábios?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Tumor Não Petrificado

Se a suportam
Desejam-a domada,
Presa aos alicerces mancos de nossos pais,
Condenada ao prazer passivo de deusas de patriarcado.

Se a entendem
Define-se a criança estúpida,
Sem a crueldade e liberdade de criança,
Somente a confusão e fragilidade de criança
Sem amigos que a chamem em casa numa tarde de domingo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Unallowed to Die

Simples,
Enche a cara de breja a ouvir funk em frente ao PC
E vai guiando esdrúxula a sua maldade,
Morrendo e renascendo bebê,
Dormindo de ressaca pra curar seus machucados.

Deusa,
Sim,
De dar dó quando está triste,
De desejá-la plena pelo brilho de sua volúpia;
Túrgida onde merece a fantasia,
Lânguida ao caos por seu pulso descompromissado.

Quero Trepar Contigo

Ao toque inesperado,
Os minúsculos pelos contra si,
O sacrifício da alma livre
A cantar o desejo de bicho,
A escuridão.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Varsågod Älskling!

Esse desfecho tá mais pra Bergman do que Fellini,
A assumida revolta camusiana em quem se apavora pelo impacto,
Que vai desistindo aos poucos até não ter retorno...

Então siga lá, imbecil,
Desista encrustada na rocha!

domingo, 12 de setembro de 2010

Carta para a Escuridão

Só tiro isso da cabeça quando te vir em pé,
Se os teus passos me disserem não,
Pois o teu corpo amolecido,
Escondido atrás dum essencialismo a fim de maquiar as próprias limitações,
Nutre o meu desespero.

Quiçá,
Na falta da dor que sofres,
A tua ruína faça sentido
E se desfaça ao amor que tento aniquilar de mim
Mas não consigo,
A tua verdade não pareça fútil,
A tua mentira transpareça justa.

Clown Maléfique pour Âmes Arides

- Quer parar de folhear o meu diário? - disse Hera, arrancando o caderno encardido das mãos de Dani.

- Por que isso agora? Não entendi. - surpresa pela atitude abrupta da amiga por nunca a impor restrição no acesso às suas memórias.

- Já te dei muitas sementes... Cadê as tuas, as que não têm o meu rosto tatuado ou são mera figuração do culto que mantem por mim? Sou doente, feia, frágil, traumatizada; finjo que me despeço de todo este lodo sobre a minha pele naquilo que escrevo, corrompo a verdade deprimente em mim a exorbitá-la em personagens que se tratam do meu sofrimento, dos meus anseios decepcionados, da minha fadiga quase a me permitir a desistência. Tu só vens feito vampira e sugas o meu tumor para cuspi-lo como se me ridicularizasse, a posar de narradora altiva e perspicaz dalgo que não sentes, não vives, apenas te promoves feito multiplicação de ti mesma: minha parasita.

- Calma, diz pra mim quem te machucou de verdade que a gente dá um jeito. - abraçando-a de baixo para cima e conduzindo a cabeça de Hera, um segundo antes do desabar do ódio às lágrimas, para o seu ombro.

sábado, 11 de setembro de 2010

Autora e Protagonista da Tragédia

Assim que o semblante de Natália desmoronou numa frieza indecifrável e franqueza incorrupta, interrompi o nosso jogo de aforismos sem saber ao certo o que causou aquele brusco impacto; em minha criação introspectiva para desafiá-la até a fadiga absoluta, o meu desafio migrou dela a mim mesmo e o meu fim real, o fim dos seus argumentos, escondeu-se a favor da minha masturbação prolixa. Talvez uma provocação pungente em demasia ou, quiçá, o meu isolamento despercebido e grosseiro foram os causadores, todavia a presença daquele abismo importou mais do que qualquer motivo, apaixonou-me pela autora e protagonista da tragédia.

A Catástrofe

Mesmo depois de em mim tentar reduzir a sua essência a pó,
Torná-la vulgar feito os arquétipos que a gente zumbificada do seu falso domínio degusta,
Ainda estou preso e assassinando a mim mesmo por razão do seu silêncio.

Made to don't be

O miolo do palhaço é mudo,
Um absurdo patológico
A ulular na ponta minúscula
Que desfaz a trama em sorriso alheio.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Separação

A mulher que amo não tem face,
Mas gana fugaz que destrói,
Chama que arde fria a ludibriar,
Sonho que se acoberta por si mesma.

A mulher que amo não existe,
Criei-a a partir doutra sem querer,
Ansiei o meu desejo furioso sob aqueles traços,
Concebia-a a brincar de Deus.

Eu Só Minto

Esperam de mim o desespero,
A lágrima
E até a reação dum herói,
Contudo sou maldito
Vagabundo,
Não sei o que quero;
Desejo e só espero a resolução do sonho,
Invoco às preces a deificação do homem,
Mas feito humano apenas me cabe a fábula.

Ator do meu ego inflado,
Minto:
Está tudo bem,
Passará.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Jeg elsker deg og jeg vet ikke hva jeg skal gjøre (kanskje Kjøllefjord)

Em fedor de onça há dias faminta,
Avisando ao mundo que tome cuidado,
A minha pathos prossegue indecisa,
Louca da vida,
Simulando alegria em seu simulacro de dor.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

About Mag Mell from My Void

Brilha feito algo que não quer,
Inibe-se ao aroma de mulher
Que tem e toma esta escuridão sem fim.

Paráfrase sobre Drummond

Permanece unido o passado separado agora,
Continua vivo em afluentes e em suas decisões,
Porém sofre quem se permite,
Quem pleiteia adoecer ou transcender
Após ter curado a dor.

Re: Cabo de Dados Defeituoso?

Se até a alma dá defeito,
'Magina o cabo de dados.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A Eremita

Convivendo com a literatura limitada a causá-la vincos,
A malária a visitá-la quinzenalmente,
Os sapos ressabiados por sua presença,
O sol escondido pelas copas das árvores
E a fome estancada com o veneno em doses apenas letárgicas,
Sentia-se mais feliz que na urbe natal,
Considerando falta só o calor e o toque doutrem.

domingo, 5 de setembro de 2010

A Convertida

Era da pior espécie de vagabunda que tenho conhecimento:
Esgueirava-se entre seus elogios bem medidos e carícias cronometradas,
Contornava o repugnante da vítima com falsos fetiches,
Perifraseava a sua exuberância túrgida na moeda afetiva
Por um novo palmo seu de pele que seria o mesmo,
Apenas mais comprimido ou frouxo,
Até que desaparecia
Com a pouca fortuna que queria nas mãos,
Com a pobre miséria que quase toda rameira pleiteia...

E eu amava aquela vira-lata,
Aliás,
Mesmo morta,
Nunca deixei de amar.

Très Petit

Embalado assim,
Quase flutuando,
Pedaço de mim
Em paz,
Em quem ousei me apaixonar.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Le Fleur pour Pâle Enfant


Não provoque uma criança
A ser o que foi feita para amar
Se não puder o infinito,
Se não quiser um impossível coerente.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Contra o Mestre

Então,
Eis-me aqui,
A meretriz,
Pronta para vender o que anseio gritar,
Carente de glória opulenta,
Violentamente receptiva por alguém que sustente o meu Dionísio.

Perfeita em Aproximadas Quatro Casas Decimais


Não sei mais o que despertar da tua mentira sincera
Para ter a tua alma esculpida sem qualquer restrição.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Porcelana

Dias depois, estava eu na localidade atingida pela bomba de flúor. Os corpos das pessoas carcomidos e fundidos aos bancos dos carros só causavam estranheza, não pareciam gente, talvez bonecos de plástico cauterizados. Enquanto verificava aquela gigantesca escultura de peça única, frágil de desidratada, desfazível, choveu; tudo virou lama esbranquiçada e eu ali no meio, furtado do motivo de analisar o passado, atônito.