segunda-feira, 31 de maio de 2010

Fragmento do Diário de Suzanne Marie

Não imaginas como me senti, Senhora, quando previ o carinho alcançar-me através dos ares ondulados: a adaga gélida que o declarava sedento em libido deformava a postura, desintegrava a sensatez, enrijecia os mamilos. As saltitâncias todas a cocegar as estranhas só me remetem à explosão ao fim de todas elas; tudo ardido, e relaxado, e remexido, e espectante ao toque, enfim, entre o ombro e a nuca como se minh'alma gritasse:

- É agora!... E agora?

Para Jamais Esquecer

Rasgado o tecido vagabundo,
Posta à mostra a puta casta,
Os zeros não valeram a pena
Para nenhuma das ganas,
Nenhum dos sonhos.

O Monsenhor,
Mesmo assim,
Chafurdou-se na merda de vida daquela guria
Desejando não perder os cruzados
Ou apenas a noite sem Cruzeiro
E Lua.

domingo, 30 de maio de 2010

Crueldade Tardia

Constrangida,
Cobria os sentimentos com a ignição da vez
Entupindo de doçura os beiços ressecados,
Calejando de torpor a sua pele de feridas frescas.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Canto contra o Espelho

Sem certeza
Seguia-o
Mesmo creditando-o a maldição,
Seguia-o pelo fim inalcançável - a sirene -,
Pela paixão das formas atribuídas por mim mesmo.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Cápsula e o Tumor

Ah, memória descompassada de tempo
Solta a brincar antes do pensamento
Como se fosse o amanhã nos sentidos!

Ah, ideia persistente de glória
Protagonizando-me à história
De próprio punho atado a mim!

(...)

- Dize-me,
Plateia de personagens,
Qual dentre vós está lúcido para desencarnar?

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Empurrando com a Barriga

A gente vai caindo em si,
Caindo na desgraça de ter existido,
Caindo na vontade de ser menos bicho
Cumprindo todos estes endereçamentos.

Agente vai surgindo, enfim:
A luz mais puntiforme da malha celeste,
O branco da pereba pronta a explodir,
O único grito insano desta multidão.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Passos

Vou te usar
Doidinho pra que me chupe inteiro,
Pois coletivo d'arte anda démodé
E assim que é bom.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sem Forças

Desperto entregue ao teu corpo e tento dizer,
Apenas tento dizer
Sem forças.

domingo, 23 de maio de 2010

Lepus

Se resolvessem te ensinar as miudezas
Das brumas que encontras latentes eu teu peito,
Perderias o teu aroma sagrado
A me inibir e aos demais covardes.

sábado, 22 de maio de 2010

Membrana

Sempre que eu errava
Ela ia
Gastando as palavras
Buscadas por acaso
Nos livros que escrevi
Também por acaso
Nas linhas da terra
Arada sem o zelo da infertilidade
Da falta da chuva
Que era feito o relógio
Da casa do meu avô
Que buscava o cacau quase maduro e ainda verde
No quintal apertado entre os apartamentos
De um centro modificado
Pela morte de tudo aquilo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ilegal, Mas a Quero

Quem deseja estas ilusões cicatrizadas,
Vividas e distorcidas à marreta e talhadeira,
Sabe que um dia quis esfaqueá-lo de frente pela eternidade
E cede o peito pela glória...
Ilegal,
Mas quero tomá-la de assalto,
Furtar a minha alma
Há muito prostituída.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Orgulho Cadente

Não há a tortuosidade d'alma feito a de todas as almas,
Só um corpo doente que a acorrenta
E algumas experiências felas da puta.
Não há olhos a serem abertos,
Cegados a pulso foram para a liberdade de um simulacro incomum:
Sem a quentura de corpos de qualquer gênero
E a bravura de antíteses de qualquer ideia
Vou
Sem pedir ajuda.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Homônima

O que pretendes
Corrompendo os daimons,
Aniquilando a sua precisão?
Por que me chamas sem o teu espírito,
Sem a tua gana de perder castelos?

Esquece tudo isto assim vermelho;
Suga esta vida tardia,
Pois estamos no cio de nossa usura.

A Luz

Ah, a luz:
Não há mundo a salvar,
Novidade a entender,
Destempero a conter;
Só um devaneio firme e constante a seguir
Feito o sonho do caminho ao carrinho de algodão-doce.

domingo, 16 de maio de 2010

Duplicatas de Veneno


Pois bem,
Continuarei construindo alegorias a fim de suavizar meus processos bioquímicos
Crendo que este mar as veja e se agite em burburinhos,
Contendo-me ao esbravejar da sombra a repetir:
"Não se mostre, cadela!",
Porém,
Sanada de quase todos os magnetismos hormonais,
Exceto o que da falta abre a clareira para o sentido de continuar enforcada por mim mesma,
Mostro o pedaço de mim que esta treva semialumiada permite
Para ejacular meu ácido neste meu mundo hospedeiro.

A Rebelião das Mariazinhas

Se toda extensão e ferramenta,
Membro e prática,
Jeito e cacoete
Fundem-se imperceptíveis na abstração a ser provada por este universo,
Deste nenhum destes seria particular ao outro?

sábado, 15 de maio de 2010

Corte, Risque, Rasgue!

Delgado demais,
Demasiado tênue a deslizar canto a canto do bidimensional
Povoando bem o centro de visão como se fosse um temporal sublime,
Mas desejei o êxodo deste empanzinamento,
Quis você antes de sua expressão!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A Chave Quebrada do Simulacro

Reconhece a própria demência e se acorrenta,
Amaldiçoa-a para o mundo a cultivá-la em si,
Crescendo livre
E imponentemente lúdica;
Um espetáculo circense sádico.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Punk a Vapor

Sem a vilania não dá pra saber o que te interessa,
A razão dessa pressa,
Do teu olhar com frio,
Então afoga em ti esse arroto torto de quem sobrevive
Do que se inibe
Solto em entrelinhas.

El Secuestro de la Diosa del Mar

De vermelho a xenônio
Por um truculento abismo,
Eu minto,
Eu sinto
O teu corpo tremer de medo
E voo,
E impeço
Que a vida nos aprisione
Com fome
De gestos
E espaços
Que nos comportem sem sede
De virmos
Agora
À hora
Que temos certeza de que a mensagem chegou.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Placenta SRD

Tudo metálico,
Cinzento,
Estático,
Birrento para a vida
De inviável contramão
E uma perfeita gelidez
Requerente dos sonhos soantes em anglo-saxão.

A Cova Rasa duma Branda Luz

Quase fevereiro,
Não sei,
Desfaziam-se num inteiro os fragmentos,
Num bloco,
Uma liga,
Um fim
Para aquilo que queríamos bem
Mas não era.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Raiz Cúbica

Alumiada, no fundo,
O pedaço de coisa que não diz nada
Além da tentativa desesperada
De ter um sentido pro mundo,
De valer um tostão doutras coisas.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Universo de Fim Previsto

Debilitada pelo parto de todas as coisas,
Contava sobre a infância recheada pelas alucinações da hora,
Sentia e atuava o contrassenso do contrassenso
- Nada demais, feito a maioria do que se vê, vertendo lágrimas de quem quase acredita -,
Cumpria-se desejando a harmonia efêmera do chateante bulício.

domingo, 9 de maio de 2010

Les Morts

Guarda-me para teu futuro próximo,
Não me desperdice agora
Ao berro de teu instinto distorcido a fim de sobrevivência:
Não protegerei teu corpo,
Apenas salvarei teu vinho!

Aguarda-me até que o passado, cobre,
Silício e fome se contenham por ti
- Eu não te tenho -,...
Pois também anseio saber-te plumada
De ócio e vigor repousante
Destronados pela tormenta.

sábado, 8 de maio de 2010

O Chão

Tudo novamente, enfim,
Destemperado em triiiim, triiiins,
Olhos inchados de semiacordados
E o desejo de ir mesmo em débito com o esforço feito.

Tudo novamente, então,
Com o trabalho nas mãos
- Bem entalhado pelos pedaços aparentemente por fazer,
Pois vivamos a expressão! -,
Segue o cotidiano de Rodrigues sem a putaria do mesmo
- Ah, quem me dera a putaria! -,
Vai o homúnculo na garrafa,
A alma obrigada ao processo orgânico,
O demônio acorrentado
- Pobrezinho! -,
O asco,
O chão.

Amada Louca para Despir o Vestido de Trevas

Despe-me, luz;
Cega eu me entrego infeliz,
Tateante pela recordação - de meu amado -
Nos braços e barrigas rijas de quem não interessa ao meu calor!

Cospe-me pura de mim,
Latejante de instintos,
Sôfrega por colapsos do mundo em meu ventre-
Crente da minha astúcia!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

As Moendas de um Shadar

À malícia ou tortura de ouvir cada sussurro a pairar neste barulho branco,
Ao contratempo ou oportunismo de incluí-los sem volta nos meus próprios fragmentos,
Pergunto-me que demônio cego,
Santo aleijado
Ou vírus isolado sou.

La verità in cimento

Quiçá descobriremos o momento
Em que teu véu à queda sopra
A sonata triste de não ter razão de existir
E neste tempo irretocável,
Calhado de desvios de reprodução e captura,
Dançaremos a tua soltura durante a rigidez de um primeiro movimento.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O Velho Covarde e o Desespero de Virgo

"És indevidamente sensual:
Broto maturado
E venenoso de insensível,
Desafortunado de inocente."

"Como podes julgar-me assim, velho?
Crês realmente que o peso das tuas plumas brancas
Redimir-te-ia da tua explícita falta de coragem,
Da tua proteção contra a própria decadência?
Prostro-me tua para sobreviver, ancião,
Já que aceitar a tua repugnante existência não me parece grande fardo...

Toca-me com a tua solidão de épocas,
Excita o teu caralho murcho com a minha forma verde e aromas prontos,
Faze logo a tua lambança para consumir um final teu menos deplorável!"

O velho se recostou na parede de pedra da gruta
A escutar a prolixidez imperativa de Virgo,
Quieto;
Sabia que morreria deificado,
Mas preferiu viver impassivo por dois dias a mais.

Fim

Depende do peso das pálpebras,
Do ócio da alma,
Do vigor dos sonhos,
Do torpor dos lábios.
Compreende o quanto te desejo,
A fome em teu corpo,
O pouco que nos resta,
A nossa indiferença.

Perdição

Por que me perco em ti?

Não sei,
És quase tudo igual,
És glúteos e seios fartos,
És espírito condicionado,
Armado pelo alheio
E apaziguado pelo instinto,
És fome de ti,
De possível solução em qualquer um
E contida por ti mesma às respostas do insignificante todo,
Mas me perco.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Pulso Banido

Quis que me depravasse da solução,
Portanto,
Após o fogo ateado sobre o convencido em fato,
Convertido em máxima,
Sequer tive coragem de deixar-me seguir
Desnuda sobre as cinzas.

- Seguir o quê? - perguntei-o.

- Não era o querias? - confundiu-me mais uma vez.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Da Expressão

Deixem o idiota caçoar do crioulo
Endossando a miséria em seus espíritos,
Deixem o pastor chutar a pedra
Para percebermos que não há virgem nem ele ali,
Deixem os enrustidos achincalharem os viados
Creditando a mudança e punição a nós e não eles.
Deixem a menina mostrar o peitinho
Eclodindo com todas as suas perguntas,
Deixem o varão escrever os seus versos;
Ficando em versos,
Morrendo na alma.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Covarde

- Ah, são tantas as vidraças! - escolhia
Entre as mais belas,
Deduzia a que,
Quebrada,
Tornar-se-ia eterna,
Supunha o dano reativo em si,
O coice do mundo,
O próprio corpo reintegrado
À fonte da gana da alma,
Estilhaçado feito o alvo.

- Ah, quem me dera todas numa só badocada! - pensava
Alto
E supremo na sua insânia,
Sombra,
Id
Ou ele mesmo medroso
- Que seja! -
Do tapa na cara,
Revide
Com as estrelas nas mãos
Doloridas pelas memórias dos trocentos chulapos da mesma palmatória.

Parou,
Respirou fundo,
Pensou na mãe em prantos,
Nos irmãos achincalhando-o pela idiotice,
No pai severo pronto a cuspi-lo daquela terra cheirando a sangue
Dele mesmo
E tornou o corpúsculo ao caminho donde viera.

Passa uma Borboleta

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.


Alberto Caeiro

Símbolos

Símbolos? Estou farto de símbolos...
Mas dizem-me que tudo é símbolo,
Todos me dizem nada.
Quais símbolos? Sonhos. —
Que o sol seja um símbolo, está bem...
Que a lua seja um símbolo, está bem...
Que a terra seja um símbolo, está bem...
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa,
E ele rompe as nuvens e aponta para trás das costas,
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua senão para achar
Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes,
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar também é terra...
Bem, vá, que tudo isso seja símbolo...
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se
O sol entre farrapos finos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde se demorava outrora com o namorado que a deixou?
Símbolos? Não quero símbolos...
Queria — pobre figura de miséria e desamparo! —
Que o namorado voltasse para a costureira.


Álvaro de Campos

O Último Mártir

Ninguém quis comprometer-se,
Libertar-se arriscando a revolta alheia,
Desafiar-se fodendo a boa conduta,
Sujeitar-se ao espectro de puta...

Então o vilarejo cresceu
Preso à liberdade do último mártir.

domingo, 2 de maio de 2010

TILT

Fuga de mim,
Tudo em pânico,
Nanobots ate my brain,
Enfants dupe mon âme!

O Recreio Coletivo em Si e Solitário para o Camelo

A glória na alcunha,
Sem alma e semblante,
A fim de tocar o medo de quem mergulha
Além dos demais animais
(Os que correm desesperados,
Afastam-se mutuamente,
Ademais,
Querem ver à cegueira
Mesmo impotentes e palpáveis).

- Vejam,
Crianças,
Percebam como pu-los a correr mais desordenadamente!
Vejam aquele
E aquele outro também;
Idiotas feras!

sábado, 1 de maio de 2010

O Porquê das Rachaduras

Tudo é necessário,
Até o cravo na lapela, pulsos e tornozelos.

A Desgraçada Cronologia da Decadência de um Fracasso à Suposta Aspiração a Musa

Perdeu os carinhos do mancebo que amava logo após embarangar com morbidez,
Fundiu a alma esquartejada em raiva e vingança,
Tentou reunir os lugares comuns no mesmo lugar comum que habitavam,
Visitou um Pitanguy,
Assustou-se,
Proletariou-se por cincos anos de dias e fim insensíveis
E contratou um Pitanguy,
Mas a prótese era muito pequena.