terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Da Vida

Naquele porão empoeirado, repleto de tralhas e objetos que o seu pai não conseguia se desfazer por uma falsa afeição, brincavam os dois guris; os irmãos vasculhavam por entre os objetos novos de tão velhos a fim de um motivo de satisfação. Escondida no canto onde estavam os fuscas de plástico e as notas avulsas de Banco Imobiliário, uma caixinha de metal, das de biscoitos para presente. Aberta pelo mais novo, continha um revólver velho e um punhado de balas com cheiro de ferrugem. O mais velho tomou o instrumento, inspecionou-o como se o conhecesse por mais tempo do que a própria existência, abriu o tambor com a dificuldade que a oxidação exigiu, carregou cada uma das seis dependências com os projéteis escurecidos pelo tempo, recolocou o tambor imitando o seu personagem predileto da sua minissérie estadunidense favorita, apontou a arma para o chão, pressionou o gatilho e o tiro picotou... Todos os seis picotaram. A partir da terceira tentativa sucessiva com fracasso, o mais novo sorria mais alto até a última, quando já se tornara gargalhada, portanto, ciente de que o tambor girara os trezentos e sessenta graus sem o efeito que esperara, apontou o brinquedo para o irmão sorridente e não tentou, apenas pressionou o gatilho a fim do cão impactar-se novamente em nulidade ao fundo do primeiro projétil picotado.

Naquele momento, os dois guris morreram.