domingo, 28 de fevereiro de 2010

Asas

Não que eu não queira as minhas asas,
Mas estas,
Apodrecidas por tal praga secular,
Pesam-me,
Corrompem a quentura dada ao espírito cortante do anil;
Ainda avoaria se decepadas,
Avoaria melhor se decepadas.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Minta

O que é bom pra você
E belo?
Do que suspeita pra crer
Sincero?
Quantas lamúrias guarda detrás deste olhar de ninfa?

Tentaria conter
A sorte
Se o carinho nos fosse
Torpe?
Hoje eu só quero que me destempere e minta.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Feito Quase Todas as Coisas

Nada sofreu feito o homem venusiano,
Pouco ganhou feito as moças de Hawthorne,
Quase assumiu feito o macaco Tião,
Tudo sentiu feito a cadela Laika.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Dirty Sunglasses or Voluntary Blindness

O muro não é de concreto,
Nem muro é:
É fibra enforcada;
Sinto nada!

Ordinária Liberdade

Ah, a corrente sul,
Vivamos ao universo abrasivo da corrente sul,
Deixemos morrer os que brincam de flutuar contra a corrente sul!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Púrpura

Das pétalas úmidas e do teu sumo
A manhã se exigia imortal.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Democracia

Hilária é a democracia:
Decepa o imbecil coletivo,
Abandonando-se,
Para ser-se.

Lizzie

Estatelada no chão,
Hibernava a promessa de mudança,
Recompunha-se após o açoitamento;
Acerca do tempo,
Privar-nos-íamos até o incômodo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Rameira

Descerimoniosa,
Mal dita à carcaça a soberania do espírito,
Frequenta o momento da besta até que se cumpra o escambo
E fecha o ciclo porta afora.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Noite

Da prece,
Da rendição,
Da impotência,
Da covardia,
Surgiste enojada de ti mesma,
Noite,
Cantaste semitonada para a obra-prima acerca do teu definhar.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Estranhez

Se fosse
A mocinha da novela
Chorosa aos seus arquétipos de dor,
A caminhante da Estação Paraíso
Passando e encantando depressa pra mais nunca,
A loira do reclame de cerveja
Que não bebe cerveja pela lisura das próprias curvas,
A Simone em suas memórias
Amarrando João-Paulo pela resposta que deseja,
A garota enrolada em uma colcha no Anhangabaú
Mendigando um real por três segundos surreais,
A motorista presa na Marginal ao toró violento
Contando os minutos por um banho e carneirinhos,
A falácia personificada,
Quase acreditada
E creditada a nós pela falta de voluntários,
Eu estranharia.

Os Caminhos de Vera

Encontrou-me armada de vida
E aos golpes d'amores
Mal pôde fugir.
Quase morto,
Tossindo a ânima,
Aniquiladas as maquiagens,
Mal pôde fugir.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Desejo, Sim

Desejo o teu olhar pra sempre;
Calá-lo jamais,
Este olhar de serpente.
Desejo o teu desejo tosco;
Pura solidão
Ou o fundo do poço.
Desejo esta limpeza imunda
Do desperdício que estou
À tua inocência profunda.
Desejo a fome que te move
Olvidando quem és-
A minha paz te resolve.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Da Verdade

Ele poderia ser claro, pedindo-a desde o princípio:

- Faça-me feliz que eu te faço rica!

Todavia, encantado pelo resgate de épocas empoeiradas na própria alma, sequer tocou no assunto, deixou-o implícito e subentendido, esquecido na língua da ninfeta percorrida pelo seu corpo enrugado e cadavérico de heptagenário e da falta de sol que o câncer o obrigara.

Deitada,
Cansada pelas cavalgadas noturnas,
Sussurrava:

- Eu te amo!

Ele tentava crer,
Ela também tentava;
Talvez fosse verdade.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O Tamanho das Gaiolas

Com sorte
Perderia o céu,
Leal à minha gana
Perderia-o.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Uma Noite de Esteio

Beijando-o com todo o corpo,
Ida,
Despida,
Mal pude me desdizer
Faminta,
Rendida;
Cabia-me naquela mentira pra mim,
Quebrada em mim e por mim
Numa noite de esteio.

Dementia

[Bartira]

Cauê,
Você que já esteve do outro lado...

[Cauê, interrompendo]

Como assim,
Outro lado?
O lado era o mesmo,
Eu só não respondia a quem neste acredita.

Storm


Teu traço manco,
Roto,
Vesgo
Aprisiona sem querer
As deidades e ilusões,
As complacências e ressoares infinitos de nada-humano.

Teu lábio vasto,
Farto,
Casto
Impressiona por viver
Os desvarios que forçamos em significante.

Tuas estruturas de mentira
Rufladas à verdade
Pedem
Ou imploram
Por tudo desprendido dos instintos.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O Anarquista Que Não Nasceu

Ao toque final,
Babando de débil,
Mal deus do próprio corpo,
Tudo o importara desimportantemente.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Rigores

Fúria encadeada,
Pura,
Semente de insânia
Voraz,
Ferida incandescente,
Exposta
Já que a pressão dos teus lábios persiste a cada lembrança.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

...

Satisfeita - em sua gelidão,
Após fingir-se explodida em chamas e empáfia,
Lavou as mãos e os braços,
Maquiou a face de circense austríaca
E o espírito carrasco.

Comida Viva


De demãos em demãos de farsa de vida,
Egoísta;
Sou o belo fela da puta tentando esquecer que é rei ou plebeu.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

seja como for

Pois há mais do que vagar em teu corpestranho de suores encantados,
Há-te.

Tese, Antítese e Nenhuma Síntese


Amados à eternidade aos sentimentos daltônicos,
Injulgados após o apedrejamento das massas famintas,
Estaríamos,
Tu e Eu,
Fadados ao fracasso presente?

Pois bem,
Que fracassemos,
Que segures tardiamente a minha mão armada,
Que o revide nos mate por um século.

Mas, então,
Glória maior é não a enredar?
Melhor e adiante,
Julgar estúpida a estupidez antes da nossa?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Cibele

Se,
Pelo ofício necromante nas minas,
Fui responsável pela anátema de Ezequiel,
Digo-te,
Embora inoportuno,
Talvez ombumbrado ou embriagado pelo axioma desfeito,
Que,
Sim,
Aguardei ansioso até que explorasses tal desprezado lugar comum.

Dandara

Dandara faria do mundo algo menos completo
Se o mundo estivesse aquém das rochas de sua caverna...
Se a sanidade de seus filhos nasceu de sua demência suicida,
Teria Dandara cumprido a pena que Deus lhe coube?

Eu Sou e Só

Apesar da relutância em admitir o meu compasso ritofaminto,
A plêiade que acompanha este ato fúnebre jamais se importaria;
Eu não me importaria,
Apesar da vaidade-
Eu sou e só.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Cansado de Exames

Sim,
Da diabólica Diabetes,
Olhando as minhas pernas como se eu fosse uma vedete,
Cegando-me para que eu a testemunhe,
Prossegue em seu silêncio a fim de matar-me.

Satisfação

Pediu-me para que a acompanhasse tocando-se,
Embriagando-se de suas próprias substâncias e instintos,
E sem a tomar,
Sem sequer me tomar também.

Pediu-me e iniciou,
Murmurava e prosseguia,
Torturava e conseguia;
Nunca soube se me foi satisfação.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Harpia

Adereços de grandeza graciosa aos montes,
Uma blefada produtiva,
Esse sol, esse mar
De matar mais um pouco a vontade
De poder pular etapas
E você a voar serena.

A Obra da Tua Vida

Eis que pagas pela obra da tua vida:
Teus atrativos com penduricalhos indesejáveis,
Mas é a obra da tua vida!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O que der pra ser

Sou de Ijexá,
Filho de leite de Oxum;
Abandonado por Iansã
E escondido por Exu.

Sou tupinambá
Catequizado por nascer,
Aproximado de Aimorés,
Ludibriado pra morrer.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Os Blues de Floripa

Apesar de irriquieta,
Continha-se aos montes,
Quase todas as suas máscaras,
Por não desejar cumprir trajetos entre amores insulares;
Assim o desejou,
Ciente de todo o preço,
Até findar-se definhante.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Do Desprendimento

O seu sorriso desfez as vestes molhadas,
As formas declaradas pela chuva,
E o pouco que pretendi.

Era sorriso de menina
Guiando-me,
Libertando-me ou enfeitiçando-me
Até que o todo,
A desprezar-nos completamente,
Curvou-se por nossos olhos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Da Vida

Naquele porão empoeirado, repleto de tralhas e objetos que o seu pai não conseguia se desfazer por uma falsa afeição, brincavam os dois guris; os irmãos vasculhavam por entre os objetos novos de tão velhos a fim de um motivo de satisfação. Escondida no canto onde estavam os fuscas de plástico e as notas avulsas de Banco Imobiliário, uma caixinha de metal, das de biscoitos para presente. Aberta pelo mais novo, continha um revólver velho e um punhado de balas com cheiro de ferrugem. O mais velho tomou o instrumento, inspecionou-o como se o conhecesse por mais tempo do que a própria existência, abriu o tambor com a dificuldade que a oxidação exigiu, carregou cada uma das seis dependências com os projéteis escurecidos pelo tempo, recolocou o tambor imitando o seu personagem predileto da sua minissérie estadunidense favorita, apontou a arma para o chão, pressionou o gatilho e o tiro picotou... Todos os seis picotaram. A partir da terceira tentativa sucessiva com fracasso, o mais novo sorria mais alto até a última, quando já se tornara gargalhada, portanto, ciente de que o tambor girara os trezentos e sessenta graus sem o efeito que esperara, apontou o brinquedo para o irmão sorridente e não tentou, apenas pressionou o gatilho a fim do cão impactar-se novamente em nulidade ao fundo do primeiro projétil picotado.

Naquele momento, os dois guris morreram.

Decadência

Eu parti desejando o universo em sorrisos bobocas
Dó de mim, eu não tinha saída, fecharam-me as portas!
Meia-Noite, chapado e faminto, eu fazia barulho
Mas o grito que eu cria ser meu se estampava num muro
De memórias o meu baluarte então se formava
Enquanto eu previa com sono o fim da jornada
As luzes que eu via e sentia não tinham paixão, não!
E tudo o que eu havia vivido era só ilusão

Desconstruções

Reclamava das vias repetidas de perfeitas,
Mas o que me cortava os pés foi esse destempero de sempre cambiar a direção
Desprovido das mãos cheias de papel picado aos heróis,
Pois todo herói precisava ser reificado e cuspido.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Nascente de Memória Coletiva

Irreversivelmente quebrado.