quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Valentismo ou Ascensão e Derrocada da Barata

Suprindo-se dos restos de larvas nas entranhas da casca de um tronco velho, a barata seguia a sua vida feito as demais baratas, numa vida barata de barata, recolhendo-se nas frestas quando ameaçada por um predador e quietando-se egoísta quando encontrava uma fonte prolongada de alimento. Certo dia, quando conseguira fugir dum bando de formigas prontas para cortá-la em pedaços, avistou, da baixeza das gramíneas onde vagava, uma taturana cortando as folhas de um cajueiro para o próprio almoço. A cada rasgo que dava, a taturana separava cuidadosamente os fungos dos pedaços de folha e os soltava daquele quase-infinito à relva. Percebendo aquilo, a barata passou todo o dia enchendo a pança dos fungos dispensados pela taturana, naquela simbiose que a barata acreditou poder ser eterna. Passada uma semana no mesmo andor, a taturana, que percebera a barata desde o primeiro dia, olhou para baixo, a fim de que a barata soubesse que ela não desconhecia a sua presença, e parou de picotar as folhas.

- Por que parou? - gritou a barata, logo que atentou a um possível descontentamento da taturana.

- Quer que eu continue? - perguntou de volta a taturana.

- Sim, por favor! - suplicou a barata.

- Por quanto tempo? - questionou a taturana.

- Até que eu encha a pança! - suplicou novamente a barata.

- Então me diga quando estiver bom. - pediu a taturana.

- Sim, te digo. - confirmou a barata.

A taturana continuou picotando e soltando os fungos para o bem-estar da barata.

-Acho que estou empanzinada. - afirmou a barata depois de meia hora dos picotares da taturana.

- Pois bem, barata, vou me recolher. Até a vista! - despediu-se a taturana.

- Até a vista! - despediu-se a barata.

A noite chegou e a barata se escondeu em uma das frestas que lhe davam segurança. O dia veio e a barata voltou ao cajueiro, mas a taturana não estava lá. Preocupada, a barata trepou pé acima e, para a sua decepção, a taturana tinha se transformado numa pupa nojenta, reconhecida por ela apenas pelas cores dos seus fiapos de fogo vistos graças à translucidez da cobertura peguenta que a circundava. Chateada, a barata foi embora dali e só voltava de passagem entre o caminho da jaqueira para a mangueira, todos os dias, no retorno à sua época de coleta por restos de larvas. Via a pupa e lembrava, saudosa, dos dias em que não precisava trabalhar tanto para comer.

Passado algum tempo, a barata, no meio do seu caminho de sofreguidão, viu a pupa murcha e ressequida e estranhou. De repente, um bicho divinamente colorido e voador, que nunca vira em toda a vida, pousou sobre uma folha mais comprida de gramínea e falou:

- Oi, barata!

- Quem é você? - estatelada, perguntou a barata.

- Sou a borboleta, mas um dia fui a sua amiga taturana. - remexendo orgulhosa as asinhas.

- Taturaaa... Quer dizer, borboleeeeta! - batendo as asinhas imprestáveis, alegrou-se a barata.

- Como você está, amiga barata? - preocupando-se a borboleta.

- Não muito bem. Desde que entrou naquele casulo minha vida voltou ao velho marasmo de sempre. Pode picotar para mim? - feliz da vida, pediu a barata.

- Mas agora sou borboleta, barata, não consigo mais picotar. - explicou a borboleta.

- Como assim? - não entendendo, a barata.

- Agora só me alimento do néctar das flores. Não é o máximo? - feliz, a borboleta.

- É. - um tanto frustrada, a barata.

- Preciso ir, estou faminta e quero experimentar a minha tromba. - Despediu-se a borboleta.

- Tchau. - Arrasada, a barata.

Quando viu a borboleta alçar voo até as flores das redondezas, a barata se encheu de ódio, pensou em como um ser tão repugnante como a taturana poderia ter tanta sorte enquanto ela, a barata, estaria fadada a ser só uma barata. Inflamada pelo desejo de vingança, a barata dizia horrores sobre a borboleta a cada inseto da mata que encontrava, criou piadas que só faziam sentido às baratas e insetos rastejantes e tentou, sem muito sucesso, criar um movimento anti-borboleta. Apesar da ineficiência dos atos todos, a barata se sentia melhor; não só vingada, mas propusera a si mesma um motivo para não ser só uma barata.

Numa manhã de sol após chuva, quando a borboleta fazia piruetas no ar e os demais insetos rastejantes sorriam felizes pela singeleza dos seus movimentos, um bem-te-vi, num rasante surpreendente, agarrou-a pelas patas e a devorou sobre um tronco de tamarindeiro em duas papadas. A barata, vendo tudo, dava saltos de alegria, voava dez centímetros e caía, sorria, sonhava acordada. Após o acontecido, assim que todos os insetos rastejantes limparam as lágrimas pela morte da borboleta, a barata era, novamente, apenas uma barata.

Moral: Todo bicho feio e cascudo precisa de um belo e frágil para sentir-se menos desprezível.