domingo, 31 de janeiro de 2010

Um Candelabro Deformado

Quando apareceu pra mim,
Eu não tinha paz-
Se é que um dia tive,
Ela não tinha vez-
Se é que agora tem,
E todo o nosso quisto se bastava a uma pergunta,
Qualquer que fosse desde que fosse entre nós.

O Bailarino

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=RmaHGY7BEog&hl=pt_BR&fs=1&rel=0&border=1]
---
Voe como uma borboleta, mas ferroe como uma abelha.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Ovos Mexidos

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=qyXFN4ocN_o&hl=pt_BR&fs=1&rel=0&border=1]

Anônimos


Perseguindo anônimos os nossos espíritos,
Supomo-nos num cosmo para a treva
E nos pareceu bem;
Aparecemos.

A Ex-Viúva

Eu a refleti pelos pedaços que faltavam em mim:
Das Minas Gerais à Bahia deslocada a São Paulo,
Incitei o rompimento das fibras para as suas ressurreições,
Desguiei-me para sempre retornar,
Colhi os estrondos de sua própria fertilidade.

Knight, Rook and Bishop

Desencontrada,
Irei,
Amor,
Ao nosso desajuste falacioso de lugar;
Se presos aos torpores,
Quase mendicantes dos torpores,
Irei,
Amor.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Prestações a Nix

Todo branquinho para se marcarem os lábios com batom,
Quase infinito o delicado aroma do torpor,
Pouco encorpada a bruma singela duma paixão,
Nunca presente a dor consciente do meio ao fim.

Amo-te, Castigo

Amo-te, castigo,
Abrigo da esperança;
Amo-te,
Amo o teu futuro,
Amo no teu medo,
Amo no teu futuro.
Amo-te puro e violento,
Amo-te cinzento e cego,
Desviando-se do que te atormenta.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Dos Desejos

Desfeito, o tempo persiste detrás deste muro,
Perfeito,
Mas continua sendo um muro.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Valentismo ou Ascensão e Derrocada da Barata

Suprindo-se dos restos de larvas nas entranhas da casca de um tronco velho, a barata seguia a sua vida feito as demais baratas, numa vida barata de barata, recolhendo-se nas frestas quando ameaçada por um predador e quietando-se egoísta quando encontrava uma fonte prolongada de alimento. Certo dia, quando conseguira fugir dum bando de formigas prontas para cortá-la em pedaços, avistou, da baixeza das gramíneas onde vagava, uma taturana cortando as folhas de um cajueiro para o próprio almoço. A cada rasgo que dava, a taturana separava cuidadosamente os fungos dos pedaços de folha e os soltava daquele quase-infinito à relva. Percebendo aquilo, a barata passou todo o dia enchendo a pança dos fungos dispensados pela taturana, naquela simbiose que a barata acreditou poder ser eterna. Passada uma semana no mesmo andor, a taturana, que percebera a barata desde o primeiro dia, olhou para baixo, a fim de que a barata soubesse que ela não desconhecia a sua presença, e parou de picotar as folhas.

- Por que parou? - gritou a barata, logo que atentou a um possível descontentamento da taturana.

- Quer que eu continue? - perguntou de volta a taturana.

- Sim, por favor! - suplicou a barata.

- Por quanto tempo? - questionou a taturana.

- Até que eu encha a pança! - suplicou novamente a barata.

- Então me diga quando estiver bom. - pediu a taturana.

- Sim, te digo. - confirmou a barata.

A taturana continuou picotando e soltando os fungos para o bem-estar da barata.

-Acho que estou empanzinada. - afirmou a barata depois de meia hora dos picotares da taturana.

- Pois bem, barata, vou me recolher. Até a vista! - despediu-se a taturana.

- Até a vista! - despediu-se a barata.

A noite chegou e a barata se escondeu em uma das frestas que lhe davam segurança. O dia veio e a barata voltou ao cajueiro, mas a taturana não estava lá. Preocupada, a barata trepou pé acima e, para a sua decepção, a taturana tinha se transformado numa pupa nojenta, reconhecida por ela apenas pelas cores dos seus fiapos de fogo vistos graças à translucidez da cobertura peguenta que a circundava. Chateada, a barata foi embora dali e só voltava de passagem entre o caminho da jaqueira para a mangueira, todos os dias, no retorno à sua época de coleta por restos de larvas. Via a pupa e lembrava, saudosa, dos dias em que não precisava trabalhar tanto para comer.

Passado algum tempo, a barata, no meio do seu caminho de sofreguidão, viu a pupa murcha e ressequida e estranhou. De repente, um bicho divinamente colorido e voador, que nunca vira em toda a vida, pousou sobre uma folha mais comprida de gramínea e falou:

- Oi, barata!

- Quem é você? - estatelada, perguntou a barata.

- Sou a borboleta, mas um dia fui a sua amiga taturana. - remexendo orgulhosa as asinhas.

- Taturaaa... Quer dizer, borboleeeeta! - batendo as asinhas imprestáveis, alegrou-se a barata.

- Como você está, amiga barata? - preocupando-se a borboleta.

- Não muito bem. Desde que entrou naquele casulo minha vida voltou ao velho marasmo de sempre. Pode picotar para mim? - feliz da vida, pediu a barata.

- Mas agora sou borboleta, barata, não consigo mais picotar. - explicou a borboleta.

- Como assim? - não entendendo, a barata.

- Agora só me alimento do néctar das flores. Não é o máximo? - feliz, a borboleta.

- É. - um tanto frustrada, a barata.

- Preciso ir, estou faminta e quero experimentar a minha tromba. - Despediu-se a borboleta.

- Tchau. - Arrasada, a barata.

Quando viu a borboleta alçar voo até as flores das redondezas, a barata se encheu de ódio, pensou em como um ser tão repugnante como a taturana poderia ter tanta sorte enquanto ela, a barata, estaria fadada a ser só uma barata. Inflamada pelo desejo de vingança, a barata dizia horrores sobre a borboleta a cada inseto da mata que encontrava, criou piadas que só faziam sentido às baratas e insetos rastejantes e tentou, sem muito sucesso, criar um movimento anti-borboleta. Apesar da ineficiência dos atos todos, a barata se sentia melhor; não só vingada, mas propusera a si mesma um motivo para não ser só uma barata.

Numa manhã de sol após chuva, quando a borboleta fazia piruetas no ar e os demais insetos rastejantes sorriam felizes pela singeleza dos seus movimentos, um bem-te-vi, num rasante surpreendente, agarrou-a pelas patas e a devorou sobre um tronco de tamarindeiro em duas papadas. A barata, vendo tudo, dava saltos de alegria, voava dez centímetros e caía, sorria, sonhava acordada. Após o acontecido, assim que todos os insetos rastejantes limparam as lágrimas pela morte da borboleta, a barata era, novamente, apenas uma barata.

Moral: Todo bicho feio e cascudo precisa de um belo e frágil para sentir-se menos desprezível.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

La Peleadora

Dorso de lutadora,
Largo,
Salgado à fome,
Blasfêmia à fantasia.

Quis, sim, mais mediocridade até em si,
O todo tão frágil feito o que é,
A lama tão berço como se propõe.

Voz,
Áspera de timbre tão doce,
Contingenciando os fins distantes,
Amando agora.

Atingiu, sim, destinos tão curtos
Que são quistos eternos,
Temperos tão novos
Que se assemelham ao passado.

Roosa

Não nos aguardará,
Sequer o último fio de vida,
Pois desencadeamos a cronologia só para entreter,
Pulsar o brio da vida.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

(Des)Coordenadas

Dos medos
Perdidos
Eu jamais me esqueceria:
Marselha e Havana;
Eu jamais me esqueceria.

Da fuga
Perfeita
Eu jamais me esqueceria:
Brasília e Quioto;
Eu jamais me esqueceria.

Da falta
De fome
Eu jamais me esqueceria:
Riade e Praga;
Eu jamais me esqueceria.

Do jeito
Sereno
Eu jamais me esqueceria:
Camberra e Oslo;
Eu jamais me esqueceria.

Gosto e Sabor

Dou-te um doce se me disseres
Qual é a cor de ser-se imoral;
Nu, sem calcagem, sem sacanagem-
De estar-se só, tornar-se, enfim, o mal.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Ofício de Atriz

Coisas demais cobriam o seu rosto,
Carregavam o seu semblante:
Pessoas, lugares e tempo,
Medo, desejo e amor;
Não ia,
Meticulosamente tentava alcançar por estreita via sem sucesso.

A própria lágrima,
Demasiadamente contida ou exacerbada,
Contida ou exacerbada
Mal chegava à primeira fila,
Não desmoronava qualquer etiqueta ou preservação alheia.

Porém,
Num dia de alforria,
Nem da lágrima precisou,
Esquecer-se foi a chave.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Das Analogias Épicas

Tu és bela, minha querida, tu és formosa! Por detrás do teu véu os teus olhos são como pombas, teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo impetuosas pela montanha de Galaad,

Teus dentes são como um rebanho de ovelhas tosquiadas que sobem do banho; cada uma leva dois (cordeirinhos) gêmeos, e nenhuma há estéril entre elas.

Teus lábios são como um fio de púrpura, e graciosa é tua boca. Tua face é como um pedaço de romã debaixo do teu véu;

Teu pescoço é semelhante à torre de Davi, construída para depósito de armas. .Aí estão pendentes mil escudos, todos os escudos dos valentes.

Os teus dois seios são como dois filhotes gêmeos de uma gazela pastando entre os lírios.


O Cântico dos Cânticos, 4:1-5.

Acho que Salomão seria mais ridículo se escrevesse, com toda essa sutileza, nos dias de hoje. XD

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Lebensgeschichte

Enjaulei-me aos teus seios em cálices de aromas,
Às vezes cânhamo e menta
E noutras desmaio e ilusão.

Ainda da Crueldade

Se toda ameaça emocionada nasce do próprio medo do molestador,
Dos seus amores não retribuídos,
Da sua sede perdurada,
Dos seus desejos contidos,
Das suas experiências frustradas,
Creio-me cruel a acompanhar a construção do seu próprio funeral.

Das Boias e da Prata nas Melenas de Fátima

Obviamente,
Os arquétipos nas histórias comuns tendem à alta identificação;
Deuses em parecença com gente
E toda a gente desejando ser Deus.
Portanto,
Cansado de mim replicante à vida,
Devorado por mim implicante dos pratos e talheres,
Suplico novidade ao caos.

Uma Carniça

Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos
Numa bela manhã radiante:
Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,
Uma carniça repugnante.

As pernas para cima, qual mulher lasciva,
A transpirar miasmas e humores,
Eis que as abria desleixada e repulsiva,
O ventre prenhe de livores.

Ardia o sol naquela pútrida torpeza,
Como a cozê-la em rubra pira
E para o cêntuplo volver à Natureza
Tudo o que ali ela reunira.

E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça
Como uma flor a se entreabrir.
O fedor era tal que sobre a relva escassa
Chegaste quase a sucumbir.

Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,
Dali saíam negros bandos
De larvas, a escorrer como um líquido grosso
Por entre esses trapos nefandos.

E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga,
Que esguichava a borbulhar,
Como se o corpo, a estremecer de forma vaga,
Vivesse a se multiplicar.

E esse mundo emitia uma bulha esquisita,
Como vento ou água corrente,
Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita
E à joeira deixa novamente.

As formas fluíam como um sonho além da vista,
Um frouxo esboço em agonia,
Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista
Apenas de memória um dia.

Por trás das rochas, irrequieta, uma cadela
Em nós fixava o olho zangado,
Aguardando o momento de reaver àquela
Carniça abjeta o seu bocado.

- Pois há de ser como essa coisa apodrecida,
Essa medonha corrupção,
Estrela de meus olhos, sol da minha vida,
Tu, meu anjo e minha paixão!

Sim! Tal serás um dia, ó deusa da beleza,
Após a bênção derradeira,
Quando, sob a erva e as florações da natureza,
Tornares afinal à poeira.

Então, querida, dize à carne que se arruína,
Ao verme que te beija o rosto,
Que eu preservarei a forma e a substância divina
De meu amor já decomposto!


Charles Baudelaire, in As Flores do Mal. Tradução de Ivan Junqueira.

Pra não dizer que não me servi das flores! XD

A Lágrima Que Não Veio

Destas sentenças peripatéticas que me guiaram,
Aprendi com os alaridos torpes a me moldar;
Estúpida é esta imunidade ao isento parecer,
Uma tentativa de afastamento do acontecido.

Corpos e formas,
Sentidos e sentimentos,
Construções e constatações,
Vidas e cores:
Amor de volta aonde foi criado,
A flor desabrochando no cimento.

Sinto,
Mas não te toco.
Minto
Sem te contar.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Da Vilania

A vilania é fama rápida e passageira,
Mas de resgate eterno,
Quase nunca feito pelo próprio vilão.

Murderers, Inc.

Não poderia chamar de escabrosos os seus desejos,
Pois,
Desvinculado das amarras de minha formação,
Tratava-se do impulso sedento ao que a amedrontou durante a sua;
Eu me guiava a reagir diante das suas reações,
Mesmo que patéticas ao que eu cria ser.

A Chuva

Com a chuva,
Ratos e baratas cuspidos do esgoto
Ralos afora,
Peças de carne brotando da lama,
Pás e cimento;
Paz,
Esteja em paz neste caos.

Lugar Comum

Serei por todas estas que se manifestam
Mesmo que eu me esqueça definhante num leito de hospital;
Estupidez não viver,
Sempre cri,
Mas tal motivo nebuloso,
Comportando-se pleno a incendiar-me o espírito,
Recompensa-me a cada impulso.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Cruelíssima

As tuas reações de mulher,
A minha muleta patética,
São a fome e o desejo de continuidade,
A mentira que teço para mim,
O contemporizar para ter-te,
Contudo,
Reduzida à minha bestificação,
Sempre temi,
Receptiva de impotente,
Os teus olhos de fera.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Vanilla

Quase em mim,
Desconcentrava-se vagando em si,
Entre os próprios fragmentos,
Morrendo para o presente.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A Crueldade, o Mal, de Qualquer Um

Caralho de gente chata,
Falando de uma coisa chata
Amparada à falta de tudo o que creem viver!

Aos números e às suas sensações,
Causadas por mais distante que consigamos ir a qualquer direção ilusória e histórica
Ou por mais próximos que fiquemos da marca ilusória e histórica,
Redirecionar-nos-emos,
Sempre,
À dismetria do ente vivo.

Mulher Feia

Ah, a mulher feia:
A história previsível,
O dispensar-me do alter ego freudiano,
O meu aguardo passivo pelas duas mil carícias suplicantes à ausência de crítica,
O Eu-Deus por falta de opção!

Estímulos Vendíveis

Ela entra,
A câmera captura a sua expressão facial de desânimo
E ela morre quando dali,
Do que a emocionava,
Sai:
A indiferença é desprezível.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


Fernando Pessoa, 27 de novembro de 1930.

Para não precisar cair em lugar comum novamente, colo previsível. XD

Lugar Comum

Apesar da coletividade entre irmãos de crença,
Da abstração elaborada a fim de muros quase intransponíveis,
Da sede que alcunham bondade,
O gênero masculino é frágil por ser convertido em si personificado na falsa imagem do pênis
Eternamente ereto e rijo,
Deificado;
Todas as Atenas ruem através da carícia de uma mulher.

Lugar Comum

Nossa cultura ainda conserva a conveniente demência cristã
E não é neste século,
Ou no próximo,
Que iremos mudar;
Feito o batido jargão que relata a mulher como alguém que ama ser enganado,
A mentira é,
Para o gênero masculino,
Mesmo que deveras angustiante contra a plenitude de suas faculdades emocionais,
Uma ferramenta de libertação a estes territórios inexistentes.

Aos mais audaciosos,
Até a dor da fêmea pela separação é doce;
Desde que não incomode o novo destino,
É doce.

O Pseudônimo, os Heterônimos e a Personagem

Contarei com tudo o que tenho
E não passarei por cima disto,
Sequer arranharei:
Estarei preso sem saber,
Atordoado sem sentir,
Só.

Confiarei os meus segredos ao futuro
Em um trêmulo sussurro desconexo:
Não tenho sexo ou humanidade,
Não sou fiel a mim-
Rendo-me à alma da personagem,
Não tenho fé em minhas pernas gangrenadas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Deep V-Neck Swimsuit

Por mais que queiramos desanuviar,
Ela não parece bem;
As piadas sempre sarcásticas e mais agressivas,
O olhar perdido por detrás das paredes
E a vida revista em seus desenhos
Só nos dizem da despedida de quem não quer se despedir santificada.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Razão a Todo Tempo

Não te preocupes com o nosso alívio,
Pois de impactos entres os quadris foi a nossa relação:
Não nos preocupamos com o carinho
E sequer prestamos zelo aos nossos egos;
Usamo-nos um ao outro
Ou os nossos animais,
Como queira.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Vilão por Demência

Apaixonado por desejos cristalizados
E estilhaçados ao toque da minha governança,
Sentia-me maior do que o mundo e melhor do que a sombra do culpado,
A Medusa para os meus sonhos,
O Minotauro à minha glória;
Ceres jamais saberia,
Pois o mote da minha nau fora o enredo da fuga.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Confissão da Pobreza de um Nobre

Explorado exaustivamente pela arte, religião e ciência, o encontro afetivo é, obviamente, supervalorizado no que tange a sua organização ou arquitetura. Não há nada mais abstratamente ambicioso do que o ser humano e, por tal característica, não há nada mais frágil do que o mesmo: a descobrir tal ambição não saciada, a que urge ao próximo passo a fim do despenhadeiro da utopia, torno-me Deus se me converto em possibilidade de ponte para a querela medíocre de qualquer que seja o indivíduo.

Ela,
Carente de irritar,
Permitiu-me a própria confiança,
Seduziu-se por dinheiro e carinho,
Por poder.

Ela,
Doente de ideais,
Encalacrada nas sofreguices do que julgam alma,
Separou-se de si mesma a tentar encontrar-se.

Dos procedimentos finais,
O meu prazer pleno,
Sempre os mesmos.

(...)

A incisão horizontal no ventre da mulher em pé, entorpecida por carbamazepina, talvez seja o clímax, a redenção de minha própria busca: as entranhas escorridas até o relvado são a lembrança de uma primeira vez jamais alcançada novamente, mas perseguida na minha debilidade pela parecença; aquilo cheio de significados a metamorfosear-se num significante crido - por ele mesmo - menor do que o anterior.

Do Ato Medonho

Para que se fosse, então,
Inibi o meu desejo obumbrado dela,
A pretensão de sempre estar lá
Ou de somente tê-la cumprido desavisada,
A fome sob este calor dos dias
E o torpor salgado sobre a sua pele.

Amaldiçoado,
Não conseguiria,
Sofreria pelas cores em hipérboles mais-que-perfeitas,
Render-me-ia às próprias mudanças desta pérola das horas.

O Comportamento Migratório das Borboletas

Soltos de mim,
Os meus desejos se escondem por mim,
A minha fúria se aniquila por mim,
Os meus rebentos permanecem por mim
(...)
Por mim eu não iria.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Espera

Sim, é medo,
Mas de que medo se trata?
Enganar-se, talvez,
Não alcançar o objeto de dúvida
E si mesma feito objeto,
Livrar-se da fina membrana de proteção
Ou proteger-se da decepção;
Quiçá não se deixar fugir desta maravilha,
Deste universo fantasioso sem golpes e cortes machucantes,
Sem mortes e aleijamentos findantes?

domingo, 10 de janeiro de 2010

Entropia

Recomecemos, então:
Estava eu fora da regra?
(...)
Caralho,
Mudou em que parte do meio?
(...)
Não percebi,
Juro-te!

sábado, 9 de janeiro de 2010

Réplica

Por teu corpo mulato,
Sagrado de cheiros,
Safado de poses,
Tateio o mundo por novas confissões,
Confesso a culpa por novas ilusões.
(...)
E quem me dera enxergar para além dos valores
A ter-me, então, alma crua ao teu dispor.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Outra Dúzia de Coisas

Cada ranhura de digital
E arranhão, e corte profundo, e lesão sem cura por tuas unhas.
Cada incisivo cravado à fúria
E agarrado, e deslizado, e arroxeando um bem sensível.
Cada gota de saliva menos morna do que o corpo
E menos morta do que a vida, e viva, e viva!
Cada descuido para que enfim a descoberta da ilusão que nos incita
E desperta, e liberta, e enjaula.

Coral Falsa

Lembras-te daqueles seios pequeninos,
De mamilos tonalizados quase à perfeição?
Frequentam outros lábios,
Outra língua,
Outros sonhos;
Despertam outros monstros.

Portanto,
Digo-te que segues vasculhando um espelho,
Procurando o alvo errado no espelho,
Enquanto a feiticeira rompe, livre,
A própria verdade, longe de seus mimetismos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Hipócrita e Dissimulado por Tristeza

- Nem se fosse um abismo eu mudaria! - foi o que eu disse.

Como em qualquer mentira homérica descarada,
Perseguia o alívio à decepção no meio das pernas doutra,
Mesmo que a outra não se cumprira feito aquela uma.

Carregaria, então, a outra, a mendiga, a carente,
Por enfadonho prazo indeterminado de minha vida,
Carregaria a débil e o fantasma da deusa.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Patior

A pior tortura não está na dor,
Mas no prazer cerceado;
Imposto e disposto pra que seja abortado.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Da Perfeição

Talvez não se lembre do sabor do chocolate à primeira vez que o provou,
Mas esse gosto lembrado é perfeito,
Um susto que a alma levou.

O Pão

As perguntas intrusivas, mas sinceras,
Os autos sobre a chatice do nosso cotidiano,
As jaqueiras a partir das jaqueiras, de lá de cima,
O dejeto corpulento do óbvio, de lá de fora,
E nós,
Aqui,
Sovando a vida,
Pois a perfeição se declara e passa;
Não adianta imaginar.

Tez

Se fiquei hora a admirar o arrepiar-se e relaxar-se
Destronando-me em seu ciclo,
A cadência a descobrir as massas de músculos e gordura,
O quase imperceptível pulsar de ânima a declarar-se escandaloso,
Fiquei para sempre,
Até a morte.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

¥25125

¿Vês-te daqui,
Culpa?
¿Vês-te feliz:
Personificada?
¿Culpas a mim,
Culpa?
¿Julgas justo
Este abandono
E repúdio
Deflagrados com estes poucos tiros?
¿É óbvio que sim,
Culpa?

Macromania

Mas ele não entendeu que vai aonde quero
E não é isso que eu quero;
Diante das submissões generais dum macho regular,
Prossegue o suposto escorreito ritmo decadente de glórias volúveis
E não me tem,
Não me comporta mulher debaixo destas vestes de silício-
Acredita que sou aquele,
Obceca-se por falso indício.

Ele exige a aprovação dum microcosmo passado,
Mas estou aqui:
Presente e pungente sobre a sua crida ignomínia,
Cedo-lhe corpo e alma construídos sobre flocos de falta de verdade,
Guio-lhe sem caos aparente,
Sem o meu gozo.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Corpos Intantis Picotados nas Juntas

Do nosso fetiche subcultural,
Colado em teu corpo,
Marcado no meu,
Imposto aos desvios que ditam,
Suposto à nossa carência,
Entendo a distância,
A prece
E a humilhação.

Dos Primórdios da Liberdade

Entre uma pincelada e outra,
Completando a sua tela sem alma,
Repleta de cópias retalhadas do passado,
Perguntou-me se eu desejava acompanhá-la aos grafites,
Porém,
Cansada da noite sem dormir,
Carregada de escuridão nas pálpebras,
Disse não.

Tarde,
Lavando pincéis e mãos na pia de louça,
Interrompeu a minha despedida com um:
- Vem, vem comigo! -
Segurando sem firmeza a minha cintura,
Deslizando-se letárgica até os meus quadris,
Impregnando-se abrasiva à minha curiosidade.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Cherchez la Femme

Oráculo


Por que me procuras?
O que desejas, infante?

Mustafa


Venho de longe, Oráculo,
Dos vales semiáridos da Crimeia,
Sedento das tuas curas,
Faminto das tuas pragas.

Ajuda-me, aniquila o mal que me persegue!

Oráculo


Tu, que me procuras de tão árdua jornada,
Não entendes que a interferência far-me-ia daqui?

Sei quem és, infante,
Sei o que buscas,
Porém ainda te nutres do pedantismo e arrogância dum líder juvenil.

Mustafa


Assumi a minha debilidade,
Mas não esperei luz do fundo de túmulos,
Sequer os aguardei cavados para os meus sonhos.

Oráculo


Se tu me pedes, pergunto-te:
O mal de que nação desejas aniquilado?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Alegas Que Dormes Mucho

Se eu estive na Bahia
Ou estou,
Lá pro dia 12 eu volto,
Amor,
Carregado de saudade de ti
E de nossa Santiago de Nueva Extremadura.

Fingirei que somos maus amantes,
Que jamais estivemos distantes um do outro,
Para que tu te enforques feliz;
Mesmo que só no último segundo, feliz.