quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Fogos de Artifício

Quando viu o fogo pela primeira vez,
A chama brotada dum pé-de-pau a partir dum raio de Iansã,
O macaquinho ficou assustado,
Cismado,
Não sabia se ia ou se ficava,
Se amava ou se corria de medo.

Encucado,
Mais contagiado de curiosidade do que de contimento,
Chegou perto,
Tentou tocar,
Queimou-se,
Porém ainda tentava labutar com aquele troço sem sentido para ele.

No chão havia um ramo grosso em brasa incandescida
E outros ramos menores alimentando aquela luz rubra que o encantara:
O macaquinho tentou catar um ramo menor,
Um que a quentura não fosse severa o bastante para criar-lhe novas bolhas nas palmas das mãos,
E,
Após algumas novas bolhas nas palmas das mãos,
Segurava um pequeno ramo com a extremidade em brasa cinzenta de findar-se o calor.

Catucou o tronco do pé-de-pau com o ramo
E viu a nova coisa mais linda de toda a sua vida:
O ramo e o pé-de-pau cuspiam faíscas de Sol assim que se tocavam
E o macaquinho,
Hipnotizado pelo fruto de Iansã,
Batia o ramo no pé-de-pau cada vez mais depressa
E cada vez mais forte
Até que se fatigasse o ramo em dois pedaços;
Um em tantos flocos de cinzas que nem dava para contar,
O outro num preto pedaço tão curto que não dava mais para brincar.

É Lindo

É porque a ilusão é crida literalmente,
O amor é tão doentio que se desamou
E não desmamou,
A falha está nos gestos mais sinceros,
A dor se refletiu nas asneiras,
O choro se evaporou do travesseiro
E o Proibidão é canto territorial
Que eu tô pouco me fodendo!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ato Romântico

(...)
Mas quando abocanhou meu corpo,
Comprimindo-o e sugando-o por entre língua e céu da boca,
Recolhendo lábios sobre dentes a percorrer-me,
Desfiz-me,
Aniquilei a personagem.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Chão dos Teus Ramos

Duplo clique em mim para que te sintas feliz,
Para que eu te minta partindo do óbvio:
A construção do meu ser feito só para ti,
Este tal dos impulsos nunca surpreendentes,
Jamais mentiria,
Enganar-te-ia,
Pois pisas folgado sobre o chão dos teus ramos!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Eu, Ọṣun

Farei Obá cortar as próprias orelhas
Para meu orixá viver só pra mim,
Calando o meu calor, as minhas mazelas,
Tateando a sina que há de me matar.

Palavra ou Amo Fonemas

Palavra,
Palavra,
Palavra;
Pra que se use
E entenda,
Palavra.

Palavra,
Palavra,
Palavra;
Pra que se curse
A verdade,
Palavra.

domingo, 27 de dezembro de 2009

071

Por qualquer coisa
É fato,
Coisa que não importa.
É inato
Livrar-se pelo incômodo,
Comum.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Fantástico, debatendo-se para não morrer!

Assim que começou a contar acerca do seu passado,
Eme não me pareceu muito confortável,
Porque,
Apesar da aparente satisfação diante da liberdade,
Do alívio de uma vida resgatada - a redenção,
Percebi como se questionava nas entrelinhas do relato.

Foi torturante o seu romance pregresso,
Pois,
Sentindo-se mãe do miserável flagelo que sugava latas e cachimbos debaixo de marquises,
Permitia o apodrecimento da própria alma,
Vagava entre uma internação e outra
Feito o zumbi que aquele rapaz se tornara.

Até que permitisse um mundo de possibilidades derramado sobre si,
Tentou a partir da ignorância semelhante a do mancebo,
Tentou livrá-lo de algo que estaria até as suas mortes,
Porém a doença findar-se-ia num mal irremediável;
Eme se alumiara tanto que o pobre verme só seguia o calor,
Feito um inseto medíocre, só seguia o calor.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Wakizashis Destruídas

É difícil encontrar a velha honra do hagakure ou catingueiro,
Aquela que o respeito a si mesmo prevalece sobre o respeito de outrem;
Sozinhos,
Desonrados pelas próprias falhas,
Vejo indivíduos famintos por lavouras passadas,
Covardes de mudança,
Ladrando a morte do novo feito um cão manco e sarnento,
Contendo os espíritos gritantes em seus corpos apodrecidos.

Sou Tinta

Feito a prostituta experiente e desiludida,
Na mecânica e expressão perfeitas para o gozo menos tardio,
Fujo do nojo que há muito sumiu;
Sou atriz por desespero
E,
De perto,
Apenas tinta.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Amanhecer

Não sou a folha de papel em branco,
Mas a mim canta a lama pegajosa,
Entontece-me a fim de mudar-me à direção deste rio fantasma
Tão parecido quanto onde fui.

Não sou mais a iniciada,
Nem desejo a ressurreição:
Eu quero neste planeta;
No outro,
Não!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Linguagem Linear ou Papo Reto

Parece até um amigo próximo
Com as suas estórias repetidas,
Os poucos clímax de sua vida-
Exacerbados aonde não seja fábula,
Ou quase isso,
Ou nada disso.

A Mensagem

Preciso dormir para recriar-te
Tão descompassada quanto o que impões sem querer,
Mas voltas,
Insistes nas sentenças de longos hiatos entre si
E espero;
Indeciso do tempo até a obturação da luz,
Espero.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Epitáfio

Dos rebentos degolados no que deveria ser berçário
Mal me lembro;
Talvez das mães e irmãs estupradas antes do dia de visita,
Dos pais renegando a aberração que criam desviar o universo,
Das fornalhas que os queimavam a lembrar um dia feliz de domingo
Eu me lembre,
Vagamente,
Por rotina abstraído.

Talhada neste pequeno bloco de pedra pobre,
Resumem-se as 77 translações de nada findado por mim mesmo para,
Enfim,
Nihil para sempre.

Fadinha de Açúcar


Não fugirei daqui, não,
Pois te espero,
Ratazana,
Com os sapatos nas mãos.

E se lembre que é sonho,
Que a ilusão é Clara,
Que é epopeia em russo,
Que o bandido nasce em alguém para ser esmagado.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Da Convenção

Não tão afoito, garoto,
Pois é vilão o do pior merchandising.

O Músico Pragmático e o Matemático Criativo

Desapega-te dos códigos,
Pois seus limites não são os teus.

Quando Ela Aponta na Porta

Ela é burra de doer,
Fala mal e odeia ler,
É fluxível feito a grande maioria-
Vende todo o alheio cobrindo-se do mesmo e sem si mesma,
É altruísta em excesso-
Uma egoísta idiota feito qualquer altruísta,
É pintada para ser medíocre-
Cumprindo a amplitude que a indústria oferece,
É fácil,
Volátil,
Milimetricamente infeliz,
Mas quando aponta na porta,
Meu amigo,
Quando ela aponta na porta,
Cala o mundo e sabe disso!

A Mensageira

Ele,
Do couro de fêmea túrgida de fértil,
Tinha aportado para a fonte do desejo até que suou feito homem,
Fétido e grosseiro feito homem:
Foi escalpelado em praça pública para que os demais afirmassem o próprio pseudocontramor,
Mas o titã já havia se destronado à doce voz da harpia tímida e infeliz.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Fim de Semana no Circo

Comemorar-te-ei desde o princípio,
Mesmo eu morto,
Amor previsto,
Pois verá sonhos demais a extinguir-se,
Anátemas eclodidas após o esquecimento,
Surpresas aguardadas, espectáveis, falidas,
Você mesmo a render-se para que não se comprometa.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Mistress of the Processes ou O Feto

Olha para a deusa, olha:
Fica embasbacado enquanto ela te masturba!

Luiza

Ela está lá pra todo mundo ver,
Caindo em si acerca da ilusão
De uma pouca certeza presa à compaixão;
Quase cansada de tanto morrer.

Ela está lá pra tentar existir
Mesmo numa essência resgatável ao suor,
Na ausência pelo aborto no dia anterior,
Na lágrima naquela paz.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Doença Nova

Porque calar sem medo seria lastimável,
Uma promessa descabida,
Uma falácia num hiato da vida.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Até parece que um não sabe do outro

Amo phishing;
Fisga-me,
Tô facinho e cheio de tesão pra embolar esta linha.

Idolatro a mentira,
Daquelas que arrebentam a razão dos animais;
Mente,
Endosso-te.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Dos Pesados e Desfuncionais Mecanismos de Defesa

ATO I


A tua vida embaçada num caco de vidro:
O risco acontecido,
O vício do medo;
Um pouco de nada estilhaçado.

ATO II


Quebrar a cara é muito fácil,
Custa mui caro,
Mas é só assim.

ATO III


Segue, enfim,
Viral humano,
Boiando leito à foz,
Comprimindo-se na muvuca da Estação da Sé,
Desfazendo-se da criança.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Pobre Eugênia

A loucura não é bonita, nem opção é; aparece de repente e estupra. Tentei namorá-la várias vezes, cortejei-a animado pela possibilidade de tornar-me único, gritei, sussurrei, chorei para que me carregasse, porém, ainda quando a buscava, a infeliz já me tomara o corpo e a alma, a crença em mim e no mundo.

Não há por que atuar se não existe a realidade que me admire, afinal, tudo se tornou, decepcionantemente, atuação. Se quase louco atuei até o último segundo, agora não sobrou muita coisa além de um estúpido primata que só não morre pelos instintos que o privam desta graça, mesmo que o desarranjo da insânia quase sempre tente isto desfazer.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Chavão Nº 12

Caminhei descalça a exigir as minhas pouquidões;
Queria tudo ou quase tudo,
Queria o mundo ou quase isso,
Queria-me fora de tanto doer.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Nega

A dona da minha rua nem sabe que é;
Ansiosa por uma mudança, nem sabe o que é.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Os Tipos da Doida

O signo por uma gama infindável de emoções,
Todas que brilham os olhos,
Todas que findam as dores,
Vêm consigo adolescente
Em seus ultimatos por segundo.

¿Quem se habilita?, ¡Briga jamais! e ¡Estou ocupado!

Ela,
A feiosa filtrada pelos cinzas - sem muito resultado,
Continuava a ladainha errante e os golpes no vazio,
Porém,
No desprezado lugar comum,
Com um pouquinho de endorfina, calor e suor
A gorda pensaria em coisa mais interessante.

Um Borrão

Fazer-se entender mesmo marcada pelo aroma do berço?
Menos hipócrita,
Claro!
Chamego de gente:
Cusparada no insípido,
No morto,
Na rede sem povo,
No borrão.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Receita de Bobo

Decorou Vozes d'África,
Castro Alves,
Vestiu-se de palhaço e declamou aos quatro cantos do colégio
Como se fosse a coisa mais importante do mundo.

Apesar dos comentários que não mais se importavam com o disfarce,
Só os doidos são felizes!

Mitra

Se não parei a tormenta urgida aos meus berros,
Foi por não ser mais minha,
Ter rebentado a própria alma.

Mas não posso mentir,
Para ti não posso:
Foi saboroso o absurdo da morte,
Cada uma das fragilidades desnudadas,
Toda a peste cobrindo as divindades!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Respostas Possíveis

Porque nunca soube amar,
Sequer pretendi;
Tentava capturar todas as sinas enquanto a minha besta não sussurrava.

Porque me distraí caçando mariposas encegueiradas pelo dia,
Estas tais que se criam borboletas vagabundas;
Apenas mariposas, traças...
Perdi bons anos descrevendo hábitos tão estúpidos quanto os meus.

Porque você não vai ao inferno,
Ou vem.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Azar num Nó

Visto que as feridas estão mais expostas do que a própria libido,
Eu consentiria as vestes sobre a alma envergonhada,
Mas por que não dançar sobre as fronteiras?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Quid Pro Quo

Diante de tanta magniloquência por um
"Vamo ali, me alivia!?",
Eu já tinha acendido e fumado um, dois, três cigarros bem guardados na algibeira,
Sorrido acerca do desfecho de uma, duas, três piadas resgatadas da memória
E me agarrado ao bom sono que aquela prosa chata me causava.

Ogum Traído

Eu tô Ogum traído pelo irmão,
Preso a tudo que nunca estimei.
Eu tô amarelo, verde e violeta
Destemperados aos ventos felizes.
Eu tô ao centro do que quis falar,
Mas sou segundo plano de nós.
Eu tô ao centro,
Escondido,
A chorar.
Eu tô Ogum
Acuado a matar-te de mim.

Tempo Estimado de Sobrevida

Foste tu que me possuíste,
Juiz meu e por minh'alma declarado,
Porém,
De tudo conotado à pluralidade,
Definhaste,
Foste obumbrado a desvio de prima inspiração;
Logo tu que a nutriste até as cópias de nós mesmos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Quarup

Não chute o morto, Zé,
Ele tá morto, Zé!
Diz uma mentira, Zé,
Que eu nunca ouvi,
Pois se eu quisesse pintar estes sonhos
Usaria ânima em pó
Diluída em baba de moça ou demônio.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Negue

O Diabo é um Ernesto
E Castro foi Deus,
São Paulo é fúnebre
E a Sapucaí é o puteiro mais chique e democrático do mundo.

Capítulo Próximo

Para que te prendesse por um segundo,
Devorasses-me sem perceber,
Armei-me de medo inconho à fome,
Amei-me desmedida às dentadas, unhadas, grunhidos e espasmos.

Tavas lá, tu,
Mal-ajambrado e aos brados de vitória,
Gotejando-se sobre a minha carcaça fresca.
Tavas lá, tu,
O dono do fim:
O seguinte.