quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pedacinhos

- Deu-se quando tentei ultrapassar sem sucesso a porta do meu lar... Não sentia as mãos, pareceram-me pedras enquanto esmurrava as paredes a fim de notar qualquer formigamento; quebraram-se não sei quando, em algum momento da progressiva imposição de força, e os pulsos cambaleavam livres ao redor dos antebraços ornados por sinas pavorosas. Por um instante brinquei, retornei ao jardim de infância a sacudir os membros como malabares em minha fantasia. Inflamados seriam lindos, pensei, e assim ficaram; ateou-se do desejo a flama que consumiu tudo, corpo e lugar. Eu e tudo, então, éramos casca, e feito casca fomos erodidos pelo vento, uma brisa, digo, que separava lentamente alguns pedacinhos de mim, ou do tudo, ou de nós.

- Desapareceste, então?

- Não sei ao certo, não enxergava ou dispunha de qualquer dos sentidos corpóreos, mas me sentia aqui e ali: migalhas comidas por engano por terem caído num prato de feijão, outras a contar automóveis por estarem pregadas ao asfalto ardente de uma cosmópole que não reconheci, e ainda havia aquelas que apenas planavam, de um lugar para outro, sem direção.