segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Existe?

No simulacro,
Aos predeterminados limites amplitudinais e fracionais,
Ao predeterminado algoritmo para a potência pseudo-aleatória,
A nascente de processos pensa,
Acredita até ser verdade o que pensa e vive,
Porém depende de uma predeterminada semente,
Anteriormente potenciada em outra nascente ou não,
E depende também da nova semente retroagida a partir da anterior nesta cadeia de nascentes:
A nascente respeita a arquitetura universal a crer-se, ilusoriamente, independente.

domingo, 29 de novembro de 2009

Göttin der Traum

Se eu desejasse paz,
Não geraria filhos.

Macho Capado

Com um pinscher sentado no antebraço, o senhor entrou no posto de conveniência. Enquanto o cachorro aparentava assombro pelo ambiente inóspito, o gordo nanico comprimia os olhos por trás do fundo de garrafa na direção dos salgadinhos e geladeiras. Foi até uma das prateleiras e pegou um Elma Chips, abriu uma geladeira e carregou uma Coca-Cola. Guiou-se à vendedora e pediu:

- Um maço de Marlboro, por favor.

Enquanto vasculhava uma das gavetas do móvel que amparava a caixa registradora, a moça, sorridente, tentou romper a sisudez do homem:

- Ai, que bonitinho! É um menininho ou uma menininha? - referindo-se ao cão.

- É um macho capado. - respondeu, o indivíduo, com frigidez.

- Ah, então é quase uma menina! - ainda tentando motivar um sorriso do idoso, exclamou a rapariga assim que retirava um maço de cigarros de um pacote recém-inaugurado ao varejo.

- Não é subtraindo que se torna fêmea.

Ovelhas

Cala a boca, cadela,
Não trema,
Não chore,
Não morra!

Desvenda a rua, puta,
Recria a tua culpa,
Engole a porra,
Recebe o pagamento
E toma um porre!

sábado, 28 de novembro de 2009

Pelo Caminho

Talvez, se pudesse esperar
O desenlaçado da tua vida enlaçar-se em sentido,
Não esperaria;
É tanto horizonte que esqueço o resto.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Híbrida

Sigo calada, vil,
Pois esqueço se sou a outra da carícia que lhe cabe,
Aquela que des
caminha outrem imersa em si mesma.

Aguardo
sonolenta, suja
Pela aurora trepidante, largada
Sem pena
ao sereno, cumprindo
A ordem nenhuma do
vazio.

Precinto-me amarga, volvida
À castidade, breve
Aos chama
dos, louca
Em qualquer um dos
meus versos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Renda do Norte

Rumores de luta,
De sangue às avessas,
De medo,
De fome,
De sonho planando em outro.

Dolores ocultas,
Rompidas ao mito
Sereno
E prolixo
De um povo que há muito se foi.

Tudo se despia enquanto eu,
Aqui,
Neste mesmo lugar,
Trêmula ao tom grave e timbre rouco a pulsar sobre o meu colo,
Não preferia por não pensar a respeito.

A Moça

Ela chegou vestida de azul,
Aniquilando o marasmo,
Constrangendo a feiura.
Prosseguiu tão clara quanto o dia,
Mas sem o horizonte cinzento,
Sem os berros do aço.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Fim do Mundo

É tanto rebuliço por essa lama preta
Que nem mais me importo com a nossa decadência.
Não é o fim do mundo,
É o do nosso, sei,
Portanto,
Pelo tempo de um,
Roubo o tempo de todos.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Deselegância

Assim,
Sufocados por um paraíso inalcançável,
Furtamo-nos suicidas,
Cumprimo-nos sem prazer.

Então
Descobrimos a mentira
E mentíamos pretensiosamente por qualquer alívio,
Mesmo que alívio curto e aparente:
De tantas curtidões outra mentira;
Fundia-se outro lastro de nada.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Der Übermensch

Talvez nem tenha o que montar,
Pois o meu homem perfeito é uma bicha enlouquecida,
Desconstruído ou puro.

domingo, 22 de novembro de 2009

Transparente à Camisola

Cheguei a sorrir,
Mas doía...
Tentei não a permitir que pisasse neste mundo
E outro construí;
Chegou a ser habitável até que eu o inflamasse banhado a óleo,
Tornasse-o um irresistível chamado à dúvida.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Arcano XIII

Quando pensei estar segura,
Aninhada à alma de minha usura,
Havia me cansado:
A alma,
O corpo,
Os toques,
A fome;
Previa tudo,
Não queria.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Imbécile

Pois,
Disse-te que faria;
Farei.

"Pourquoi travailler ?": perguntei-me, então...
Acho que te amo,
Sei que te quero.

Vórtice

- Os trabalhos estão fechados! - avisou a cafetina velha
a coçar por entre os seios fartos e caídos.

Senti-me num sítio banal às pornochanchadas setentistas
Ou aos contos crus-de-fechar-o-livro de Bukowski,
Porém fiquei mais um tempo,
Busquei indefinida brilhância,
Afoguei-me naquela mesmice.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

The Big Deal

Preciso levar-te a determinado lugar
Com determinadas pessoas
Para falar-te algo que seja, ou só pareça, espontâneo.

O Monstro

Desintegrou partes até que restassem ossos
Como se ossos fossem cerne do que buscava,
Buscou a própria alma num toque delicado
Como se espelho não se tratasse de grosseria,
Vasculhou o desespero no seu reflexo comum
Como se tais retalhos nos dissessem alguma coisa,
Adornou fonemas e superfícies já usadas
Com uma falta triste e quase sua,
Mas ainda era monstro.

Jamais Montada

Quando Anete chegou,
Mal sabia sorrir e muito menos esquecer,
Não tinha as roupas certas
E andava à tortuosidade;
Os pés apontados para fora
E os joelhos deformados para dentro
Envergonhavam as demais garotas
Por estas, de alguma forma,
Sentirem-se iguais,
Convencionarem-se plausíveis a uma pressuposta medida mínima de pureza.

Todavia,
Enquanto sussurravam entre elas acerca do desleixo e do incabível,
Tudo aquilo bicho se voltava desejoso à maneira xucra de Anete,
Todas aquelas feras se esgueiravam ao compasso evasivo da prenda então presa;
Caía o mundo das putas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Hipócrita e Dissimulado

Feito o germinar de qualquer em terra rossa,
Vinga facilmente,
Suporta quase tudo que não seja gente,
Abriga-te fresca,
Acolhe-te à sequência e à sobrevivência.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Demonova

Cabia-te o sereno,
As estradas vazias
E a sede de mim.
Dizia-te, a saudade,
Que o menor segredo seria mortal.

As tuas mãos de pele flácida e enrugada,
Que passeavam egoístas sobre o meu corpo,
Machucando os meus seios,
Arroxeando as minhas pernas,
Mais me serviram de medo;
Tornaram-me tu.

domingo, 15 de novembro de 2009

Pales


Se tudo conspira para que não sejamos uma ilha sombria,
Mas cantantes harpias cansadas de matar,
Olha-nos, agora, antes que comecemos a copiar a nossa própria alma,
Toca-me,
Aflora o teu ódio,
Semeia o ventre declarado seco por Zeus.

sábado, 14 de novembro de 2009

Eu testo mentindo
Ou minto que testo;
Eu falo cantando,
Meu bem,
Eu não presto.

A Aparição


O meu pulso pintado de dúvida,
Íntimo a desvencilhar-se dos agasalhos,
A degolar afagos lúcidos de quem finge não estar perdido,
Não te criou,
Salomé,
Não preenche em suposição os teus vazios em minh'alma,
Rende-se a instigar os teus limites.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Silêncio e Fuga

Seria para agora
Se eu te aprisionasse às amarras inexistentes da memória,
Se ao corrompimento deste crime perfeito não definhássemos ante o amor.

Não sei se adiante
Todos estes sepulcros poderão explicar-nos acerca desta ânsia,
Sobre esta renitência fantasiosa que suplicamos real,
Portanto,
Jamais julgaria a tua autoproteção, silêncio e fuga.

Controle

Sim, a cozinha nos fez humanos,
O controle sobre o que só o medo e o amor podem fazer.
Sim, o desejo nos fez profanos,
O controle sobre o que nada poderia responder.

O Ritual

Após deixá-los de molho em uma bacia com água por pouco mais de dez minutos, antes do fim da novela das oito, punha cada um dos pés por vez sobre o colo, coberto por toalha, da esposa e se desligava de toda a podridão enquanto ela esfoliava a recorrente camada de pele morta com as pontas das unhas. A cada grande pedaço dependurado por uma tênue película, o senhor aguardava o puxão seco da cônjuge para um suspiro curto de prazer, porém, às vezes extirpado antes do tempo, o pedaço de tez ressecada, abria-se uma sina acompanhada da dor aguda e do grito: "Caralho, mulher!" E esta torcia os lábios numa careta para repreender. "Quer que eu pare?": sempre a perguntar ao marido, e o mesmo, resmungando algo inteligível, concluía o código para que o ritual prosseguisse.

Ponto sem retorno

- Incomoda-te, amor,
Para que tenha valido a pena!
Anos a fio desejando queimar a própria obra
É que a faz ter valido a pena...
- instigou-me Rubi.

Vivamos

Buscaremos o problema,
O vértice de nossa estreitura,
Para catapultar o betume em flamas a quaisquer que sejam os castelos,
Mesmo que não planejemos deixá-los até a morte;
Sejamos heróis de bisnetos,
Afinal,
Vivamos.

Engrenar-nos-emos nesta compaixão meticulosa,
Ejacularemos o nosso ácido nesta peça podre
Para que digamos a nós mesmos que a manteremos viva;
Sejamos ladrões de nós mesmos,
Afinal,
Vivamos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A Rapariga

A rapariga não é gira,
Não sabe cantar
E nem escrever;
Não,
A rapariga não é morta
E não é como se fosse,
É só uma rapariga.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Óbvio

Tá tudo assim meio qualquer coisa,
Teatro, japonês, trânsito e você sobre mim até dormir.
Tá tudo assim feito fluoxetina,
Novela, futebol, faxina e você sobre mim até dormir.
Tá tudo assim que nem a Rua Augusta,
Cinema, travestis, viciados e você sobre mim até dormir.
Tá tudo assim tão chato de matar,
Cacofonias, colisões, ecos e você sobre mim até dormir.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Antes Asas

Conheceu-a numa viagem de metrô quase vazio
E puxou uma conversa sem graça,
Talvez insuportável,
Na curiosidade mórbida da descoberta
De uma moça tão bela sentada em uma cadeira de rodas.
Falou de coisas simples
Que sempre acontecem por aí.
Falou de clima e de pessoas conhecidas,
Desconhecidas também.
Falou da vida.

O metrô reduzia e a moça disse:
- Tá na minha hora, foi um prazer te conhecer! - sorrindo e beijando-o no rosto.
(...)
Do desvio ao matrimônio, dez dias,
Dez dias de aguardo e receio.

(...)

Ela,
Vestida na camisola do dia,
Alva feito a sua pele,
Semi-transparecendo a roupa de baixo - alva feito a sua pele,
Exibindo a direção harmoniosa dos pelos pubianos abaixo de toda a alvadia,
"Seria perfeita não fosse a cadeira", pensou,
Todavia esqueceu a asneira ao canto de Thelxiepia.

Despiu-a.
Despiu-se.
Tocou-a como se não acreditasse no que observava,
Sentia:
Os pelos dourados às pontas dos dedos,
Os murmúrios ofensivos ao pé do ouvido,
As unhas agarradas ao dorso.

Desintegrou-de si,
Pois ela o possuíra
Antes que este descrevesse a intenção de dar,
Antes do medo das pernas zumbificadas,
Antes mesmo de satisfeito e sonolento.

Tempero Insosso

Sou vagante, vagabunda,
Porém ainda vassala do rei;
Virago guapa,
Mas afável,
Prestativa,
Transeunte de uma vida
Suplicante por cores primárias.

Sou hortelã
Exalante ao meio-dia,
E a chuva depois disso,
E o ocaso,
E a noite,
E o sorriso.

Sou o meu fim
E o fim da tua ânsia:
Eu sou menina,
Sou lá fora,
Morta antes de redentora.

Temperance

Por ninguém abrir mão,
Vamos matando os felas da puta
Que precisam comer e morar,
Vamos doando aos profetas e poetas
A semente e a ignição para a prole e a sedução.

domingo, 8 de novembro de 2009

Umbilicus Urbs Paulistana

Não irei falar de mim,
Não serei o que eu sou,
Rendo-me a esta umbra e a esta luz que jamais se misturaram.

sábado, 7 de novembro de 2009

Não ligue pra bagunça

Entre o queixo e o pescoço,
O magnífico golpe cego,
Imprevisível,
Um retrato do reflexo de um espasmo
Casto, se é possível,
Vasto, se em cada ramo de direção.

Big Freeze

Quando Deus se cansou da vida que levava,
Rodeado da mais perfeita solidão
E do seu ócio criativo de quinta,
Ou melhor, domingo,
Tentou o suicídio.

Pelejou,
O danado,
Mas a sua imortalidade era um defeito-
Descobria,
Portanto esperou,
Aguardou endoidecido pela morte de quem realizaria a última extremunção.

Congelando Beijos

O presente,
Morto antes que eu perceba,
Não me falta;
O limite é meu
E,
Por engessar perigos,
Sou mais frágil do que sonho.

Pactum Sceleris

A minha atrocidade padeceria,
Enfim,
Se eu te fosse toda fogosa,
Dispensando o horizonte até mim,
O salto de tudo na energia do vazio,
Porém,
Cansada deste conversê de tias velhas-
Cascudas de futucar feridas facilmente estancáveis
E animadas a cada novo mililitro de pus fedorento,
Procuro outro rumo,
Otário!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Calcinha Vermelha e Violão

O áspero tilintar confundia, traía,
Porém me quedava imbecil à tortura sarcástica da boca,
O arquear-se vaidoso das sobrancelhas:
Não haveria julho, dois ou três,
Pernambuco esparramado à marina
Ou a chaga para nos amarmos loucos à solução.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pedacinhos

- Deu-se quando tentei ultrapassar sem sucesso a porta do meu lar... Não sentia as mãos, pareceram-me pedras enquanto esmurrava as paredes a fim de notar qualquer formigamento; quebraram-se não sei quando, em algum momento da progressiva imposição de força, e os pulsos cambaleavam livres ao redor dos antebraços ornados por sinas pavorosas. Por um instante brinquei, retornei ao jardim de infância a sacudir os membros como malabares em minha fantasia. Inflamados seriam lindos, pensei, e assim ficaram; ateou-se do desejo a flama que consumiu tudo, corpo e lugar. Eu e tudo, então, éramos casca, e feito casca fomos erodidos pelo vento, uma brisa, digo, que separava lentamente alguns pedacinhos de mim, ou do tudo, ou de nós.

- Desapareceste, então?

- Não sei ao certo, não enxergava ou dispunha de qualquer dos sentidos corpóreos, mas me sentia aqui e ali: migalhas comidas por engano por terem caído num prato de feijão, outras a contar automóveis por estarem pregadas ao asfalto ardente de uma cosmópole que não reconheci, e ainda havia aquelas que apenas planavam, de um lugar para outro, sem direção.

A Coisa Hilária de Triste

- Pim, pim, pim! - sem dar trégua ao martelo
E à corda também...
Confeitada pela caganeira pseudo-epistemológica,
A torta, toda torta, só servia àquilo mesmo,
Peça de cenografia,
Clímax de pastelão.

Assim,
Seguindo a feiura sem dor de Federico,
Tinha que ter a gorda medonha a crer-se Rapunzel ou Juliet,
Aquela que toda fé é crida no simulacro da atabalhoada ventura,
Pois somos gente e cultivamos a nossa própria miséria
Em troca de uma gargalhada libertadora.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A Prenda e o Caudilho

A cara de nojenta,
O caos,
A mentira a guiar-me médico,
O sonho a enforcar-me cético,
O amor na inconstância vil,
A camarilha sem um velho ator,
O fulguroso repetente transe
E a voz
Esturrando tudo o que se move.

Camadismos, Fibrismos e Ululismos

Tu te traías
E eu a mim por permitir-te,
Porém não havia traição mais doce,
Complemento melhor à vida;
Destruir-se livre.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Os fios soltos da rede neural

É senhorita do marasmo,
Caraminholando sobre ícones rabiscados em pedras polidas-
Mortos feito aquela gente e a sua tríade
(As suas vilas e necessidades).

domingo, 1 de novembro de 2009

Semitom

Quando desarmei o sabor da lágrima,
Tão ou mais livre do que o grito,
Entendia-a em qualquer estação,
Animando-se a todo amor completo.

Mas amor é imprevisível,
Distorce verdades convencidas e factuais,
Torna-as nojentas por proteção
E,
Talvez,
Faz da mentira redenção.