domingo, 2 de agosto de 2009

Fragmento de Velório

Achei aquilo uma falta de vergonha! A comadre debruçada no caixão, chorando a morte do esposo, e o povo pedindo pra se adiantar porque tinha outro morto na fila. Vê se pode? Nem morto escapa da tal da fila: pelo menos, depois de passar a vida toda atrás da fila, o compadre Josias conseguiu ficar na frente; morto, mas na frente.

Pra variar, quando voltava pra minha casa, depois de tentar consolar a comadre lá no fim do mundo onde ela mora, me aparece aquele rapagote metido a besta que sempre me olha dos pés à cabeça. O danado me chegou e, pela primeira vez, resolveu falar alguma coisa: contou que sempre me via passar por ali, que não me conhecia, que o nome dele era Amarildo, que era solteiro, que me achava bonita... Então me diga aí: Eu, Maria da Anunciação Sá Pereira, baiana, do lar, mãe de três galalaus e viúva do único macho que me tocou, me prestaria a um serviço desse? Soltei um "cê me respeite, pivete" e quase lhe esbolachei a cara, mas sabe lá quem era o tal? Àquelas horas e naquele escuro, não confio em ninguém, nem na minha valentia.