segunda-feira, 31 de agosto de 2009

ابتسامة

Ela mora no deserto,
Alegra-se quando vê nuvens,
Entristece-se pelo mundo não desaguar em seu peito,
Anoitece-se feito as flores que cultiva a respirar do avesso,
Ama-se sem saber e precisar,
É-se.

Rara Felicidade

Não perdeste as nuvens,
Ainda hão de chorar em teu céu desértico.

Após o Costume

As assassinas têm mais peito,
São mais fartas,
Fartas de tudo;
Revelam-se frágeis debaixo da pintura monstruosa que a convenção as impôs,
Suportam-se hábeis na sobrevida de deusas demonizadas,
Permanecem.

domingo, 30 de agosto de 2009

Vagabunda

Não mais te quero,
Não mais te sinto,
Amor,
Não mais te busco a dor
Para fazer-te em mim.

Não obrigada!

Se é só por isso:
Um cerne de feromônio,
Uma caixinha de porra,
Uma marca vaidosa;
Não, obrigada!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Después del Burro Muerto

Chegou, assim
Como quem não quer nada, assim
Golpeando-me em desculpa, assim
Roto por uma briga, assim
Fedendo a cachaça, assim
Bem distante de mim.

Oscuridad

Nesta voz em que só há inverno,
Esta voz de roucos timbres nus,
Esqueci-me por tudo o que quero,
Esqueci-me,
Meu bem,
Devaneado num lugar qualquer.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Los Amores Grises

Tenha em mim a fé
De tudo à sede de viver,
Dos laços atados para sermos,
Da gana insensível por esta luz dolorosa.

Моя сладкая иллюзия

Seduzido,
Repetia feito bobo os jargões que eu encenava,
Tentava tocar a minha semideusa mesmo diante do perigo,
Sofria para sempre em um minuto - feito um homem qualquer.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Sem tempo para a fúria

Se precisei morrer todos os dias,
Parir todas as noites
E nascer à fome,
Isso não me bastaria se ainda há esses olhinhos ressecados de falta de tudo,
Que nem lágrima vertem;
Essa expressão renitente,
Insistente feito o vento a talhar,
Afogando-se em si necessária.

Resolução

Não é preciso,
Nada é preciso,
Não há resolução:
Tudo já é resolvido.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mesmo Eu

Torno os meus olhos cegos
À direção dos sons e aromas provindos de quem congratulo.

Be Right Back

Mesmo que me entenda só,
Caminhando só,
Espero te reconhecer em meus contratempos;
Sacrificada por ti mesma,
Adornada por teus caprichos.

trojanlib

Pedi para vê-la durante o dia,
Distante das benfeitorias guiadas pela Lua,
E,
Sim,
Beirava a perfeição.

domingo, 23 de agosto de 2009

Rojos y Morados

Rendeu-me os lábios,
Morosa,
Quase a prosa em verso,
Sempre ao que peço no instinto:
Doçura, enfim, num rito.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Apaguinho

Onde esteve este pedaço de tempo,
Aconteceu?
Tão pouco tempo,
Quase nada,
Aonde a vida fugiu acordada.

Onde esteve a palavra que faria sentido?
Não me senti,
Não caí,
Não acordei:
Avancei sem mim
Ou apenas reapareci.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Austera até que se torne criança

Não nego,
Senti estranhamento:
Aquela mulher temida,
Sisuda de tudo,
De porte,
De ordens,
Metamorfoseava-se em feto sobre o meu colo,
Nascia chorando e crescia em pedidos até antes de si feito gênero.
Chamaria de estupenda atuação
As vozes agudadas e diversas,
Mas acredito na minha crueldade;
Era aquilo mesmo, meu Deus!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Meine Succubus

Dissimulada em sua bruma
Vermelha,
Quase um arrepio,
O prazer do suicídio.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Miúdos

Eles apelidam feito um miúdo,
Com o génio agressivo dos miúdos,
A tentar fazer pensar não serem miúdos
Desejosos pelo aconchego e pela ponte com a mãe,
Mas são.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Estímulo

Contra a minha vontade,
Tomou o meu corpo feito bicho;
Com os dedos rombudos marcou as minhas coxas,
Com os dentes pronunciados arranhou os meus caprichos.

Pela minha temperança,
Traí-a aos golpes pelo vazio ou bloqueados,
A esvair todo o motivo,
Tateando a escuridão de mim assim que me entregava.

Tentei repugná-lo,
Atrair toda memória pelo nojo,
Mas até isso o cansaço me tirou:
Por um momento,
Para que me envergonhe,
Quase adormecida,
O estímulo me encantou.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Coração de Manteiga

Estamos bem chatos,
Um porre:

Demonizando demônios românticos,
Aniquilando anti-heróis charmosos
E censurando pragas destemidas,
Sem o aporte,
Nenhuma redenção da sagrada bondade mentirosa que sugere a nossa crítica nauseabunda,
Estamos chatos,
Sacais!

Contradições Necessárias

Disse-me ser necessária a vastidão para a devassidão dos arcaísmos e dos métodos mecânicos adquiridos, mas até no Olimpo havia mais deuses do que árvores onde a mesma se alimentava. Embora cada árvore ser ramo de três ou quatro córregos, intersecção de uma ou duas centenas de aves e oito ou nove milhares de invertebrados, de toda aquela primitividade nutritiva se enojava, devorando apenas o rubor da carne que cobria os frutos de mesma espécie.

João e Maria

Se nem tudo que merece alcunha existe,
São meras migalhas de pão
Esparramadas à relva para que não nos desgarremos duma sobrevivência abstrata,
Por que dar nome às bruxas?

Ademais, por que bruxas?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Amostras

Ruas frias e de gente quente, congeladas;
Salas quentes e de gente fria, acaloradas.

Epitáfio de um Cibercangaceiro

Você,
Meu rubi de alicerces frágeis,
Minha pequena porção de sonho,
Não precisa me pedir a imortalidade:
Transpira-lhe,
Condena-me.

sábado, 8 de agosto de 2009

Antes da Noite

Ainda morno,
O sangue envenenado da grande dama era distribuído a todos:
Muitos ainda tentaram sentir o aroma frugal da profetisa no pouco que lhes coube,
Porém não havia tempo e,
Antes que cessasse o encanto,
Entrevaram-se.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Assassina

Há que quase vê-la, Senhor,
Dissolvendo-se em qualquer cenário,
Corrompendo-se aos chamarizes,
Acalmando com o seu flerte as sombras zangadas pela réstia de luz.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Animal Comum

Para saber se te arde o corpo,
Corrompe-te a suavidade da dança um murmúrio,
Enrijece-te a pele imaginar passos seguintes,
Voos sem quedas por mandá-las ao inferno,
Lápides de aflição,
Animal comum.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Destemer

Ri e se envolve,
Revolve a vida,
Devolve o caos,
Pertence-se.

Il Lupo

Pronta para fugir do risco de ser mulher,
Permaneço desfazendo o calor absoluto a tudo o que conheço,
Desafio o instante de putrefação das minhas extremidades de verbena.
Reclamante da minh'alma,
Fugida com um desafio alheio por alguns trocados,
Peço-a ao Sol por tanto luzir
E à morte por tanto parir-me,
Mas,
Sim,
Jamais te pediria este encontro.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Pragma

Percebendo estreitar-se o mundo,
Caindo aos golpes da embriaguez ia.
Quase desejando desfazer-se do primeiro,
Contrapondo-o pelo segundo e urgente,
Observava os cantos por um jeitoso
Apesar de qualquer coisa parecê-lo...
Poderia deitar e dormir,
Mas tinha sonhos ressentidos,
Uma coragem descomunal
E nenhuma fé no erro.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Árvore

Ainda reclamam dos rumos,
Os tais Narcisos das traças,
Esperneando soluções impossíveis e inseduzíveis à nossa gana primata,
Produzindo cascões horrorosos sobre feridas bem feitas,
Daquelas de aleijar ou matar.

Ainda proclamam um resgate,
Os tais Apolos de merda,
Duma dignidade floreada pelo desejo de arranhar os céus com a cabeça enfiada no esgoto,
Duma idolatria aos arquétipos descritos em cadáver que também batem tambor em terreiro.

Ainda se mijam de medo,
Os trogloditas adestrados,
De cambiarmos facilmente a paniscos munidos de alavancas,
Rodeando o que interessa para nos mantermos vivos.

domingo, 2 de agosto de 2009

Fragmento de Velório

Achei aquilo uma falta de vergonha! A comadre debruçada no caixão, chorando a morte do esposo, e o povo pedindo pra se adiantar porque tinha outro morto na fila. Vê se pode? Nem morto escapa da tal da fila: pelo menos, depois de passar a vida toda atrás da fila, o compadre Josias conseguiu ficar na frente; morto, mas na frente.

Pra variar, quando voltava pra minha casa, depois de tentar consolar a comadre lá no fim do mundo onde ela mora, me aparece aquele rapagote metido a besta que sempre me olha dos pés à cabeça. O danado me chegou e, pela primeira vez, resolveu falar alguma coisa: contou que sempre me via passar por ali, que não me conhecia, que o nome dele era Amarildo, que era solteiro, que me achava bonita... Então me diga aí: Eu, Maria da Anunciação Sá Pereira, baiana, do lar, mãe de três galalaus e viúva do único macho que me tocou, me prestaria a um serviço desse? Soltei um "cê me respeite, pivete" e quase lhe esbolachei a cara, mas sabe lá quem era o tal? Àquelas horas e naquele escuro, não confio em ninguém, nem na minha valentia.

Traidora de Mim

O terror anacrônico,
O parto,
A efígie presa aos sentidos,
Os mortos todos ao redor,
A desconfiança,
A minha estupidez:
Feito antes que eu pensasse,
Concordasse com o silêncio,
A paz,
Nutrisse-me de um amor primitivo.

Pu-los em risco por mim,
Por eles,
Por qualquer diabo que nos parta,
Grito que nos salve.

sábado, 1 de agosto de 2009

Dança dos Mudos

O processo pai não é o profeta
Nem o profetizado,
Mas a profecia:
Do tom ao andamento.

Agonia VI

Olho para cima;
Minha cara,
Meu corpo,
Minh'alma,
Tudo!

Olho para cima
E minto para não ver,
Mas está lá,
Pronto para me conceber,
Assíduo em suas caraminholas orgânicas,
Impregnado em meus destemperos e traços.

Olho,
Só olho:
Conformo-me?
Há vezes que sim,
Noutras compito contra mim mesmo,
Há ainda aquelas que penso em dar-me o ar da honra,
Porém prossigo,
Vendo-me repetido.