terça-feira, 30 de junho de 2009

Descrição

Definimos em cada, debatemos e sintetizamos
Definimos em todos, tudo e nada
Morremos
Ressuscitamos e nos auto-nomeamos
Clonamo-nos
Entristecemo-nos opulentos e deprimidos
Morremos numa gaveta crida tempo e lugar
Clonaram-nos.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Logos ao Mito

Está tão morto que é necessário protegê-lo,
Defender a sua honra da ignorância de nós todos,
Enforcar aqueles a cuspir em suas escrituras,
Degolar quem ousa violar os afrescos de Miguel Ângelo.

Antes revoltados,
Agora, novamente, voltados ao nada.

Zazá

Quem iria adivinhar
A cor das próximas meias brilhantes de Isaura?
Marcada por seqüências soberbas-
Afinal, nunca é má a matemática da realidade no conjunto correto,
A iluminada Zazá escreve um caractere e um terço a cada saída à rua,
Dizendo o que pensa mesmo que só os analfabetos ame.

sábado, 27 de junho de 2009

Liguanea

Não havia nada de peculiar em sua técnica:
Conduzia o galo adentro para trancá-lo,
Espalhava um punhado de grãos pelo chão e capturava a mais gorda da granja
A amarrá-la pelos pés com um cordão encardido.

Seria comum à ilha não fosse a opulência do sítio,
O Jardim Botânico Real,
Mas a lida,
Em meio aos dois vira-latas que pareciam adivinhar as sobras do hábito semanal,
Nutria-se de encanto com o velho a degolar e limpar as entranhas da ave com o cigarro de erva dependurado no canto dos lábios;
O início do fim de um jejum bizarro,
Ambientado num paraíso paupérrimo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A Víbora e o Rato

Apesar de arremessos protetores,
Presos a caules e caudas,
É a belicosidade de garras e dentes que a encanta,
É a defesa conquistada pelo golpe que a entorpece.

- Sê a presa, brinquemos! - pediu-me,
Munida do sorriso de aparência atormentada.
- Um piscar de olhos. - parti,
Aceitando o desafio.

Pseudo-Auto-Estima

Sob a pele e o canto dorme a foz de toda a minha inveja,
A lástima a argüir o contimento para a puta feliz.

O Cisto no Organismo, a Pedra na Engrenagem

Um lugarejo fantasma,
Uma aldeia feito as demais;
Convergidas as almas doutro mundo em si,
Tateados os sítios pelas personificações comuns
A cursar vezes infindas alguns versos esdrúxulos,
Esfarelava-se a razão contrariada pelo sexo palpitante e reprimido,
Apodreciam-se os laços e sorrisos,
A clarividência de encontros e despedidas.

Das especulações turgidas pelo ritual,
Do próprio tempo, seu desconhecido difamador,
Nasceu a paz da criação,
Que, para todos nós,
Seria apenas fim.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

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Bem desejei que fosse arcologia fracassada,
Somente a suposição duma metrópole submersa-
Atenas coberta de sangue ou Roma talhada no magma,
Porém vejo o brotar de torres aos golpes dos meteoritos.

Pareceu conto fracionalista,
Fruto a partir dos bulbos nanicos de usura,
Mas nos cativa até que aceitemos o novo código;
Rendemo-nos complacentes à estrutura apaziguadora entranhada nestes pulsos.

Linha Reta e Torta

Restritiva e pura, a graça está na crueldade;
Nutrindo a empáfia da miséria de espírito,
Distanciando-nos de nossa história sangrenta,
Tornamos subterrâneas as nossas praças de guilhotinamento,
Emergimos do lodo que é gente
Enquanto gente como nós nos acompanha.

Louvemos o sinal de indignação:
A ordem da virgem para o amontoado de vermes,
A sigla de besta queimada para sempre no impuro,
O clamor redentor das massas guiadas pelo amor,
O divino aurificado em carnificina.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Política Comunitária dos Nobres Imbecis

Vais de magenta ou púrpura, oposto?
Sei que a tristeza está na cara,
Mas tem fundamento, se é que este desejo:
A chácara de Dona Veridiana virou recanto de machos,
Portanto,
Com muito pesar,
Abriríamos a possibilidade do rosa, meu remate.

Sei que adoras a complementariedade da tua foice ornamentada por mimos,
Mas disto o Século XXI anda repleto;
Repleto de gritos faltosos,
Resgates onerosos,
Pobreza de mim.

Há tempos não te vejo vestido do cinismo da borboleta,
Artifício magnífico,
Quase anti-isto-tudo-chato-de-dar-nos-nervos,
Mas sigamos,
Corretos profanos.

Humor

O espectador ri do que aparentou desviar-se da certeza
Ou simplesmente da indicação deste desvio;
Irônico, sarcástico, delicado, sublime, lúdico ou brutal,
Somos todos uns felas da puta.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Lâmina

Do que faço pelo considerado pouco,
Incandescida por este espírito braseiro,
Não te corromperias até a decadência:
A lágrima planejada é quase real,
Expulsa-se ao remoer-me,
Ressentir-me,
Intentar-te.

domingo, 21 de junho de 2009

Acerca dos Filhos Mortos e Não Nascidos

É só por sentirmos a imortalidade esvair-se;
Esqueci o dia da picula
E não me empolga ser ladrão,
Nem polícia.

É pela constatação da morte,
Das fronteiras a retrocederem vigorosamente,
Do horizonte mais homogêneo,
Dos sonhos menos sinceros.

É a amargura de não ver graça em asas devaneadas,
De não crer,
Do ser sem ser.

Fado

Pouquinho de gente,
Nadica de nada;
Tão alva,
Pequenina ilusão.

Vai alienada,
Prossegue aliada
Às concretudes que finge inexistir.

Ei,
Cansei deste rum de trago rasgado,
Desta prosa de fada fajuta também!

sábado, 20 de junho de 2009

Lucrécia

Por que cuspiria nas cruzes,
Praças,
Cercanias,
Se às personagens a se repetirem durante a humanidade me rendo?

Sou cheia de vícios,
Até a borda de vida,
Antes do céu de temores,
Principado do ódio.

Por que contar estes nós,
Loucos para serem desatados,
Se me expurgo junto aquilo que vai comigo?

Fui cheia de vícios,
Até a borda de vida,
Antes do céu de temores,
Principado de mim.

Os Suicidas

Quem quis salvar a todos
Tornou-se um tirano que não salvou a si próprio,
Quem esqueceu da vida,
Derramando-se na canaleta harmônica de uma vida fértil,
Não se embriagou,
Morreu cercado de limites intangíveis.

Mesmo a retidão,
Gloriosa indução ao não ser,
É-se infinita após a corruptela diante do desaceleramento.

E,
Bem,
O ato honroso do suicida está na morte,
Aos mortos,
Mesmo os mortos que transitam urbes e campos,
Arrastando-se a repetir como se fossem os primeiros,
Fazendo parte da única matéria apodrecida como se fossem os únicos;
Acompanhando-se de solidão.

Rápido

Nada mais do que cartas carcomidas,
Esquecidas sob a poeira da preguiça,
Ignóbeis de tão destemidas.

Nada mais do que lembretes,
Desses anotados antes que se furtem,
Rascunhados para nunca se definirem.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Corpo e o Fracassado

Meu corpo farto que odeio,
Repleto de sinas,
Vermelhidões sem tratos eficazes,
Não me importou durante os dias em que tive aquele homem.

Dançarino inábil,
Admito,
Conduzido por Tânatos até quase o sucesso,
Desviando-se fracassado da minha sede vaidosa de mostrá-lo meu,
Porém cego,
Talvez míope de entorpecido,
Corria a carne contra a minha sem pudores.

Pedaço de Carne Podre

Não estou muito preocupado com o desejo dos deuses,
Nem com a tal da hermenêutica booleana,
Pois a linha é tênue,
Fractal,
Contorce-se ao infinito sobre um lenço de papel.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Dos Licores Amargos do Olimpo

Ah, a divina xoxota morna e úmida:
Pulsante,
Carente,
Espectante!

Céu Riscado de Ócio

Apaixonei-me por asas intangíveis de ágeis,
Magníficas a escalar as colunas de som da urbe;
Se é que se furta nas rápidas aparições diante do acinzentado,
O espanto,
O torpor de quem clama treva menor,
Talvez justifique o apelo sangrento,
O corromper-se profano.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Já Passou

Sonhos para enganar insones,
Corruptelas para afligir temporais;
Gal é a mulher dos meus desejos
E Chico, o homem.

Onde estou agora?
Sabe-se lá,
Nem eu sei;
Quem sabe em Nagóia a fim duma exibição,
Ou em Londres para vender as minhas almas.

Horrores expostos,
Bucetas à mostra,
Distâncias para ver,
Tempo nenhum para sentir...
Onde estou agora?
Nem sei,
Já passou.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Mova

Estou assim, receptiva:
Metade dádiva e outra sacrifício;
A pele contraída de frio e excitação,
A voz rouca de tanta manha e tanto chamar.

Prazo de Queda

Por quantas almas habitar,
Quantos nomes carregar,
Neste tempo escasso sou o amor na tua ironia.

Há tantos desejos nestes trilhos sofrendo à chegada,
Inúmeros impérios nestas tábuas transfixando a verdade,
Que numa cópia encontrei a minha paz;
Pendurado num poleiro,
Adormecido ante a fome.

Acerca da Expressão

Desamarra-te,
Solta o pulso do tecido,
Curva a parábola do braço,
Salva a alma que te berra,
Sê.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A Minha Turma

Na minha turma não tem peregrino,
Corações festivos
Ou dias normais;
A minha turma não me tem,
Nem estou por estar,
Sequer desisti.

domingo, 14 de junho de 2009

Desapego

Quando descobri a ineficiência das tonalidades,
Percebi que o namoro entre luz e treva ressuscita nas complementares.
Quando rasurei sem água o traço,
Assassinando o limite da matemática sem frações,
Despertei do ventre onde havia me enforcado;
Não se finda o grito de um metal,
Invade o outro sem compromisso,
Cessa-se assim que alma o permite.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A Rosa

Mesmo que eu não queira,
Molde para qualquer par de olhos,
Motivo dos fins embuçados,
Mote de decisões estúpidas,
Imperdoáveis.

Sempre oculta,
Refletida e magnífica,
Corrompendo as belezas vizinhas,
Acinzentando-as,
Que força teria arrancada da lama?

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A Impressionista

A Luz Que Não Veio

A gente se encontra na treva,
Distante da seda que um dia teceu,
A amar cá, na pele longe de vícios,
A não ser um infinito proposto por Deus.

A gente concorda com a mentira
Se se virtua,
Acolhe o demônio
Se este se comporta feito mãe,
Mata
Por um segundo a mais.

Canção Criptografada

Sircom fá dacê deprê
Batim dadá pem cecê
Farritradum dom laó
Perê cramubê bangó.

Zizi pa ziri guidu
Pitimba coté zulu
Sompê lá cotô sarri
Azuma nerê banti.

Fondutra capê xitru
Messina dadu cambu
Lalona mamê pendá
Carrido xicu lilá.

Draprosqui tsapi raivim
Mitsana gravar taimim
Coplesco xanterafux
Diniexo azimarrux.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Virgo

Foste trajeto pobre para esta distância lunar,
Pois,
Do desejo moribundo ao desfecho aliviador-
Definhante do formal pela fúria da verdade,
A essência divina em tuas mãos desaparecia,
Solvia-se no transe passado de quem sofreu.

terça-feira, 9 de junho de 2009

La Rubia

Ela observa,
Absorve todo o íntimo
Com um ímpeto temperado a Bakunin;
Pergunta,
Pergunta-se,
Refaz-se.

Ela alumia a calhar para a própria luz,
Reluz fora de si,
Induz tudo a nada,
Ao ócio criativo,
Ao sonho primitivo,
A si capturada em desenho.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Questões

Sei que é belo este reflexo de dúvida,
Devassidão onírica a partir do decepcionar-se:
Limite a transgredir-se só durante a percepção,
Helicoidando torpores impossíveis sobre as rasuras da identidade.

Sei que custa este reflexo de dúvida;
Custa o equilíbrio,
Custa a sanidade,
Porém.
Dentre os tantos enfrentamentos rejeitados,
Espero que este me tome,
Mesmo que me mate.

domingo, 7 de junho de 2009

Tecendo o Mesmo

No traço firme e sem alma.
Buscando a verdade desimportante,
A mentira de qualquer artista pareceu bem-vinda:
Pétalas abertas,
Gineceu à mostra
Aos pássaros e insetos,
Ventos e fragmentos.

sábado, 6 de junho de 2009

Centrado num Inferno

Odeio analgésicos,
Prefiro saber o que dói para não me iludir,
Ademais, preciso compor um nu
E a rapariga não se sustenta por muito tempo:
Maldita cabeça,
Malditos olhos,
Bendita distorção!

19 de Junho

Extrema-ungida,
Deslocada de sensações e querelas,
Sabia dos poucos dali;
Uns que sempre desejei naquele momento,
Outros que nunca pensei ou fiz questão.

Traída pelos lábios,
Mal pude balbuciar:
Desejei xingar a todos,
Cessar aquele torpor pestilento
Mesmo que incorresse aos vivos como delírio,
Ainda que a pândega jamais existira desde a iluminação.

Morria eu sem paz,
Cercada de lágrimas, indiferença,
Algum sarcasmo e a irônica certeza do silêncio que me adoeceu.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Sandália Amarela

Conduzi-me à marca,
Ao ciano contratempo,
Ao profano sacramento,
Encadeada ao quase firme e quase flácido tecido a contorcer os meus instintos.
Conduzi-me sem resposta primeira,
Sem resposta sensível,
Refastelando-me entre seios fartos,
Aprisionando-me entre pernas graves.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

As Tintas

Para acordar diferente,
Elaborei as minhas próprias tintas:
Urucum, mandioca e milho para flamejar,
Terra, sangue e jenipapo para enlamear.
(...)
Deu saudade da Bahia,
Do quintal e do tudo à mão que eu desconhecia estar,
Da mamona crescendo feito praga e do abacate caindo feito vida,
De mim.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A Opereta do Vagabundo

Não espere corromper este cerne maltrapilho:
Bêbedo de zumbificado,
Tropicante das próprias pernas às periferias boêmias,
Urgido ao início por falta doutro,
Que poeira de que deserto poderia encardi-lo?

Não se sinta capaz de beijá-lo,
Quando não está em si já é milagre;
Emana o desejo vil às falsas vestimentas reais
A transmutá-lo nobre e imune à razão,
Comprometê-lo futuro.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Venda

Não me importa estar de lesco-lesco com o tempo,
Eu só quero um pedaço das minas geraes.

O Caçador de Borboletas

Continuava pela beleza inerente à mentira sórdida,
Pois,
Embora parecesse vagante ao passo manco Centro afora,
Colhia frutos da peste e dos pequenos furtos d'alma com cautela,
Dissecando a natureza da urbe à busca dos seus pequeninos tumores,
Mimetizados horrores,

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Limonada com Adoçante

Era uma gorda mequetrefe,
Doida para sentir-se bonita,
Vivendo as coisas num ritmo macambúzio:
Tentava gritar sem grito,
Espernear sem pernas,
Adormecer sem sono.