sábado, 30 de maio de 2009

O Fragmento

Não posso eu ser o todo
Se o todo isso não dá as caras por aqui;
Sou fragmento,
Pedaço de coisa nenhuma que segue igual galáxia e vírus,
Espaço delimitado que se expande sem mim por raiva e amor.

Não posso eu ser o universo
Se um multiverso me chuta para lá e para cá
Feito papel de bala no calçadão às nove horas da manhã;
Faço parte sem fazer,
O invólucro do prazer e da cárie.

Não posso eu ser o inteiro
Se a curva se encurva para todas as dimensões
Enquanto prossigo sob hipnose àquela do orgasmo,
Da gozada cicciolínica,
Dos interlúdios homéricos,
Dos subterrâneos eclesiásticos,
Rumando-me ao suicídio ou à eternidade.

Integro-me feito espoleta de fissão,
Desconhecendo que diabos há de acontecer
E despadecendo-me do que nunca hei de prever,
Feito fragmento
De coisa nenhuma.

キスマーク

Não há sanidade,
Cegou-se a lembrança,
Quietou-se,
Inquietou-me.

Ainda se se transformou,
Se se transforma,
Não cessa a queimadura sobre a falta.

Par de Calças Velhas

Deitou o corpanzil suado d'amor num verso desse meu mistério,
Calou e encalacrou o sonho fugaz no centro deste destempero,
Voou até a morte coberta da fé açucarada pelo próprio ego
E sorriu,
Ou fingiu ter sorrido.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Beleza

A beleza espanta,
É nova,
Nada segue,
Transgride,
Desvia-se da retidão,
Impede a mesura,
Provoca a paúra após o entorpecimento,
Conduz à usura pelo seu prosseguimento
E morre
Abatida pela beleza seguinte.

Vestido Estampado

Com o cu dolorido de horas sentada nalgures,
Reclamava curvada pela falta do sustentar-se,
Baqueava as pernas trêmulas a cada novo passo,
Gritava sem piedade do cotidiano barulhento da Sé:
- A paz é servil aos ricos covardes! - repetia insistentemente.
Uns olhavam indiferentes,
Outros olhavam e sorriam,
A maioria nem olhava.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Ilusão de Dia Diferente

Procuro não ler o que escreve
A fim de que não aconteça;
Prefiro retirar os livros da estante
E desempoeirá-los para esquecê-los nalgum caminho.

Procuro não ver o seu contorcimento-
Embora haja tantos por aí,
Todavia ainda talho a cópia da sua feiúra impactante
Nas tristezas submarinas de um lugar semelhante,
Por idêntica razão.

Isso não é uma cantiga de amor;
Mesmo a questionar-se acerca da raleza de compaixão,
Isso não é uma cantiga de amor.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Antes do Arco-Íris

As fotografias de antes da morte nem cabem ao que ela é,
Mal comportam o brilho sagrado dos seus lábios pigmentados...
Talvez,
Cerrado o encanto,
Confirmem ser Deus um piadista muito do fela da puta,
Ou simplesmente um carrasco da era em que foi criado.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Destrua ↂ Anos de Cultura

Onde está você?
Se olhe, cabra ruim!
Cadê o seu império,
Escravo do alecrim?

Supressão

(Se despertou delicadeza surrada por ser bela
E alma doente de amores doutros corpos,
Não importa se reduz o ânimo das coisas todas
Ao pré-encontro da fusão de sonhos no egoísmo para ser feliz)
Quem quer que toque,
Até mesmo todo o mundo trepado por um biombo luminoso de matina,
Que entenda das promessas simbióticas e parasitárias nos bordados para a glória.

domingo, 24 de maio de 2009

Maquiagem

Fumaça a erguer-se encarnada,
Feito sangue aprisionado no vítreo;
Se queríamos passar vidas a fio desprezando-nos,
Não sei o motivo de tamanho contratempo.

私が保存されます。

Cada suspiro,
Caminho percorrido,
Tempo até o fim,
Início doutra volta,
Achaque por atenção,
Redenção destemperada,
Digital nas minhas cartas,
Primavera nos meus sonhos,
Reflexo do que sei não se tratar do que espero...

Espero
Cada ponto,
Dado com ou sem esmero,
Mas sim.

sábado, 23 de maio de 2009

Autorretrato

Gentil é a fúria do teu pequeno jardim divino,
A pátria das águas castanhas e dos pássaros amarelos;
Adormece borrando as luzes antes da retina
Para que provemos do melindre na tua ânsia.

Despisto à despedida,
Embora quase sempre despiste,
As minhas mãos leviatânicas a te levarem à morte:
- Volta, cobre este rasgo não estancado! - pede a sombra,
Mesmo dominada pelo silêncio de um homem covarde.

Melina

Sim, são teus;
Cantoria qualquer é pouco,
Proximidade alguma é cela
E eu não sei o que dizem estas pálpebras inchadas de nascença.
São teus,
Deitados nalguma paixão,
Desprezando curvilíneos o finito da ironia.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Olá, Dolly!

Que o Sol se ponha logo,
Carregue flores e versos,
Esbarre e acorde vozes e gestos a sucumbirem de fome.
Que as sombras pelos outros astros,
Longínquos asteriscos ululantes
E próximo reflexo do que nos dá,
Desenhem algo que sigamos sem medo,
Ao menos rabisquem.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Dilui-se ao Todo

Você,
O mendicante leproso no hall do rei,
O demônio feito de cacos de porcelana colados com Super Bonder,
É a coisa mais linda que eu já vi;
Indo assim,
Entre sombras,
Nem me importa qual é a peste espreitante ao fim deste corredor,
Fica o curvetear desta demão de vida a degolar a alma.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Intertubos Cortados por Falta de Saco

Odiei de morte muito do que amo incondicionalmente,
Amei com calma quase tudo o que não mais me importa,
Cambiei de corpo por um espírito braseiro e sem forma:
Detesto o remorso a tornar-me sacro,
Mas pior é o sexo mal amado.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O Nariz Que Escolhi

Claves frágeis de Sol,
Corda bamba de sonho,
Linha, pipa e cerol
Destrançados no anil.

Tombos fáceis de ver,
Quedas sempre previstas;
Tombos fáceis de crer:
Surpresa na diferença.

domingo, 17 de maio de 2009

A Forca dos Deuses

Ando tão seguro de mim que facilmente me sugestionam
A crer que viverei zil anos por um encanto qualquer,
Ou saber quem realmente amo pelo pouco que fiz dos seus sonhos.

A minha garganta dói,
Não sei se cabe mais uma tela,
Continuo descrente crendo,
Autêntico mentindo,
Nu em pêlo em plena Praça da República.

Ando tão seguro de mim que cabulo qualquer mostra
A crer que verei sem sentir mais uma fracassada tentativa duchampiana,
A temer o bater de pernas por longos corredores a fim mais uma decepção.

Não sei por que usam tanto acrílico;
Parece vir para destruir nada,
Só integrar-se em complementares ao sofá e à parede,
Esquentar a frieza contemporânea do apartamento de um remediado
Feito lareira...
Sede estranha,
Sem entranhas.

sábado, 16 de maio de 2009

Tapa e Retroação

Aquele homem subiu aos céus e esfaqueou o coração divino;
Poderia ser menos,
Poderia ser fim,
Mas não há quem saiba de novos filhos desta raça.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Jornais velhos empurrados pela brisa

O cheiro de cigarro e preguiça,
Pesado ao quarto,
Encardindo cortinas e paredes,
De alguma forma impedia aquele homem de fugir dali.
Vez ou outra saía à rua acompanhando o cachorro,
O animalzinho enjaulado no ritmo monótono dos seus sonhos,
Quase obrigado pelo dó ou compaixão ao sofrimento do bichinho.
Devido às crises de pânico saía tarde da noite,
Dois ou três quarteirões,
Cinco se faltasse com o xodó por mais de semana,
E via quase tudo deserto naquele fosso da humanidade;
Travecos, carros e policiais,
Nessa ordem de importância para os seus olhos.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Paiol

Não te zangues comigo,
Contei sobre a ciranda na casa em chamas;
Precisei ser bicho para paredes violetas
E homem para evitar o retoque.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Cacos de Vidro Fino

Ainda que meçamos a tormenta pelos homens desvalidos,
Tratemos Mediterrâneo Oriental feito universo inteiro,
Julguemos imortal um Odisseu atormentado e faminto,
Sentir-nos-emos Deus se este se fizer de cacos de vidro fino.

Ciranda

Uma semi-eternidade para este mural,
Pois decanto o impossível afim dum lodo de cor primária,
Uma aberrância xaroposa...
E é empastelando que vou,
Marcando a imprecisão duma tremeluzente ironia.

Tupiniquizando

Não aguento mais ouvir Edmo Zarife,
Mesmo nunca tendo o visto;
Ô, coisa chata!
Aqueles hinos em midi, também,
Além daqueles Os todos:
Papagaiada sem graça da ditadura,
A ditadura que seja,
Que saco!

domingo, 10 de maio de 2009

Coração Vazio

O meu coração tá vazio
Feito a verdade em cabeça de monge,
O Maracanã em jogo do Fluminense,
O original na tevê aos domingos
(Ou sempre).

Quase o Dia

Ia cantando o sambinha,
Quase gritando de bêbedo:
Qual é a loucura que cê vai fazer?
Se for pouca coisa nem me chame,
Não vou ver!

Tropeçava,
Conferia os dedões,
Reclamava do prefeito pela calçada irregular,
Cavucava os bolsos por tostões
E cantava,
Quase gritando de bêbedo:
Qual é a loucura que cê vai fazer?
Se for pouca coisa nem me chame,
Não vou ver!

E parecia quase o dia;
Feito os outros quase,
Quase o dia.

sábado, 9 de maio de 2009

Corona

As nossas pernas chaveadas em transe
Para quem queremos
E do modo que entendemos caminhar o ladrão;
Vezes regente,
Outras passageiro de paralelidades aos atabalhoamentos dos transeuntes comuns.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Égide Encantada

Entoquei a vida entre os seios para que busques,
Encontres entalhada sem esmero,
Espies além da lógica,
Entranhes insatisfeito.

Passageiro-Chefe

Esse busca os calos de mãos acostumadas a carregar
Esta cacimba vazia a enfeitar a sala de estar;
Esse ter tido,
Esse estar sendo,
Esse dar voltas iguais...
Pretensiosa despretensão.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A Mundana Tragédia de Sara

Não há o elo nem a falta,
Sinto sem tempo:
A intrepidez da cegueira me tornou carente.
Se os lábios que outrora teus,
Desfigurados,
Rachados das intempéries do afrodisíaco,
Calhados de emulsivos a não bastar,
Desvelam-se aparentes ao que um dia sentiste,
Afasta-te,
Renega a tua coragem!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Por Medo

Por gestar a própria aniquilação,
Calafetar os poros desta atmosfera de instinto,
Fiz-me opulenta a apontar-me aos espelhos de quando nos enforcávamos;
Chamei de luxo as minhas banhas e bieiras,
Os meus interiores apodrecidos e auto-extinguidores desengonçados.

Invoquei a crença
Pois não há o predador a espreitar-me embalada neste ninho,
Persiste a redoma de preceitos mais vorazes do que o concreto
A refletir estas nuvens a coser-nos durante os séculos,
Portanto,
Reviro um pedaço de universo por um tempo
Até que este se volva de retorno para mais do que o meu centro-
Por mim,
Por medo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Insecure Shell

Não desejo ser sincero,
Pois não creio em lucidez;
Transito o corte cego de um facão enferrujado
Entre as mãos desesperadas de impulsos aleatórios,
Gritos metamórficos e concretizantes.

Parte os ossos pela sequidão de um impacto estilhaçável:
Organismo e metal pelo chão e em mim.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Utopia

No meu mundo ideal,
O Y estaria cortado:
Um mundo maravilhoso,
Sem machezas enfadonhas,
Sem deslizes brutais!

Pesaria a reprodução assexuada,
Mulheres transgênicas,
Pois sexo tem melhor relação com as estrelas;
Simones de Beauvoir,
Tarsilas do Amaral,
Clarices Linspector,
Fernandas Montenegro
E Cacildas Becker caminhando por aí-
Só a nata do gênero!

Pense bem,
Pra que serve um pinto?
Uma coisa que a moça precisa fazer um esforço danado pra ficar duro
E, em média,
Não dura nem um hora,
Ademais,
É uma melequeira só!
É mais fácil visitar um sex shop por uma bugiganga daquelas
Com trocentas velocidades e satisfação garantida;
Um pinto,
Enfim,
Não serve mais pra nada.

A Sina do Crápula

Agente talhado pelo vento,
Dando sentido ao que não é por estes tempos,
Cuspindo sementes de desespero nestes jardins.

Agente mentindo por sexo;
Nenhum puto no bolso,
Doente,
Tornando musa algum dragão,
Esperançando qualquer desastre.

Agente crivado de balas,
Daquelas de chupar,
Saborear a desgraça assim que aberto o folhetim,
Temperar a ameaça doutro dia comum.

Agente cultuando o exacerbo,
Assumindo-se a cura da mediocridade e feiúra
Para que não se sinta sozinho diante de tanto repúdio alheio,
Para que não minta quieto,
Não morra discreto.

domingo, 3 de maio de 2009

A Sina da Cúpula

Ainda que fosse demasiada ironia,
Não faria dos deuses os culpados,
Não coloriria os trajetos com o sangue de bodes pretos prestes a serem devorados.
Ainda que sim,
Sinalizada ao primeiro dia do nortear-se da Lua,
Confirmada ao entregarmos tal corpo à consumição do fogo,
Para sempre à umbra destinada.

sábado, 2 de maio de 2009

A Seiva e o Papel

Inverter-me-ia de quadrante a fim de roubar-te daí.
Mas aqui não há arames para conduzir-nos aos devidos lugares
da cabeça de um fajuto qualquer.

Mancharia de vermelho um pedacinho da minha tela,
Só um pedacinho,
Só de vermelho,
Contudo já não há mais pedaços brancos,
Porém não reconheço mais vermelhos e nenhuma outra cor de qualquer:
Só sei o que é seiva,
Eu não sei o que é papel-
Reconheço os pigmentos pelo tato.