quinta-feira, 30 de abril de 2009

21:45

Mal me deixou chegar
E desabotoou a minha blusa
Antes que eu fechasse a porta.
Roçou-se em mim feito um animal,
Babou-me toda;
Lábios em meus seios,
Dentes a distorcê-los.

Ergueu a minha saia como se tivesse raiva,
Estapeou-me nos quadris,
Abriu as minhas pernas
E as conduziu até a cintura,
Esticou os meus cabelos
Enquanto me xingava:
- Vagabunda! - bem baixinho,
Quase para não ouvir.

Sang Rouge

Do transbordo d'alma nas Terezas dos confins paulistas-
Cestas quase cheias para o sangue persa,
Não usaste o segredo,
Sequer o pediste:
É ranhura no portão o que vês.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Arranjos da Madrugada

O odor amargo da manhã a ser dormida
Vale a pena se me entrego à sedução da noite urbana:
Agigantam-se os sussurros através do basalto lacunado,
Tomam-se heróis até a decapitação perante a alvorada.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Os Barris

É raro o minucioso brotar de imensidão nesta angústia;
A perfeição deformada pela própria vida é o que rege
E faz questão de forçar o esquecimento,
Insulta o futuro por uma cegueira transformadora.

Diálogo

Um idiota,
Daqueles que usam três verbos para uma coisa só!

Isso é inveja,
Daquela que queima de tão fria!


Ah, vai se foder!

Ah, vai você!

Para o Que Der

Viste-te tua,
Táquion desprendido do ventre,
Urbe a crescer no intocável,
E criaste esperança incomum.

Casaste com a morte,
Sorriso a reluzir iridescente,
Demência a desfocar peito à doença,
Porém não te alcanças ao infinito.

Vingas do que crês ser mais formoso,
Tu tão insigne onde ninguém dos teus contempla;
Rameira para a brisa fria,
Deusa para a escuridão.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Encarnada

De fato, faz,
Reparte-me extinto,
Condena o meu instinto,
Seduz-me por pressentir os meus passos.

domingo, 26 de abril de 2009

Copas

Não se aperreie,
Estou mais perdido que você...
Nem tijolos amarelos vejo,
Vice?

Assei o coelho,
Chutei o gato,
Queimei o baralho
E esses pincéis são agudos demais para a minha raiva.

Herói sem Epopéia

Coitado do ermitão;
Só da solidão experiente,
Esqueceu de ser gente!

sábado, 25 de abril de 2009

Signorita Acquafresca

Se não se prostrasse só
E indissolúvel ao permanecer-se só,
Se não fosse composta de dúvida,
Pateando de libido quem poderia respondê-la
Aos gritos e sussurros,
Suspiros e assobios,
Não quereria mergulhar nestas tribos que a marcam.

z host

Eu que me comporto em passageiro seu,
Digníssimo ateu de rituais maniqueístas,
Não tenho a chave de mim mesmo,
Perdi-a assim que um último surto apodreceu metade do meu cerne.

Do sonho que estupra,
Retraz fragmentos acondicionados em espasmo,
Penitencio-me às significâncias talhadas pelo espelho defronte ao passado;
Quem é esse homem?

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Nego II

Acerca do que me despreocuparia,
Trairia o mesmo para que o equidistante fosse a alma de cada um:
Uma praça pública de silício em qualquer favela ou condomínio,
Um braço erguido por desejo em cada íris ou polegar.

Nego

Nego-me ser representado,
Prefiro pendurar-me num terminal e escolher diretamente
Pela metade do preço
E trezentos ladrões a menos.

Kiss Me While I Die

Já volto,
Só um momento,
Há uma teia de cimento a ser desconstruída,
Uma pipa de invenções para que empinemos.

Socorro?
Não, não,
Mergulha!
Eu sei que é fria,
Mas te acostumas assim que aprendes a respirar,
Encantas-te após a primeira mariscumbunda.

What's Happening to Us?

O que buscas,
Recrio mínimo,
Exibo ácido,
Contorno com linha grave para que tenhas certeza que te amo.

O que buscas,
Busco,
Extraio a espinha da carne para que não morras engasgada,
Preparo o tempero ao leite de coco e óleo de dendê
Sem pimenta pois te incomoda,
Vou até o Brás para buscar tudo isso,
Tudo melhor disto.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Processo Infeccioso

Bem que me distraí,
Fugi do que vi em mim;
Apará por acaso,
Prosa, verso e outras coisinhas mais,
Abandonei a usura do homem que vê direito na propriedade
Mesmo distante da posse de si mesmo,
Paralelo ao princípio que de mim é só o que me volve.

Mais do que distrair-me,
Não contive a gana de despedaçar-me.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Goiabada Cascão

Às maravilhas do fundo do tacho,
Empanzinados e felizes,
Não os honram as cicatrizes da guerra travada;
Sangue meio casca, meio goma,
Vida meio tida, meio dada.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Sinto

Através dos olhos, face e nuca,
Eu não sinto culpa,
Sinto você.

Quisera eu poder falar acerca destas pólis maltrapilhas,
Dos demônios que me vingam
E do nosso entardecer,
Mais ainda me contorço quase Deus;
Eu não sinto culpa,
Sinto você.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Olheiras e Gelo Nenhum

Não houve a perdição no silêncio que compreendemos;
Atrozes feito o silêncio da morte,
Curamos tais ofegâncias com a falta de sono.

domingo, 19 de abril de 2009

Outra Mentira

Após a redenção num paraíso lúdico,
Só mergulhamos em viagens ruins,
Demências comuns a quem ama
E pertinentes a quem nos usa.

Após mais uma semana de maio,
Outra raridade que vale menos do que o custo ao corpo,
Outra necessidade de ser impossível à morte,
Outra mentira para buscar a vida na lembrança.

Senhora Morte

A quase desaparecer abaixo da linha coberta de prismas,
Foi azul ou quase verde o clarão,
Mas quem se apontou às sombras
Temeu a cegueira pela luz direta,
Idolatrou deuses nascidos da penumbra.

Todos aqueles que somos eu te reúnem
Para azeitar o teu corpo sereno com sonho,
Corromper o idiomatismo de qualquer fuga com vida.

sábado, 18 de abril de 2009

Estrelinha

Olha a minha estrelinha
Desenhada com suco de tangerina,
Por quem pedi o azul de toda a vida
E o eterno duma efemeridade congelada.

Fragmento de Ana Dodói

Déia:

Pensou sobre a Ana?

Tito:

Sim.

Déia:

E o que decidiu?

Tito:

Se ela se predispor a fazer um exame toxicológico semanal, recebe o dinheiro.

Déia - surpresa e repreensiva:

Tiiito!

Tito:

O que queria? Depois do que ela fez, é o mínimo que posso fazer!

Déia:

Isso é crueldade, Tito!

Tito:

Crueldade será se eu der essa grana toda na esperança que ela estude e, ao invés disso, eu tenha que ir buscar o corpo no IML.

Déia:

Ai, para! Você fala assim, com essa calma, mas esquece que é sua irmã! O que ela vai pensar quando...

Tito - interrompendo:

Como? O que ela vai pensar? Déia, acorda! Quantas vezes internamos a Ana depois de quase morrer? Quatro? Cinco? Me lembra porque tô esquecido!

Déia:

Esquece isso, não vou brigar com você, mas não tenho coragem de ir dizer isso pra ela.

Tito:

Não foi ela que pediu ajuda? Vai te procurar... E eu não quero brigar.

Déia:

É o que tá parecendo. Se bem sabe como é a nossa irmã, vai vir aqui pra cuspir a raiva.

Tito:

Eu sei.

Déia:

Sabe e se comporta feito criança!

Tito:

Não, quero o melhor para a Ana.

Déia:

Você tá querendo passar por pai com cabeça de irmão mais velho; só isso.

Tito:

Déia, se ela continuar explodindo por qualquer coisa, nunca vai saber se virar.

Déia - irônica:

E você sabe.

Tito:

Você quer me comparar?

Déia:

Nunca parou pra imaginar que a Ana chegou onde chegou com a sua ajuda?

Tito:

Fui eu quem subiu o morro e colocou o cachimbo de crack nos beiços da Ana?

Déia:

Não, mas fomos nós que a impedimos de cursar o mesmo curso que você está pretendendo pagar agora... Cuidado com o que considera melhor pra ela!

Tito:

Déia, me deixa trabalhar!

Déia:

Tá bom, patrão!

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ouvir

Ando muito preocupado em não ser perfeito,
Em vingar as minhas dores sem muito jeito,
Mas esqueço de ouvir,
Eu esqueço de te ouvir.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Afinal, Há?

Sonhos de Potira,
Estrelas na retina,
Pulsares semi-brilho,
Descontentamento pelo deteriorar-se.

Vida supa cul,
Repleta de inverdades,
Abraçada a qualquer coisa,
Repousando sobre o lastro de surpresas construídas.

Descorçoada pela falta de mancha no milímetro ignoto
À plateia que urra, geme, belisca-se e sorri pelos cantos da boca,
Há, afinal?

Ela

Ela parece de mentira,
Mas os seus bordados têm cara de cumpridos a mão.
Ela parece mulher,
Singular feito todas as outras mulheres,
Pronta para desencadear o processo dos tempos
E,
Quiçá,
A representação do que significa sê-la,
Vê-la,
Desejá-la,
Senti-la.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Ponto de Desconstrução

O fio da meada,
Pronto para ser puxado com gosto e desejo...
Que fio?
Que meada?
Quanto desintegrar para que a coisa ainda seja a coisa?

terça-feira, 14 de abril de 2009

Balbuciar de Enfermo

Este tom grave e de baixa frequência,
Poluído de desejos quando criança e agora prisões,
Não se flui mais como deveria,
Se é que deveria;
Mas quereria.

Esta luz espessa anda tão espessa que mal dá liga:
Proclamar-se-ia vida se severa,
Porém de fome se cabe.

Tarde

Morremos para sempre até que se finde,
Pois um segundo após não há;
O grande monstro não faz contas,
Age por conta própria
Sem se dar conta que age e é o leme,
Ademais,
O próprio mar.

O que temos a retardar senão o tempo que inventamos,
Os ciclos que constatamos e dividimos cada qual em ciclos considerados menores?
Retardamo-nos.

Compulsório

Divertiu-se,
Quebrou os prosseguimentos da vida,
Partiu de si mesmo para um si maior
E agora só pensa nos centímetros que estas amarras invadem na carne.

Retrato de um Homem Só

Olha só,
É o que queria,
Mas temia por não crer que poderia resistir!
Olha só,
Não é bem o que queria;
Após espelho,
Afogamento-
Não adianta olhar para trás!

domingo, 12 de abril de 2009

Estar-te

Por medo de esquecer
Ou descobrir tratar-se de só mais uma alucinação,
Alheio em definido frugal ao que se ouve,
Parido em desvivido frágil aos megatons.

sábado, 11 de abril de 2009

Desde o Mesmo, desde Sempre

Eu não valho nada,
Posso acabar num suspiro mal dado
Ou desintegrar as minhas medidas das coisas do mundo.

Eu não calho triste...
Mesmo calhando-me de lágrimas
E isto vindo a calhar,
Eu não me calho.

Desde o mesmo coice a repetir-se imenso no universo,
Uma curva monstro que pequenina também esmaga o coração menor que o mundo
Mas nunca desaparece,
Procuro algo em rituais que ouvi de iguais - certos da sua loucura.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Sobre a Tolerância

O tempo sopra quase brisa nas ranhuras dos teus lábios,
Corrompe-se,
Fere.

A tua desculpa se importa se permaneces intocada,
Redunda-se,
Mergulha.

Europa

Ah, a Europa!
Moldada sobre os metais e cadáveres do mundo novo,
Como é bela a Europa,
Como brilham os seus altares!
Credora das esmolas colhidas num chão saqueado,
Como é avante a Europa,
Como são frondosos estes dois mil anos de frente!
Uma salva de tiros de canhão para as nossas raízes européias;
Os tiros que extiguiram quase todas as tribos,
As armas que estupraram quase toda a terra!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Respostas Inúteis

A quem importa a luta para evidenciar o presente
Se o mesmo se ausenta até que a sua evidência seja desesperadora?
Quem quer os males,
As inconveniências,
Se é conveniente extinguir os corpos a fim de bebê-los?

Quem descobrir o asfalto,
Expondo o lodo fedorento de retidão,
Pode responder.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Dos Atrativos

Um canto carente,
Quase decadente,
Que prega peças por parecer perseguido;
Armadilha para quem se rende à quimera de confiar na própria maturidade.

Uma voz rebolada,
Timbrada ao rum,
Prolífica assim que sente a presa enfeitiçada.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Os Paraísos e a Verdade Única de Cada Ser

Não te enganes com o amor de instinto reprimido,
Pois até um paraíso artificial precisa ser habitado,
Até o esboço será obra-prima se houver a pessoa no traço e na composição.

Quase um Suspeito

A adaptar-me,
Delindo registros de fracassos desnudados por uma sedução sacana,
Não me pareço,
Não apareço.

A permanecer-me,
Delirando ao indício de que não irei curar esta frigidez da vontade,
Tateando o impossível e degolando as virtudes de cimento,
Não assino,
Sou.

domingo, 5 de abril de 2009

Aversão Platônica aos Pós-Dadá

Não há revolta absoluta para o seu sonho, senhor manifestante,
Pois precisaria negar as sementes do que reorganiza com a razão de uma suposta loucura,
Necessitaria rasgar as dimensões do que descreve com a associação de percepções da natureza.

Não confunda o sonho com a fantasia consciente, senhor manifestante,
Virtualizada em realidades fundidas por maravilha qualquer,
Testemunhadas num ordenamento distante de qualquer impulso abstrato.

Lunático

Descrevo um raso absurdo
Num tom que nunca foi sincero,
Mas se eu permanecesse mudo
Teria os sonhos do modo que espero.

Suspeito de minhas vontades
E voluntariamente peço
Para que a regra da verdade
Desenhe morta o que não está verso.

Se a desilusão é vício,
Se a cleptocracia é amarga,
Se a comunhão não é bem isso,
Não me desperdiço, não é a minha chaga.

sábado, 4 de abril de 2009

A Retrospectiva da Barata


Clec!

Isso não é um cantinho...

Cantinho, cantinho;
Um cantinho para me proteger!

Cadê aquele pé imenso que estava aqui?

Correr, correr;
Cheia de medo!

Ai, levantou esse pé e quer me pisar!

Nossa, que bicho grande!
O que quer no meu cafofo?

Aqui é bom,
Aqui tem água!

Mamãe,
Cadê você?

Está todo mundo indo embora.

O que é isso nas minhas costas?
Ah, são iguais às da mamãe!

É a mamãe,
Ela me ajuda.

Onde estou?

Aqui é bom,
Aqui é quente!

Onde estou?
O que aconteceu comigo?

Espero que tenham entendido as minhas atitudes;
Criei um mundo melhor para quem desejou nele aventurar-se,
Mais útil às pessoas que hoje me veem com desprezo.

- Seu Antônio?
Sim
- O Senhor está melhor?
Nice...
- Sim, Senhor?
Desconfio que está com pena de mim.
- Não, Senhor, só estou fazendo o meu trabalho.

Verde

Que escala tu usas para representar o verde;
A do coqueiro-da-Baía ou a do mandacaru?
Quiçá a verdura seja a do tambaqui
Mergulhado no ribeirão cheio de baronesas,
Ou a dos olhos castanhos da índia Jacira
Libertando-se da chuva com os braços abertos.

Se eu te pintar com o sumo da folha de guaraná
Não será verde,
Acho até que não apreciarás,
Mas vejo o verde na aspereza da língua fria
Roçando o dorso dolorido por falta de amor.

Decomposição

Deus vai levando o compromisso a toque de caixa,
Porém não consigo imaginar a universidade de portas fechadas,
Da entrada regulada.
Enquanto me pergunto se a decepção em vê-la perdida me matou,
Pessoas vêm e vão a ilustrar desejos já rendidos,
E só um alguém consegue fazer formas e cores explodirem em consonância
(O carinha mais simples,
De pouca técnica,
Mas que se faz atrativo por não direcionar ao detalhe
O todo inato a si mesmo).

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O Tudo e o Nada IV

Eu sou tudo:
Você
Que abstrai as construções reduzindo-as a nada
E as reconstrói faltando peças para jamais voltarem a funcionar.

Você é nada:
Eu
Que chego a tocar estrelas sem ousar queimar-me todo
E as copio num louvor de falso profeta aprisionado.

Mais Bonita

Se pretende enfrentar um dragão,
Desafie todos eles;
Arranque-os dos ninhos com o seu canto de curió,
Afaste-os das sombras com as suas asas de barbuleta.

Assim que morrer ao fim do outono
E renascer empretecida durante o solstício de inverno,
Talvez,
Pelo aroma de cada flor,
Quase poderei apontar o seu caminho...
Mas não o farei:
Que nenhum predador desconfie de onde alumiará o seu destino.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Abismo

As fotografias,
As dúvidas,
Os beijos:
Trouxe tudo para mim.

Desde que surgiu pedinte,
Feito sacrifício,
Cobrindo os dentes de um inverno sem paz,
Nazca perdeu o sentido a urgir em paralelo;
Nome, olhos e lábios ruborescidos de fome
Não bastam para que se enfeitice,
Não custam o horror proclamado em sua pele.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Simultaneidade

Não sou paciente o bastante para render-me à coerência dum único modo de ordenamento;
Entre Deus, deuses e o nada fico com todos,
Pois otimismos utópicos e pessimismos suicidas são igualmente atraentes,
Quiçá magníficos.

Transito entre realidades como criança,
Desfazendo ou ajuntando conexões e recompensas orgânicas por um gozo mais colorido e distinto,
Um gozo novo.