domingo, 1 de março de 2009

Híbridos

Durante todo o dia, evitei ser agressivo com Laila, fui excessivamente carinhoso, fiz todos os seus caprichos e, sabendo da minha tática, ela abusou. Além do costume de sairmos juntos para trabalhar, visitei a sua loja a ouvir tudo o que ela tinha em mente, comprometi-me a ajudá-la na empreitada e, mais tarde, após o horário de serviço, saímos à sua escolha; um bistrô aconchegante em que jantamos pela primeira vez. Passamos duas horas a conversar sobre a nossa própria vida, de como mudamos em cinco anos e de como podemos mudar nos próximos. Subitamente, intercedendo a minha chamada ao maître, pediu:

- Você promete que paramos se percebermos que vamos ultrapassar algum limite?

Não entendi de princípio do que se tratava e parei antes de chamar o senhor.

- Não entendi, amor.

- O bebê. - sorriu.

- Isso é um sim? - eu, que já estava animado, enchi-me de graça naquele momento.

- Não, isso é uma pergunta.

- Bem, depende do que podemos considerar um limite.

- É não fazer de tudo por um risco.

- Que tipo de risco?

- Sabe a Kelly?

- O que tem Kelly? - uma moça que trabalha em sua loja.

- Ela tá prestando vestibular e me disse umas coisas.

- Que coisas?

- Eu falei do que queremos fazer, sem dizer que somos nós, claro, e ela me contou que seria clonagem.

- Bem, segundo entendi, o material genético de um dos espermatozoides vai substituir o do óvulo.

- Desculpa, Lula, não entendo isso.

- Bem, em tese, a criança vai nascer com traços meus e seus; metade de cada.

- Isso parece errado.

- Não iremos saber se não tentar entender.

- Escuta só.

- Diga.

- Eu vou ao médico contigo, mas com uma condição.

- Qualquer uma.

- Eu só quero ouvir o que ele tem pra dizer sobre isso, então você vai me prometer que se ouver a menor chance de acontecer um trauma, paramos por aqui com essa ideia.

- Laila.

- Sim.

- Eu te amo.

- Eu sei, mas quero que prometa.

- Eu prometo.