terça-feira, 31 de março de 2009

Conversinha

Está aquecido,
Pronto para iniciar-se a partir do que não tenho,
Composto nalgo que nada há de tabula rasa.

Não se divide:
Se sobrevivente,
Acumulando as próprias misérias inerentes,
É apenas um - até em pedaços,
É névoa comprimida de auto-sentido durante um único pulsar da confusão.

Doçura de Vida

O herói absurdo na mesa de jantar
Já não janta mais em casa,
Arrumou uma melindrosa para o happy hour
Enquanto eu,
A heroína a carregar duas rochas colina acima,
Tive que ouvir o desaforo:

- Mulher, faz um café!

Café é o diabo que lhe carregue,
Filho de uma quenga!
Não sou eu que vou passar a mão na cabeça dum Apolo bancando o Dionísio,
Fedendo a cana enquanto as crianças dormem;
Pega as suas tralhas e vai dormir no sofá!

Fico puta com essa ladainha de grande propósito das coisas,
Pois não posso fazer justiça às próprias coisas se não alcanço a coisa em si:
Cantada desavergonhada no trabalho,
A caçula não aprende matemática,
O mais velho tá virando maconheiro
E agora essa...

Deixa estar,
Não me sentirei culpada,
A culpa cospe mais chumbo do que qualquer lado,
Só para um lado;
Aleja ou mata.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Drama

- Repete!
- Drama.
- Isso... Agora fala devagarinho.
- Drama.
- Meu Deus, como é bom!
- Drama! Drama! Drama!
- Não!
- Não?
- Não, assim não!
- Não te entendo.
- Preciso ver a sua língua estalar de leve no dorso dos dentes.
- Drama.
- Isso! Isso!

Anátema

A lei de ouro é lama da boa para suavizar a pele de dondocas,
Pseudo-estoicas a cavalgar sobre caralhos duros...
Mas é assim, comadres,
Mesmo crendo estar num carrossel auto-reconstrutivo durante a plena operação,
Sempre haverá mãos à obra
Munidas de latas de cimento e de massa corrida
Para cristalizar beleza correlata a do metal que também se fragmenta com o tempo;
Mais tempo que o de qualquer uma de nós,
Ensimesmadas num orgasmo de figuração altruísta.

domingo, 29 de março de 2009

Eu do outro lado

Ele me trás de volta por expulsar-me daqui;
Pior que sabe disto,
Compreende o estrago e a curiosidade.

Enquanto isso,
Um capítulo meu teima a reivindicar a minha própria segurança,
A segurança dos fatos,
Nos atos:
Trai-me pela minha sobrevivência,
Quem sabe uma referência na boa sacada do desfecho glorioso.

Mas que glória
Se a história parece cinema sueco?
Vai minguando até morrer insossa,
Descontaminando-se das paixões atiçadas no início
E fragmentadas ao emergir de um cotidiano presente na plateia.

sábado, 28 de março de 2009

Era uma Vez

Para cobrir-me de escamas raras,
Para confundir a peçonha com a traição
E o rasteiro com a sedução infiel,
Precisei de ornamentos vulgares
E cantigas ainda vivas nos luzeiros de busca.

Antes de reconhecer que a sombra é criança
Brincando com o passado amedrontado pelos bichos do mato,
Ameaças mortais fortalecidas pela imortalidade,
O repouso das comadres já havia terminado;
Giremos o mesmo mais uma vez
A iludir-nos ser mais,
Mais uma vez.

Ouvir

Não jogue consigo mesma, a metade que perde também é sua:
As raízes arremessadas ao céu,
A tentar nutrir-se do infinito,
Jogando ao chão a copa a ser resolvida na abstração de alguém,
São suas.

Não morra de fome,
As pétalas nem caíram,
A luz nem lhe beijou,
Nenhum casal se recostou para que os protegesse,
Nenhum ermitão chorou além daquela que os seus olhos jamais buscaram.

Dona Maria Paulistana

Trejeitos de moleca
Em conversas com si mesma,
Desejando o universo decaído em sua boca.

Arte na pressão da espátula,
Quase artesanato;
Fusão de flores rubras eclodindo ante as pupilas
Nossas...
Alguém tranque a minha sombra num porão inalcançável.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Carpaccio

A fibra que quiser,
A forma mais atrativa,
A proporção mais suculenta de adiposidade.

Um ônus contra a fome,
Uma fazenda em um erlenmeyer,
Um aroma de vida pulsando morto.

Presa, entubada,
Inteira desde a semente:
Saborosa aberração.

ENC: Promoção!!!

Sim, nós temos água dietética,
Musas marombadas
E papel cheiroso para as partes!

Sim, alugamos ócio,
Vendemos sabedoria
E trocamos contemplação por balinhas de anis!

Muito bem,
Cole estes letreiros no corpo,
Estes logotipos na alma
E terá descontos na compra dos nossos magníficos produtos!

Venha logo, é queima de estoque,
Inventamos o problema para que goste da solução;
Todo dia é dia de revolução!

Vino Blanco

A minha valsa mendicante,
Por auras pedinte,
Algures tão certa,
Grafa passos bêbedos de propósito...
A propósito,
Não anote razões para a minha mesquinhez,
Não proclame a minha subversão à inocência,
Pois o desengonçado das sequências forqueadas é para dizer que amo.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Limbo

Vai levar uma cara para destrançar a tortura da alma,
Contudo, não me perderei pela prudência contra a dor.
Se se regalam das minhas partículas de mulher,
Dulcíssimas sobre o colo,
Tenras abaixo do umbigo,
Não me nego presa aos seus cânticos para compor nações,
Apesar da ameaça viral que carrego no ventre.
Se me disponho assim,
Descaminhada e míope,
Sinto-me só;
Mergulhada em seus sabores desejo a mim mesma.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Delenda Natura Est

Das sensações imergidas noutras,
Esquiva-se de tão pouco
A fé em tudo isso,
Bestializa-se o amor impresso aos golpes de facão.

Cultivo ervas daninhas que servem de remédio,
Mas quase morrem sufocadas durante as horas de escape;
Policiam o equilíbrio na magia prismática do infinito,
Deliciam-se do possível retardando o natural.

terça-feira, 24 de março de 2009

A Prisioneira

Não me importa se redunda o verso ao amor estilhaçado,
Tanta doçura existe para que cegue quem nos enlouqueceria.
Se permaneceres assim,
Tristonha em tua cela comum,
Não há como calharmos a voz com o timbre que ordena os cavalos.

Leva a Tua Cruzada

Peço que me escuse pelos sonhos maltrapilhos,
Pelas mortes sem sentido das crianças que inventamos,
Mas não suporto estas preces a guiar os nossos sentidos.
Espero que não volte,
Que não conte comigo,
Só quero ser abrigo de instinto e vida.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Calos

Já não surpreendem mais,
Puxam a cadeira e se sentam a reclamar dos seus problemas;
A nossa identificação nos conflitos deles.

Surgem junto à confusão do cansaço sem sono,
Pedem o meu café enquanto promovo o milagre da multiplicação,
Leem o que escrevo,
Palpitam sobre os meus rascunhos e todas as demais escolhas
E finjo que não os ouço a considerar todos os seus conselhos.

Já não sei discriminar quem é novo de quem existe;
Só a partir da insistência percebo a novidade manifestada
A dizer-me coisas semelhantes numa direção antes oculta,
Ou a descrever-me pequenos detalhes que se passaram despercebidos durante certo tempo.

Uns para sempre,
Outros por crise,
Há ainda aqueles que somem e voltam para bater um papo antes de sumirem de novo,
Mas sempre estou por aqui.

Prepotência

Vamos sem pressa,
A confundir as dimensões
Que se corrompem e se completam a compor o inadmissível.
Temos paciência
A simular intenções
Que aparentam sinceridade de tão esdrúxulas,
Transparecem inocência de tão cruéis.

Enxuga os teus lábios, garota,
Ainda há certas paúras a devorar.

domingo, 22 de março de 2009

Vão-Se (...)

- ¡No tenga vergüenza,
Estoy aquí! - disse-me sem hesitar.

- Não sei se quero mais,
Madame.

- ¿Por qué dices eso? - irritou-se.

- Não consigo.

- Sí, puede. ¡Sonrisa y abre la puerta, vamos! - ordenou-me impaciente.

Abri a maldita porta e lá estavam,
Uns por cima dos outros;
No azedume daquele odor pestilento
E depois na sujeira que persistiu por mais de um mês,
Ficou todo o pudor que um dia cri que tive.

sábado, 21 de março de 2009

O Motim

Se rebentou o concreto como um axioma,
Grandioso,
Recortado para que coubesse na dramaticidade do medíocre,
A composição hipócrita para a entropia morfínica,
Suspirou de cansado e prosseguiu ante a harmonia vívida.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Romance de Brechó

Tão rubro o há pouco morto intento rodriguiano,
Um calor a dissipar-se que ainda exala devassidão!
É rouco o pedido por gestos
Enquanto os lábios nos seus lugares proclamam a ressurreição,
Suspeitos são os olhares das peças em suas gavetas.

Virgem

Compreendi tais fragmentos sem questionar razões;
O teu hiato defronte a surpresa
E o meu afronte poluído de valor
São da promiscuidade que cabe a qualquer um.

O intocado é ilusório,
Mas também instintivo;
A matriz de uma casta é rainha se entranhada no inalcançável.

quinta-feira, 19 de março de 2009

O Oceano Inteiro

São tão possíveis que me impulsionam ao erro,
Induzem-me à posição restrita pelos braços quase paredes,
Mas está certa quanto à impreenchibilidade,
O mundo coexiste acorrentado à caverna;
Ondeando as sombras da própria caverna,
Crio os meus deuses e finjo estar livre,
Flutuo e transcendo amparado na fera a que me reduzo.

Cuidados Caseiros

Para desanuviar as sombras que incomodam,
Suco de laranja com três gotas de limão,
Sumo de presente com traços desguarnecidos-
Agressivos se precisar de um grito que alivie.

Para limpar a pele das dores insurgentes,
Água boricada em compressa morna,
Meretriz barata com fantasia infantil-
Agressiva se precisar de um grito que alivie.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Solidão Real

Esperneou até demais por um custo destronado pela astúcia,
Tanto que nem percebeu situar-se na semelhança do dogma combatido...
Disse o velho guri:
- Por melhor que seja a resolução da mídia,
O valor está contido na experiência considerada real!

Somos reais até onde, meu Deus?
A minha visão sobre o filtro de pontos de luz parece real até o ponto em que me sinto só,
Portanto,
Como não me sentir só?
Mais resolução subtrairia a solidão?

Associação Enganosa

Não se arrelie,
Apesar das figurações mancas, você tenta se compor.
Por mais que precise doutras sensações
Noutros sentidos doutras pessoas,
Aplicadas para fazer o sentido que não confia alcançar,
O seu quilombo há de resistir.

Embrenhada na mesmice dum horizonte não tão belo,
Repetindo-se nas iguarias conhecidas que saqueia com a sua tripulação sozinha, de si só,
Vai tentando compor o que quer descrever
Ou recompor a figuração duma descrição gloriosa do passado;
Não se importe comigo,
Creio.

Deuce

Por que me denuncias assim tão fácil,
De graça?
Por mais que me cubra de costumes cifrados,
Planejados em isolamento,
Trançados aos golpes ígneos
E retocados à delicadeza das pétalas que se desprendem de mim,
Não há esmero que me afaste desta sina
De quedar-me sem batalha,
Retornar à terra assim que me vês.

A besta que me volve te pede,
Mas os impulsos que me nascem a matam;
A miséria a decepar os meus ramos se contempla poderosa,
Desenha-se frondosa na aridez dos próprios lábios
(...)
Este segundo só parece impuro a quem nos degola
E, turgido pelo próprio ego, nos rende pela caridade;
Minha cara,
A nossa dança paupérrima disritma o provérbio
A cobrir de mortalhas os nossos filhos bastardos.

Então venha,
Aproxime-se,
Não oferecerei resistência:
Conheço o teu desdém pela força que aplico.

Então venha,
Disponha-me em pedaços de uso,
Não julgarei se é abuso ou necessidade:
Entendo-te a inversão da minha existência.

terça-feira, 17 de março de 2009

El León y la Diosa

É como se nada permitisse o meu afastamento,
Porém não te entregues à inflação de cuidados;
Se é só a tua pele que não definha em necrose ao toque,
Não te importes se Tânatos conduzir o teu sono perturbado.

Entre Estrelas

Sentiu-se humilhada por amar a fantasia,
A presente solidão e a lembrança a refletir-se cintilante.
Calou-se,
Quietou a própria magia por um instante,
Descartou as medidas da lonjura em que se encontrava
E libertou a matança traiçoeira de si mesma...
Não pude ficar perplexa,
Mas não posso jurar que fui fria para ali ficar,
Vendo-a,
Vendo-me,
Desvendando-me.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Moda de uma Amostra Anulada

Repleta de fins incomuns aos nossos hábitos,
Minhas preces foram atendidas;
Por castigo dos deuses
Ou façanha da culpa que senti,
A repetência de um erro se tornou identidade
E neste erro repetido transparecia o meu amor.

Criança degolada antes de crescer-se monstro,
Ou monstro congelado no estágio de pupa:
Não mais me insulta.

domingo, 15 de março de 2009

Muito Óleo e Pouca Alma

A tua assinatura,
Rústica,
Sem retoques,
É o que julgo beleza.

Pressão e amplitude,
Pigmentos crus e escassez de solventes,
Perspectiva e movimento,
Ânima e desejo;
O que for teu sem querer,
O que for meu por sentir-me seduzido.

Sim,
Desiste dos detalhes poucos,
Dos apelos roucos dos teus daimons,
Da dor em que a causa é estar nua;
Sê tua.

Strap-On Party

Segue vivo o espírito do povo em pilares templários,
Protegidos pelos umbilicados a si mesmos,
Complacentes aos motejos contra a felicidade desigual;
Segue o medo e a tirania!


Cala a boca!

Amor?

Deixa de graça,
Cala a boca
E vem dormir!

As Feras

A sombra decaída sobre a mesa,
Contrariando a direção do olhar,
Recoloriu a natureza morta
Distante da própria natureza,
Descreveu-se forma isenta da íntima morbidez.

Entretanto, perguntei-me:
- Mas o que será da sombra sem o seu furto de quase tudo?
(...)
Muito bem, não sei,
Mas este abraço que se faz é cálido em mim mesmo,
O animal que se propôs representá-la.

Então que seja o sentimento de fera,
Caiando o mundo com a sua necessidade e sentimento,
Aniquilando-me a censurar a auto-censura.

sábado, 14 de março de 2009

As Tias Velhas

A incorruptibilidade do padre,
A mulher verde de Matisse,
O sexo na escola dos guris,
A postura sempre reta do amor,
O risco da dor e do caos,
A treva em nome do mal,
Deus.

O Quitute da Bruxa

Jogaram algo no caldeirão da bruxa e se criou magia boa,
Toda a vila se encantou com o cheiro do sopão.
Era um tal de eu também quero que há muito não se ouvia,
A cada colherada nascia mais um apaixonado...
Gente pra lá e pra cá só comentando:
- Dessa vez ela acertou o ponto,
Vou até levar um tapoé pra casa!

O caldeirão esvaziou e a bruxa não sabia
Como coser novamente o precioso quitute;
Nem botou preço,
A bruxa,
Não tinha explicação.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Óbito

Vaidade se fosse derme,
Não mentiríamos entre chegados!

Flama

Passeia cheio de si,
Visando a alma de qualquer vagabunda que esboce um sorriso,
Medindo corpos com aquele desejo que parece não cessar.
Tento a fleugma,
A desaprovação,
A censura.
Corrompe-me a raiva,
A angústia,
O ódio...

Fula da vida por sentir parte de mim o que não me pertence,
Entrego-me e me diluo derramada,
Integro-me a aguardar o vômito do que me é no momento oportuno de quem não sou.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Saco Cheio

Sim, também estou de saco cheio
Por acordar nesta nebulosa de sangue que não vejo,
Buscando calores para calar os sintomas
De um coração afogado em calda de papaia.

Tenho um maço de fotos para ti,
Mas não sei como estão,
Sei que não são;
O brilho congelado fragmenta a experiência.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Quando Deveríamos Dormir

Um dia arrastando-se ao próximo,
Compondo-se aos riscares débeis de céus acinzentados,
Não diz mais do que permanecer de pé;
Julgamento a ferros para que continuemos.

Um dia esquecendo-se sem o teu beijo,
Projetando-se no sonho mais proximamente materializado,
Curtindo ao sol para que nos proteja do mesmo;
O mesmo cerra a mandala para, em grãos, ser despejada no rio.

terça-feira, 10 de março de 2009

As Paredes de Algum Lugar

Assim que vi a tua essência em outras mãos,
Presa pelas asas prestes a serem recortadas,
Contive o que senti e prossegui sem entender;
A temer uma morte faminta nos aniquilei.

Anos depois,
As tuas cores separadas nas formas que as cabiam,
O sentido extraído das semi-representações-
A graduação em escamas decepada.

Ainda voas na projeção de tempo extinto,
Eu sei que sim,
Contudo não há a tua dor mensurável a mim...
Voa,
Apenas voa.

Além

Não há sensor que capte este emanar de amor,
Mas há quem creia estar acima da natureza;
Pobre daquele que limita a certeza do tudo no próprio limite.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Mestiçagem

Distorço-me em mulher,
A porção de luz que é Deus
A parir sexuado,
A visitar o inusitado para arrancá-lo de volta com os seus novos aforismos.

Contorço-me em sensações
Que mais parecem o veneno desprovido do seu fim,
Toda a sede que me rasga desfeita antes de percebida,
A intempérie que crê na novidade do processo mestiço.

Amo a ilusão
De mim para mim mesmo;
Não quero ser curado.

domingo, 8 de março de 2009

Mirna

Não fujo de ti, mi morocha,
Pois me dominas com os teus olhos de índia,
As tuas perguntas de quase ordem com sotaque de Asunción.

Ibirapuera

Um desespero barato nas vias da vida;
Preciso de ti,
Não chove tanto por aqui-
Pelo menos no compasso morno que te parece.

Ainda é cedo
E há o orvalho da natureza matutina que desejo...
Talvez deseje,
Mas clareza não há,
Só o peso confuso da expressão.

sábado, 7 de março de 2009

Vale Seco

Preciso contar um segredo,
Cansei de cofres;
Dei valor demais às fechaduras
Sem me importar com o guardado.

Se estas linhas de identidade,
Que de perto agressivas e de longe escuridão,
Fazem-se melhor livres,
Que livre seja.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Taquara Rachada

Com ela morreram os segredos do bairro,
O que é pura verdade e o que é só adocicado.
Com ela se foram os relatos de Conceição,
A carne e os lamentos para a traição.

Nora

Tentei pegar nele pra arriscar um chamego,
Como quem não quer nada,
E tive de ouvir que as minhas mão parece de homem,
Que eu tô folgada,
Não dou pras coisa.

Só queria um chamego,
Um abraço que seja,
Uma vontade de esposo,
Mas meus peito murcho de doze fio e de falta de cuidado não chama mais a atenção doutros tempo;
Sirvo de caixa de porra quando não aparece umas franguinha por essas banda...
Até as menina nossa o peste anda comendo, acha que esconde de mim:
Vejo tudo,
Quase tudo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

A Velha Novidade

Estamos ego com a civilização,
Primitivamo-nos sem perceber que o todo existe
E não suspeitamos por nascermos no todo assim;
O todo existe assim,
Só é sentido perante o próprio fim.

Sonolência cheia de graça:
Não matar,
Mas deixar morrer;
Não deixar viver,
Mas permitir que nasça.

Adiante,
Desarmando-nos pela metade,
A metade que basta para que não pareçamos românticos ou cruéis,
Vamos vivendo,
Deixando
E morrendo.

Paraguaya

Chamei-a para observar,
Um tanto ou quanto desgraçado,
Estendi o braço para fora e disse:
- Eis minha paisagem, é...
Bem, é isso!

Engraçado foi vê-la sorrir pela visão de duas crostas comprimidas entre si,
Uma de gases pretos e outra de concreto cinza,
A afirmar:
- Sabe, eu me acostumo!

O Coma Profundo da Menina dos Rumos

Faturamos alguns trocados,
Trocados por sonhos feitos a aquarela,
Porém,
Por um triz,
O conceitual está para os tijolos vermelhos de Isabel
Tal como a sua existência está para os rebolados do mundo.

Não há a consciência que me traga tesão por este isolamento,
A coisa em si descoisada de tudo,
Onde nada interage,
Entretanto,
Se sim,
Seria apenas para uma curta masturbação.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Azul e Verde

Não havia a treva,
Mas por toda aquela luz branca,
Refletindo-se machucante nas paredes de azulejos brancos,
Não fazendo sombra pela falta de cabeceira na cama de metal calhado de branco,
Forrada de branco,
Parecia assim ou pior.

Só o meu corpo destoava
Na pele bronzeada e nos cascões castanhos das feridas,
Portanto,
Apesar da ausência de espelhos e lâminas,
Dei-me ao trabalho de colorir o ambiente;
Nasceu o alívio até que eu sentisse a falta do azul e do verde.

terça-feira, 3 de março de 2009

A Incendiária

O todo nasce de ti,
Alimentado com raiva pelo sinestésico doce do rosáceo de teus mamilos desiguais,
Contemplado com o futuro arremessado pelo pobre pintor idiotificado pelo teu sexo oculto nas sombras.

Das dores significadas,
As passadas se curvam à ausência,
Permitem-na mostrar-se sem pudor
Enquanto me torno espectador e referência.

Os Tigres

Estão drogados para que pareçam mansos
E dancem a entender liberdade em um quaternário,
Transcendência nos próprios encéfalos confusos de carcomidos.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Além do Óbvio

Não posso ver além deste emaranhado de milhões de octetos por vez,
Navalhas para sangrar se nós sangrarmos,
Cores de pedaços de dor se nós amarmos.
Não posso dizer que é tua a representação,
Nem que é minha a minha;
Vagamos sem tempo,
Fixos em inteiros cruzados.

Pedacinhos

Atitude asquerosa, a desta garota,
Tentando labutar com os brios da censura democrática,
Que põe no pau-de-arara aqueles a atrever-se com o preconceito.

Atitude gloriosa, a desta menina,
Julgando as mentiras sem querer qualquer verdade.

domingo, 1 de março de 2009

Híbridos

Durante todo o dia, evitei ser agressivo com Laila, fui excessivamente carinhoso, fiz todos os seus caprichos e, sabendo da minha tática, ela abusou. Além do costume de sairmos juntos para trabalhar, visitei a sua loja a ouvir tudo o que ela tinha em mente, comprometi-me a ajudá-la na empreitada e, mais tarde, após o horário de serviço, saímos à sua escolha; um bistrô aconchegante em que jantamos pela primeira vez. Passamos duas horas a conversar sobre a nossa própria vida, de como mudamos em cinco anos e de como podemos mudar nos próximos. Subitamente, intercedendo a minha chamada ao maître, pediu:

- Você promete que paramos se percebermos que vamos ultrapassar algum limite?

Não entendi de princípio do que se tratava e parei antes de chamar o senhor.

- Não entendi, amor.

- O bebê. - sorriu.

- Isso é um sim? - eu, que já estava animado, enchi-me de graça naquele momento.

- Não, isso é uma pergunta.

- Bem, depende do que podemos considerar um limite.

- É não fazer de tudo por um risco.

- Que tipo de risco?

- Sabe a Kelly?

- O que tem Kelly? - uma moça que trabalha em sua loja.

- Ela tá prestando vestibular e me disse umas coisas.

- Que coisas?

- Eu falei do que queremos fazer, sem dizer que somos nós, claro, e ela me contou que seria clonagem.

- Bem, segundo entendi, o material genético de um dos espermatozoides vai substituir o do óvulo.

- Desculpa, Lula, não entendo isso.

- Bem, em tese, a criança vai nascer com traços meus e seus; metade de cada.

- Isso parece errado.

- Não iremos saber se não tentar entender.

- Escuta só.

- Diga.

- Eu vou ao médico contigo, mas com uma condição.

- Qualquer uma.

- Eu só quero ouvir o que ele tem pra dizer sobre isso, então você vai me prometer que se ouver a menor chance de acontecer um trauma, paramos por aqui com essa ideia.

- Laila.

- Sim.

- Eu te amo.

- Eu sei, mas quero que prometa.

- Eu prometo.

Híbridos

26 de janeiro



Laila estava deitada de costas para mim, aconchegada aos meus braços; acariciava o interior das suas pernas com o meu joelho esquerdo enquanto sentia o cheiro doce do hidratante misturado ao suor da sua nunca. Era um dia de domingo, ela estava feliz e me contava os novos planos para a sua loja de roupas, do tempo que despenderia para que tudo funcionasse ao seu agrado, mas que depois de feito disporia de alguma folga. Sugeriu que viajássemos, relembrou das férias que passamos em Natal, torrando na areia da Praia de Ponta Negra.

- Adoraria viajar, mas eu queria algo mais.

- Não entendi. Não está feliz comigo? - virou-se e me olhou nos olhos.

- Não é isso, é claro que estou feliz. Eu te amo. - beijei-a prolongadamente.

- Então diz o que é. - sussurrou ao meu ouvido.

Afastei-a, a segurá-la pelos ombros, respirei e propus:

- Quero um filho.

Laila parou por um momento, virou o rosto para a janela, voltou-o para mim e sorriu.

- Eu também quero, mas não sei como é esse negócio de adoção, ainda mais para nós.

- Não quero adotar uma criança.

- Ai, meu Deus... Você quer fazer com outra mulher?

- Não, contigo.

- Espera... Estamos juntos há cinco anos e ainda não percebeu que eu não tenho perereca? - brincou.

- Nossa, não tem?

- Não tem graça, Lula!

- Desculpa, desculpa. - beijei-a. - Procurei um amigo meu.

- E?

- Ele é médico.

- Acho que nem quero ouvir a bomba.

- Só ouça, juro que não toco mais no assunto se não quiser.

- Então diga.

- Ele me disse que podemos ter um filho, mas vai ser difícil.

- Difícil quanto e como?

- Bom, é ilegal e nunca foi feito com gente.

- Então esquece, temos problemas demais e não sou cobaia.

- Ele conseguiu fazer com camundongos.

- Olha pra mim.

- Tô olhando.

- Sou o Mickey Mouse?

- Não brinca, só quero explicar como seria.

- Não sei se vou entender e se vou gostar do que vou ouvir.

- Ao menos tenta, Laila.

- Tá bom, então não enrola e diga tudo de uma vez! - visivelmente impaciente e irritada.

- Ele é capaz de combinar as matrizes de dois espermatozoides para implantar num óvulo.

- Já tentamos uma barriga de aluguel e você sabe no que deu; esquece.

- Aí que tá!

- Aí que tá o que?

- Você vai ser a barriga de aluguel.

- Eu vou ser o que? Já falamos da falta de uma perereca, não foi?

- Sim, mas isso não é problema.

- Ele pode fazer mesmo isso?

- Pode sim.

- Não!

- Posso te pedir uma coisa?

- Lá vem!

- Posso?

- Pode.

- Aceita conversar com ele?

- Não, isso não é ilegal?

- Eu quero procurar nossos direitos na justiça.

- Você quer?

- Quero.

- E nem perguntou se eu quero.

- Você entendeu, preciso de você pra isso.

- Não.

- Posso pedir outra coisa?

- Tá pedindo demais, Lula.

- Isso que vou pedir é mais fácil.

- Peça.

- Pense e depois me responda.

- Já pensei.

- Pensou não, vou te perguntar amanhã.

- Você é um filho da puta!

- Amanhã?

- Desgraçado!

- Tá bom, amanhã.

- Tá, peste, amanhã eu te digo não de novo!