domingo, 1 de março de 2009

Híbridos

26 de janeiro



Laila estava deitada de costas para mim, aconchegada aos meus braços; acariciava o interior das suas pernas com o meu joelho esquerdo enquanto sentia o cheiro doce do hidratante misturado ao suor da sua nunca. Era um dia de domingo, ela estava feliz e me contava os novos planos para a sua loja de roupas, do tempo que despenderia para que tudo funcionasse ao seu agrado, mas que depois de feito disporia de alguma folga. Sugeriu que viajássemos, relembrou das férias que passamos em Natal, torrando na areia da Praia de Ponta Negra.

- Adoraria viajar, mas eu queria algo mais.

- Não entendi. Não está feliz comigo? - virou-se e me olhou nos olhos.

- Não é isso, é claro que estou feliz. Eu te amo. - beijei-a prolongadamente.

- Então diz o que é. - sussurrou ao meu ouvido.

Afastei-a, a segurá-la pelos ombros, respirei e propus:

- Quero um filho.

Laila parou por um momento, virou o rosto para a janela, voltou-o para mim e sorriu.

- Eu também quero, mas não sei como é esse negócio de adoção, ainda mais para nós.

- Não quero adotar uma criança.

- Ai, meu Deus... Você quer fazer com outra mulher?

- Não, contigo.

- Espera... Estamos juntos há cinco anos e ainda não percebeu que eu não tenho perereca? - brincou.

- Nossa, não tem?

- Não tem graça, Lula!

- Desculpa, desculpa. - beijei-a. - Procurei um amigo meu.

- E?

- Ele é médico.

- Acho que nem quero ouvir a bomba.

- Só ouça, juro que não toco mais no assunto se não quiser.

- Então diga.

- Ele me disse que podemos ter um filho, mas vai ser difícil.

- Difícil quanto e como?

- Bom, é ilegal e nunca foi feito com gente.

- Então esquece, temos problemas demais e não sou cobaia.

- Ele conseguiu fazer com camundongos.

- Olha pra mim.

- Tô olhando.

- Sou o Mickey Mouse?

- Não brinca, só quero explicar como seria.

- Não sei se vou entender e se vou gostar do que vou ouvir.

- Ao menos tenta, Laila.

- Tá bom, então não enrola e diga tudo de uma vez! - visivelmente impaciente e irritada.

- Ele é capaz de combinar as matrizes de dois espermatozoides para implantar num óvulo.

- Já tentamos uma barriga de aluguel e você sabe no que deu; esquece.

- Aí que tá!

- Aí que tá o que?

- Você vai ser a barriga de aluguel.

- Eu vou ser o que? Já falamos da falta de uma perereca, não foi?

- Sim, mas isso não é problema.

- Ele pode fazer mesmo isso?

- Pode sim.

- Não!

- Posso te pedir uma coisa?

- Lá vem!

- Posso?

- Pode.

- Aceita conversar com ele?

- Não, isso não é ilegal?

- Eu quero procurar nossos direitos na justiça.

- Você quer?

- Quero.

- E nem perguntou se eu quero.

- Você entendeu, preciso de você pra isso.

- Não.

- Posso pedir outra coisa?

- Tá pedindo demais, Lula.

- Isso que vou pedir é mais fácil.

- Peça.

- Pense e depois me responda.

- Já pensei.

- Pensou não, vou te perguntar amanhã.

- Você é um filho da puta!

- Amanhã?

- Desgraçado!

- Tá bom, amanhã.

- Tá, peste, amanhã eu te digo não de novo!