sábado, 10 de janeiro de 2009

Pés por todo o resto

Aquele grandessíssimo filho de uma puta acha que é alguma porcaria que valha a pena, sentiu-se confortável para me dizer o que disse como se fosse um mero cumprimento matinal! Como assim, pedaço de carne de quinta? Tenho certeza que só enjoou de mim, da mesma forma que fugiu quando se cansou das outras; eu, idiota completa, acreditei que comigo seria diferente... Diferente, sei...

- Idiota!

- É comigo? – irritada, uma garota que também espera o ônibus, acredita que o meu raciocínio dito por impulso fora para ela.

- Não, perdão... – envergonhada, não sei o que sentir: esfrego o rosto com as palmas das mãos ao mesmo tempo em que uma careta brota do semblante.

- Precisa de ajuda?

- Não, acho que pensei alto, mas consigo superar. Perdão novamente.

- Quer conversar?

- Obrigada, mas acho que não.

- Tudo bem, se precisar sou toda ouvidos! - sorri.

- Obrigada! - abaixo a cabeça.

Levanto a cabeça e fixo a visão sobre a distorção do calor sobre o asfalto, mas a dança daquelas formas rígidas não me basta para que me desvie do ódio. Quase esqueço do acontecido só por trocar algumas palavras com uma desconhecida; talvez seja isso o que me falta, ocupar-me com algo para não lembrar. Conto as telhas das casas e a garota se levanta, avalio as cores neutras de suas roupas e a mesma se aproxima da estrada; um carro surge lentamente na distância borrada pelo sol.

- Vem carro, vou pedir carona pra ver se cola! - animada, ergue o braço direito no característico sinal com o polegar.

Mantenho-me sentada porque quase nunca param. Aproxima-se e vejo uma mulher e dois rapazes no veículo. Levanto-me por haver chance de carona, todavia, por precaução, não me aproximo tanto da pista. Agora estão muito perto e reduzem a velocidade. Cochicham entre si e um rapaz sentado no banco dianteiro pergunta para a garota que aguardava comigo:

- Carona?

- Sim. - apressa-se para entrar, mas para, repentinamente. - Ela também vai para a cidade! - Referindo-se a mim, que me aproximo.

- Só tem lugar pra uma. - afirma o rapaz enquanto a garota olha para mim com cara de dó.

- Sem problema, vai lá! - finjo um sorriso e faço sinal de positivo para que ela vá de uma vez.

- Tá... Tchau! - despede-se.

O rapaz abre a porta, sai para que ela se sente no banco traseiro e entra em seguida. O carro parte, lentamente acelera, e o mesmo rapaz diz em voz alta:

- Fica aí, cachalote!

Claro que havia espaço.