domingo, 21 de dezembro de 2008

A Outra Versão

Há pouco mais de oito anos, li um trecho do seu diário a relatar essa passagem das nossas vidas; fiquei constrangido por tratar-se de mim, em carne e osso, cagado e cuspido, mas, por outro lado, agraciado por fazer parte desse capítulo autobiográfico de uma mulher que jamais esqueci. Não chamarei ninguém pelo nome, diferente do que ela fez em sua versão, pois, numa finalidade distinta, a minha será publicada.

Em meados de 1999, abandonei o curso acadêmico de Filosofia para passar uma temporada em Brasília, mas pouco tempo fiquei; talvez três meses até voltar à minha cidade natal, Ilhéus. Eu, um garoto de dezenove anos que até então era sustentado pelos genitores, mal sabia o que fazer da vida, talvez tivesse a intenção de ser músico ou artista plástico mesmo sem coragem para enfrentar o preconceito familiar, ou repleto de covardia por não se sentir capaz. Em casa, vivia em frente ao computador enquanto o meu pai pedia insistentemente para que eu estudasse a fim de prestar um concurso público da área do Direito, a sua especialidade, todavia eu fingia que concordava e ele fingia que acreditava numa decisão minha favorável às suas pretensões. O clima do lar era tenso, pois havia abandonado a faculdade por uma viagem que ninguém sabia ao certo do que se tratava; a princípio, eu iria montar alguns servidores de internet no DF, mas era mais uma balela da minha vida desleixada para ter sexo e drogas longe de qualquer pessoa que me conhecesse desde criança. Um dia liguei chorando para a minha mãe e pronto, as passagens de volta estavam lá no dia seguinte, mas um inferno astral se preparava para questionar a validade das minhas diretrizes por muito tempo.

Sempre fui uma pessoa de hábitos noturnos, por ser boêmio ou viciado em café, portanto, distante das vidas que dormiam, eu criava um mundo e aceitava outros tantos que se proclamavam à minha frente. Numa dessas noites, voltei bêbado da rua, liguei o computador, executei o navegador de internet e entrei num sítio eletrônico de bate-papo qualquer, não me lembro qual. Chamei-me “Nietzsche”, mas errei a grafia, coloquei o “t” à frente do “h”, troquei porque ainda mal sabia quem era o existencialista, conhecia-o de alguns resumos e da leitura superficial de “Humano, Demasiado Humano”, apenas pensei que seria “cult” ou qualquer zorra que o valha. A sala de Ilhéus estava cheia de homens, o que me desanimou, mas havia uma mulher que se apresentava como Ruiva; cor de madeixas que sempre mexeu com as minhas fantasias e libido. Iniciei a conversa com ela, que foi receptiva, entretanto, quando o dia estava prestes a raiar, algum fela da puta que cismou com a grafia incorreta do nome alemão, resolveu espezinhar-me em canal aberto, colando textos imensos do próprio Nietzsche na sala, para que, talvez, eu me sentisse envergonhado por ter cometido aquela, segundo o mesmo, profanação filosófica. Com o pouco de argumento que possuía, tentei debater com o desgraçado, contudo, para a minha surpresa, a ruiva me disse que precisava sair, mas me deu o número do seu telefone e pediu o meu. Era tudo o que eu precisava; dei o número, saí da sala e liguei para ela. Logo que atendeu, percebi que possuía um sotaque paulistano marcante. Perguntei-lhe o nome e ela me disse, perguntou-me o meu e eu também. Contou-me ser engenheira florestal e eu respondi, mentindo, ser estudante de Filosofia (nunca mais retornaria ao curso). Descreveu-me das poucas amizades que havia feito na cidade e de como precisava conhecer novas pessoas, então, propus-me conhecê-la, mas disse que não tinha um puto no bolso. Apesar de estar lidando com um liso e sem vergonha, a ruiva afirmou que não haveria problema se só ela bancasse a saída, por conseguinte marcamos para as duas horas do dia que acabara de nascer em um quiosque da Avenida 2 de Julho, um reduto de turistas. Aproximações e planejamentos feitos, despedimo-nos e fui dormir.

Assim que acordei, mal recordava do horário marcado, mas, faltando meia hora para o dito cujo, passei pela frente do computador e me lembrei. Ainda com os olhos inchados, procurei o telefone da ruiva, achei com dificuldade e liguei apressado para avisá-la que eu poderia chegar alguns minutos atrasado. Ela atendeu e, gentilíssima, pediu para que eu não tivesse pressa, pois estaria no Centro para resolver pendências pessoais. Tomei um banho rápido, vesti-me e fui a pé ao local marcado.

Quando estava perto de chegar, liguei do celular para ela.

- Já estou aqui. – respondeu.

Apressei os passos para encontrá-la e, quando cheguei, deparei-me com uma mulher madura para a minha idade, de seus 30 anos, o que causou um certo afastamento meu pela experiência inédita. Ela não era bonita, ou melhor, não era convencionalmente bonita; tinha dentes pronunciados, algumas tatuagens e os cabelos mais vermelhos que eu já tinha visto, vermelhos com química. Conversamos durante um bom tempo a beber algumas cervejas, reduzimos o distanciamento inicial e, aproximando-se do ocaso, preferimos ir embora dali. Como morávamos na mesma direção para quem saía do Centro, caminhamos juntos até a entrada do meu bairro, mas ela me fez um convite:

- Quer conhecer o meu apê? Eu moro logo ali em frente! – aceitei.

O apartamento da ruiva era algo espetacular, uma mistura de culturas bem interessante; das cores posterizadas do “Post-punk” inglês às luminárias japonesas, tudo se parecia com ela. Pedi para ver uma tatuagem de estilo tribal em suas costas, um desenho agressivo. Ela ergueu um pouco a camisa e se virou de costas. Eu pedi para tocar, pois, apesar do tamanho e diversidade das cores, não apresentava nenhum quelóide, mas, centímetros antes do toque em si, eu quis virá-la com força para beijá-la ali mesmo; não o fiz, insisti forçosamente um olhar clínico sobre a tatuagem, deslizando os meus dedos a esperar que ela esboçasse um sinal para que eu desistisse daquilo e tornasse ação o meu desejo.
Continua, ou não.