quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Carta para Srta Nunes

De todas as cartas que escrevi, não era vida entregue - encapsulada em um falso mistério, um medo covarde por não ser sincero -, você tem razão. Mãe carioca, pai baiano, filhos dependurados nas paredes de um quarto paulista (sonhos estampados neles, decepções e dores também) e a própria vida sem desejo de pátria, sem sentimentos inalterados e firmes para uma via qualquer. O que de mais profundo me restou senão você? Que corpo inatingível meus braços prolongados tentam tocar senão o seu?

Lugar bizarro, esse lugar que escolhi para morrer.

Sim, penso em extrapolar nas mãos, desenhá-las como uma criança que quer vê-las como o cérebro as percebe; enormes são, pois cada milímetro distingue cada agulhada que preciso para manter inteiro o fio frágil de sanidade, ademais, cada vinco de dígito difere a textura das coisas iguais e diferentes, mesmo que misturadas em óleo de linhaça.

O lugar é sereno, mas às vezes eu choro por estar sozinho; vidas que surgem me dizem o que fazer, mas acho que sou eu mesmo - a treva deixa a alma parir os seus próprios habitantes, não há controle.

Desejo que alguém crie o meu cachorro, parece que nem ele me suporta. É cruel ver o coitado sozinho; igual a mim, distante de iguais. É foda!

O lugar é cinzento, amarra qualquer tentativa de amor.