quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Os mesmos filhos e a mesma data

Só não te prometo pois a minha redação é areia,
Desmantela-se com o tempo;
É caos,
As margens de escuridão se agigantam com a distância.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Esquisita

A beleza é esquisita,
Mais rara do que a feiúra;
Amedronta por não ter dono.

Do Poder

Em certo momento, o crime se pergunta:
- Permanecemos crime ou nos tornamos nação?
Todo poder entranhado nos tripés de um primeiro não é quarto,
É outro.

Assim esperamos ou fazemos;
A ordem nova ou renovada,
Esperamos ou fazemos.

Virtude

Quiçá será a noite derradeira. - assim pensei.
Mas quem prevê o impulso da alma faminta,
A força pungente a zombar do que cremos de nós mesmos?

Eu me traí,
Sim,
Era impuro,
Até perceber que nada esperar,
Talvez,
Seja o melhor caminho...
Contudo,
Caminho nenhum há,
Virtude nenhuma também,
Apenas as peças de realidade que monto sobre a ilusão.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Talvez para esconder a certeza

Talvez eu saiba
Talvez eu queira
Talvez não cifre

Vá, mas só

Não ligue para a bagunça,
Andei destruindo algumas coisas;
O quarto para a escuridão,
As promessas furtadas da memória,
As telas para a exposição
E a cópia da canção que me deixou ouvir
Talvez não tenham conserto,
Talvez nem sejam pretexto.

sábado, 27 de dezembro de 2008

De Ísis para o Nilo

Um só verso,
Mas um clarão que desenhou o que querias,
Demarcado a partir das queimaduras na retina.

Atrás da Porta

- Desististe de conversar com este velho amargurado? - questionou-me, referindo-se a si mesmo.

Nada respondi, continuei apontando a visão para o piso de mármore
que desaparecia com as alucinações,
Tentava prever o passado que se desfazia antes que pudesse percebê-lo.

- Está bem, rapaz, continue trepando com a morte... Faça o que quiser! - levantou-se e saiu pela porta da sala.

Fechada com cuidado,
A porta,
Os ares deslocados cortavam-me pedaços,
Ademais,
Esses pedaços fugiam para nunca mais fazer parte de mim;
Não pude alcançar um sequer,
Mesmo desprendido,
Suspenso da régia...

Pouco sobrava do meu corpo e alma,
Apenas o necessário para que continuasse vivo
E,
Vivo,
Travar uma guerra desnecessária contra a noite.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Crianças Devorando Crianças

Os trajetos e fins distraídos por um nova confiança,
A prender-se à covardia como se fosse ousada,
Vendiam o ócio por algumas migalhas de luz
E míseros pedaços de recados da vida.

Caminhava a pensar sorumbático:
- Não, não a perdôo
Pois a quero para sempre,
Quero-a prenhe dos meus filhos;
A redenção para a minha morte!

Caminhava a trair-se feliz:
- Chegarei,
Chegarei e hei de fazê-la sofrer!

Quem quer o entendimento alheio sobre si mesmo quando a coragem não se arremessa ao futuro?
A vida é pobre,
Sabia o órfão,
Portanto,
De tão pobre,
Rastejava quieta no lodo do que acreditava,
Contemplava discreta as roldanas a esmagá-lo
Ou o corpo a tratá-lo como um mal infeccioso.
O feto mal se contorcia,
Ainda a vomitar os corpos placentários,
E já era considerado risco;
O engano de uma falsa profecia,
O suplício para uma era agonizante.

Crimen Privilegiatum

Salve a sensação dum nihil a olhar para o completo;
As telas todas postas em seus lugares
E os traços que se escondem em corpos quase nus
Nada dizem além de dor passada e ressentimento,
Mas ainda é nada.

Coliseu

Ah, maravilhosas são as futilidades deste mundo insosso,
Destemidos são os corpos que se vendem esculpidos e maquiados por um sabor de ilusão qualquer!
Prazeroso é o escárnio ao que parece escorreito,
A cabeça cortada,
pingando na área sem zagueiro,
A torcida ouriçada,
clamando por mais dois ou três leões para os cristãos que se entregam sem medo!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Das Pompas

Se me perdi na tua boca suja de verdades orgíacas,
Não poderia outro lugar seguir,
Outro sentido abstrair em meio aos tantos que reclamam por mais atenção.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Tipo de Sempre

Sou um tipo de sempre,
Talvez um pouco mais contemporâneo,
Que degusta os preparados para serem saborosos
E esquece das próprias mãos,
Desconhece que os aromas se desprendem da natureza partida.

Sou um tipo comum,
Um homem padrão,
Que descobre a identidade no planejamento em massa,
Percebe a sanidade no prosseguimento da raça.

Sou um idiota qualquer,
A beleza de ser vivo,
Que interrompe o coito a crer que o papel é sal,
Não degola o homem a entender verdade nas patentes.

Sou o avesso de algum dos vários de mim,
Os deuses que desenho no céu a partir de cintilações,
A arrogância de fazer-se acreditar para ter
O poder.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A Tela Fria e o Verso Quente

Seguindo o passo vívido que abrasa a alma,
Aguardei mais um instante para que me decorasses a ilusão;
As tuas naus trincadas por fora não me dizem nada,
Nem as cores de dentro,
Somente as dores me dizem-
escandalizadas nos versos mimetizados em pretensões dionisíacas.

Acerca dos corpos dispostos em geometria perfeita,
Não restou nada além de solidão e lembranças;
Eu te queria nua,
Nua de verdade!

Boring Sun

Preciso retratar a tua cópia em meus sonhos;
Perdão se parecer tristeza,
Desculpe-me se acontecer medroso.

A falsa vergonha,
Os seios cobertos,
Os dedos dobrados contra o queixo;
Perdão se for só sonho meu,
Desculpe-me se te enjaula a alma.

Se Queres Fora do Sou, Eu Sou

N'Alto Trás-os-Montes,
No concelho d'Alfândega da Fé,
Mesma freguesia,
Eu vi um demônio sem face-
Pareceu-me um puto mal saído dos cueiros,
Mas o senti mais velho do que toda a Ibéria.

domingo, 21 de dezembro de 2008

A Outra Versão

Há pouco mais de oito anos, li um trecho do seu diário a relatar essa passagem das nossas vidas; fiquei constrangido por tratar-se de mim, em carne e osso, cagado e cuspido, mas, por outro lado, agraciado por fazer parte desse capítulo autobiográfico de uma mulher que jamais esqueci. Não chamarei ninguém pelo nome, diferente do que ela fez em sua versão, pois, numa finalidade distinta, a minha será publicada.

Em meados de 1999, abandonei o curso acadêmico de Filosofia para passar uma temporada em Brasília, mas pouco tempo fiquei; talvez três meses até voltar à minha cidade natal, Ilhéus. Eu, um garoto de dezenove anos que até então era sustentado pelos genitores, mal sabia o que fazer da vida, talvez tivesse a intenção de ser músico ou artista plástico mesmo sem coragem para enfrentar o preconceito familiar, ou repleto de covardia por não se sentir capaz. Em casa, vivia em frente ao computador enquanto o meu pai pedia insistentemente para que eu estudasse a fim de prestar um concurso público da área do Direito, a sua especialidade, todavia eu fingia que concordava e ele fingia que acreditava numa decisão minha favorável às suas pretensões. O clima do lar era tenso, pois havia abandonado a faculdade por uma viagem que ninguém sabia ao certo do que se tratava; a princípio, eu iria montar alguns servidores de internet no DF, mas era mais uma balela da minha vida desleixada para ter sexo e drogas longe de qualquer pessoa que me conhecesse desde criança. Um dia liguei chorando para a minha mãe e pronto, as passagens de volta estavam lá no dia seguinte, mas um inferno astral se preparava para questionar a validade das minhas diretrizes por muito tempo.

Sempre fui uma pessoa de hábitos noturnos, por ser boêmio ou viciado em café, portanto, distante das vidas que dormiam, eu criava um mundo e aceitava outros tantos que se proclamavam à minha frente. Numa dessas noites, voltei bêbado da rua, liguei o computador, executei o navegador de internet e entrei num sítio eletrônico de bate-papo qualquer, não me lembro qual. Chamei-me “Nietzsche”, mas errei a grafia, coloquei o “t” à frente do “h”, troquei porque ainda mal sabia quem era o existencialista, conhecia-o de alguns resumos e da leitura superficial de “Humano, Demasiado Humano”, apenas pensei que seria “cult” ou qualquer zorra que o valha. A sala de Ilhéus estava cheia de homens, o que me desanimou, mas havia uma mulher que se apresentava como Ruiva; cor de madeixas que sempre mexeu com as minhas fantasias e libido. Iniciei a conversa com ela, que foi receptiva, entretanto, quando o dia estava prestes a raiar, algum fela da puta que cismou com a grafia incorreta do nome alemão, resolveu espezinhar-me em canal aberto, colando textos imensos do próprio Nietzsche na sala, para que, talvez, eu me sentisse envergonhado por ter cometido aquela, segundo o mesmo, profanação filosófica. Com o pouco de argumento que possuía, tentei debater com o desgraçado, contudo, para a minha surpresa, a ruiva me disse que precisava sair, mas me deu o número do seu telefone e pediu o meu. Era tudo o que eu precisava; dei o número, saí da sala e liguei para ela. Logo que atendeu, percebi que possuía um sotaque paulistano marcante. Perguntei-lhe o nome e ela me disse, perguntou-me o meu e eu também. Contou-me ser engenheira florestal e eu respondi, mentindo, ser estudante de Filosofia (nunca mais retornaria ao curso). Descreveu-me das poucas amizades que havia feito na cidade e de como precisava conhecer novas pessoas, então, propus-me conhecê-la, mas disse que não tinha um puto no bolso. Apesar de estar lidando com um liso e sem vergonha, a ruiva afirmou que não haveria problema se só ela bancasse a saída, por conseguinte marcamos para as duas horas do dia que acabara de nascer em um quiosque da Avenida 2 de Julho, um reduto de turistas. Aproximações e planejamentos feitos, despedimo-nos e fui dormir.

Assim que acordei, mal recordava do horário marcado, mas, faltando meia hora para o dito cujo, passei pela frente do computador e me lembrei. Ainda com os olhos inchados, procurei o telefone da ruiva, achei com dificuldade e liguei apressado para avisá-la que eu poderia chegar alguns minutos atrasado. Ela atendeu e, gentilíssima, pediu para que eu não tivesse pressa, pois estaria no Centro para resolver pendências pessoais. Tomei um banho rápido, vesti-me e fui a pé ao local marcado.

Quando estava perto de chegar, liguei do celular para ela.

- Já estou aqui. – respondeu.

Apressei os passos para encontrá-la e, quando cheguei, deparei-me com uma mulher madura para a minha idade, de seus 30 anos, o que causou um certo afastamento meu pela experiência inédita. Ela não era bonita, ou melhor, não era convencionalmente bonita; tinha dentes pronunciados, algumas tatuagens e os cabelos mais vermelhos que eu já tinha visto, vermelhos com química. Conversamos durante um bom tempo a beber algumas cervejas, reduzimos o distanciamento inicial e, aproximando-se do ocaso, preferimos ir embora dali. Como morávamos na mesma direção para quem saía do Centro, caminhamos juntos até a entrada do meu bairro, mas ela me fez um convite:

- Quer conhecer o meu apê? Eu moro logo ali em frente! – aceitei.

O apartamento da ruiva era algo espetacular, uma mistura de culturas bem interessante; das cores posterizadas do “Post-punk” inglês às luminárias japonesas, tudo se parecia com ela. Pedi para ver uma tatuagem de estilo tribal em suas costas, um desenho agressivo. Ela ergueu um pouco a camisa e se virou de costas. Eu pedi para tocar, pois, apesar do tamanho e diversidade das cores, não apresentava nenhum quelóide, mas, centímetros antes do toque em si, eu quis virá-la com força para beijá-la ali mesmo; não o fiz, insisti forçosamente um olhar clínico sobre a tatuagem, deslizando os meus dedos a esperar que ela esboçasse um sinal para que eu desistisse daquilo e tornasse ação o meu desejo.
Continua, ou não.

Se Bem Lembro

Bom é abrir as páginas da própria vida,
Mesmo que haja medo por ter ido longe demais.

Vermelhos

Saliva e café,
Suor e tabaco;
Teu gosto ainda persiste.

Domingo de Passagem

Estou tentando não seguir este caminho engessado,
Propondo-me os pigmentos do que restou de uma alma fragmentada.
Estou vivendo;
Sem você estou vivendo,
Com este clichê imortal estou vivendo.

Ainda fumo mais cigarros do que posso,
Desenho mais amores do que tenho,
Suspeito das verdades que me dizem...
Ainda lembro.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Procuro um Homem

Procuro um homem sensível;
Idade não me importa,
Arquétipos também não.
Procuro um homem que saiba que sabe,
Certo de que saber nunca é saber tudo
E ciente de que viver não será conto de fadas.
Procuro um homem sincero,
Que entenda a mentira como a dor do próprio homem
Para o uso do curativo e do afago,
Que cause espanto assim que se afirme homem a assumir a própria inveja.
Procuro um homem fraco,
Digno e esclarecido da própria fraqueza,
Para que levante as nossas paredes sem nos usar como a medida das coisas.
Procuro um homem,
Pode ser mulher,
Mas tem que ser homem;
O macaco falante que vê um Deus de genes idênticos aos seus-
O próprio umbigo.

Talvez tenhamos filhos lindos,
Aberrações mais suaves do que nós mesmos.

Echo

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bot.bin crashed
quitting app

Não à vingança

Adoraria abandonar esta culpa contida do espírito, arrancar-lhe dos temperos salgados que me tomam avesso ao andor moroso desta procissão, preso aos dentes e lábios de qualquer deus que me apresentem.
Com o coração repleto de suspeitas que restrinjam o gesto efeminado, um homem qualquer não se faz mãe para que seja instrumento da paz que lhe cabe, de uma ilusão que lhe corte o incabível, talvez, ciente do próprio limite, o insano.
Para voltar a assistir essas luzes que se formam no seu mar de silêncio, precisaria surgir no infinito de um universo afogado no que nunca cri, pois no brilho sarraceno dos seus olhos nasce o filho impróprio, aquele que afirma não ser fruto do seu sangue.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Acte Criminel et Folie

Je voulais embrasser votre disparu
Perdu dans les courbes de vos lèvres minces;
Voulu immortaliser l'appétit.

O Zumbido

Lupus é o caralho,
Eu mal escuto a noite!
Habituei-me a este zumbido
Rasgando a minha paz,
Ensinando-me a ser amargo.

Movo roldanas de uma máquina sem motivo,
Invento consertos para os dentes quebrados das suas engrenagens cariadas
Certo do dia em que me revelará se valeu a pena;
Hoje eu sei que não...

Zombei da tua mágoa,
Um jeito de esquecer da minha.

Lancinante é tentar esquecer
Incomodado pelo som persistente
E entranhado no que poderia ser silêncio,
Badalando em kilohertz um dó remoído,
Encarnando vozes onde nunca houve gente;
Não dá.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Apesar de Toda a Pessoa

Não sei se me acostumo à solidão
E aos sonhos que não poderei contar;
Quedado em meus desejos pueris,
Tu és fuga,
És cifra sobre os filhos que terei.

Não calo enquanto velo estes horrores
Guardados em teu perfume almiscarado
E adstringente,
Eu te perdi e perco novamente
Quando os teus braços se fazem fora da moldura,
Tocam-se crapulosos a se sentirem mansos.

Não me contenha com esta página escrita,
Este desvario que chamas de morte,
Esta loucura que acreditas ser acaso ou fortuna!
(...)
Não precisas ficar aqui;
Vá,
Leva esta treva e os teus punhais,
Carrega esta força destemperada.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Passeio

Leve o seu id para passear,
Leve-o sem coleira
E vá sozinho com ele:
Seu id é um pinscher miniatura,
Pensa que é Deus em partes frágeis de boneca-
Pode se assustar com um estranho qualquer,
Ademais,
Pode morrer através dum pontapé de segurança...

Mas leve,
Leve o bichinho pra dar uma volta,
Pra latir pra qualquer coisa que ele veja inferior:
Vai ser bom,
Garanto!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Amor Barato

Antes fosse,
Já custou algumas vidas minhas;
Bem compostas e mal vividas,
O sofrimento parece maior no algodão-
Só é menor do que o eu presente do pretérito.

Precisão

Sim, desejei levantar-me a fim de contá-la quanta saudade sentia, mas permaneci sentado, olhando para o palco como quem presta atenção à peça; fingi que não a vi. Por toda a confusão passada, mentiras minhas e dela, o ódio que senti, o mesmo que me autorizou a xingá-la sem o menor senso crítico, tornou aquela paixão dolorosa a partir do distanciamento abrupto; nutri com ódio um amor que insisti - incessante, falacioso e em fracasso - negar.

Lá pelo terceiro ato, quando me questionei se aquela situação me fazia bem, saí dali e me encaminhei ao hall de entrada do Municipal; o meu coração mal me deixava respirar de tão excitado, eu queria voltar, mas me sentia impotente... as minhas mãos suavam frio, os meus lábios tremiam e nada ao meu redor parecia digno de ser notado - assemelhava-me a um adolescente, um bêbedo ou, quiçá, um retardado.

Sobre o chão de mosaico que sempre me causou tontura, naquele momento em dobro, caí.

- Fausto! - ouvi o grito. - Fausto! - não queria que fosse aquela maldita, - Fausto! - mas era.

Apaporra

Até que venha a culpa
Disfarçada de discurso,
Não importa se parece.


- O que te parece? -
Percebes?

sábado, 13 de dezembro de 2008

The Pied Piper of Hamelin

Cuidado,
Quase toda
- Senão toda -
A sedução nasce para ser traiçoeira;
Cores vívidas e aromas atrativos,
A maquiar alguma fome,
Serpenteiam os instintos para que sejas o dote desta noite.

Olhos de Maracujá

Quanto falta para a tua próxima felicidade?
Desarrume o caos
Porque só percorri um milímetro das milhas de saudade que sinto;
Eu não sei em que vida,
Mas esta permanece entregue desde que te vi.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Da Arte Visual

No dia em que aquela máquina de zilhões de terapixels
for capaz de grafar som, aroma, textura e sabor
do jeito que a gente sente,
A arte visual precisará mudar
De novo.

Com todo carinho

Se até a mão abrupta da morte é capaz da carícia,
Do seu modo, trazendo de volta para a terra os pedaços da mesma,
Por que a dúvida?

Tema Livre de Paixão

Encarnada sobre a minha pele,
Lábios e dentes a fustigar o meu peito,
Seios e mãos a comprimir o meu sexo,
Nenhuma cegueira se faz tão desejada;
Seja como for,
Povoado do aroma salgado dos teus líquidos,
Sou quase tudo, menos são.

A Senhora

É só uma criança;
Apesar da voluptuosidade,
Do matrimônio acomodado
E das mãos marcadas pela lida diária,
Sempre mergulha na abstração de um desenho animado,
Nunca se rende às irreais profundidades senis da construção humana para a vida.

É só uma criança
Com as asas aparadas pelo verdadeiro mal;
Liberdade contida pelo ciúme,
Vivacidade constrangida pelo crime.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O Alaúde e a Bailarina

Contido o ímpeto
Que tentava parar as estrelas
E entrevar as cintilâncias da tua dança,
Tomaste o domínio a matar quase tudo o que não se encantara.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pacaembu

Ela parece mentira,
Aparece com a dor e some na paz;
Geni rodriguiana na auto-definição,
Que diz nada saber e preferir a lentidão de passos calmos.

Ela se une aos mascarados,
Grita com o peito corinthiano em chamas,
Sorri da perspicácia sem intenção - ou pretensão,
Mostra-se em quarto miguante,
Vê.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Contradição em termos

O jogador de futebol,
A redenção do povo brasileiro sobre o repulsivo colarinho branco,
Recebe a taça de verdade vestido de paletó e gravata,
Carregado de perfume,
Sem qualquer gota de suor.

QWERTZU

A medir os graus dos ziguezagues,
Nunca mais aquele impulso;
Dispus os meus sonhos distorcidos pela vida ao leste de onde odeio,
Odeio de tanto amar.

Nem o silêncio

Nem o silêncio foi mais tenebroso
Do que os teus grãos espalhados sobre a minha pele;
Todos de fim e paz,
Porém desperdiçados num momento inoportuno.

Por que declamaria acerca das pestes e da vida
Se os meus mortos aguardam um dia de descanso?
Por que açoitaria sem pena o teu dorso virgem?
Por que ter-te, enfim?

domingo, 7 de dezembro de 2008

Mãe

Não queira ser mãe do mundo,
O mundo é um filho ingrato
Ou apenas aquele que quer seguir os próprios passos.

Profilezinho

Preciso parar de falar português
Imediatamente;
Meus amigos não me entendem,
Cospem expressões anglo-saxônicas com sotaque nordestino,
Nutrem diplomacias cool para integrar-se àquilo que exige integração.

Preciso parar de ser idiomático
Urgentemente;
Alguém que não me conhece necessita me entender,
Alguém que não me carece deve me conter.

Preciso parar de pedir ajuda aos vizinhos de parede,
Parar de ajudar também.
Preciso esquecer que eu existo,
Que eu minto também.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Baile dos Mascarados

Ouve?
Mais uma contradança,
Esta que parece sem fim
Quando nos levamos ou nos traímos quaternários.

Sente?
Sabes quem sou,
Mesmo mascarado;
Não importa se nos entregaremos incógnitos para os olhos.

Ardo,
Talvez como dizes que ardes,
Propenso a flertar com a insanidade,
Suspenso do necessário
A pragmatizar o meu instinto a fim de destroná-lo só para o teu sorriso.

Ardo.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Vertical estreito

Eis que mudo o caminho desta mão perdida sobre um seio farto;
Agora esgana,
Tenta inibir o desejo da primeira de si mesma.

Agora aposento duma vez os olhos,
Nem cavidades rasas pois já não se trata de organismo decaído-
Não é sensação na extremidade de um prazer qualquer.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Carta para Srta Nunes

De todas as cartas que escrevi, não era vida entregue - encapsulada em um falso mistério, um medo covarde por não ser sincero -, você tem razão. Mãe carioca, pai baiano, filhos dependurados nas paredes de um quarto paulista (sonhos estampados neles, decepções e dores também) e a própria vida sem desejo de pátria, sem sentimentos inalterados e firmes para uma via qualquer. O que de mais profundo me restou senão você? Que corpo inatingível meus braços prolongados tentam tocar senão o seu?

Lugar bizarro, esse lugar que escolhi para morrer.

Sim, penso em extrapolar nas mãos, desenhá-las como uma criança que quer vê-las como o cérebro as percebe; enormes são, pois cada milímetro distingue cada agulhada que preciso para manter inteiro o fio frágil de sanidade, ademais, cada vinco de dígito difere a textura das coisas iguais e diferentes, mesmo que misturadas em óleo de linhaça.

O lugar é sereno, mas às vezes eu choro por estar sozinho; vidas que surgem me dizem o que fazer, mas acho que sou eu mesmo - a treva deixa a alma parir os seus próprios habitantes, não há controle.

Desejo que alguém crie o meu cachorro, parece que nem ele me suporta. É cruel ver o coitado sozinho; igual a mim, distante de iguais. É foda!

O lugar é cinzento, amarra qualquer tentativa de amor.

Sim, Sinhá

Sempre é, Sinhá,
Sempre assim será;
A sua ânsia persuade a minha fome,
Nós nos partimos para que tenha sentido
E descobrimos, tropeçando, os aromas.

Sempre é, Sinhá,
Mesmo impossível,
Sempre assim será;
Esse festim feito às pressas
Para afirmar que somos o melhor ladrão,
Para apurar se ainda somos sedução
E entreter quem o nosso personagem saqueou.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Antes de prosseguir

Não te contamines por esta fração da tela pintada;
Pára, pensa um pouco,
Volta para o teu sonho e revive a mudança clara em teu peito,
Despolui a tua nobreza de mulher para que o teu homem veja! 

Sim,
Deixa os pigmentos se entranharem na trama,
Permite que os preconceitos se firmem atingíveis,
Decide o momento quando o teu próprio é maduro.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O mote desacelerado





















Ainda há nós a desatar-
Mais profundos do que o código,
Mais imundos do que a falsa imundície da nudez.
 
 
Passeaste sem tempo,
Brincando com o andamento,
Mas ainda não vi a tua boca marcada.

Ainda há amores a explorar,
Decadências a conjugar
E os teus ouvidos atentos aos sussurros.
 
 
Nada é teu,
Lembra-te!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Zé Brasileiro


Sou mais um Zé Brasileiro,
Daqueles que acreditam no fim desse puteiro;
Um motivo de chacota, o iludido,
O dito idiota, um bandido.

Sou mais um Zé Brasileiro,
Daqueles que rimam a pobreza, um farofeiro;
Um elogio à ignorância, o despido,
A aversão à ganância, um fodido.