sábado, 22 de novembro de 2008

Fragmento da Promessa Não Cumprida

Contrariando a normalidade, cheguei cedo à sala de aula, quase duas horas antes do início da maçante disciplina de composição, pois me sentia tensa por não ter conseguido criar os desenhos necessários para que fosse avaliada; faltava duas semanas para a entrega dos trabalhos e eu mal havia terminado a primeira metade. Surpresa, encontrei Melissa sentada à última fila de cadeiras, com um semblante comtemplativo, bloco aberto e bastões de papel espalhados sobre a mesa: apesar de ser criativa, quase sempre chegava atrasada e não correspondia aos apelos de todos os professores para que fizesse o proposto.

- Boa noite, Melissa! - cumprimentei.

- Oi, Bruna! Você pode me ajudar? - logo imaginei que deveria estar em situação muito pior do que a minha.

- Depende... Fala.

- Eu não agüento essa aula de Lúcia, são tantas instruções que me sinto acorrentada.

- É verdade, às vezes me confunde.

- Sabe, eu só assisto a aula dela chapada.

- Percebi! - sorri.

- Percebeu? Ai, meu Deus! - ironizou.

- Sim, está com dificuldades nos trabalhos?

- Não, estou com dificuldade com a dita cuja! - apontando para o chão da sala, indicando que a presença de Lúcia no ambiente era intolerável.

- E como posso te ajudar? Não entendi.

- Bem, estou careta: não tive tempo para fumar unzinho antes de vir para cá.

- Mas eu não curto.

- Bem, é que um cara me convidou pra fumar, logo que cheguei aqui.

- Sim, mas eu não curto.

- É por que eu não o conheço direito.

- Você tá querendo que eu vá contigo?

- Só pra não dar confiança pra ele, por favor!

- Não sei, Melissa. Se der merda, como fico?

- Falta muito pra aula começar e vai ser lá no terrraço. A gente sobe, como quem não quer nada, e ninguém fica sabendo.

- Olha, não sei.

- Poxa, Bruna, lá é a céu aberto; nem vai sentir cheiro!

Olhei para aquela cara pidona, implorando pela minha companhia, e, mesmo sabendo que ela queria me usar de escudo para uma possível investida do suposto cara, senti pena.

- Tá certo! - assim que falei, ela abriu um sorriso de criança quando ganha chocolate. - Mas tem um porém...

- Lá vem!

- Não quer que eu vá?

- Claro, desculpa... Diga.

- Qualquer roubada, você assume a culpa toda.

- Mas não vai acontecer, relaxa!

- Isso eu espero, mas prometa que irá assumir.

- Tá bom, tá bom! Eu prometo.