sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O Parto

A última fração a romper a pele,
O segredo escondido no elogio ao ócio,
O desejo inibido num falso erro do acorde,
O fato:
O parto.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O Brasileirão

A beleza é frágil,
Mas é a beleza;
É esta sensação que lota arenas,
Impõe sorriso aos músculos de quem grita de raiva.

Dos homens truculentos,
Agindo como peças de um ranzinza qualquer,
Carregando pianos desesperadamente,
São deuses feios sem valor algum.

Onde estão os garotos mirrados
Que encantam por não irem a lugar algum?
Onde estão os moleques sem medida,
Filhos de Baco,
Que só atraem quando fazem sem sentido?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Ella

Ela,
Que rouba pedaços de mim às mordidas,
Esqueceu-se do último ato e dormiu no camarim;
Maquiagem carregada para a lonjura deste teatro de imbecis,
Semi-transparência do figurino que é quase ela.

Ela,
Que navega em meu corpo sobre uma lâmina de mentiras doces,
Não avalia quanta dor resisto para senti-la feliz;
Semblante inchado de quem sonhou delicadezas,
Ou de quem não teve pesadelo algum.

Ela,
Só ela,
Contem-me dos apreços para fazer-me ela,
Ou dela.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Dandara

Pintada pra guerra,
Eu sou sua puta;
Adoto querelas
E a voz que insulta.

As unhas na carne
E as curvas na alma,
O medo que invade
E o gozo de raiva.

domingo, 26 de outubro de 2008

Lábios e Flor

- Posso ir ao banheiro? - pediu.
- É a segunda à direita. - o velho gordo, a indicar a porta correta.
Da bolsa, tirou alguns lenços umedecidos,
Daqueles comprados em qualquer farmácia,
Para, então, por debaixo das saias,
Puxar a calcinha de lado e limpar o sebo do dia-
Todo aquele nos lábios e flor.

sábado, 25 de outubro de 2008

Tentar Acreditar

Não guardei as fotografias de quatro ou cinco anos,
Nem as ironias da correção e da felicidade;
Só hoje creio no que me impus,
Cri quando esqueci de tentar acreditar.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Dois

Saliva que é tua,
Escorrida sobre a vida:
Por que nos perdermos?

Não acredite em mim,
O hipócrita e dissimulado,
O pseudo-Hipócrates dissimulácrico;
Estamos próximos o bastante para falar de amor.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Povo e o Bicheiro

Desde a estupidez de um sigma copiado à genialidade de vagabundos maquiados,
Tentamos inventar a agulha e a linha para a costura de uma bandeira qualquer,
Um grito que não seja a fraude para salvar uma família ilhada.
Desde que não somos franceses ou tamoios,
Inconfidentes ou farroupilhas,
Quilombolas ou tupinambás,
Alfaiates ou suassunas,
Juntamo-nos sem enredo,
Ou num enredo da Padre Miguel de Andrade.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Felicidade Alheia

Percebeu-se a nadar nas próprias fezes
A fim de uma eterna genialidade.
Detrás da máscara,
A alma humilhada por si mesma
Observava os sorrisos de quem o amava;
A felicidade corroía...
Detrás da súplica,
A alma replicava o sofrimento em anedota,
A dor em chacota;
A felicidade distraía...

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Queira

Eu quero decepar as tetas
E afogar os filhotes que não desmamam há mais de vinte anos.
Eu não quero me copiar,
Eu não quero me seduzir.
Eu quero estuprar a lei que me põe no centro de coisa nenhuma,
Arrancar os seus olhos cegos e esfolá-la sem compromisso.
Eu não quero me impressionar
Sobre o esteio que me criou.
Eu quero uma chupada doce dos lábios delgados de Vixe Maria;
A estrutura para um Deus qualquer
Além da fronteira para a coesão.
Eu não quero um respeito fútil,
Pois só vivemos quando somos fúteis.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Closed Beta Tester

Faça o que quiser,
Principalmente se divirta.
Reclame dos meus erros,
Encontre os meus limites.

Ache o que é bom,
Encontre o que é ruim;
Me diga se isso funfa,
Me leve até o fim.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Preocupações Inúteis

Até entendo os imbecis que pedem a coerência da ficção com a vida;
Compreendo a covardia diante das vestes que não servem pela cor,
Perante o sussurro que o grito moralista chama de berro da loucura,
Em presença do abrasivo desespero do tudo que faz do ego nada.

Até assimilo a linha de condução da curiosidade por aquilo que não queremos,
Ou pelo que quase nos tornamos antes da sombra ser sufocada;
Concateno os temores neste pesadelo com o meu sonho de partida,
Torno minha esta pudicidade para julgar que a alarmante devassidão não chegou,
Sequer existiu.

Nara

Preciso mudar a minha vida quando vens me ajudar:
Ajuda de pouco sentido,
Sentido de alma ferida;
Sagrado é o meu abrigo,
Mas fora da vida não há mesura semelhante.

Preciso calar os meus braços quando vens me abraçar:
Sufocar-te-ia se deixasse solto o desejo,
Pois retalhos mortos são o meu corpo;
Nunca quiseste,
Jamais aceitaste,
Mas deixaste acontecer.

sábado, 11 de outubro de 2008

Qu4tro

Eram quatro poetas sujos de um lugar qualquer,
Aprisionados em seus paraísos artificiais.
Eram quatro homens sós,
Verdadeiros egoístas;
Fingiam o amor,
O altruísmo sagaz de poucos,
Mas a força a inflamar os seus espíritos os via como deuses.
Eram quatro mortais:
Acabaram engolidos
Pela crosta coesa e ridícula do prosseguimento da falta de imaginação.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Peleja Tristonha

Quem te assiste,
Entrega-se às tuas loucuras fortunosas,
Aos teus vilipêndios à moda dos sonhos?

Dos organismos que criaste,
Quase todos desfilam com pressa
Pela pressa ser produto de pavor coletivo;
Casas,
Carros,
Canivetes suíços
E a fumaça da fábrica de chocolate.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Eu Sou Tua

Eu sou tua.
Esparramada em minha letargia,
Eu sou tua.
Definhante,
Degenerada,
Apodrecida,
Infectada,
Eu sou tua.

Cumpriste o rito,
Declaraste-te a demônios paupérrimos,
Entregaste o próprio corpo à enfermidade,
Suspeitaste da infinita afinidade contida nas entrelinhas do nosso amor decadente
E queres morrer pela doença que o meu beijo deu...

Não desejo ser tua,
Mas sou.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Andrômeda

Não te vingaste destes corpos acéfalos,
Pois os seus lábios,
Embebidos num caminho para a demência,
Roçaram-te nos instintos em uma pseudo-caridade;
Foi a dor dos deuses que te traíram,
Ou o pavor da fé que te esculpiu.

Toma, bebe o sangue:
É impuro, mas é teu!
Prova, repete a chaga,
Induze a mágoa,
Reprime o que incomodamente te determina,
Reescreve a verdade futura que não te agrada!

Os Açores

Eu te vejo acontecer no sereno sobre o relvado
(...)
A compor um sentido novo à madrugada taciturna,
Só descobri que te perdi quando dei por falta do costumeiro,
Do líquen que reage verde aos caprichos da chuva
A cessar e espalhar o cheiro da vida,
Da fertilidade dos bichos todos a contagiarem os seus impulsos pela tua acção.

Lies mich!

Abra o meu peito e desperte a minha audácia,
Extraia o que vê e corrompa o que sente,
Execute os meus sonhos e aniquile a minha dor.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Feliz

Seria o gênio um invejoso,
Ou a compulsão pela frieza obscura do conhecimento o apaixona?
Seria o gênio um vaidoso,
Aproximando-se do que o medíocre julga domínio divino,
Ou a função de agente exógeno o faz parte de um organismo que agoniza por mais?

Quisera apenas ver,
Parar por aí,
Não dar chance àquilo que entreva a alma.
Quisera,
Antes da assimilação,
Erguer muralhas intransponíveis para a indagação;
Morrer medíocre,
Feliz.

domingo, 5 de outubro de 2008

Alarido dos Mudos


É preciso muito sumo para não se tornar bagaço,
Muita alma para não ser devorada antes que a fome acabe.
É preciso gana,
É preciso medo.
É preciso.

sábado, 4 de outubro de 2008

A Camponesa

Tudo o que é teu,
Diluído nestes sonhos induzidos,
Ficou quase vida inteira escondido destes olhos velhos;
Não sei se morro de vontade ou de ciúmes,
Se sobrevivo pra te ver ou pra fugir.

Pareces a camponesa de cinco ciclos atrás,
Ou, somente, resgataste-a à força do teu ventre:
Posando para o meu compêndio de bruxarias,
Morremos apaixonados
E vendo menos do que a carne consegue exibir.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Memórias de um Suicida Fracassado

Lembro-me do impulso corajoso
Que desejou findar o ciclo de covardia,
Das gotas para a cura tomadas em colheres de sopa;
O veneno.

Não sei se lembro do que se passou em seguida:
Talvez amarras,
Talvez loucura;
Braços contra o peito,
Tornozelos unidos,
Marcas de violência pelo corpo,
Máculas desintegradas por não mais pertencer ao mundo que me integrava.

Eu fui expulso do que julgava meu quando escolhi a porta de um quarto sem luz,
Mas nem entrei,
O veneno não deu pra pagar a passagem;
Só pude fazer uma viagem sem graça
Para uma colônia penal.

Então voltei;
Ah, depois de tudo, eu voltei!
Mas...
Caralho, desacelerar é tão difícil!
Mesmo para quem quase parava,
Desacelerar é difícil...

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Guinadas Difíceis

Hoje quis falar do meu amor por você,
De como me abandonaria,
Deixaria soltos os meus sonhos;
Desconexos dos caminhos.
Hoje quis Brasília,
Dois dias na sua ponte a fim de fazê-la minha;
Esperá-la na sua casa enquanto visita a minha.
Mas hoje contive o meu afoitamento natural,
Não fui sincero,
Fui pausado,
Fui plausível,
Fui quase calado.