segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Oyasumi Nasai

Meu Deus, como me prendo àquela anca farta,
Àquele andar de pernas curtas que não são mentira
- Ventre que se mostra sempre aos passos sinuosos
E mais italianos do que japoneses,
Menos infinitos do que qualquer desejo -.

domingo, 28 de setembro de 2008

As Duas Estações

Eu, deitado sobre ti:
O que não beijam (os meus olhos) é da tua sombra delicada.
Por que mexes nas curvas das tuas cores,
Mesmo que estas cores do silício só existam em minha alma?

Eu, adormecido sobre ti:
O que de leve toca (a minha ânsia) é da tua penumbra camuflada de luz ou escuridão.
Por que não me deixas cair,
Mesmo que só carne, desprovido de sementes?

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Tela Número Três

Eu quase posso voar,
Quase posso cair,
Quase posso sonhar,
Quase posso dormir.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Que Regra Você Joga?

Que regra você joga?
Qual delas você sabe e pode jogar?

Há dias em que é cinzento,
Há outros em que não agüento este pluripartidarismo no nosso tabuleiro
Cheio de guloseimas carregadas de dendê.
Vem, vem ver!

Que regra você joga?
Qual delas você sabe e pode jogar?

Dezembro é contratempo,
Eu finjo que invento só pra te abraçar;
Ludibriar, quem sabe...
Vai, vai ver!

Que regra você joga?
Qual delas você sabe e pode jogar?

O ocaso hoje é ao meio,
Amanhã um teco a mais;
Não vamos nos perder contando-
Fica, fica aí e vê!

domingo, 21 de setembro de 2008

Um Candeeiro Sozinho

¿Contrapões-te por luta sagrada,
Ou para que então se reflita em cada um de nós
A linha tênue que nos liga,
O rebento que nos faz um só - a vida?

Amedronto-me com as frações de poses contorcidas
(O teu corpo seminu para o mundo,
A mãe do ócio exposta para a pureza do mundo;
O mundo em ti,
Proclamando-te).

¿Por que minto a dizer que o meu amor é mentira,
Que te engano,
Que me sugas o sangue
E que te chupo a alma?

Sou teu em cada verso
E não há verso fugitivo que não te refiras sem querer;
Sou o pai da tua criança,
O algoz da tua crença.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Mulher

Ela nem quer saber da hora do Brasil,
Mas muito se importa pela própria translucidez indesejada.
São de saltos que se encaminha:
Minutos sem sentir para não sentir nojo,
Horas de conversa para enganar o frio da calçada,
Dias debruçada em seus porta-retratos,
Meses que vêm e vão até se tornarem anos que não sabe explicar.

Conta que não cabe mais no mundo,
É serva da rainha da noite e, por isso, seu corpo definha aos poucos.
Diz que não sabe ser mulher,
Não quer,
Mas é.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Eu Não Respiro

Eu não respiro,
Decanto as dores que não consigo lidar...
Vejo os teus pés sujos e lembro das luzes de neon que quebrei,
Dos cortes incuráveis que abri nos intervalos de tempo;
Doces lembranças com respingos de sangue feito de ketchup,
Descrível vingança das mulheres de borracha cortadas em postas para quem janta durante toda a vida.

Eu não respiro,
Expulso nojeiras que mal me cabem...
Vejo os teus pés sujos e denigro tudo o que creio para te sentir,
Afago tudo o que repugno para que o inimigo em mim me diga.

Sirene que canta,
Canta para a morte,
Perdão,
Eu não respiro.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Nouveau Cinéma Pornographique Brésilienne

Tudo tão claro quando o motivo não é princípio,
Quando as luzes registram o que não é roteiro...
Veja, no centro perceptivo está a perversão;
O produto de quem agoniza,
O fruto de quem não sabe se perder.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Bordas

Odeio pintar bordas,
Mas pinto.
Afinal,
Quem olha para as bordas?

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Meio Mundo entre Dois Pontos

No peito,
a gana de abraçar o impossível.
Nos olhos,
a degeneração que liberta.
No sudeste de uma iha do Pacífico,
quem nunca esqueci.

Conforme os meus sonhos desvairados,
A tua chama perde a força quando choro,
Mas já não choro só pela saudade,
Pois só de dor não posso
E só de fuga não traço.

domingo, 14 de setembro de 2008

Jim Morrison É uma Cópia

Jesus Cristo era hippie e não sabia,
Bebia vinho e pregava o amor;
Tinha uma casa no Arembepe da Bahia-
Viva solto, sem reconhecer a dor.

O Nazareno era junkie e se fartava
De tudo o que a vida tem pra dar;
Com prostitutas pela noite ele varava
Embebedado, a dizer coisas do mar.

O tal Messias era punk das antiga,
Revolução à la Guevara ou Bakunin:
Tinha a puta Madalena como amiga
E a cruz sem honra e sem posses como um fim.

Pobreza Transgredida

Eu te amo de mentira,
Uma falácia descarada;
Eu te amo quase toda,
Pois toda és quase nada.
Eu te quero distraída,
Lambendo o mel da tua ferida;
Eu te quero repetida
Na pobreza transgredida.

sábado, 13 de setembro de 2008

Quintessência

Quem se presta?
Eu me presto a ser o que não te importa mais,
Pois o que interessa não tem pressa;
Ontem estivemos perto da obscuridade que se arrasta desde o nascimento.

Quem te guarda?
Até então, um colecionador teu, eu mesmo;
Todas as tuas dores escondidas em meu coração de brinquedo,
Esperando conjugações e refinamentos,
Ódio apaixonado e acalento hipócrita.

Deus, meu deus criança
- Novidade para a tua criatura -,
A minha alma parte ao meio e é nada,
Os meus sentidos te pertencem, mas não bastam para entendê-lo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Nordeste Independente

Apesar de estar distante, agrada-me Ribemboim;
Voltaria para casa a fim de ajudar a curar as minhas raízes...

Quase sempre me cansam os ilhados ilusores,
Os que colonizam por dentro e os que coronelizam por fora,
Chupam da terra sagrada os frutos e cospem as cascas
Para o artesanato de quem faz mais do que pode.


Mas meu nome é Brasil, meu caro;
Mesmo perdido num centro cego, meu nome é Brasil,
Mesmo multicultura na retidão torta, meu nome é Brasil.

Desapego

Mais uma vez quebrados, os espelhos,
Portanto, ela se afasta pois sei fingir ser homem;
Comentar dos peladeiros,
Dar nota às bundinhas,
Meter a mão por dentro das calças
E coçar os pentelhos do saco.

Não por muito tempo, eu sei,
Porque todo fingimento desafina num próximo futuro,
Toda corruptela se denuncia num membro coxo
Ou nas unhas mal feitas de mãos delicadas.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Mutante

Não percebi os olhos que aprisionavam
E conspiravam com o medo a redenção da loucura,
Mas,
Embora tarde para a volta da pureza,
O dia seguinte, ainda a brotar, foi mais claro do que qualquer julgamento.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Crack the Code

Não inalei o subterrâneo de Delfos,
Talvez tenha feito pior;
Perdi-me sincero na mendicância da carne,
Simplesmente por carne atordoada e esquecida.

Não quis servir aos deuses para salvar o homem,
Eu só fui homem que se mata aos poucos;
Senti as salivas do mundo nas ferramentas para a própria decadência
E expulsei a influência do cosmos em nódoas e sangue, muco e carvão.

Não li as tábuas sacrossantas de Yam Suph;
Desenhei o som de ossos quebrando para que surdos sentissem,
Entretanto, perdido em euforia,
Não cri que o surdo era eu.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Mulher Esquisita

Devolve cópias das cartas com cola diferente,
Inaugura um termo reinventado na década passada,
Lambe a boca de outros Kanes como o seu pai,
Observa o meu corpo esticado na rede e boceja;
Diz que eu choro,
Reclamo demais,
Mas se deita comigo.

O que essa mulher tem na cabeça?
Por que tenta machucar aquele que já não sente mais dor,
Aquele curado de tanto apanhar?

Vai à cozinha só de camisa,
Abre a geladeira atrás de cerveja,
Acha uma lata,
Bebe de vez
E de uma vez recai menos pobre sobre mim.

O que essa mulher tem na cabeça?
Por que só se esquece da regra quando a regra é ser feliz,
Mesmo que não só seja como a besta que a possui?

Inicia um castigo
- Brinca, não se dá por um desejo meu -,
Acende um cigarro,
Chama-me de criança
- Inocente demais para ela -,
Apaga o cigarro dentro da caneca com dois dedos de café
E esmaga os meus ossos,
Escalpela-me.

O que essa mulher tem na cabeça?
Por que mede os meus porquês parecendo comparar-se,
Tentando separar-se?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Os Autores de um Homem

Quando saio de um universo e mergulho em outro enquanto a tinta seca,
Carrego fragmentos de uma verdade para a outra sem querer...
Meu amor, não sei deixar as minhas vidas para trás,
Não consigo calar as suas personalidades.

A Assinatura

Sentado no colchonete encardido,
Ergueu pelos dedos o cabide a conservar a casaca
E constatou que as lantejoulas mal se prendiam à costura,
Além duns rasgões sob as mangas que aumentavam a cada dia,
Entretanto, vestiu-se com lisura e assinou o seu espírito.
Abriu o armário velho e lá estavam os seus sapatos,
Não tão lustrados quanto deveriam estar
- Em um pé faltava o solado e no outro o calcanhar -,
Contudo, calçou-os sem muita pressa e assinou o seu espírito.
Abriu o seu estojo e havia pouca maquiagem
Para conseguir ser mais vivo do que acha que é,
Muito pouco de amarelo e quase nada de vermelho,
Porém, muniu-se da esponja e assinou o seu espírito.
Pôs a touca que conseguiu emprestada da namorada
- Cabeleireira que o ama, mas quase nunca o entendeu -,
Tinha uns buracos nas extremidades, todavia, dava para improvisar;
Prendeu os apliques de cabelo verde e assinou o seu espírito.
Entrou saltitando no picadeiro,
Caindo,
Levantando,
Fazendo-se de bobo,
Fazendo de bobos quem queria graça
- Todas aquelas pessoas de poucos dentes na boca,
Poucos tostões nos bolsos,
Pouco em quase tudo,
Exceto na fé em Deus -
E assinou a sua alma.

domingo, 7 de setembro de 2008

Iara

Expulso da minha própria vida,
Refugo dum pragma aflitivo,
Alceei a minha tarrafa, mesmo sem fome,
E a perdi, partida, quando tocou o fundo do rio.

- Como pode partir-se assim o trançado do meu avô? -
Pensei.
- É Iara! -
Vi-a por um segundo antes que a minha visão escurecesse.
- Era Iara! -
Entendi por que é lenda quando não precisei mais enxergar.

sábado, 6 de setembro de 2008

O Iludido

Quase sempre na direção inexplorada,
Tu, a minha ilusão das minas geraes,
Aparas as minhas asas com os teus lábios maquiados de escuridão.

Eu, quem se perde nos nós para os teus fios de indagações serenas e epifanias torpes,
Cato as migalhas do que destróis para que te reflitam,
Montadas sem muito sentido contra o teu vítreo encantado.

Vila Buarque

Quem esperou que fosse fim,
A tristonha despedida da atriz,
Não percebeu a melodia entregar-se aos prazeres do poema.

Não foi de alegoria que se enfeitou;
Cobriu-se de panos crus, das próprias visões do cotidiano,
E, tímida, desfilou sobre as vias pútridas da Vila Buarque.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Antes do Gesto

Caminhou sem desejar medir distâncias
Para todo o amor que sufoca,
Toda a paixão que acorrenta,
Imbecil coletivo,
Ilusão do estado de paz
- Estado não é pai nem mãe -,
Confusão de um dia eufórico,
Perfídia para a proteção.

Deduziu assim que viu o que ninguém percebera,
Portanto, atravessou a avenida
Em meio ao tumultuado dia de setembro,
Todavia, atropelado,
Não imaginou o minuto seguinte.

Igualaram a moralidade à legalidade,
Desprezaram as dores que se pensava concorrentes
(Meu Deus,
Chamaram de dores menores,
Ou dores inventadas contra a natureza!);
Uniforme, o mundo é muito menor,
Menor do que lágrima salgada...
E nos deram mais um mote
Parecido com o anterior:
Mote indigesto,
Roupa que prende o nosso gesticular.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Lorem ipsum

Pra começar, não há mandinga que valha,
Ou engodo que me arranque a fé;
Os ventos arautos só cospem asneiras,
As musas ditosas só repetem o que no presente não cabe mais,
A dor em si mal merece tornar-se sofrimento.

Estou de saco cheio deste blasé em preto e branco,
Quero mais;
Qualquer sabor, mesmo que de todos não prove,
Mas que de todos possa provar!

Saúde

Chamou-me para um canto incomum,
Falou do que precisava,
Das cruzes que carregava,
Quase me exigiu as luzes do mundo apagadas
E abocanhou o meu caralho como se precisasse comprovar o valor cobrado;
Alto, por sinal:
Declinei de início,
Questionei-me hipnotizado pela carnificina dos pigmentos,
Aceitei,
Gozei desejando gritar,
Contive-me até que o animal adormecesse.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Coluna de Plástico

Olha só a bela coluna de plástico
Que suporta o aço camuflado de pele,
A mentira fantasiada de lástima
E o meu coração coberto com calda de morango!

Olha só como nem se move!
Parece rija,
Impassível aos truculentos desafios do homem,
Insensível aos pestilentos clamores da carne,
Mas é minha,
Eu sei;
Sendo minha sei que é farsa,
Um capítulo de desgraça escorrida aos montes,
Uma pobre pretensão que um dia deixarei de lado,
Num canto qualquer a cobrir-se de poeira.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A Fumaça

Pés sujos de vida,
De caminhos pelas salas da minha imaginação,
De brincadeiras e danças lisonjeiras se estás sozinha;
Sim, sozinha.

Chão farto de um isolamento
Que não lhe dá razão,
Que espera,
Que chora;
Sim, sozinho.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Asas Quebradas

Trapézio,
Asa,
Amparo para o toque,
Textura da língua úmida contra o dorso seco e resfriado,
Carícia dos dentes incisivos a entorpecer antes que machuque.