domingo, 31 de agosto de 2008

Fechar os Olhos

Fechar os olhos para a forma que seja,
Pois, mesmo situados numa transpiração comum,
Hemisférios nos separam.

Fechar os olhos para o teu corpo magro,
As pálpebras sem divisas até as sobrancelhas,
As pontas dos dedos a percorrer o abdome,
Os mamilos inchados quase ao mesmo tom da pele,
O tremor dos lábios encharcados de incompreensibilidade.

Fechar os olhos é o que nos resta;
Fechá-los a tentar o certo
Ou o tão próximo que ilumine.

Quieta, Nua

Eu vou pra sua casa,
Eu sou a sua deusa;
Distinguo os seus desejos,
Prevejo os seus medos.

Eu tô na sua vida
- Não quero despedida -,
Eu sou quem bem lhe beija,
Mesmo que não me veja.

Eu amo o seu sorriso
E a dor do seu aviso
Que sempre erra em tempo,
Distrai o meu tormento.

Eu morro assim que sinto,
Mas logo ressuscito
Faminta pela sua pele:
Quieta, nua.

sábado, 30 de agosto de 2008

WYSIWYG

O que se vê é o que se tem,
Mas o que se tem é a cópia do mesmo.
O que se faz é o que se quer
E o que se quer é diferente do desejo.
O que se pode é o que se faz,
Porém, decepcionantemente,
O que se faz não adianta.

De que adianta se adianta?
Adiante, homem; vê adiante!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sexta-Feira de Carnaval

Intercalando os seus pudores,
Expulsava as vísceras pela incisão precisa,
Feita pelo algoz;
O desafeto traído e traidor,
Antigo amigo displicente e esbanjador.

Segurava as coisas
Como se quisesse devolvê-las ao seu lugar,
Gritando desesperado,
Caindo em seguida, fulminado.

O povo aberto em círculo se enojava
- Alguns vômitos,
Uns poucos desmaios -,
Acompanhando o desespero da irmã que berrava e chorava;
Berrava por ajuda,
Chorava por previsão.

Vinham uns homens
- Uns de azul que procuravam,
Uns de branco que o carregavam -
E o círculo se fechava.

Fulaninha voltava pra casa,
Beltraninha preferia ficar,
Mas, sobre o sangue de alguém que já se foi,
Vivia-se o carnaval.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Retalhos de Ti




























Adeus ao velho ciclo,
À volta elipsóide
Que continha os teus sentimentos.
Quem vê até se assusta,
Pois os lábios rachados, secos,
Ainda fazem juras de amor.
Não precisa ser Bourbon,
Contento-me com um nacional;
Mesmo que nacional de mentira.
Ah, a falta que fazes,
Tentando roubar as estrelas
E as dores que são da paixão!
Não te importes!
Isso mesmo,
Não te importes!
Arreganhei-te enfurecida,
Soberba pelos teus feitos
E triste pelas tuas perdas.
Hoje?
Não, hoje não;
Eu me importo com a carícia.
Quem sabe outro lado,
Outro mundo,
Outra fé.
Há pontos em branco
Sobre o tecido da tela,
Mas é proposital.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A Dançarina















Surpreende-se desesperada,
Ainda protegida pelos deuses;
Coberta de seda, alfabeto e luz.
Contra a beleza
Não há divisa que afaste,
Não há arma que baste.
Eu a vejo sisuda,
Porém, mesmo aflorada em ódio,
Transpira a morte que arrebata.
Distante do próprio desejo,
Dança sozinha, abraçada à penumbra
E sensível ao toque do nada.

Polares

Quero um foda-se bem dito,
Com forma de carne e cheiro de suor teus.

Quase Longe

Eu te amo
Deformado em verso,
Aniquilado em sombra,
Deturpado em voz.

Eu te amo
E bem me escutas,
Bem me prendes,
Mal me julgas.

Eu te amo
Ébrio;
Pedaço de mim quase bebê,
Tristeza minha sufocada.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Ybytucatú

Na marginal que não se movia,
Ouvia o canto doce de Marisa,
Batia as palmas das mãos contra o volante,
Apreciava o mais do mesmo distanciando-o de si mesmo.

Numa frouxidão para a pressa,
Correu apressado para casa,
Subiu apressado para casa,
Fugiu apressado para casa.

Cumprimentado pelo velho amigo
- O ansioso Manoel e as suas lambidas ensopadas -,
Abraçou-o como um filho,
Afinal, era filho aquele mocinho.

Cuspiu as roupas sujas da labuta,
Abriu a janela de alumínio do terceiro andar,
Esticou-se sonolento e bocejante,
Ademais,
Por um instante pensou ser aquilo a liberdade.

Sentou-se no sofá
- A devorar bolachas secas que mal matavam a fome -,
Ligou a tevê em mais uma novela de dois lados distintos
- Aqueles que nunca distintos em nós mesmos -,
Aconchegou-se com Manoel no seu colo
E morreu em curto tempo,
Enquanto o vento soprava frio sala adentro.

domingo, 24 de agosto de 2008

Digitais: a Besta

Testifico-me sem motivo
A aguardar o teu estado qualquer,
O teu impulso reativo que me fere sem querer.

Sim,
Prossigo a mentira descarada,
Finjo a tua existência para que me compreendas,
Leio a tua alegoria construída para fundamentos do espírito,
Porém,
Sempre nu de fins
- Um impostor -,
Vagueio sem medo dos teus ataques mortais
A dispor estas peças brilhantes que nada me dizem além do seu próprio medo.

O Que Há Depois do Abraço

Desfaço o laço,
Caminho para onde não posso fugir,
Quebro as tuas cisternas
- Por via remota -,
Percebo que não há mais sinceridade entre nós dois
E, disfarçadamente, cerro as cortinas para nenhum espectador.

sábado, 23 de agosto de 2008

Outra Questão

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Ainda Quedas

Permaneço estatelado pelo sumo do veneno em teu ferrão,
Pela dulcíssima intempérie que me enjaula de surpresa.
De quem posso esperar a vitória
Senão de ti que me arrancaste a própria vida?

Ainda conto os pedaços de quem fui;
Cascas que um dia sangue,
Tema de carnaval das cicatrizes,
Enredo de amantes sobre um fim deplorável.

Faço-me de cor invertida
- Toda uma escala de cinzas entre nós dois -,
Mas teimo,
Desconheço o meu abuso
Em desejar-nos misturados,
Reconheço a minha loucura
Em acordar o inexistente.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Sede

Preciso ver o teu traço,
O peso da mão que é tua,
A identidade marcada na tela.
Quero-te com pouca linhaça;
A textura marcada na sombra,
Nua na fronte da tua perversão.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Gaijinized

Vê as minhas raízes?
Há tempos envelhecem;
Anteriores a este organismo que hoje me chama de vírus,
Que me cerca de proteção para o meu ressecamento,
Que me cobre de cuidados para um definhar grotesco.

Ramos não os tenho,
Folhas não me brotam por falta de luz.

ps: gracias, Haru Girl!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Gineceu

Adormece em mim,
Entende o motivo da dança
- Sou a tua morte,
O nosso recomeço -.

Desvia o teu rumo de reinvenções,
Não há nada a ser descoberto ou alcançado:
Está tudo aqui;
É só.

Solta o teu brado,
Faz-me tremer,
Impõe o jeito que só de um jeito há.

domingo, 17 de agosto de 2008

Cm7

Coisa que já vi,
Coração que acelerei e quase fiz parar.
Senso que senti
Calando a minha prosa com um parto,
Prendendo as minhas mãos com violência,
Negando aos meus sonhos a demência.
Olhos que esculpi
Sem as cores que me bestificaram,
Na direção que um dia me traíram,
Em areia para o tempo destruir.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Ensaio Geral

Após sair do estúdio, ainda com a ardência da quinta e última seção de pintura de uma tatuagem no tórax, acenei apressado para o primeiro táxi que vi, já noite, em meio aos travestis que começavam a trabalhar nas ruas da Vila Buarque. O veículo encostou próximo à calçada, poucos metros à minha frente, e dei um pique para alcançá-lo. Abri a porta rapidamente, entrei e sentei no banco de carona.

- Boa noite! Avenida Moema com Ibirapuera, por favor. – pedi.

- Boa noite! - o taxista, um homem grisalho a aparentar cinqüenta anos ou mais, acionou o GPS, definiu o destino, constatou o resultado no aparelho e me informou: - Quarenta e cinco Reais, senhor, porque o Minhocão está engarrafado, de acordo com a previsão de tráfego.

Desde que os taxistas começaram a cobrar antecipado, com essas engenhocas construídas por estadunidenses, inventam que há um engarrafamento aqui e outro ali quando percebem que não estamos carregando nenhum aparelho celular e não podemos verificar a previsão, mas, cansado, apenas movimentei a cabeça em sinal de afirmativo e paguei no cartão, mantendo um breve silêncio a ser quebrado assim que o motorista sintonizou o aparelho de rádio numa estação de música popular brasileira; tocava Sivuca.

- E o jogo de abertura, vai? – perguntou-me, referindo-se à Copa do Mundo.

- Não, não gosto de futebol. – respondi sem rodeios, mais preocupado com a dor da tatuagem recente.

- Faz bem, com essa seleção é o melhor que se pode fazer! – ensaiando um sarcasmo que eu mal pude entender, por não saber mesmo de nada sobre futebol, mas tentei deduzir.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Segundo o Poetinha...

Há tempos obcecada,
Tentando um contato por uma frase vil,
Um antídoto para o teu veneno,
Uma fraqueza do meu mundo para a figuração do teu.

Há muito impaciente
Para dizer-te que, sim, eu sou feliz,
Mesmo que isso não seja verdade.

Hellas por Ela

Explanam com contornos absolutos sobre a bondade dessa gente,
Mas eu não sou o bem que desejam aos seus filhos,
A conduta reta - ou murcha - que pensam exigir os seus deuses.

Alardeiam sobre o mal contido em qualquer prazer meu,
O aspecto perverso em brumas que afirmam existir em meus lábios exaltados,
Porém, ébria em minha ilha de supostos desvarios,
Não ergo coroas de homens corruptos para homens servis.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Persephone's Kiss

Exibes-te quase nua,
Despudorada,
A atrair o amor de qualquer alma,
O cio de qualquer animal.

Posas a favor da luz,
Trepas com a melancolia,
Reduz o arquétipo sombrio a teu segundo plano.

O Velho Menino e a Musa Aposentada

Eu, quedado diante do teu verso,
Algures na cópia da acrópole em decadência,
Deduzo a tua mentira
E mimetizo a minha em um livro sagrado,
Repleto de desejos torpes,
Sentimentos podres,
Corrupção do ser.

Balcão

Demasiado humano este - eu - que não se priva do teu láudano,
Distribuído em gotas sem censura para a letargia e para a morte.

domingo, 10 de agosto de 2008

Se/Então/Senão

Era só mais uma mina que cobrava por fantasias;
Olheiras camufladas pela pintura de guerra,
Esmalte descascado nas pontas das unhas,
Ironia do destino no que julgam vergonha.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Daidalus

Perdes-te encontrada, poetisa.
Percebes o infinito nos teus amparos d'água,
Nos teus furores quietos...
Quietude,
Volúpia que surge da luz de um pesadelo
- preto,
cego até que sussurres,
morto até que nasças -.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Pequena Clareza

Rendido à tua citação
E ao teu tronco curvado, oposto à sombra,
Cerro lábios e dentes,
Abrando pensamentos e mágoas
Para que a tua dança esteja além do silêncio;
O teu corpo contra o ar,
Percussivo,
Denuncia cada mentira em meu verso.

Desejar e Querer

Pressentindo que me encontraria com Aninha assim que saísse da minha consulta com a dentista, desliguei o celular para não receber uma possível ligação de Alessandra, garota com quem venho saindo, pois não estava paciente o bastante para responder as questões intrusivas daquela mulher. Um certo dia, quando a minha vida parecia ter se aprofundado nas mais temíveis trevas da estupidez, eu me relacionei intimamente com Aninha; era garota ainda, dezessete, baixa e gorda, perspicaz mas mimada, masoquista, traumatizada por ser filha de uma beldade e a própria aparência ser repugnante, enfim, um problema que eu poderia ter evitado.

Não precisei me sentir um Nostradamus, porque, como era de se esperar, lá estava ela, em pé, defronte ao balção da clínica, este que se alinhava no parapeito ao queixo da quase anã. Maldita hora em que comentei que iria à dentista para a estorvosa, abrindo o semblante em dentes assim que me viu.

- Que saudade, Deco! Esqueceu que eu existo? - saudou-me para perguntar o que eu não tinha coragem de responder com todos os 'F's e 'P's.

- Você sabe, Aninha, o trabalho me toma. Como está?

- Estou melhor agora, obrigada. E aí, vai fazer alguma coisa agora?

- Vou para casa, tô sem ânimo para sair. - torcendo para que ela partisse para bem longe de mim.

- Posso ir contigo? - fez a expressão facial que sempre fazia quando queria parecer um personagem de quadrinhos mangá que apetece por algo sem poder, mas, devido a feiúra deplorável, sempre me condicionou à vergonha quando em público.

- Você quem sabe. - tentei ser sutil, porém sabia que aquela catástrofe me acompanharia.

- Então vamos, senhor! - estendeu-me o braço, que segurei meio sem jeito, quando, na verdade, desejava empurrar aquela bolha de carne pelas escadas da saída.

Dia de Chuva

Quando estava a me acostumar com uma mancha a bloquear as luzes do mundo,
Outra interrompe a minha paciência,
O meu equilíbrio.

Não me importaria com fronteiras derrubadas,
Com a Foz do Iguaçu sendo o centro de um amor que ontem foi ódio,
Com o Alto Xingu sendo irmão das descendências Incas (quem diria?),
Mas perco muito tempo, preocupado se um olho cego me tiraria a perspectiva de um dia de chuva.

domingo, 3 de agosto de 2008

Novembro Não Tem Nome

Respiração que me acompanha quase muda,
Ordenando-me para que acumule o passado em qualquer sentido.
Ferida antiga ainda sem cicatrização,
Mácula de um lábio que não ousa a abstinência;
Ninguém se perde igual a mim neste sabor adstringente,
Nesta falta de si mesma para si mesma rendida ao hedonismo.

sábado, 2 de agosto de 2008

O Drible e o Miserável Zagueiro

Considerou ofensa o que era só desvencilhamento;
Miserável este que não alcança a compreensão da arte.
Diante de toda a truculência,
Da vigorosidade pragmática,
Da contundência metódica,
Um giro de criança faz do gigante um bobo;
Um João do Mané,
Um espectador dentro do picadeiro.

De que importa se não é para a meta se a meta é ser feliz,
É desenhar sorrisos nas adormecidas sementes pueris?

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Pobre Diabo

Desprezaram o pobre diabo que morre aos poucos sobre o asfalto;
Flagelo de magro,
As tripas na rua,
Os ossos partidos,
As roupas rasgadas.

O povo segue curioso,
Dizem quase em uníssono a cada grupo de olhares:
- Coitado, meu Deus! - e seguem de volta às suas vidas.

O pobre diabo tosse mucosas,
Borbulha vômito e sangue por boca e narinas,
Contorce-se a sentir dores que findam aos poucos
E morre a observar o céu poluído de todos os dias.

Fica ali,
Deitado,
Enquanto a pressa da cosmópole se desvia aborrecida.