domingo, 8 de junho de 2008

Treze de Outubro

Ao mesmo tempo em que Haroldo me tocava, despia-me às carícias e beijava o meu corpo ao ponto em que me sentia mais envolvido no que anteriormente julgava sujo, depravado. Em alguns minutos, rendia-me à excitação que me abraçava sem retorno, correspondia aos calores e respondia às inquietações desprovido de juízo, prejuízo ou prejulgamento. Estava disposto a qualquer destino daquele contexto, totalmente entregue à situação.

A proposta


Impedido de jogar futebol de salão pelo professor de educação física da escola por uma lesão no calcanhar, permaneci sentado na arquibancada enquanto acompanhava o treino que precedeu a última partida do campeonato intercolegial, o embate que nos trouxe o título daquele ano. Sentado ao meu lado, Francis, um aluno considerado desordeiro o bastante para ser excluído das brincadeiras e jogos da molecada, perguntou-me:

- Não vai jogar? - olhando para a quadra.

- Tô machucado.

- Tá preparado para a prova? - referia-se à prova de Filosofia, a ser realizada no dia seguinte.

- Porra, eu odeio Filosofia! Tô pensando em montar uma bula de remédio com aquelas paradinhas dos pré-socráticos.

- Tales de Mileto, Pitágoras, Demócrito, Heráclito, Protágoras e Parmênides? - olhou para mim e logo pensei que estava me esnobando.

- Isso, esses desgraçados!

- Se precisar, posso te dar uma ajuda.

- Não precisa. Valeu! - voltei a visão para a quadra.

- Tudo bem. Boa sorte na prova! - levantando-se.

- Francis!

- Diga. - sentando-se novamente, aparentando certo aborrecimento.

- Na boa? Eu preciso da tua ajuda. Tô fodido, perto de ir para a recuperação. - devolvendo o orgulho garganta abaixo.

- Sai que horas?

- Vou esperar o fim do treino para assistir a preleção para o jogo, depois saio fora.

- Isso são que horas?

- Acho que às duas da tarde. - olhei para o relógio, que marcava meio-dia, e acrescentei, além do tempo que previ sobre o que disse, uma conversa com o professor para poder jogar um quarto de tempo na final.

- Tá beleza. Então te encontro na portaria às duas?

- Certo. Valeu, cara!

- Que nada, meu, vamo passar tranqüilo! - cumprimentou-me e saiu do ginásio a passos lerdos.

A decisão do professor



A demora foi maior do que eu esperava, contudo, quando considerei a possibilidade de utilizar a mochila como travesseiro e o degrau da arquibancada como cama, o professor acenou para mim a me chamar. A equipe se aglomerava, sentada no círculo central da quadra, para ouvir o conhecido discurso motivacional, porém, irritado, eu só queria o fim do espetáculo do falastrão para uma última tentativa de vaga na final.

- Muito bem, guerreiros, vocês chegaram até a final pelo segundo ano consecutivo e isto é motivo de orgulho para mim! Já sabemos o que precisamos sobre o planejamento tático, preparação física e controle emocional, além do mais, o que temos hoje é o que usaremos amanhã. Nada pode ser acrescentado ou subtraído em tão pouco tempo, portanto, haja visto que nos doamos ao máximo. dedicando horas preciosas das nossas vidas pelo aprendizado mais apurado, aguardo ansiosamente que sejamos bicampeões com honra, disciplina e respeito pelo adversário. - disse o professor, seguido do grito de guerra da equipe.

Ele ainda conversou com alguns membros de equipe antes de vir falar comigo. Caminhou sorrindo, em minha direção, o que me deu esperanças, e me questionou:

- Como está se sentindo, José?

- Estou bem melhor, professor, as dores já passaram.

- Isso é muito bom, mas é melhor evitar uma nova lesão. Você vai para o banco, mas não jogará.

- Será que eu não posso jogar dez minutos?

- José, a final é sempre um jogo aguerrido, pode te causar complicações futuras. Eu quero que você continue sendo o nosso capitão no ano que vem.

- Mas...

- Nada de mas, guerreiro! - abraçando-me, a tentar me consolar. - Não se preocupe, porque, se ganharmos, quem levanta o caneco é você. - o que não me consolou.

- Está bem, professor. - naquele momento, eu queria dar um chute na canela daquele filho de uma puta.

- Guerreiros, boas provas finais para todos! - com a mão no meu ombro, gritou para toda a equipe, lembrando-me que eu precisava estudar para a prova de Filosofia.

A garota do segundo ano



Senti-me indignado por não poder jogar, apesar da consciência de uma possível lesão mais séria. Na portaria do colégio, ainda tive que esperar por Francis durante dez minutos, que chegou abraçado com Sinara, uma garota do segundo ano, o que rendeu um certo respeito meu por ele; ninguém da minha classe conseguia ter tanta proximidade com garotas mais velhas.

- Vamos? - Francis, para mim.

- Vamos. Onde vai ser?

- Você conhece a Sinara? - dando um beijo no rosto da garota.

- Do time de vôlei do colégio. Sou José, como vai?

- Você joga no infanto-juvenil de futsal, né? - perguntou-me Sinara, quebrando as minhas pernas.

- Isso, sou eu. Prazer! - estendi a mão para cumprimentá-la

- Nossa, eu assisti o jogo em que você se machucou. Você está bem? - segurou a minha mão e me beijou no rosto, espalhando um perfume delicioso por toda a minha alma.

- Bem melhor, mas não o bastante para jogar a final.

- Por falar nisso, parabéns! A equipe de vôlei feminino caiu na primeira fase.

- Não se preocupe, ano que vem tem outro campeonato. - sem conseguir, até para a minha auto-crítica imediata, tentei animá-la.

- Acho que não, ano que vem tem correria para o vestiba e eu desisti da carreira. - sorriu.

- Vai prestar para quê?

- Filosofia.

- Então, José, por isso que ela está aqui conosco, além da companhia agradável! - afirmou-me Francis.

- Vai estudar conosco? - perguntei-a.

- Tenho um amigo, bacharel em Filosofia e Direito, que me dá aulas sempre que preciso. Dei um telefonema e ele pode nos ajudar.

- É aqui perto, José, nem precisaremos ir tão longe quanto iríamos. - confidenciou-me Francis.

- Nossa, então vamos! Qual é o nome do cara? - perguntei.

- Haroldo. - respondeu Sinara.

O filósofo



Conforme o afirmado por Sinara, não precisamos andar muito, apenas três quadras nos separava da residência do seu amigo; uma casa que sempre me chamou a atenção quando eu passava por ali, por parecer um forte construído para trancafiar o resto do mundo do lado de fora. Não considerei estranho Sinara possuir cópias das chaves para entrar com toda a liberdade, mas me intrigou um pouco; entramos e fomos recepcionados na sala de estar.

- Como está, minha flor? - um senhor, aparentando mais de quarenta anos, abriu um sorriso carismático para Sinara, deu-lhe um amplexo abrasivo e, para deixar-me com uma pulga atrás da orelha, tascou-lhe um selinho singelo.

- Estou ótima, Dodô! Quero te apresentar meu novo amigo, o José. - fiquei mais encucado com o fato do Francis já ser conhecido.

- Como vai, José? Quer dizer que tem problemas com filosofia? - perguntou-me o senhor, enquanto abraçava Francis.

- Tudo bem. - cumprimentei-o avexado, ademais, envolto por inúmeras suspeitas. - É, tô precisando de um oito para não ir para a recuperação.

- Qual é o conteúdo? - prosseguiu.

- Pré-socráticos. - sentindo-me cada vez mais tímido.

- Olha, em um dia eu não prometo grandes progressos, mas creio que, se tiver uma pequena base, conseguirá seu oito. Sinara tem um bom conhecimento sobre pré-socráticos e pode se revezar comigo para ajudá-los. - a idéia de ser ajudado pela Sinara, a mesma que me fez perder horas regressas no chuveiro, a tirar o short de lycra branco da equipe de vôlei em meus pensamentos, deixou-me excitado. - Como você está de nota, Francis?

- Tô precisando de quatro e com um certo conteúdo; acho que não terei problemas.

- Então façamos o seguinte, eu questiono o Francis para saber a quantas anda e, enquanto isso, Sinara passa o conteúdo para José. - era tudo o que eu queria ouvir. - Vamos à mesa? - indicando uma mesa de de vidro no canto da sala.

- Então venha cá, meu lindo! - puxou-me pelo braço, à medida em que eu lutava para não demonstrar a minha excitação instintiva.

A aula



Francis e Haroldo adentraram pelas dependências da casa e eu mal dei atenção a isso, pois, enquanto Sinara me explicava acerca das diferenças entre os pensamentos de Heráclito e Parmênides, eu namorava o balançar dos seus seios sob a blusa do colégio. Empolgada, num ensinamento profundo sobre Tales de Mileto, a criação da Escola Jônica e a substância primordial, olhava-me diretamente nos olhos como se toda a gana do mundo precisasse do meu entendimento sobre o assunto, contudo, fingindo atenção, estava hipnotizado pela disposição da moça, imaginando-o canalizada para outro fim. Assim que passou a comentar sobre o pensamento de Protágoras, estava tão cega das redondezas que eu ousei por a mão sobre o meu falo e, assim que percebi não ter sido notado, masturbei-me lentamente, de acordo com o compasso da respiração da garota.

- Meu Deus do céu, o mundo acontece do jeito que sempre acontece! - Haroldo gritou hilariante, chegando de surpresa, e eu mal sabia como me comportar.

Tirei a mão tão rápido de dentro das calças que até Sinara achou graça, questionando-em em seguida:

- Você acha que eu não vi isso? - ruborizado, achei que seria expulso naquele momento. - Deixa eu ver?

- Como? - encabulei-me, sem entender direito.

- Deixa eu ver? - repetiu.

- Não assusta o garoto, Sinara. - pediu Haroldo. - Venham cá. - sentando-se no sofá, próximo à mesa.

- Vamos! - Sinara, erguendo-se e tomando-me pelo braço, enquanto eu levantava envergonhado, com o pênis ainda enrijecido.

Com todos sentados no sofá, Haroldo continuou:

- José, não precisa ter medo dela. - enfiando a mão por baixo da camiseta de Sinara, enquanto a mesma sorria. - Venha, sinta essa barriga macia!

Coloquei a mão no mesmo lugar e percebi que qualquer movimento meu era correspondido com uma pequena contorção do torso, às vezes um gemido e em outras um deslizar de mãos sobre os próprios seios.

- Só precisa ser delicado, rapaz. Vai devagar, dê prazer a ela. - Haroldo, desabotoando as calças da garota.

Ele a desnudou e a tomou numa tulipa negra; eu permiti que ela percorresse meu corpo com a sua língua. Quando dei por mim, Sinara, Haroldo e eu estávamos abarcados num fim comum.

(...)



Naquele ano, cursei a recuperação de Filosofia, mas fui aprovado com elogios da professora. Continuei visitando a casa de Haroldo, quase sempre acompanhado de Sinara, quando não ia sozinho ou com Francis. Hoje, dez anos depois, não os vejo há muito tempo, mas sempre lembro deles quando corrijo as provas dos meus alunos.