sexta-feira, 9 de maio de 2008

Baú X


Paródia 1, 1-6





1 A mais desavergonhada prosa de Dona Elisa.
2 - Ah! Toque-me com os dedos das tuas mãos, porque os teus prazeres são mais entorpecentes do que o cânhamo egípcio,
3 e arrepiante é o cheiro do teu suor; o teu pseudônimo me excita com tanta brutalidade que se assemelha a um tapa no meu corpo em chamas; por isso há tantas ninfetas a esfregar as suas voluptuosidades em ti.
4 Leva-me embora deste marasmo, dirige! Eu sou do dono do morro. Gozaremos sorridentes e satisfeitos com o teu poderio. Teus lábios e língua satisfazer-nos-á mais do que o sadismo mórbido. Quanto quero o gozo!
5 Sou negra, mas os meus cabelos são sedosos, ao contrário do padrão estético modista que perdura a mais de uma Era, enteadas do Novo Mundo, como os barracos da Mangueira, como o revestimento em pedra-sabão do Cristo Redentor.
6 Não importeis com as minhas madeixas ao natural após a água da chuva. Meus irmãos me odeiam; incumbida de observar as minhas cunhadas, não prestei atenção na minha própria vida.










Fragmento de Melodia





Temeu a morte e morreu agachado sem sequer se apaixonar.










Prefácio de Coreografia Digital





De uma chave a outra, com ajustes entre as mesmas,
Criei partes da dança no silêncio obscuro de um galpão virtual.
Doente, não posso sair correndo para mostrar-te o sentimento,
Mas posso exibir-te o movimento com um resquício de vida,
Ao menos um resquício de vida.










Os Pontos de Vista do Espetáculo Vivo e os Ínfimos da Mídia





Tenha a própria coroa de espinhos por um real e noventa e nove centavos,
A própria Via Crucis e o interino reinado em uma nação de escravos!










Um Dia em Caesarea





Não tive a benção das atrizes
Por descobrir suas cicatrizes,
Milhões de deixas questionáveis
E três épicos inviáveis.

Não fui riqueza numa rima
Por precisar de uma sina
Que me dissesse o que sou,
Contasse-me onde estou.

Mas há segredos em meu lar,
Poucos desejos de um par
Rouco por um esquecimento.

Sei segredos de um aprendiz;
Aquele homem infeliz
E desvendado pelo tempo.










Inconsciente





A brincadeira serviu para percebermos quão brando está o tempo,
Uma tentativa de estrondo num volume de espaço sem matéria
(...)
Esqueci de trocar as lentes dos meus óculos
E de finalizar a luz do mais recente quadro.

E daí que não há o estalar de dedos?
Faz-se melhor assim, creio eu,
Pois ainda a vejo sentada no mesmo lugar,
Banhada de nome santo e vestida de expressão pagã.










Eu, a Professora





Compus o meu semblante de desinteressada para irritá-lo,
Mas, talvez pelos demais artifícios, não cheguei a utilizá-lo.
O coitado penou (sei que parece ter sido crueldade minha),
Entretanto, diante do necessário, ensinei-o muito bem a ser feliz
(Viu sem pensar e vice-versa,
Chorou sem amar em minha peça,
Calou pra roubar a minha alma,
Sentiu-se mulher sem ser uma).










Talagada





O que vi ou o que consideras acontecido?
A versão mais sórdida, sem gelo, por favor.










Push May





A representação da prostituta no papel,
A indagação do impossível na sobrevida,
O sobre o óbvio,
A redenção da Politéia - ou o controle sobre a mesma -.

Foi a pé que conseguimos,
Mesmo nunca saídos daqui.
Foi a pé que vencemos,
Mesmo nunca mergulhados na lama.

Os meus filhos alimentarão esta fábula
Como eu e os meus antepassados fizeram,
Pois assim não haverá cisão da nossa virtude
E povos futuros conceberão tais mitos como iniludíveis.

Percebes?
Este é o capítulo que incinero em nome da nossa história.










O Desenho do Design (Eu Sou Brasileiro)





Eu sou brasileiro,
Língua nativa tupi-portuguesa,
E me incomodo com esses termos anglo-saxões economicamente ativos.
Eu sou um brasileiro nascido no centro da costa,
Cafuzo filho de Xangô com Iansã,
Baiano crescido na Nação Tupinambá,
E não vejo beleza no uso daquilo que a minha cultura também sabe dar.










Ogni Giorno Sarà Tuo





Não fui brincar e você vestiu vermelho,
Adornou a minha vida encarnada no seio da minha solidão.
Não quis sofrer e me rendi,
Mas me arrependi pois lhe sigo cegamente,
Portanto,
Envergonhado,
Espalhei estrelas decadentes nas falácias que me conta
E cumpri todas as promessas encobertas pelas lágrimas que expulsou para me convencer.

Pode sorrir agora,
Não há alimento que me baste
Ou paramento que me cure...
Pode cantar agora,
Não há vitória que me honre
Ou perdão que me sacie.










Supra-Sumo





A miopia na pintura,
A distopia no raciocínio,
A poesia na futilidade,
A ironia na verdade.










Bun Venit





Bucareste aqui bem perto,
Sem ação e contorcionismo:
Filho formoso do latim.










Alma no Asfalto





Respondo-te com a mesma pergunta,
Calo-me com a mesma auto-ameaça,
Degluto o teu orgulho para não sangrar
E minto sobre nós por um suspiro em liberdade.

O dia cessou e a sua alma ainda está marcada no asfalto,
Em vozes que se confundem com o ronco dos motores e as propagandas informais;
De passagem,
Parei por uma fração para ficar no infinito.










Cinza e Preto





Entre nós, um sinal,
Ou um gesto banal
Que distrai os sentidos
E corrompe os abrigos.

Outro dia discreto
Para o cinza e preto,
Em que saio cansado
Do seu beijo manchado de dor.










A Longevidade de um Sentimento Banal





O disfarce são as doses homeopáticas de veneno,
As gotas viscosas de tempo que ululam sem sorrir;
Tomei a chave do infinito e a guardei entre dejetos,
Os restos vitais da fúria que não mais me persuadem.










Discórdia em Nome do Verso





Dez sílabas são
Dissilabação.
De sílabas são
De si; lábias são.










O Peito





Dia obumbrado quando a vi escurecer em meus braços;
Olhos arregalados,
Semblante assutado
E mãos contorcidas antes do desmaio.

Lucidez deixada aos poucos durante os passos macambúzios,
Embriaguez de lembranças,
Estupidez em gestos que circundavam as fagulhas da intempérie.










Errata





Crianças não cometem erros,
Apenas derrubam castelos de areia.










Preparação





O que encontrei não está na voz abrasiva,
No modus operandi em eterna despedida,
Nas gotas úmidas sobre as rosas após a chuva,
Ou na claridade anterior a uma vivência turva.

Veio alguém e me falou:
- O teu inferno me conforma!
- O meu inferno é o que sou. - respondi,
Mas o inferno é o que me engana.










Do Frio





Veja o que faço sangrando em seu jogo sutil
E perceba que há muito tempo não sinto mais frio.
Não lhe darei o que espera de um momento final;
O sono satisfeito após a refeição uberal.

O seu caminhar taciturno não mais surpreende,
Não mais me acorda apanhada em suor
E envolvida pela penumbra que me amedronta...
Há muito tempo não sinto mais frio.










As Sete Tábuas





Enuma Elish
Dormi embotado pelo que te pede
Um novo amor a cada novo dia;
Nem me percebi vestido de pierrot
E em todos os destinos me enganei.
Meu marasmo foi uma súplica
Medida em linhas paralelas que jamais percebi:
Livre de qualquer corrompimento odioso,
Desenhei uma mentira chamada bondade,
Saboreei um desejo pela causa perversa...
Nenhum deus foi tão demoníaco como Marduk,
Impondo-se - sem querer - através dos braços daqueles que não amei.










Algumas Gotas de Sangue





Bom dia com gosto de melão,
Boa tarde cheirando a café,
Boa noite de sonhos e ilusão
A viver o que ninguém mais quer.

Sofrendo, extraí este tumor
Da boca que um dia te beijou,
Pois finjo não existir amor
Neste que só eu sabe quem sou.

Dez pedras quebraram minha vidraça,
Em só uma mergulhou o meu paladar
Com tinta e óleo de linhaça
Na tela que pintei pra me afogar.

Sou carne no canto do teu quarto
E antena na janela do teu mundo,
Mas pequei por não fazer o parto
Do rebento que será um vagabundo.










Doppelgänger





Matei o meu doppelgänger e me arrependi;
Onde está a beleza contida na capciosidade do mal
Que o mesmo construía só para me ver sorrir?










50x50





Liberdade em kanji no pulso,
O próprio nome em katakana no braço,
A vida em um tom cansado nas pálpebras,
Os sonhos em quadros que a rodeiam.










O Que Não Foi





O único motivo do retorno não está mais lá,
Encontra-se a mais de quinhentos quilômetros
E com o mesmo semblante de quem só vive por amor
(Perdi a minha onipotência aparente
E passei a me preocupar com a secagem do óleo sobre a tela,
Mas o sorriso ébrio que vejo nas fotos dos seus lábios delgados é o mesmo).

Qualquer gesto agressivo só parece brincadeira,
Qualquer brincadeira me parece lembrança dolorosa.

Não quero ir,
Não quero tentar o resgate de algo que sobrevive abstraído,
Pois me arrependo do dia em que troquei o seu beijo por uma ilusão
(Deitada,
Esperando proposta melhor do que um encontro mordaz,
Resolveu ir comigo por não ter sido tocada).

Qualquer grito de ódio só parece brincadeira,
Qualquer brincadeira me parece um padecer silencioso.










Domingo em Casa





Um viva à massificação dominical do ridículo,
Da comparação à estapafúrdia prisão que se diz livre,
Da beleza construída para não ser alcançada,
Do fingir de imaginado que inventa um julgamento sem sentido.










Luz e Desejo





E ela me pediu:
- Olha a minha luz! -
Da cegueira momentânea, só o calor do seu rosto.
Partiu para o outro olho e repetiu:
- Olha a minha luz! -
Da proximidade, só recordo do desejo libidinoso.










Não Sei o Que Pensar





Um evangélico citando Marx para afirmar que só precisa de Deus,
Uma imprensa que pressiona para que haja a imparcialidade,
Um terrorista que compõe versos para matar valores hereges,
Um anarquista que controla um grupo para salvar o mundo
E um esforço para alimentar um sétimo do que foi gasto.










Conexão Brás





Todos ao centro nervoso,
Quanto mais perto melhor.
Quem é de Mauá quer Santo André,
Quem é de Santo André quer São Caetano,
Mas todos querem a Sé ou a conexão Brás.