quarta-feira, 9 de abril de 2008

Baú IX


Bilhete





Eu sei que procrastinar é divertido,
Que faz parte do ócio criativo,
Mas hoje há um desenho pra entregar,
Uma porra de desenho pra entregar.










A Genialidade de Golias





Kantiano engano moralista,
Entretanto, perdido em seu encanto,
Livro-me da praga que assola a minha criação,
Louvo as criaturas como se fossem os meus deuses;
Yin que se comporta feroz contra o fora de si mesmo.

Corrompo o destino do verso lacrado,
Respeito o desejo perseguido através de satélites;
Impressão que tarda,
Suspira descontente por pouco.
Tempero o óbvio com aleatoriedades,
Ilibando o elogio que me torna vulgar
Na carência comum a um mundo qualquer,
A um impulso próprio à miséria que me ilude.

Ciano ao seu redor
E não há mais ninguém,
Rodeada do notável e não há mais ninguém...
Assim,
Ziguezagueando neste estapafúrdio clichê,
Impedi que não se tornasse uma marca em minha vida.










Questões e Tentações de um Guri





É engraçado como as pedia para que se despissem,
Em minha guerra interna
- Quase sempre implosiva -,
Pois rodeava o desejo em brincadeiras da verdade
E mal sabia o que fazer quando as tinha ao meu dispor.

Desconhecia a curiosidade mútua,
Todavia, sem respostas na inocência,
Obumbrava o meu impulso com mordidas maquiadas,
Contornava os sentidos em cantos escuros da varanda.

Não conhecia o fim,
Não pretendia o fim,
Apenas a eternidade de uma tentação que cessa.










Nudez Ilusória





Meu corpo respeita outros ciclos,
Minha vida desperta outros gestos;
Prossigo na cadência silenciosa que não alcança a evolução,
Componho a rima inocente que não se biparte em qualidades.

(Percebo as tentações aromáticas,
Aquelas que explodem e me alcançam
Sem enxergar limiares a conter-se,
Na mais simplória definição do inexplanável...

Acalmo-me e continuo caminhando)

Ninguém me guia de princípio,
Mas acabo redescobrindo que assim sempre será.










Uma Pintura da Ferramenta de Roma





O déspota marcou o teu antebraço com a sua crença cortada,
Invertida para quando pudesses apontar um caminho
E aparente para que sempre te sintas sozinho.










A Grama do Meu Jardim





Nem a vida acima dos meus ombros,
Quiçá qualquer compadecimento...
Rabisquei possíveis novidades,
Meros esboços de idéias que me surgiram,
Mas não prossegui-
Impedida pela minha prepotência.

Nem a grama abaixo dos meus pés
Quis pertencer ao ambiente que criei;
Impedi as suas formas e cores até o último momento possível,
E quando percebi a sua importância,
O que me restava de vida palpável, plausível,
Um universo se compreendia intransponível entre o meu ser e a minha alma.

Desejei romper esta casca rígida, de sebosidades viscosas,
Contudo, nauseabunda em meio às minhas construções culturais,
Prostrei-me em posição fetal no aguardo da morte.










Versos ao Vento





Um pressupor de tenaz paixão,
Um tempero que me faz sorrir,
Uma penúria sem solidão,
Um sonho de Salvador Dali.
Uma tristeza que traz a vitória,
Uma coesão sem cadeados,
Uma opulência bem mais simplória,
Um amor para os flagelados.
Uma meritocracia pueril,
Um comprimir de meu infinito,
Um olvidar de morte gentil,
Uma tentação para o seu grito.










Estado de Transe





Estado de Transe
Não creio na miséria com a falta do Estado,
Nem creio no Estado que define o que é miséria (...)
Não creio no Estado.










Registro Imediato





[Eu, o pensante]

Posará para mim após ter negado pela terceira vez
E não sei a razão da mudança...
Tímida,
Envolvida num lençol de cetim,
Adentrou o estúdio como se quisesse desistir.

[Eu, o pedante]

Não desista agora,
É uma cicatriz para curar a minha alma!

[Ela, a submissa]

As tuas navalhas não me amedrontam,
É a minha desinibição que apavora.
Ademais, a tua alma carente,
Doente,
Não me importa,
É a resposta do meu corpo que me compromete.

[Eu, o padecido]

Se é da tua vontade,
Sê tua para ti mesma;
O que penso está morto,
Remeto-me apenas à visão para ler o teu desejo.

[Ela, a dominadora]

Cala-te e me assuma
Nua,
Desvencilhada de contimentos,
Repleta de sentimentos,
Ignorante da culpa,
Apreciadora da dor que constrange,
Autêntica!










Teardrop





Um homem dentro de uma lágrima,
A busca por um par perfeito...
O que se espera do tempo
Se o próprio foi desfeito?

Um homem dentro de uma lágrima,
Escorrido em quinze centímetros
E inconsciente do que há por vir.
Quem pode voltar daqui?










Anorexia





De fotógrafa a fotografada,
De amante a abandonada.
Quem escreveu estes versos
Que fingem ser culpa de incesto?










Amor e Medo





Atido à felicidade,
Fechou os olhos para as soluções eficazes
E agarrou os meios para a curta duração.

Não quis saber da dor,
A não ser as do seu caminho imediato
- Logo esquecidas em uma noite de sono -,
Portanto, aprofundado na intempérie por um 'ser melhor',
Foi semelhante a todo o mal que o afligia.

Daqui
A sua voz dispunha de mil tropas a seu dispor,
Contudo era a voz que não importava à sua alma.

Daqui
O seu brado inflamava qualquer homem às últimas conseqüências,
Exceto aos desejos que o fizeram galgar o quisto conhecimento.

A honra então é limite
E o medo é amor que não volta.










Olivença II





É mar revolto,
É praça de interior,
É Olivença.

É asfalto para a ilha,
É vagão de trem na beira da praia,
É Olivença.

É lembrança que não foge,
É fuga pelo que nunca fui,
É Olivença.










Questão de Classe: a espada e o espelho





Estou refém de um grito sem face,
De uma evolução para viver no lodo.
Quem diria que a beleza seria o engodo
Quando o silêncio se tornou questão de classe?










Rosa Graciosa, Ou o Amanhecer





Não siga a melodia que criei pra te enganar,
Pois toda poesia pede a chave de um lugar diferente.
Estive ausente e não pude compreender o passado em um só peito,
Portanto,
Diante do que foi feito de nós dois,
Antecedo-me ao campo de batalha sem as armas que os justos esperam
(As mesmas forjadas pelos criadores da justiça,
Aquelas que usei ao ser derrotado antes do exílio).










Eu, o Aproveitador





Eu, quem não te ama,
Poderia fingir mais uma vez,
Mentir mais uma vez,
Sorrir sem muita paz.

Eu, quem não te ama,
Contive o teu clarão
Desprovido de razão;
Sacrossanta ilusão.

Eu, quem bem se perde,
Encontrei-me no sotão - calado - com a pelúcia queimada.
Eu, quem sofre de impaciência,
Caminhei muito menos do que o meu espírito permitiu.










Sobre a Doçura Que Me Incita





Sinceramente, desejo matá-la.
A cada nudez nojenta
- Em sua obesidade mórbida -,
A cada comentário excitado
- Em sua futilidade sórdida -,
A cada maquiagem do verso
- Em seu zelo infundado -,
A cada amarra imposta
- Em sua proteção egoísta -
Eu,
Cansado deste veto de mim mesmo,
Desejo matá-la.










Escala de Cinza





Milhões de microcosmos à abertura da janela,
Visões das diferenças cuspidas na minha cara.
Maneira recatada,
Frieza pungente,
Beleza em taras que se diluem num turbilhão.

O todo se derrama e não encontra poros,
Então as vidas bóiam sem saber o que é seu...
O que é meu nestas cores cobertas pela escala de cinza?
O que se faz do borralho que ampara esta vida opulenta?










Antes da Metade





Vê se esquece as besteiras que eu te disse,
Os interlúdios de uma paz que foi mentira
E a promessa de ser tua até o fim:
A retidão cansou meus olhos antes da metade.










Azul





Nem quis saber se a marginal está congestionada,
Só prestei atenção para te ver e ouvir falar.
Língua contra os dentes,
Lábios contra a vida;
Na minha terra que nasceu a perfeição.

Nem quis dizer do que sinto para o nada,
Pois mais nada importa se não está aqui;
Sem medo de me repetir
Ou de pintar um mundo há muito construído.










Bossa Sem Compromisso





Só espero que não seja tarde demais,
Mas espero que assim seja.
Está longe do que entende ser sua paz,
Mas um dia ela te beija.

Eu avisto o teu momento em nuvens de som
E me entrego sem perguntas
Pra que me mostre de uma vez esse sonho bom
E a razão de minha culpa.

Eu sei que você sabe que não é assim,
Mas quando isso terá um fim?
Eu sei que você sabe que não é ruim,
Então não chore mais por mim.










12 de Setembro





Razão e emoção,
Visão e sentimento...
Por que escondo as cores que só conversam comigo?
Por que disfarço o medo que me exibe liberdade?

Do toque à auréola fui pouco criativa,
Mas da palavra áspera à penumbra vomitei um épico de lamúrias.

Se a minha carne não criasse um espírito
E se esse espírito não nomeasse a carne
Eu seria o frio que me conforta,
Mas não indagaria a escuridão.










Brazilian Dream





Matricule os seus filhos numa escola de sucata
E viva o brazilian dream,
Alimente a sua família com a esmola do governo
E sinta o brazilian dream,
Veja a sua mãe morrer na sala de espera
E brinde ao brazilian dream,
Seja educado com o ladrão a te roubar
E ame o brazilian dream,
Analise que o seu voto não valeu a dentadura
E exalte o brazilian dream,
Caminhe na calçada, se estatele num buraco
E creia no brazilian dream.
Acorde com a enxurrada a derrubar o seu barraco
E agradeça ao brazilian dream,
Assista a mamata deslavada no congresso
E cante ao brazilian dream.










As Piadas Sem Graça e o Plano Reto





Se eu disser que esta zorra não está certa,
Pois é reta
E não tem jeito de água paciente,
Talvez me xingue,
Me chame de indecente
E se vingue das minhas piadas sem graça.










Os Desenhos da Portuguesa





Também me lembra Frida Kahlo, analisei mal,
Pois a morte exposta nos teus sonhos de verdade me remete a Magdalena.

Quantos olhos de águia tens?
Por que te cobriste de pudor quando já estavas despida?
Qual a próxima censura,
O próximo receio?

Sei que recordei Tarsila do Amaral
- Atropofagicamente em parcas garfadas,
Aleatoriamente em curvilíneas tracejadas -,
Mas, agora, parece-me algo mais lusitano,
Que se iguala na busca do que está dentro de si mesmo.










Um Reflexo





Estou apaixonado por um reflexo
De olhos puxados - mestiços - e maquiagem negra,
Que se despede quando a pia está repleta de louça
E, vez ou outra, assume a forma de um coração de neon.

Criei obsessão por um reflexo
De poucos ângulos e muitos ideais,
De adoração a aviões psicodélicos
E exaltação aos avessos por liberdade.

Para o reflexo eu não sei o que sou...
Só há a certeza de ser mais um reflexo
Distorcido por desejos e contimentos,
Embotado por sentenças e dúvidas.










Tecnofobia





Sem qualquer parcimônia excedente,
Proferiu fagulhas a todos
E saiu da sala com a alma cheia de ira...

Não pôde mais responder aos seus impulsos,
Não era mais uma forma de provar o mundo.










A Alegria e o Brinquedo





Ninguém está sorrindo,
Ninguém mais comemora;
O sonho corrompido
Foi visão desta hora.

Os sons que me procuram
Enganam seus ouvidos,
Os desejos que curam
Jamais foram despidos.

Sou parte do brinquedo,
Momento da alegria
E uma voz sem perdão.

Sou feito um segredo,
Tormento da ironia
Que finge uma paixão.










Um Dia em Feira de Santana





Há um livro nas asas da borboleta,
Escrito em cologarítimos
E maquiado por uma paleta que não consigo dividir.
Há uma história de amor que ninguém viveu,
Um aprendizado que não soubemos alcançar
E um jeito diferente de falar do mundo que há muito conhecemos.

Eu me perdi na água em meio ao esgoto,
No asfalto sobre o chão morto
E me esqueci dos ciclos sagrados em meu peito.
Eu quis fugir do ar que me faz chorar,
Do horror em meus desejos
E não vivi o bastante,
Nem o mínimo que importe o esforço de ter nascido.










A Boneca de Pano





A boneca de pano,
O pedaço de gente,
Foi um ledo engano
Pra te deixar contente.