quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Baú VIII


O Mundo ao Meu Redor



A coragem agora é incerteza,
Um impulso para vê-la distante,
Um engano por poucos momentos,
Um encanto por muitas tormentas.

A verdade é a fraqueza do homem,
A franqueza na promessa quebrada,
Os acordes de baixo invertido,
O repúdio após o sorriso.

Do padrão veio o esconderijo;
Um desejo em corpos desnudos,
Os olhares que marcam um triângulo
E as idéias que me furtam a sua força.

Vou esperar até que possa ver
As entrelinhas do meu medo no escuro.
Vou esperar até que possa crer
No que lhe peço sem pedir resposta.










O Candelabro





Por ser feito de toque e lágrima,
Definha numa sofreguidão tamanha que impede a audácia.
Por perder-se nas desilusões lúdicas de uma pintura em aquarela,
É todo feito de um desejo desconhecido,
Uma dança que é tentativa de coito sem saber por onde ir,
Uma andança por fim inexistente e meio que não zela.

São de alegorias conscientes para esconder o animal
Que a alma se engana a pensar não ser normal,
Mas eu te amo, canalha,
Eu te quero em minha pele;
Sou das mãos a me invadir na certeza que me impede,
Portanto, após este último suspiro,
Cale a tentativa deste estúpido esmero.










Aquilo Que Juro





Quero matar para que me torne réu,
Quero mentir e acreditar que aconteceu,
Quero os teus olhos - desleixados no escuro -
Mais surpresos por aquilo que eu juro.










É Samba-Canção





Conheci Adoniran quando ouvi Elis cantar
E a Estação Primeira quando assisti Mussum brincar.

A Liberdade é aqui
E o metrô me leva a quase qualquer lugar.
A Bela Vista é do lado,
Mas ainda não aprendi os acordes para um samba de bamba.

Eu sei,
As feijoadas são aos sábados
E todo mundo vai à roda para pular na quadra do Bixiga,
Contudo,
Neste dia claro, ensolarado,
Uma dor no peito me acorrentou ao caderno;
Não é enredo,
É samba-canção.










Do Sorriso Que Repreende a Própria Felicidade





Nós,
Do sorriso à escapadela d'alguém,
Deixávamos a nossa inocência aflorar-se
Ou boiávamos guiados pela correnteza?

Nossos sentidos nos traem,
Ás vezes sem sabor
E outras sem odor,
Portanto, precisamos ter cuidado com correntezas;
Sejam fruto duma foz
Ou dum cano de esgoto.










Sem Verbo ou Gesto





Foi um embrião sagrado,
Fruto de um ato profano,
Que veio calar meu brado
E enfurecer meus planos.

Foi uma criança linda,
Dona de instintos torpes,
Que matava o que finda
O ódio que alimenta o golpe.

Ontem ninguém mais viu,
Hoje ninguém chorou;
O ciclo que se completa,
Fechou-se sem verbo ou gesto.










Dentadura Encardida





O aço, banhado pelo meu sangue,
Repartiu tantos prazeres que pude identificá-los;
Antes meros impulsos indiscrimináveis,
Agora gotejados em períodos tão longos entre os mesmos que causavam tédio.










A Passagem do Exu Bêbado





Assim, aos solavancos,
Tropeçando nos convencimentos que secavam o coro da paixão à sombra,
Caminhou até a útima letra do alfabeto
E cuspiu onde imaginou haver um ponto de exclamação.

Assim, aos trancos e barrancos,
Zigue-zagueando por via larga que aparentava ser estreita,
Levou o seu verso de amor para a foliã,
A mesma que desistiu do bloco,
Porém, ébrio havia muito tempo,
Desmaiou antes que pudesse explicar ser apenas um mensageiro.










Do Merecimento Que Nunca me Importei (ou sempre disfarcei que não)





De volta às favas,
Às velhas imundicies com sombra de elogio...
Eu bem que espero,
É verdade,
Mas nunca admitiria diante dos spotlights desta virtualização.

Irei c'a vida,
Deixando-a manifestar-se sem muita intromissão dos meus desejos,
Talvez para certificar se eu mereço,
Pois não sei se sim
Ou se é valor que corrompe.










As Últimas Páginas do Ciclo Que Passou





Viver de perigo,
De divisões,
E entregar-se ao infortúnio da incômoda covardia.

Garanti ao passado para mentir a mim mesmo,
Ultrajado por qualquer forma que se mova,
Qualquer verso que possa ser lido.

Assim, envolvido por esta beleza que cresce cheia de escrúpulos,
Cuidadosa por todos os caminhos que ousa seguir,
Queimo as últimas páginas do ciclo que passou.










O Nosso Orgulho Divino





Prenunciei o cataclismo
Assim que redigi o compêndio da morte;
A exorbitante quantidade me fez confusão,
Eram tantos os desesperos alados que traí a minha atenção.

Pouco importou a nossa ética de bolso,
A etiqueta para a nobreza,
Pois não nutriu a destreza que tanto necessitávamos:
Jazemos infiéis ao mote que inflamava a alma de nossos exércitos.

A nossa igualdade matou o resto de nosso mundo,
Um deserto que agonizou até perder a vida.
A nossa humildade se direcionou apenas ao discurso demagógico,
Bloqueada pelo nosso orgulho divino em nos acharmos diferentes.










Será Assim





Mineira exibida,
de olhos sedentos
por tudo aquilo que se forma sem querer...
E o que se forma por querer?

São tantas as luas e poucas as fases,
Quiçá, rendidos, ver-nos-emos mais vezes;
Nunca percebi uma gota de umidade em seus contorcionismos.

Não há código, só abstração;
Recitais desprovidos da ênfase aconselhada para uma epopéia.
Não há sátiro, só o palhaço
Que se deixa levar pela solidão após retirar a maquilagem.










O Tecer na Implosão de Gigatons





- Polegar quebrado,
Fingimento do prazer num sorriso convidativo,
Falta da vontade de dormir,
Excesso do desejo de abrir-se em pétalas brancas,
Medo de queimar a cerâmica,
Receio de vingar-se por pouco,
Imposição absurda por um tempo que nada promete. -
Tudo isto misturado numa alma que não suporta,
Que se ajoelha de dor para gritar pela ajuda inexistente,
Que desenha um presente dado de presente a quem o odiará,
Que não se importa se amanhã viver outra escravidão.










Certidão de Óbito





Quem sobreviverá a esta tenebrosa caminhada?
Quem de nós, miseráveis desiludidos,
Trocará as suas paixões por um saciar ao final do verso publicado?

Alimentei-me de gana em demasia,
Mania de grandeza,
Entretanto,
Triste,
Descobri a mesa posta para os meus inimigos.

Que inimigos?
Todos aqueles que criei em sonho,
Ou na utopia que temi nunca alcançar.

Quem de nós, meu ego,
Saciará o insaciável se sequer nos resta o escárnio
Para com o medo de errar,
O desprezo às regras no desejo de acertar?

É fim,
Mas só novamente;
Mais um fim de ciclo.










Hier, la nuit d'été, qui nous prêtait ses voiles





Poesia de Victor Hugo

Hier, la nuit d'été, qui nous prêtait ses voiles,
Etait digne de toi, tant elle avait d'étoiles !
Tant son calme était frais ! tant son souffle était doux !
Tant elle éteignait bien ses rumeurs apaisées !
Tant elle répandait d'amoureuses rosées
Sur les fleurs et sur nous !

Moi, j'étais devant toi, plein de joie et de flamme,
Car tu me regardais avec toute ton âme !
J'admirais la beauté dont ton front se revêt.
Et sans même qu'un mot révélât ta pensée,
La tendre rêverie en ton coeur commencée
Dans mon coeur s'achevait !

Et je bénissais Dieu, dont la grâce infinie
Sur la nuit et sur toi jeta tant d'harmonie,
Qui, pour me rendre calme et pour me rendre heureux,
Vous fit, la nuit et toi, si belles et si pures,
Si pleines de rayons, de parfums, de murmures,
Si douces toutes deux !

Oh oui, bénissons Dieu dans notre foi profonde !
C'est lui qui fit ton âme et qui créa le monde !
Lui qui charme mon coeur ! lui qui ravit mes yeux !
C'est lui que je retrouve au fond de tout mystère !
C'est lui qui fait briller ton regard sur la terre
Comme l'étoile aux cieux !

C'est Dieu qui mit l'amour au bout de toute chose,
L'amour en qui tout vit, l'amour sur qui tout pose !
C'est Dieu qui fait la nuit plus belle que le jour.
C'est Dieu qui sur ton corps, ma jeune souveraine,
A versé la beauté, comme une coupe pleine,
Et dans mon coeur l'amour !

Laisse-toi donc aimer ! - Oh ! l'amour, c'est la vie.
C'est tout ce qu'on regrette et tout ce qu'on envie
Quand on voit sa jeunesse au couchant décliner.
Sans lui rien n'est complet, sans lui rien ne rayonne.
La beauté c'est le front, l'amour c'est la couronne :
Laisse-toi couronner !

Ce qui remplit une âme, hélas ! tu peux m'en croire,
Ce n'est pas un peu d'or, ni même un peu de gloire,
Poussière que l'orgueil rapporte des combats,
Ni l'ambition folle, occupée aux chimères,
Qui ronge tristement les écorces amères
Des choses d'ici-bas ;

Non, il lui faut, vois-tu, l'hymen de deux pensées,
Les soupirs étouffés, les mains longtemps pressées,
Le baiser, parfum pur, enivrante liqueur,
Et tout ce qu'un regard dans un regard peut lire,
Et toutes les chansons de cette douce lyre
Qu'on appelle le coeur !

Il n'est rien sous le ciel qui n'ait sa loi secrète,
Son lieu cher et choisi, son abri, sa retraite,
Où mille instincts profonds nous fixent nuit et jour ;
Le pêcheur a la barque où l'espoir l'accompagne,
Les cygnes ont le lac, les aigles la montagne,
Les âmes ont l'amour !

21 mai 1833










Noite Iluminada





Luzes nesta chuva,
Pirilampos sobre as árvores
E paixão no olhar.










Das Flores Que Jazem no Jardim





Rendi-me à tua pele inebriante
E enfastiada de tortura,
Ressumbrada do suor
Misturado à vida que vertia dos teus cortes,
Entretanto,
Antes que me arrependesse,
Qualquer brilho que luzia do teu corpo se apagava;
Uma queda em curva e sem modo de interrupção.

Atordoei-me,
Eu sei...
Atordoei-me e imaginei o pior,
Portanto,
Convicto do trágico desfecho,
Mãos no queixo e no topo da cabeça,
Contra e a favor do relógio, respectivamente...

Urinaste-me antes que eu terminasse
E esta é a constante lembrança do meu ato de heroísmo:
Tu estavas morta,
Marcada pelo açoitamento
E fétida por repugnâncias da própria existência.










1898





O meu peito desfalecido não conta
O que se passou quando nos separamos;
Era mais ungüento do que reza,
Mais comodidade do que amor.










Aguardo





Sem você perco a graça,
Não posso fazer pirraça,
Não vivo a madrugada,
Não há nada o que comemorar.

Sei que devo esperar
Repetidas vezes do que já passou,
Aguardar o descanso público do humor,
Portanto, espreitarei avexada pela sua surpresa.










Naru





Tenho dito,
Quase nunca minto;
Talvez quando pressinto
O inspirar antes do grito.

São destas cordas
Das vísceras de uma lebre
Que teço a textura
Impura,
Mas sagaz,
Disposta a seduzir-te pelos ouvidos.

Imponho,
Entretanto já não sonho,
Ou é sonho a todo tempo...
Quem dirá o que é tormento?

São asas
De películas mui frágeis,
Porém de cores que se moldam
A qualquer céu que as erguerem.

Então disfarço
E mergulho no meu ato,
Açoitado por carícias
E calado por paixão.










Russian Roulette





Veja o momento,
O discreto suspiro,
O regresso do tempo,
O último giro.










Um Breve Sonho





Era uma manhã de domingo,
Um dia claro de domingo
Em que eu observava o concreto e as suas sombras.

Ela desceu das escadas com a cara amassada,
De quem acabara de acordar,
Esticando os braços e bocejando toda torta.
Passou a mão nos fundos das calças de pijamas
Para retirar a calcinha do meio das nádegas;
Deu para ouvir o barulho dos trinta metros em que eu distante estava,
Um pleque seguido de outro bocejo e um suspiro.

Caminhou até a mangueira a coçar a base do seio
- Sacudia a protuberância mamária
Num movimento que habita as minhas fantasias desde então -,
Abriu o registro d'água e lavou o rosto...

O molhar se escorreu até o seu colo:
Transparência nos pijamas azuis!
Um, dois botões abertos para que se enxugasse;
Um menino de treze anos diviniza o brevíssimo sonho!










A Imprecisão





Há liras que conspiram frialdade,
Algumas transpiram paixão,
Outras se esvaem em dor,
Mas nenhuma me pediu pra ficar.

Que timbre comporta o meu canto?
Que canto transporta o meu pranto?

Por ser pequeno,
Vale o verso por inexistir a pobreza de rima,
Vale o arrepio do poema pela solução inusitada,
Inesperada;
A necessária imprecisão.











Dó de Mim





Preparei uma canção para ti,
Com sinos sintéticos em reverberações incompreensíveis,
Mas parece tão falsa,
Tão distante da verdade que quase desisti.

Compus na escala húngara persa cigana em Si bemol,
Pois os meus dedos se moldam bem aos seus círculos no violão,
Porém, cego neste caminho escolhido,
Percebi que só precisava de algo natural,
Um Maior despretensioso,
Talvez em Dó;
Que dó de mim!











Ohayou Gozaimasu












Porém,
não
estou
disposto
a
desistir
.
Talvez
dure
mais
de
ano,
Triste
por
reconhecer
sentimento
tão
mordaz
.
Desejar
(i)
que
estar
(ivesse)
aqui,
mas
acordar
(ei)
apanhar
(ado)
em
suor,











Retrato de um Suspiro





Mentira nas mãos e verdade codificada em verso,
Pressuponho o que surge escondido daquilo que peço.

- Diga da vida! -
Impôs-me o Diabo,
Atido a mim em desesperado fado
E implantando-me um útero não germinado.

- Exponho o que me inflama! -
Retruquei em minha gana
Que lhe despertou o ódio;
Pude ver o vermelho dos seus olhos irados,
Quando desceu a sua mão pesada sobre o meu rosto suado.

Mentira nas mãos e sonhos em caracteres aleatórios:
Perceba a fórmula simples, estúpida, que faz parecer ilusório!










Dispersão





Assistiu ao meu espetáculo,
Vestiu-se de milhares de valores
E me surrou até a morte.

Saiu tranqüilo pela porta principal,
Desembainhou o sai da justiça
E alegou ter feito a execução com tal arma,
Antes de me arremessar à escuridão.

Estou tão feliz que não há do que me despedir,
Estou tão dispersa que me esqueci do que fugir.










Do Maniqueísmo e do Intocável Coletivo





Acreditar que somos todos um,
Ou que um pode ser por todos?
Concluir que somos mais do que a extensão desta terra,
Ou que a mesma seja direito daquele que ousa nascer?
Lobotomia ou persuasão?
Miopia ou óculos?
Ideal ou manipulação?

Crer... tão importante,
Mas crer em que?
Ceder a que mal para fazer o bem?
Mal?
Bem?
Só?










Decaptação



Há um erro de posicionamento, mas tô com preguiça de consertar.
Há um desejo eminente, mas não insisto em comentar.

Fuja, garota, para bem longe!
Corra, corra
E não se importe com o que fica!
Corra, corra, corra
E não ligue para o significado dos erros propositados (os outros).










O Destino





Seguia perto do seu destino,
Mas não o via,
Não o percebia.
Seguia perto do que fora feito para que se revoltasse
Contra o cotidiano que pintava as foices a ceifar seus sonhos,
Mas não o via,
Não o percebia.