quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Os mesmos filhos e a mesma data

Só não te prometo pois a minha redação é areia,
Desmantela-se com o tempo;
É caos,
As margens de escuridão se agigantam com a distância.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Esquisita

A beleza é esquisita,
Mais rara do que a feiúra;
Amedronta por não ter dono.

Do Poder

Em certo momento, o crime se pergunta:
- Permanecemos crime ou nos tornamos nação?
Todo poder entranhado nos tripés de um primeiro não é quarto,
É outro.

Assim esperamos ou fazemos;
A ordem nova ou renovada,
Esperamos ou fazemos.

Virtude

Quiçá será a noite derradeira. - assim pensei.
Mas quem prevê o impulso da alma faminta,
A força pungente a zombar do que cremos de nós mesmos?

Eu me traí,
Sim,
Era impuro,
Até perceber que nada esperar,
Talvez,
Seja o melhor caminho...
Contudo,
Caminho nenhum há,
Virtude nenhuma também,
Apenas as peças de realidade que monto sobre a ilusão.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Talvez para esconder a certeza

Talvez eu saiba
Talvez eu queira
Talvez não cifre

Vá, mas só

Não ligue para a bagunça,
Andei destruindo algumas coisas;
O quarto para a escuridão,
As promessas furtadas da memória,
As telas para a exposição
E a cópia da canção que me deixou ouvir
Talvez não tenham conserto,
Talvez nem sejam pretexto.

sábado, 27 de dezembro de 2008

De Ísis para o Nilo

Um só verso,
Mas um clarão que desenhou o que querias,
Demarcado a partir das queimaduras na retina.

Atrás da Porta

- Desististe de conversar com este velho amargurado? - questionou-me, referindo-se a si mesmo.

Nada respondi, continuei apontando a visão para o piso de mármore
que desaparecia com as alucinações,
Tentava prever o passado que se desfazia antes que pudesse percebê-lo.

- Está bem, rapaz, continue trepando com a morte... Faça o que quiser! - levantou-se e saiu pela porta da sala.

Fechada com cuidado,
A porta,
Os ares deslocados cortavam-me pedaços,
Ademais,
Esses pedaços fugiam para nunca mais fazer parte de mim;
Não pude alcançar um sequer,
Mesmo desprendido,
Suspenso da régia...

Pouco sobrava do meu corpo e alma,
Apenas o necessário para que continuasse vivo
E,
Vivo,
Travar uma guerra desnecessária contra a noite.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Crianças Devorando Crianças

Os trajetos e fins distraídos por um nova confiança,
A prender-se à covardia como se fosse ousada,
Vendiam o ócio por algumas migalhas de luz
E míseros pedaços de recados da vida.

Caminhava a pensar sorumbático:
- Não, não a perdôo
Pois a quero para sempre,
Quero-a prenhe dos meus filhos;
A redenção para a minha morte!

Caminhava a trair-se feliz:
- Chegarei,
Chegarei e hei de fazê-la sofrer!

Quem quer o entendimento alheio sobre si mesmo quando a coragem não se arremessa ao futuro?
A vida é pobre,
Sabia o órfão,
Portanto,
De tão pobre,
Rastejava quieta no lodo do que acreditava,
Contemplava discreta as roldanas a esmagá-lo
Ou o corpo a tratá-lo como um mal infeccioso.
O feto mal se contorcia,
Ainda a vomitar os corpos placentários,
E já era considerado risco;
O engano de uma falsa profecia,
O suplício para uma era agonizante.

Crimen Privilegiatum

Salve a sensação dum nihil a olhar para o completo;
As telas todas postas em seus lugares
E os traços que se escondem em corpos quase nus
Nada dizem além de dor passada e ressentimento,
Mas ainda é nada.

Coliseu

Ah, maravilhosas são as futilidades deste mundo insosso,
Destemidos são os corpos que se vendem esculpidos e maquiados por um sabor de ilusão qualquer!
Prazeroso é o escárnio ao que parece escorreito,
A cabeça cortada,
pingando na área sem zagueiro,
A torcida ouriçada,
clamando por mais dois ou três leões para os cristãos que se entregam sem medo!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Das Pompas

Se me perdi na tua boca suja de verdades orgíacas,
Não poderia outro lugar seguir,
Outro sentido abstrair em meio aos tantos que reclamam por mais atenção.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Tipo de Sempre

Sou um tipo de sempre,
Talvez um pouco mais contemporâneo,
Que degusta os preparados para serem saborosos
E esquece das próprias mãos,
Desconhece que os aromas se desprendem da natureza partida.

Sou um tipo comum,
Um homem padrão,
Que descobre a identidade no planejamento em massa,
Percebe a sanidade no prosseguimento da raça.

Sou um idiota qualquer,
A beleza de ser vivo,
Que interrompe o coito a crer que o papel é sal,
Não degola o homem a entender verdade nas patentes.

Sou o avesso de algum dos vários de mim,
Os deuses que desenho no céu a partir de cintilações,
A arrogância de fazer-se acreditar para ter
O poder.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A Tela Fria e o Verso Quente

Seguindo o passo vívido que abrasa a alma,
Aguardei mais um instante para que me decorasses a ilusão;
As tuas naus trincadas por fora não me dizem nada,
Nem as cores de dentro,
Somente as dores me dizem-
escandalizadas nos versos mimetizados em pretensões dionisíacas.

Acerca dos corpos dispostos em geometria perfeita,
Não restou nada além de solidão e lembranças;
Eu te queria nua,
Nua de verdade!

Boring Sun

Preciso retratar a tua cópia em meus sonhos;
Perdão se parecer tristeza,
Desculpe-me se acontecer medroso.

A falsa vergonha,
Os seios cobertos,
Os dedos dobrados contra o queixo;
Perdão se for só sonho meu,
Desculpe-me se te enjaula a alma.

Se Queres Fora do Sou, Eu Sou

N'Alto Trás-os-Montes,
No concelho d'Alfândega da Fé,
Mesma freguesia,
Eu vi um demônio sem face-
Pareceu-me um puto mal saído dos cueiros,
Mas o senti mais velho do que toda a Ibéria.

domingo, 21 de dezembro de 2008

A Outra Versão

Há pouco mais de oito anos, li um trecho do seu diário a relatar essa passagem das nossas vidas; fiquei constrangido por tratar-se de mim, em carne e osso, cagado e cuspido, mas, por outro lado, agraciado por fazer parte desse capítulo autobiográfico de uma mulher que jamais esqueci. Não chamarei ninguém pelo nome, diferente do que ela fez em sua versão, pois, numa finalidade distinta, a minha será publicada.

Em meados de 1999, abandonei o curso acadêmico de Filosofia para passar uma temporada em Brasília, mas pouco tempo fiquei; talvez três meses até voltar à minha cidade natal, Ilhéus. Eu, um garoto de dezenove anos que até então era sustentado pelos genitores, mal sabia o que fazer da vida, talvez tivesse a intenção de ser músico ou artista plástico mesmo sem coragem para enfrentar o preconceito familiar, ou repleto de covardia por não se sentir capaz. Em casa, vivia em frente ao computador enquanto o meu pai pedia insistentemente para que eu estudasse a fim de prestar um concurso público da área do Direito, a sua especialidade, todavia eu fingia que concordava e ele fingia que acreditava numa decisão minha favorável às suas pretensões. O clima do lar era tenso, pois havia abandonado a faculdade por uma viagem que ninguém sabia ao certo do que se tratava; a princípio, eu iria montar alguns servidores de internet no DF, mas era mais uma balela da minha vida desleixada para ter sexo e drogas longe de qualquer pessoa que me conhecesse desde criança. Um dia liguei chorando para a minha mãe e pronto, as passagens de volta estavam lá no dia seguinte, mas um inferno astral se preparava para questionar a validade das minhas diretrizes por muito tempo.

Sempre fui uma pessoa de hábitos noturnos, por ser boêmio ou viciado em café, portanto, distante das vidas que dormiam, eu criava um mundo e aceitava outros tantos que se proclamavam à minha frente. Numa dessas noites, voltei bêbado da rua, liguei o computador, executei o navegador de internet e entrei num sítio eletrônico de bate-papo qualquer, não me lembro qual. Chamei-me “Nietzsche”, mas errei a grafia, coloquei o “t” à frente do “h”, troquei porque ainda mal sabia quem era o existencialista, conhecia-o de alguns resumos e da leitura superficial de “Humano, Demasiado Humano”, apenas pensei que seria “cult” ou qualquer zorra que o valha. A sala de Ilhéus estava cheia de homens, o que me desanimou, mas havia uma mulher que se apresentava como Ruiva; cor de madeixas que sempre mexeu com as minhas fantasias e libido. Iniciei a conversa com ela, que foi receptiva, entretanto, quando o dia estava prestes a raiar, algum fela da puta que cismou com a grafia incorreta do nome alemão, resolveu espezinhar-me em canal aberto, colando textos imensos do próprio Nietzsche na sala, para que, talvez, eu me sentisse envergonhado por ter cometido aquela, segundo o mesmo, profanação filosófica. Com o pouco de argumento que possuía, tentei debater com o desgraçado, contudo, para a minha surpresa, a ruiva me disse que precisava sair, mas me deu o número do seu telefone e pediu o meu. Era tudo o que eu precisava; dei o número, saí da sala e liguei para ela. Logo que atendeu, percebi que possuía um sotaque paulistano marcante. Perguntei-lhe o nome e ela me disse, perguntou-me o meu e eu também. Contou-me ser engenheira florestal e eu respondi, mentindo, ser estudante de Filosofia (nunca mais retornaria ao curso). Descreveu-me das poucas amizades que havia feito na cidade e de como precisava conhecer novas pessoas, então, propus-me conhecê-la, mas disse que não tinha um puto no bolso. Apesar de estar lidando com um liso e sem vergonha, a ruiva afirmou que não haveria problema se só ela bancasse a saída, por conseguinte marcamos para as duas horas do dia que acabara de nascer em um quiosque da Avenida 2 de Julho, um reduto de turistas. Aproximações e planejamentos feitos, despedimo-nos e fui dormir.

Assim que acordei, mal recordava do horário marcado, mas, faltando meia hora para o dito cujo, passei pela frente do computador e me lembrei. Ainda com os olhos inchados, procurei o telefone da ruiva, achei com dificuldade e liguei apressado para avisá-la que eu poderia chegar alguns minutos atrasado. Ela atendeu e, gentilíssima, pediu para que eu não tivesse pressa, pois estaria no Centro para resolver pendências pessoais. Tomei um banho rápido, vesti-me e fui a pé ao local marcado.

Quando estava perto de chegar, liguei do celular para ela.

- Já estou aqui. – respondeu.

Apressei os passos para encontrá-la e, quando cheguei, deparei-me com uma mulher madura para a minha idade, de seus 30 anos, o que causou um certo afastamento meu pela experiência inédita. Ela não era bonita, ou melhor, não era convencionalmente bonita; tinha dentes pronunciados, algumas tatuagens e os cabelos mais vermelhos que eu já tinha visto, vermelhos com química. Conversamos durante um bom tempo a beber algumas cervejas, reduzimos o distanciamento inicial e, aproximando-se do ocaso, preferimos ir embora dali. Como morávamos na mesma direção para quem saía do Centro, caminhamos juntos até a entrada do meu bairro, mas ela me fez um convite:

- Quer conhecer o meu apê? Eu moro logo ali em frente! – aceitei.

O apartamento da ruiva era algo espetacular, uma mistura de culturas bem interessante; das cores posterizadas do “Post-punk” inglês às luminárias japonesas, tudo se parecia com ela. Pedi para ver uma tatuagem de estilo tribal em suas costas, um desenho agressivo. Ela ergueu um pouco a camisa e se virou de costas. Eu pedi para tocar, pois, apesar do tamanho e diversidade das cores, não apresentava nenhum quelóide, mas, centímetros antes do toque em si, eu quis virá-la com força para beijá-la ali mesmo; não o fiz, insisti forçosamente um olhar clínico sobre a tatuagem, deslizando os meus dedos a esperar que ela esboçasse um sinal para que eu desistisse daquilo e tornasse ação o meu desejo.
Continua, ou não.

Se Bem Lembro

Bom é abrir as páginas da própria vida,
Mesmo que haja medo por ter ido longe demais.

Vermelhos

Saliva e café,
Suor e tabaco;
Teu gosto ainda persiste.

Domingo de Passagem

Estou tentando não seguir este caminho engessado,
Propondo-me os pigmentos do que restou de uma alma fragmentada.
Estou vivendo;
Sem você estou vivendo,
Com este clichê imortal estou vivendo.

Ainda fumo mais cigarros do que posso,
Desenho mais amores do que tenho,
Suspeito das verdades que me dizem...
Ainda lembro.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Procuro um Homem

Procuro um homem sensível;
Idade não me importa,
Arquétipos também não.
Procuro um homem que saiba que sabe,
Certo de que saber nunca é saber tudo
E ciente de que viver não será conto de fadas.
Procuro um homem sincero,
Que entenda a mentira como a dor do próprio homem
Para o uso do curativo e do afago,
Que cause espanto assim que se afirme homem a assumir a própria inveja.
Procuro um homem fraco,
Digno e esclarecido da própria fraqueza,
Para que levante as nossas paredes sem nos usar como a medida das coisas.
Procuro um homem,
Pode ser mulher,
Mas tem que ser homem;
O macaco falante que vê um Deus de genes idênticos aos seus-
O próprio umbigo.

Talvez tenhamos filhos lindos,
Aberrações mais suaves do que nós mesmos.

Echo

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bot.bin crashed
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Não à vingança

Adoraria abandonar esta culpa contida do espírito, arrancar-lhe dos temperos salgados que me tomam avesso ao andor moroso desta procissão, preso aos dentes e lábios de qualquer deus que me apresentem.
Com o coração repleto de suspeitas que restrinjam o gesto efeminado, um homem qualquer não se faz mãe para que seja instrumento da paz que lhe cabe, de uma ilusão que lhe corte o incabível, talvez, ciente do próprio limite, o insano.
Para voltar a assistir essas luzes que se formam no seu mar de silêncio, precisaria surgir no infinito de um universo afogado no que nunca cri, pois no brilho sarraceno dos seus olhos nasce o filho impróprio, aquele que afirma não ser fruto do seu sangue.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Acte Criminel et Folie

Je voulais embrasser votre disparu
Perdu dans les courbes de vos lèvres minces;
Voulu immortaliser l'appétit.

O Zumbido

Lupus é o caralho,
Eu mal escuto a noite!
Habituei-me a este zumbido
Rasgando a minha paz,
Ensinando-me a ser amargo.

Movo roldanas de uma máquina sem motivo,
Invento consertos para os dentes quebrados das suas engrenagens cariadas
Certo do dia em que me revelará se valeu a pena;
Hoje eu sei que não...

Zombei da tua mágoa,
Um jeito de esquecer da minha.

Lancinante é tentar esquecer
Incomodado pelo som persistente
E entranhado no que poderia ser silêncio,
Badalando em kilohertz um dó remoído,
Encarnando vozes onde nunca houve gente;
Não dá.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Apesar de Toda a Pessoa

Não sei se me acostumo à solidão
E aos sonhos que não poderei contar;
Quedado em meus desejos pueris,
Tu és fuga,
És cifra sobre os filhos que terei.

Não calo enquanto velo estes horrores
Guardados em teu perfume almiscarado
E adstringente,
Eu te perdi e perco novamente
Quando os teus braços se fazem fora da moldura,
Tocam-se crapulosos a se sentirem mansos.

Não me contenha com esta página escrita,
Este desvario que chamas de morte,
Esta loucura que acreditas ser acaso ou fortuna!
(...)
Não precisas ficar aqui;
Vá,
Leva esta treva e os teus punhais,
Carrega esta força destemperada.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Passeio

Leve o seu id para passear,
Leve-o sem coleira
E vá sozinho com ele:
Seu id é um pinscher miniatura,
Pensa que é Deus em partes frágeis de boneca-
Pode se assustar com um estranho qualquer,
Ademais,
Pode morrer através dum pontapé de segurança...

Mas leve,
Leve o bichinho pra dar uma volta,
Pra latir pra qualquer coisa que ele veja inferior:
Vai ser bom,
Garanto!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Amor Barato

Antes fosse,
Já custou algumas vidas minhas;
Bem compostas e mal vividas,
O sofrimento parece maior no algodão-
Só é menor do que o eu presente do pretérito.

Precisão

Sim, desejei levantar-me a fim de contá-la quanta saudade sentia, mas permaneci sentado, olhando para o palco como quem presta atenção à peça; fingi que não a vi. Por toda a confusão passada, mentiras minhas e dela, o ódio que senti, o mesmo que me autorizou a xingá-la sem o menor senso crítico, tornou aquela paixão dolorosa a partir do distanciamento abrupto; nutri com ódio um amor que insisti - incessante, falacioso e em fracasso - negar.

Lá pelo terceiro ato, quando me questionei se aquela situação me fazia bem, saí dali e me encaminhei ao hall de entrada do Municipal; o meu coração mal me deixava respirar de tão excitado, eu queria voltar, mas me sentia impotente... as minhas mãos suavam frio, os meus lábios tremiam e nada ao meu redor parecia digno de ser notado - assemelhava-me a um adolescente, um bêbedo ou, quiçá, um retardado.

Sobre o chão de mosaico que sempre me causou tontura, naquele momento em dobro, caí.

- Fausto! - ouvi o grito. - Fausto! - não queria que fosse aquela maldita, - Fausto! - mas era.

Apaporra

Até que venha a culpa
Disfarçada de discurso,
Não importa se parece.


- O que te parece? -
Percebes?

sábado, 13 de dezembro de 2008

The Pied Piper of Hamelin

Cuidado,
Quase toda
- Senão toda -
A sedução nasce para ser traiçoeira;
Cores vívidas e aromas atrativos,
A maquiar alguma fome,
Serpenteiam os instintos para que sejas o dote desta noite.

Olhos de Maracujá

Quanto falta para a tua próxima felicidade?
Desarrume o caos
Porque só percorri um milímetro das milhas de saudade que sinto;
Eu não sei em que vida,
Mas esta permanece entregue desde que te vi.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Da Arte Visual

No dia em que aquela máquina de zilhões de terapixels
for capaz de grafar som, aroma, textura e sabor
do jeito que a gente sente,
A arte visual precisará mudar
De novo.

Com todo carinho

Se até a mão abrupta da morte é capaz da carícia,
Do seu modo, trazendo de volta para a terra os pedaços da mesma,
Por que a dúvida?

Tema Livre de Paixão

Encarnada sobre a minha pele,
Lábios e dentes a fustigar o meu peito,
Seios e mãos a comprimir o meu sexo,
Nenhuma cegueira se faz tão desejada;
Seja como for,
Povoado do aroma salgado dos teus líquidos,
Sou quase tudo, menos são.

A Senhora

É só uma criança;
Apesar da voluptuosidade,
Do matrimônio acomodado
E das mãos marcadas pela lida diária,
Sempre mergulha na abstração de um desenho animado,
Nunca se rende às irreais profundidades senis da construção humana para a vida.

É só uma criança
Com as asas aparadas pelo verdadeiro mal;
Liberdade contida pelo ciúme,
Vivacidade constrangida pelo crime.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O Alaúde e a Bailarina

Contido o ímpeto
Que tentava parar as estrelas
E entrevar as cintilâncias da tua dança,
Tomaste o domínio a matar quase tudo o que não se encantara.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pacaembu

Ela parece mentira,
Aparece com a dor e some na paz;
Geni rodriguiana na auto-definição,
Que diz nada saber e preferir a lentidão de passos calmos.

Ela se une aos mascarados,
Grita com o peito corinthiano em chamas,
Sorri da perspicácia sem intenção - ou pretensão,
Mostra-se em quarto miguante,
Vê.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Contradição em termos

O jogador de futebol,
A redenção do povo brasileiro sobre o repulsivo colarinho branco,
Recebe a taça de verdade vestido de paletó e gravata,
Carregado de perfume,
Sem qualquer gota de suor.

QWERTZU

A medir os graus dos ziguezagues,
Nunca mais aquele impulso;
Dispus os meus sonhos distorcidos pela vida ao leste de onde odeio,
Odeio de tanto amar.

Nem o silêncio

Nem o silêncio foi mais tenebroso
Do que os teus grãos espalhados sobre a minha pele;
Todos de fim e paz,
Porém desperdiçados num momento inoportuno.

Por que declamaria acerca das pestes e da vida
Se os meus mortos aguardam um dia de descanso?
Por que açoitaria sem pena o teu dorso virgem?
Por que ter-te, enfim?

domingo, 7 de dezembro de 2008

Mãe

Não queira ser mãe do mundo,
O mundo é um filho ingrato
Ou apenas aquele que quer seguir os próprios passos.

Profilezinho

Preciso parar de falar português
Imediatamente;
Meus amigos não me entendem,
Cospem expressões anglo-saxônicas com sotaque nordestino,
Nutrem diplomacias cool para integrar-se àquilo que exige integração.

Preciso parar de ser idiomático
Urgentemente;
Alguém que não me conhece necessita me entender,
Alguém que não me carece deve me conter.

Preciso parar de pedir ajuda aos vizinhos de parede,
Parar de ajudar também.
Preciso esquecer que eu existo,
Que eu minto também.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Baile dos Mascarados

Ouve?
Mais uma contradança,
Esta que parece sem fim
Quando nos levamos ou nos traímos quaternários.

Sente?
Sabes quem sou,
Mesmo mascarado;
Não importa se nos entregaremos incógnitos para os olhos.

Ardo,
Talvez como dizes que ardes,
Propenso a flertar com a insanidade,
Suspenso do necessário
A pragmatizar o meu instinto a fim de destroná-lo só para o teu sorriso.

Ardo.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Vertical estreito

Eis que mudo o caminho desta mão perdida sobre um seio farto;
Agora esgana,
Tenta inibir o desejo da primeira de si mesma.

Agora aposento duma vez os olhos,
Nem cavidades rasas pois já não se trata de organismo decaído-
Não é sensação na extremidade de um prazer qualquer.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Carta para Srta Nunes

De todas as cartas que escrevi, não era vida entregue - encapsulada em um falso mistério, um medo covarde por não ser sincero -, você tem razão. Mãe carioca, pai baiano, filhos dependurados nas paredes de um quarto paulista (sonhos estampados neles, decepções e dores também) e a própria vida sem desejo de pátria, sem sentimentos inalterados e firmes para uma via qualquer. O que de mais profundo me restou senão você? Que corpo inatingível meus braços prolongados tentam tocar senão o seu?

Lugar bizarro, esse lugar que escolhi para morrer.

Sim, penso em extrapolar nas mãos, desenhá-las como uma criança que quer vê-las como o cérebro as percebe; enormes são, pois cada milímetro distingue cada agulhada que preciso para manter inteiro o fio frágil de sanidade, ademais, cada vinco de dígito difere a textura das coisas iguais e diferentes, mesmo que misturadas em óleo de linhaça.

O lugar é sereno, mas às vezes eu choro por estar sozinho; vidas que surgem me dizem o que fazer, mas acho que sou eu mesmo - a treva deixa a alma parir os seus próprios habitantes, não há controle.

Desejo que alguém crie o meu cachorro, parece que nem ele me suporta. É cruel ver o coitado sozinho; igual a mim, distante de iguais. É foda!

O lugar é cinzento, amarra qualquer tentativa de amor.

Sim, Sinhá

Sempre é, Sinhá,
Sempre assim será;
A sua ânsia persuade a minha fome,
Nós nos partimos para que tenha sentido
E descobrimos, tropeçando, os aromas.

Sempre é, Sinhá,
Mesmo impossível,
Sempre assim será;
Esse festim feito às pressas
Para afirmar que somos o melhor ladrão,
Para apurar se ainda somos sedução
E entreter quem o nosso personagem saqueou.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Antes de prosseguir

Não te contamines por esta fração da tela pintada;
Pára, pensa um pouco,
Volta para o teu sonho e revive a mudança clara em teu peito,
Despolui a tua nobreza de mulher para que o teu homem veja! 

Sim,
Deixa os pigmentos se entranharem na trama,
Permite que os preconceitos se firmem atingíveis,
Decide o momento quando o teu próprio é maduro.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O mote desacelerado





















Ainda há nós a desatar-
Mais profundos do que o código,
Mais imundos do que a falsa imundície da nudez.
 
 
Passeaste sem tempo,
Brincando com o andamento,
Mas ainda não vi a tua boca marcada.

Ainda há amores a explorar,
Decadências a conjugar
E os teus ouvidos atentos aos sussurros.
 
 
Nada é teu,
Lembra-te!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Zé Brasileiro


Sou mais um Zé Brasileiro,
Daqueles que acreditam no fim desse puteiro;
Um motivo de chacota, o iludido,
O dito idiota, um bandido.

Sou mais um Zé Brasileiro,
Daqueles que rimam a pobreza, um farofeiro;
Um elogio à ignorância, o despido,
A aversão à ganância, um fodido.

domingo, 30 de novembro de 2008

Pacienza



































































































































































































































































































O que      a nós  de    tentado.
Pelos  coube    senão   ter   
 próprios     devorados, a dor não    
 no poço sonhos    tempo       
Mergulhamos rasode um desejo que o        
   o     nos      
        palhaço      deixou,
 Mas   tempo         triste,
   sorri   é um        
       camarim;        
                
                
                
     no          
                
Não      Chora.        

sábado, 29 de novembro de 2008

Longe

Longe
do que te despertas,
ou do que me ilude,
desejei os teus versos
nas cópias das cópias de ti mesma.

Longe,
ou quase distante,
fingi vidas passadas
para que vivesse um presente
amarrado em silício,
uma pretensão desesperada
sobre o que chamamos desilusão.

Longe,
mas perto o bastante
para que sentisse o sabor da tua saliva,
eu me contradisse para que fugisses
a erguer o teu corpo livre
na redenção das tuas asas cicatrizadas.

Disney durante a infância

Mudei de ares,
Mas não achei o que pensei existir:
Como poderia
Se não me encontrei nestes caminhos ébrios,
Se não descobri onde começo e onde posso me estender?

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Chove

Só me entregava às pessoas de verdade,
Ou à minha agridoce realidade,
Mas você chegou sem pressa
A corromper a minha alma
E devorar os meus instintos:
Tomou as minhas sensações
E as transformou em cegueira,
Calou os meus sentimentos
A desintegrar a ordem que um dia eu quis.

Eu só me entregava viva,
Mas você me desejou morta,
Decomposta da retidão que julgava sinuosa.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Eu amo essa moça

Eu amo essa moça que trepa com o passado,
Que roça os peitos sobre a pele da verdade só para excitar coisa nenhuma.
Eu amo essa moça que dança valsa com inúmeras sensações parnasianas
- Não é de ninguém, qualquer corpo para o seu -,
Que se diz profana e carente,
Ilusão e presente.

Relinked

Salvem as aberrações como nós,
Brindem aos turbilhões que nos mataram,
Pois precisamos de alegorias para saber que nus sonhamos.

Creia

Braços esticados a espantar a preguiça,
Semblante inchado a surtar o paraíso,
Seios fartos de prenhe,
Desejos delgados de quem ainda não crê que despertou.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Vida dos Outros

- Ele me conta tudo, até as mentiras! - disse-me, sorrindo, Phallaina. - Adora brincar com ideologias miúdas. - continuou.
- Então me conte! Por que Hippocampus anda sumido da putaria? - curiosa, perguntei.
- Ah, Pinnipedes, criou um aquário só dele e nada sozinho e enlouquecido! - às gargalhadas.
- E o que seriam as tais ideologias miúdas?
- Tudo o que ela pensa que está aquém dos seus sonhos de grandeza; que bobinho!
- Ai, Phallaina, dá tanta pena de Hippocampus!
- Não tenha pena, Pinnipedes, ele teve o que colheu!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Encaracolado, Mas Dourado e Liso


Diante do não reconhecimento do homem,
Das perdas dolorosas de quem jamais vi,
Alguém com a alcunha como um alguém de um golfo mediterrâneo.

Estrelinha

Vem, estrelinha,
Suga o meu grelo na ânsia de ser homem para todos os outros homens
- Eu me faço feliz assim -,
Cospe na minha boca a fim de sarar esta tua carência vulgar
- Eu me engano na solidão.

Vem, estrelinha,
Roça os teus dentes imperfeitos nos meus mamilos
- Eu finjo que são perfeitos -,
Me mela de porra,
Me bate na cara,
Me chama de puta,
Finge que é luxúria.

domingo, 23 de novembro de 2008

Noite de Nascer

Disse que se perdoa,
Que não entende o que se passou;
Uma trepada acrobática não é mágica,
Mas o que sentir depois pode ser.

Disse do jeito que sempre diz,
Inflada de gerúndios fantasiosos e pseudo-arquétipos ditatoriais;
Chupa, meu bem,
Contrariei em mote por saber que se excita!

Picasso e as Aranhas

Publico rascunhos,
Mas não sou Picasso;
Talvez o meu picasso seja menor.
Amo as aranhas,
Mas ontem passei fome;
Errei no logaritmo-
Abandonei de vez a engenharia reversa.

sábado, 22 de novembro de 2008

Fragmento da Promessa Não Cumprida

Contrariando a normalidade, cheguei cedo à sala de aula, quase duas horas antes do início da maçante disciplina de composição, pois me sentia tensa por não ter conseguido criar os desenhos necessários para que fosse avaliada; faltava duas semanas para a entrega dos trabalhos e eu mal havia terminado a primeira metade. Surpresa, encontrei Melissa sentada à última fila de cadeiras, com um semblante comtemplativo, bloco aberto e bastões de papel espalhados sobre a mesa: apesar de ser criativa, quase sempre chegava atrasada e não correspondia aos apelos de todos os professores para que fizesse o proposto.

- Boa noite, Melissa! - cumprimentei.

- Oi, Bruna! Você pode me ajudar? - logo imaginei que deveria estar em situação muito pior do que a minha.

- Depende... Fala.

- Eu não agüento essa aula de Lúcia, são tantas instruções que me sinto acorrentada.

- É verdade, às vezes me confunde.

- Sabe, eu só assisto a aula dela chapada.

- Percebi! - sorri.

- Percebeu? Ai, meu Deus! - ironizou.

- Sim, está com dificuldades nos trabalhos?

- Não, estou com dificuldade com a dita cuja! - apontando para o chão da sala, indicando que a presença de Lúcia no ambiente era intolerável.

- E como posso te ajudar? Não entendi.

- Bem, estou careta: não tive tempo para fumar unzinho antes de vir para cá.

- Mas eu não curto.

- Bem, é que um cara me convidou pra fumar, logo que cheguei aqui.

- Sim, mas eu não curto.

- É por que eu não o conheço direito.

- Você tá querendo que eu vá contigo?

- Só pra não dar confiança pra ele, por favor!

- Não sei, Melissa. Se der merda, como fico?

- Falta muito pra aula começar e vai ser lá no terrraço. A gente sobe, como quem não quer nada, e ninguém fica sabendo.

- Olha, não sei.

- Poxa, Bruna, lá é a céu aberto; nem vai sentir cheiro!

Olhei para aquela cara pidona, implorando pela minha companhia, e, mesmo sabendo que ela queria me usar de escudo para uma possível investida do suposto cara, senti pena.

- Tá certo! - assim que falei, ela abriu um sorriso de criança quando ganha chocolate. - Mas tem um porém...

- Lá vem!

- Não quer que eu vá?

- Claro, desculpa... Diga.

- Qualquer roubada, você assume a culpa toda.

- Mas não vai acontecer, relaxa!

- Isso eu espero, mas prometa que irá assumir.

- Tá bom, tá bom! Eu prometo.

Um Ósculo Estapafúrdio

Subiu a Ladeira da Paz e criticou quem lá morava,
Comparou-a com o seu lugar a pintá-la com lama e nódoa
E tomou um sacode-iá-iá dos negões que bebiam num boteco
Enquanto as velhas gordas pediam os lugares a serem pisoteados.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Cheia de Carnes

Nem sabia que seria um toc toc,
Muito menos um entre, por favor, estou sozinha...
Então guardei as minhas foices,
Contive os meus palavrões
E tentei fazê-la sentir que a amo incondicionalmente, sem dispor da palavra.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Estampido

Natividade metálica por entre as tuas peles;
Correias mortas a suportar a nossa vida,
Arestas despercebidas pelos mal-cortados
(O estampido se fez tão seco que não ouvi).

Onde foste após tanta candura?
Não julgo a tua fúria por ter sido o meu destino,
Ser velho e ser menino num corpo de mulher
Ou anjo adormecido numa puta de esquina.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ó a Melera, Zé Fulero

Não coloca no canto, galinho garnizé;
Vá ser relento assim lá na cá da porra!

domingo, 16 de novembro de 2008

Alguns Anos

O garoto estava certo,
Pois morreu antes dos vinte;
Tomado por letargia súbita,
Assim que ergueu a cabeça,
Foi consumido pelo fim em labirintos indolores.

sábado, 15 de novembro de 2008

O Perigo e a Ameaça

Paixão em bicromia:
Não vejo o teu desejo...
Onde está o ensejo que te fez feliz agora?
Tentei monotonia,
Mas parei antes de ser
Aquele a sofrer por ter vivido fora do meu peito.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

A Última Página

Sim, maldita, expulsas a fome
Bem dita sobre a pele.
Neste jogo de quando vieres,
Nas respostas para quando estiveres sã,
Decepo os meus ramos de silício para que o teu incognoscível ser se furte,
Tropece nas tantas pernas que inventou,
Suspeite das próprias falas que criou.

A Morte do Cabra Agreste

Planejei uma frase infalível,
Conspirei uma situação ideal,
Tramei por um toque que parecesse sincero,
Ou que, pelo menos, distraísse os seus daimons.

Nada fiz,
Cozi em banho-maria,
Portanto,
Enlouquecido por este conter-se regional
- Talvez Sampa me fez mal -,
Senti saudade da agrestia doutrora.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Je ne te connais même pas

Aguardei ansiosa,
A tentar esquecer para que o tempo se tornasse frouxo,
Mas tu não insististe;
A dureza em meus olhos não disse a que vim,
A leveza em meus gestos não foi o bastante para que viesses também.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A Regra

Não há a regra, amor meu;
Alegre-se por isso.
Não há aquilo,
Concebido por nós mesmos,
Que deturpe o compasso vívido das coisas mortas.

As nossas medidas são estúpidas,
Os nossos nós são pequenos demais,
Contudo,
Por serem nossos e defeituosos,
Regem a nossa aparência a divinizar os nossos limites;
São quase perfeitos,
Tão atraentes que quebrá-los nos dá paz.

Rasgue a regra, amor meu,
Ou a use a favor seu:
Repita-se e perceba que foi diferente,
Excite-se em si para outro lugar em si mesma;
Experimente a regra antes de nós.

Tantas veces como sea necesario

Estupendo comprometimento
Ou desgastante tormento diante destes caminhos lilases,
Que seja assim;
Assim seja-
Amém!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Quem

Sinta-se em casa,
Faça o que quiser:
Seria eu um imortal adoentado?

Hoje não o vi,
Nem sei se me importo mais:
Seria eu um xibungo sapatão?

Talvez tenha dito coisas
Que não me fizeram sentido algum:
Seria eu um gênio sem propósito?

Passei por cima,
Sim, passei:
Seria eu um desprezível valoroso?

Doei fios da minha seda para a teia,
Mas a minha casa é sempre feita diferente:
Seria eu um professor analfabeto?

Degolei pessoas humildes e modestas
E as ressuscitei cheias de vida e tentações:
Seria eu um demônio compassivo?

Nutri o desejo de arrancar todas as vestes
E acerca disto escrevi milhões de versos:
Seria eu uma luxúria recatada?

Busquei um mundo distópico aos meus olhos,
Um mesmo mundo inofensivo à minha alma:
Seria eu um enjôo de mim mesmo?

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Morra

Sim, eu quero que venha,
Que arremesse o seu corpo furioso
Contra a própria lápide.

Sim, eu quero que morra;
Cativada pela projeção em si mesma,
Aquela que vosmecê figura dominatrix da plebe,
Deixe-se dominar pela sua criação e morra.

domingo, 9 de novembro de 2008

A Novidade

Além do padrão,
Regra desprezível:
Proíbe-se descaradamente.

sábado, 8 de novembro de 2008

Espectro A

Por que fuga se apenas não iniciei?
Sentada e semi-sorridente,
Eu vejo o passado apagar as premissas lúgubres
E as minhas próprias pernas se desalinharem com o quedar das minhas melenas morenas;
Não foi isso o que pensei,
Mas me coloquei no centro quando cri que me afastara.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Espelho Trincado (Antônimos e Inversões)

Abusa da verdade
Em todo concreto unido
Nos socos que desprenderem
Os truculentos teus em mim.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A Última Volta

Sabemos do mistério,
Você e eu,
Mas não soubemos ser sinceros
Diante da anedota do tempo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sim

Sim, eu reconheço
Cada contratempo,
Sensação e atitude.

Sim, eu reconheço
Os gemidos de prazer e dor,
Os pedidos envolvidos em torpor.

Sim, eu reconheço
Os ares onde brinca em lúdicas piruetas,
Os ramos orvalhados onde pousa quieta.

Sim, eu reconheço
Esta claridade que irrita a escuridão,
Esta vontade que nutre o meu instinto ciumento.

Quando poderemos juntos se em tempos distintos?
Quando nos daremos um ao outro se eu morto?

Sim, eu reconheço
E, incompleto por medo e expectativa,
Aguardo outra vida para saber a sua resposta.

Catalepsia

Mundo nu,
Desfeito de virtudes,
Suspeito em atitudes,
Calado por coragem,
Breve
(...)
Esquecido por um momento,
Deturpado por qualquer paúra,
Açoitado pela melhor usura,
Só.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Os Macaquinhos de Auditório

Os macaquinhos de auditório debandaram para a América
E, sob o atraso da distância, sacudiam os seus pom-pons de cheerleaders tupiniquins,
Dizendo:
- Viva o negão! Viva a revolução do mundo!

Os macaquinhos de auditório mal falavam da própria terra,
Pois a humanidade para eles não é a própria terra:
- O país dos fortes,
O país da liberdade,
A esmagadora verdade que sustenta o mundo,
Precisa da nossa presença descritiva e reveladora! - pensavam os macaquinhos...

Início ao Avesso

Há tempos que não nos víamos,
Descobrimos até que não nos conhecíamos;
Voltei para ele no último dia de setembro
E pedi carinho,
Um cafuné...

Com a cabeça recostada entre as suas pernas,
Disse o que passei
E o que se passara,
Por debaixo das minhas vestes,
Quando éramos bem menos do que amantes.

domingo, 2 de novembro de 2008

Estupidez

Entoas volúpias - pra ti mesma - normativas,
Alegorias narrativas sempre nauseantes,
Modernismos engessados numa necessidade do passado
E acreditas que o futuro será belo sem a tua presença,
Mas com a tua vingança imortalizada.

Cesse este jeito imbecil de viver,
Cortar-se com os próprios cacos é o que tens de pior.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O Parto

A última fração a romper a pele,
O segredo escondido no elogio ao ócio,
O desejo inibido num falso erro do acorde,
O fato:
O parto.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O Brasileirão

A beleza é frágil,
Mas é a beleza;
É esta sensação que lota arenas,
Impõe sorriso aos músculos de quem grita de raiva.

Dos homens truculentos,
Agindo como peças de um ranzinza qualquer,
Carregando pianos desesperadamente,
São deuses feios sem valor algum.

Onde estão os garotos mirrados
Que encantam por não irem a lugar algum?
Onde estão os moleques sem medida,
Filhos de Baco,
Que só atraem quando fazem sem sentido?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Ella

Ela,
Que rouba pedaços de mim às mordidas,
Esqueceu-se do último ato e dormiu no camarim;
Maquiagem carregada para a lonjura deste teatro de imbecis,
Semi-transparência do figurino que é quase ela.

Ela,
Que navega em meu corpo sobre uma lâmina de mentiras doces,
Não avalia quanta dor resisto para senti-la feliz;
Semblante inchado de quem sonhou delicadezas,
Ou de quem não teve pesadelo algum.

Ela,
Só ela,
Contem-me dos apreços para fazer-me ela,
Ou dela.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Dandara

Pintada pra guerra,
Eu sou sua puta;
Adoto querelas
E a voz que insulta.

As unhas na carne
E as curvas na alma,
O medo que invade
E o gozo de raiva.

domingo, 26 de outubro de 2008

Lábios e Flor

- Posso ir ao banheiro? - pediu.
- É a segunda à direita. - o velho gordo, a indicar a porta correta.
Da bolsa, tirou alguns lenços umedecidos,
Daqueles comprados em qualquer farmácia,
Para, então, por debaixo das saias,
Puxar a calcinha de lado e limpar o sebo do dia-
Todo aquele nos lábios e flor.

sábado, 25 de outubro de 2008

Tentar Acreditar

Não guardei as fotografias de quatro ou cinco anos,
Nem as ironias da correção e da felicidade;
Só hoje creio no que me impus,
Cri quando esqueci de tentar acreditar.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Dois

Saliva que é tua,
Escorrida sobre a vida:
Por que nos perdermos?

Não acredite em mim,
O hipócrita e dissimulado,
O pseudo-Hipócrates dissimulácrico;
Estamos próximos o bastante para falar de amor.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Povo e o Bicheiro

Desde a estupidez de um sigma copiado à genialidade de vagabundos maquiados,
Tentamos inventar a agulha e a linha para a costura de uma bandeira qualquer,
Um grito que não seja a fraude para salvar uma família ilhada.
Desde que não somos franceses ou tamoios,
Inconfidentes ou farroupilhas,
Quilombolas ou tupinambás,
Alfaiates ou suassunas,
Juntamo-nos sem enredo,
Ou num enredo da Padre Miguel de Andrade.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Felicidade Alheia

Percebeu-se a nadar nas próprias fezes
A fim de uma eterna genialidade.
Detrás da máscara,
A alma humilhada por si mesma
Observava os sorrisos de quem o amava;
A felicidade corroía...
Detrás da súplica,
A alma replicava o sofrimento em anedota,
A dor em chacota;
A felicidade distraía...

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Queira

Eu quero decepar as tetas
E afogar os filhotes que não desmamam há mais de vinte anos.
Eu não quero me copiar,
Eu não quero me seduzir.
Eu quero estuprar a lei que me põe no centro de coisa nenhuma,
Arrancar os seus olhos cegos e esfolá-la sem compromisso.
Eu não quero me impressionar
Sobre o esteio que me criou.
Eu quero uma chupada doce dos lábios delgados de Vixe Maria;
A estrutura para um Deus qualquer
Além da fronteira para a coesão.
Eu não quero um respeito fútil,
Pois só vivemos quando somos fúteis.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Closed Beta Tester

Faça o que quiser,
Principalmente se divirta.
Reclame dos meus erros,
Encontre os meus limites.

Ache o que é bom,
Encontre o que é ruim;
Me diga se isso funfa,
Me leve até o fim.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Preocupações Inúteis

Até entendo os imbecis que pedem a coerência da ficção com a vida;
Compreendo a covardia diante das vestes que não servem pela cor,
Perante o sussurro que o grito moralista chama de berro da loucura,
Em presença do abrasivo desespero do tudo que faz do ego nada.

Até assimilo a linha de condução da curiosidade por aquilo que não queremos,
Ou pelo que quase nos tornamos antes da sombra ser sufocada;
Concateno os temores neste pesadelo com o meu sonho de partida,
Torno minha esta pudicidade para julgar que a alarmante devassidão não chegou,
Sequer existiu.

Nara

Preciso mudar a minha vida quando vens me ajudar:
Ajuda de pouco sentido,
Sentido de alma ferida;
Sagrado é o meu abrigo,
Mas fora da vida não há mesura semelhante.

Preciso calar os meus braços quando vens me abraçar:
Sufocar-te-ia se deixasse solto o desejo,
Pois retalhos mortos são o meu corpo;
Nunca quiseste,
Jamais aceitaste,
Mas deixaste acontecer.

sábado, 11 de outubro de 2008

Qu4tro

Eram quatro poetas sujos de um lugar qualquer,
Aprisionados em seus paraísos artificiais.
Eram quatro homens sós,
Verdadeiros egoístas;
Fingiam o amor,
O altruísmo sagaz de poucos,
Mas a força a inflamar os seus espíritos os via como deuses.
Eram quatro mortais:
Acabaram engolidos
Pela crosta coesa e ridícula do prosseguimento da falta de imaginação.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Peleja Tristonha

Quem te assiste,
Entrega-se às tuas loucuras fortunosas,
Aos teus vilipêndios à moda dos sonhos?

Dos organismos que criaste,
Quase todos desfilam com pressa
Pela pressa ser produto de pavor coletivo;
Casas,
Carros,
Canivetes suíços
E a fumaça da fábrica de chocolate.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Eu Sou Tua

Eu sou tua.
Esparramada em minha letargia,
Eu sou tua.
Definhante,
Degenerada,
Apodrecida,
Infectada,
Eu sou tua.

Cumpriste o rito,
Declaraste-te a demônios paupérrimos,
Entregaste o próprio corpo à enfermidade,
Suspeitaste da infinita afinidade contida nas entrelinhas do nosso amor decadente
E queres morrer pela doença que o meu beijo deu...

Não desejo ser tua,
Mas sou.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Andrômeda

Não te vingaste destes corpos acéfalos,
Pois os seus lábios,
Embebidos num caminho para a demência,
Roçaram-te nos instintos em uma pseudo-caridade;
Foi a dor dos deuses que te traíram,
Ou o pavor da fé que te esculpiu.

Toma, bebe o sangue:
É impuro, mas é teu!
Prova, repete a chaga,
Induze a mágoa,
Reprime o que incomodamente te determina,
Reescreve a verdade futura que não te agrada!

Os Açores

Eu te vejo acontecer no sereno sobre o relvado
(...)
A compor um sentido novo à madrugada taciturna,
Só descobri que te perdi quando dei por falta do costumeiro,
Do líquen que reage verde aos caprichos da chuva
A cessar e espalhar o cheiro da vida,
Da fertilidade dos bichos todos a contagiarem os seus impulsos pela tua acção.

Lies mich!

Abra o meu peito e desperte a minha audácia,
Extraia o que vê e corrompa o que sente,
Execute os meus sonhos e aniquile a minha dor.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Feliz

Seria o gênio um invejoso,
Ou a compulsão pela frieza obscura do conhecimento o apaixona?
Seria o gênio um vaidoso,
Aproximando-se do que o medíocre julga domínio divino,
Ou a função de agente exógeno o faz parte de um organismo que agoniza por mais?

Quisera apenas ver,
Parar por aí,
Não dar chance àquilo que entreva a alma.
Quisera,
Antes da assimilação,
Erguer muralhas intransponíveis para a indagação;
Morrer medíocre,
Feliz.

domingo, 5 de outubro de 2008

Alarido dos Mudos


É preciso muito sumo para não se tornar bagaço,
Muita alma para não ser devorada antes que a fome acabe.
É preciso gana,
É preciso medo.
É preciso.

sábado, 4 de outubro de 2008

A Camponesa

Tudo o que é teu,
Diluído nestes sonhos induzidos,
Ficou quase vida inteira escondido destes olhos velhos;
Não sei se morro de vontade ou de ciúmes,
Se sobrevivo pra te ver ou pra fugir.

Pareces a camponesa de cinco ciclos atrás,
Ou, somente, resgataste-a à força do teu ventre:
Posando para o meu compêndio de bruxarias,
Morremos apaixonados
E vendo menos do que a carne consegue exibir.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Memórias de um Suicida Fracassado

Lembro-me do impulso corajoso
Que desejou findar o ciclo de covardia,
Das gotas para a cura tomadas em colheres de sopa;
O veneno.

Não sei se lembro do que se passou em seguida:
Talvez amarras,
Talvez loucura;
Braços contra o peito,
Tornozelos unidos,
Marcas de violência pelo corpo,
Máculas desintegradas por não mais pertencer ao mundo que me integrava.

Eu fui expulso do que julgava meu quando escolhi a porta de um quarto sem luz,
Mas nem entrei,
O veneno não deu pra pagar a passagem;
Só pude fazer uma viagem sem graça
Para uma colônia penal.

Então voltei;
Ah, depois de tudo, eu voltei!
Mas...
Caralho, desacelerar é tão difícil!
Mesmo para quem quase parava,
Desacelerar é difícil...

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Guinadas Difíceis

Hoje quis falar do meu amor por você,
De como me abandonaria,
Deixaria soltos os meus sonhos;
Desconexos dos caminhos.
Hoje quis Brasília,
Dois dias na sua ponte a fim de fazê-la minha;
Esperá-la na sua casa enquanto visita a minha.
Mas hoje contive o meu afoitamento natural,
Não fui sincero,
Fui pausado,
Fui plausível,
Fui quase calado.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Oyasumi Nasai

Meu Deus, como me prendo àquela anca farta,
Àquele andar de pernas curtas que não são mentira
- Ventre que se mostra sempre aos passos sinuosos
E mais italianos do que japoneses,
Menos infinitos do que qualquer desejo -.

domingo, 28 de setembro de 2008

As Duas Estações

Eu, deitado sobre ti:
O que não beijam (os meus olhos) é da tua sombra delicada.
Por que mexes nas curvas das tuas cores,
Mesmo que estas cores do silício só existam em minha alma?

Eu, adormecido sobre ti:
O que de leve toca (a minha ânsia) é da tua penumbra camuflada de luz ou escuridão.
Por que não me deixas cair,
Mesmo que só carne, desprovido de sementes?

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Tela Número Três

Eu quase posso voar,
Quase posso cair,
Quase posso sonhar,
Quase posso dormir.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Que Regra Você Joga?

Que regra você joga?
Qual delas você sabe e pode jogar?

Há dias em que é cinzento,
Há outros em que não agüento este pluripartidarismo no nosso tabuleiro
Cheio de guloseimas carregadas de dendê.
Vem, vem ver!

Que regra você joga?
Qual delas você sabe e pode jogar?

Dezembro é contratempo,
Eu finjo que invento só pra te abraçar;
Ludibriar, quem sabe...
Vai, vai ver!

Que regra você joga?
Qual delas você sabe e pode jogar?

O ocaso hoje é ao meio,
Amanhã um teco a mais;
Não vamos nos perder contando-
Fica, fica aí e vê!

domingo, 21 de setembro de 2008

Um Candeeiro Sozinho

¿Contrapões-te por luta sagrada,
Ou para que então se reflita em cada um de nós
A linha tênue que nos liga,
O rebento que nos faz um só - a vida?

Amedronto-me com as frações de poses contorcidas
(O teu corpo seminu para o mundo,
A mãe do ócio exposta para a pureza do mundo;
O mundo em ti,
Proclamando-te).

¿Por que minto a dizer que o meu amor é mentira,
Que te engano,
Que me sugas o sangue
E que te chupo a alma?

Sou teu em cada verso
E não há verso fugitivo que não te refiras sem querer;
Sou o pai da tua criança,
O algoz da tua crença.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Mulher

Ela nem quer saber da hora do Brasil,
Mas muito se importa pela própria translucidez indesejada.
São de saltos que se encaminha:
Minutos sem sentir para não sentir nojo,
Horas de conversa para enganar o frio da calçada,
Dias debruçada em seus porta-retratos,
Meses que vêm e vão até se tornarem anos que não sabe explicar.

Conta que não cabe mais no mundo,
É serva da rainha da noite e, por isso, seu corpo definha aos poucos.
Diz que não sabe ser mulher,
Não quer,
Mas é.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Eu Não Respiro

Eu não respiro,
Decanto as dores que não consigo lidar...
Vejo os teus pés sujos e lembro das luzes de neon que quebrei,
Dos cortes incuráveis que abri nos intervalos de tempo;
Doces lembranças com respingos de sangue feito de ketchup,
Descrível vingança das mulheres de borracha cortadas em postas para quem janta durante toda a vida.

Eu não respiro,
Expulso nojeiras que mal me cabem...
Vejo os teus pés sujos e denigro tudo o que creio para te sentir,
Afago tudo o que repugno para que o inimigo em mim me diga.

Sirene que canta,
Canta para a morte,
Perdão,
Eu não respiro.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Nouveau Cinéma Pornographique Brésilienne

Tudo tão claro quando o motivo não é princípio,
Quando as luzes registram o que não é roteiro...
Veja, no centro perceptivo está a perversão;
O produto de quem agoniza,
O fruto de quem não sabe se perder.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Bordas

Odeio pintar bordas,
Mas pinto.
Afinal,
Quem olha para as bordas?

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Meio Mundo entre Dois Pontos

No peito,
a gana de abraçar o impossível.
Nos olhos,
a degeneração que liberta.
No sudeste de uma iha do Pacífico,
quem nunca esqueci.

Conforme os meus sonhos desvairados,
A tua chama perde a força quando choro,
Mas já não choro só pela saudade,
Pois só de dor não posso
E só de fuga não traço.

domingo, 14 de setembro de 2008

Jim Morrison É uma Cópia

Jesus Cristo era hippie e não sabia,
Bebia vinho e pregava o amor;
Tinha uma casa no Arembepe da Bahia-
Viva solto, sem reconhecer a dor.

O Nazareno era junkie e se fartava
De tudo o que a vida tem pra dar;
Com prostitutas pela noite ele varava
Embebedado, a dizer coisas do mar.

O tal Messias era punk das antiga,
Revolução à la Guevara ou Bakunin:
Tinha a puta Madalena como amiga
E a cruz sem honra e sem posses como um fim.

Pobreza Transgredida

Eu te amo de mentira,
Uma falácia descarada;
Eu te amo quase toda,
Pois toda és quase nada.
Eu te quero distraída,
Lambendo o mel da tua ferida;
Eu te quero repetida
Na pobreza transgredida.

sábado, 13 de setembro de 2008

Quintessência

Quem se presta?
Eu me presto a ser o que não te importa mais,
Pois o que interessa não tem pressa;
Ontem estivemos perto da obscuridade que se arrasta desde o nascimento.

Quem te guarda?
Até então, um colecionador teu, eu mesmo;
Todas as tuas dores escondidas em meu coração de brinquedo,
Esperando conjugações e refinamentos,
Ódio apaixonado e acalento hipócrita.

Deus, meu deus criança
- Novidade para a tua criatura -,
A minha alma parte ao meio e é nada,
Os meus sentidos te pertencem, mas não bastam para entendê-lo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Nordeste Independente

Apesar de estar distante, agrada-me Ribemboim;
Voltaria para casa a fim de ajudar a curar as minhas raízes...

Quase sempre me cansam os ilhados ilusores,
Os que colonizam por dentro e os que coronelizam por fora,
Chupam da terra sagrada os frutos e cospem as cascas
Para o artesanato de quem faz mais do que pode.


Mas meu nome é Brasil, meu caro;
Mesmo perdido num centro cego, meu nome é Brasil,
Mesmo multicultura na retidão torta, meu nome é Brasil.

Desapego

Mais uma vez quebrados, os espelhos,
Portanto, ela se afasta pois sei fingir ser homem;
Comentar dos peladeiros,
Dar nota às bundinhas,
Meter a mão por dentro das calças
E coçar os pentelhos do saco.

Não por muito tempo, eu sei,
Porque todo fingimento desafina num próximo futuro,
Toda corruptela se denuncia num membro coxo
Ou nas unhas mal feitas de mãos delicadas.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Mutante

Não percebi os olhos que aprisionavam
E conspiravam com o medo a redenção da loucura,
Mas,
Embora tarde para a volta da pureza,
O dia seguinte, ainda a brotar, foi mais claro do que qualquer julgamento.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Crack the Code

Não inalei o subterrâneo de Delfos,
Talvez tenha feito pior;
Perdi-me sincero na mendicância da carne,
Simplesmente por carne atordoada e esquecida.

Não quis servir aos deuses para salvar o homem,
Eu só fui homem que se mata aos poucos;
Senti as salivas do mundo nas ferramentas para a própria decadência
E expulsei a influência do cosmos em nódoas e sangue, muco e carvão.

Não li as tábuas sacrossantas de Yam Suph;
Desenhei o som de ossos quebrando para que surdos sentissem,
Entretanto, perdido em euforia,
Não cri que o surdo era eu.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Mulher Esquisita

Devolve cópias das cartas com cola diferente,
Inaugura um termo reinventado na década passada,
Lambe a boca de outros Kanes como o seu pai,
Observa o meu corpo esticado na rede e boceja;
Diz que eu choro,
Reclamo demais,
Mas se deita comigo.

O que essa mulher tem na cabeça?
Por que tenta machucar aquele que já não sente mais dor,
Aquele curado de tanto apanhar?

Vai à cozinha só de camisa,
Abre a geladeira atrás de cerveja,
Acha uma lata,
Bebe de vez
E de uma vez recai menos pobre sobre mim.

O que essa mulher tem na cabeça?
Por que só se esquece da regra quando a regra é ser feliz,
Mesmo que não só seja como a besta que a possui?

Inicia um castigo
- Brinca, não se dá por um desejo meu -,
Acende um cigarro,
Chama-me de criança
- Inocente demais para ela -,
Apaga o cigarro dentro da caneca com dois dedos de café
E esmaga os meus ossos,
Escalpela-me.

O que essa mulher tem na cabeça?
Por que mede os meus porquês parecendo comparar-se,
Tentando separar-se?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Os Autores de um Homem

Quando saio de um universo e mergulho em outro enquanto a tinta seca,
Carrego fragmentos de uma verdade para a outra sem querer...
Meu amor, não sei deixar as minhas vidas para trás,
Não consigo calar as suas personalidades.

A Assinatura

Sentado no colchonete encardido,
Ergueu pelos dedos o cabide a conservar a casaca
E constatou que as lantejoulas mal se prendiam à costura,
Além duns rasgões sob as mangas que aumentavam a cada dia,
Entretanto, vestiu-se com lisura e assinou o seu espírito.
Abriu o armário velho e lá estavam os seus sapatos,
Não tão lustrados quanto deveriam estar
- Em um pé faltava o solado e no outro o calcanhar -,
Contudo, calçou-os sem muita pressa e assinou o seu espírito.
Abriu o seu estojo e havia pouca maquiagem
Para conseguir ser mais vivo do que acha que é,
Muito pouco de amarelo e quase nada de vermelho,
Porém, muniu-se da esponja e assinou o seu espírito.
Pôs a touca que conseguiu emprestada da namorada
- Cabeleireira que o ama, mas quase nunca o entendeu -,
Tinha uns buracos nas extremidades, todavia, dava para improvisar;
Prendeu os apliques de cabelo verde e assinou o seu espírito.
Entrou saltitando no picadeiro,
Caindo,
Levantando,
Fazendo-se de bobo,
Fazendo de bobos quem queria graça
- Todas aquelas pessoas de poucos dentes na boca,
Poucos tostões nos bolsos,
Pouco em quase tudo,
Exceto na fé em Deus -
E assinou a sua alma.

domingo, 7 de setembro de 2008

Iara

Expulso da minha própria vida,
Refugo dum pragma aflitivo,
Alceei a minha tarrafa, mesmo sem fome,
E a perdi, partida, quando tocou o fundo do rio.

- Como pode partir-se assim o trançado do meu avô? -
Pensei.
- É Iara! -
Vi-a por um segundo antes que a minha visão escurecesse.
- Era Iara! -
Entendi por que é lenda quando não precisei mais enxergar.

sábado, 6 de setembro de 2008

O Iludido

Quase sempre na direção inexplorada,
Tu, a minha ilusão das minas geraes,
Aparas as minhas asas com os teus lábios maquiados de escuridão.

Eu, quem se perde nos nós para os teus fios de indagações serenas e epifanias torpes,
Cato as migalhas do que destróis para que te reflitam,
Montadas sem muito sentido contra o teu vítreo encantado.

Vila Buarque

Quem esperou que fosse fim,
A tristonha despedida da atriz,
Não percebeu a melodia entregar-se aos prazeres do poema.

Não foi de alegoria que se enfeitou;
Cobriu-se de panos crus, das próprias visões do cotidiano,
E, tímida, desfilou sobre as vias pútridas da Vila Buarque.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Antes do Gesto

Caminhou sem desejar medir distâncias
Para todo o amor que sufoca,
Toda a paixão que acorrenta,
Imbecil coletivo,
Ilusão do estado de paz
- Estado não é pai nem mãe -,
Confusão de um dia eufórico,
Perfídia para a proteção.

Deduziu assim que viu o que ninguém percebera,
Portanto, atravessou a avenida
Em meio ao tumultuado dia de setembro,
Todavia, atropelado,
Não imaginou o minuto seguinte.

Igualaram a moralidade à legalidade,
Desprezaram as dores que se pensava concorrentes
(Meu Deus,
Chamaram de dores menores,
Ou dores inventadas contra a natureza!);
Uniforme, o mundo é muito menor,
Menor do que lágrima salgada...
E nos deram mais um mote
Parecido com o anterior:
Mote indigesto,
Roupa que prende o nosso gesticular.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Lorem ipsum

Pra começar, não há mandinga que valha,
Ou engodo que me arranque a fé;
Os ventos arautos só cospem asneiras,
As musas ditosas só repetem o que no presente não cabe mais,
A dor em si mal merece tornar-se sofrimento.

Estou de saco cheio deste blasé em preto e branco,
Quero mais;
Qualquer sabor, mesmo que de todos não prove,
Mas que de todos possa provar!

Saúde

Chamou-me para um canto incomum,
Falou do que precisava,
Das cruzes que carregava,
Quase me exigiu as luzes do mundo apagadas
E abocanhou o meu caralho como se precisasse comprovar o valor cobrado;
Alto, por sinal:
Declinei de início,
Questionei-me hipnotizado pela carnificina dos pigmentos,
Aceitei,
Gozei desejando gritar,
Contive-me até que o animal adormecesse.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Coluna de Plástico

Olha só a bela coluna de plástico
Que suporta o aço camuflado de pele,
A mentira fantasiada de lástima
E o meu coração coberto com calda de morango!

Olha só como nem se move!
Parece rija,
Impassível aos truculentos desafios do homem,
Insensível aos pestilentos clamores da carne,
Mas é minha,
Eu sei;
Sendo minha sei que é farsa,
Um capítulo de desgraça escorrida aos montes,
Uma pobre pretensão que um dia deixarei de lado,
Num canto qualquer a cobrir-se de poeira.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A Fumaça

Pés sujos de vida,
De caminhos pelas salas da minha imaginação,
De brincadeiras e danças lisonjeiras se estás sozinha;
Sim, sozinha.

Chão farto de um isolamento
Que não lhe dá razão,
Que espera,
Que chora;
Sim, sozinho.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Asas Quebradas

Trapézio,
Asa,
Amparo para o toque,
Textura da língua úmida contra o dorso seco e resfriado,
Carícia dos dentes incisivos a entorpecer antes que machuque.

domingo, 31 de agosto de 2008

Fechar os Olhos

Fechar os olhos para a forma que seja,
Pois, mesmo situados numa transpiração comum,
Hemisférios nos separam.

Fechar os olhos para o teu corpo magro,
As pálpebras sem divisas até as sobrancelhas,
As pontas dos dedos a percorrer o abdome,
Os mamilos inchados quase ao mesmo tom da pele,
O tremor dos lábios encharcados de incompreensibilidade.

Fechar os olhos é o que nos resta;
Fechá-los a tentar o certo
Ou o tão próximo que ilumine.

Quieta, Nua

Eu vou pra sua casa,
Eu sou a sua deusa;
Distinguo os seus desejos,
Prevejo os seus medos.

Eu tô na sua vida
- Não quero despedida -,
Eu sou quem bem lhe beija,
Mesmo que não me veja.

Eu amo o seu sorriso
E a dor do seu aviso
Que sempre erra em tempo,
Distrai o meu tormento.

Eu morro assim que sinto,
Mas logo ressuscito
Faminta pela sua pele:
Quieta, nua.

sábado, 30 de agosto de 2008

WYSIWYG

O que se vê é o que se tem,
Mas o que se tem é a cópia do mesmo.
O que se faz é o que se quer
E o que se quer é diferente do desejo.
O que se pode é o que se faz,
Porém, decepcionantemente,
O que se faz não adianta.

De que adianta se adianta?
Adiante, homem; vê adiante!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sexta-Feira de Carnaval

Intercalando os seus pudores,
Expulsava as vísceras pela incisão precisa,
Feita pelo algoz;
O desafeto traído e traidor,
Antigo amigo displicente e esbanjador.

Segurava as coisas
Como se quisesse devolvê-las ao seu lugar,
Gritando desesperado,
Caindo em seguida, fulminado.

O povo aberto em círculo se enojava
- Alguns vômitos,
Uns poucos desmaios -,
Acompanhando o desespero da irmã que berrava e chorava;
Berrava por ajuda,
Chorava por previsão.

Vinham uns homens
- Uns de azul que procuravam,
Uns de branco que o carregavam -
E o círculo se fechava.

Fulaninha voltava pra casa,
Beltraninha preferia ficar,
Mas, sobre o sangue de alguém que já se foi,
Vivia-se o carnaval.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Retalhos de Ti




























Adeus ao velho ciclo,
À volta elipsóide
Que continha os teus sentimentos.
Quem vê até se assusta,
Pois os lábios rachados, secos,
Ainda fazem juras de amor.
Não precisa ser Bourbon,
Contento-me com um nacional;
Mesmo que nacional de mentira.
Ah, a falta que fazes,
Tentando roubar as estrelas
E as dores que são da paixão!
Não te importes!
Isso mesmo,
Não te importes!
Arreganhei-te enfurecida,
Soberba pelos teus feitos
E triste pelas tuas perdas.
Hoje?
Não, hoje não;
Eu me importo com a carícia.
Quem sabe outro lado,
Outro mundo,
Outra fé.
Há pontos em branco
Sobre o tecido da tela,
Mas é proposital.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A Dançarina















Surpreende-se desesperada,
Ainda protegida pelos deuses;
Coberta de seda, alfabeto e luz.
Contra a beleza
Não há divisa que afaste,
Não há arma que baste.
Eu a vejo sisuda,
Porém, mesmo aflorada em ódio,
Transpira a morte que arrebata.
Distante do próprio desejo,
Dança sozinha, abraçada à penumbra
E sensível ao toque do nada.

Polares

Quero um foda-se bem dito,
Com forma de carne e cheiro de suor teus.

Quase Longe

Eu te amo
Deformado em verso,
Aniquilado em sombra,
Deturpado em voz.

Eu te amo
E bem me escutas,
Bem me prendes,
Mal me julgas.

Eu te amo
Ébrio;
Pedaço de mim quase bebê,
Tristeza minha sufocada.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Ybytucatú

Na marginal que não se movia,
Ouvia o canto doce de Marisa,
Batia as palmas das mãos contra o volante,
Apreciava o mais do mesmo distanciando-o de si mesmo.

Numa frouxidão para a pressa,
Correu apressado para casa,
Subiu apressado para casa,
Fugiu apressado para casa.

Cumprimentado pelo velho amigo
- O ansioso Manoel e as suas lambidas ensopadas -,
Abraçou-o como um filho,
Afinal, era filho aquele mocinho.

Cuspiu as roupas sujas da labuta,
Abriu a janela de alumínio do terceiro andar,
Esticou-se sonolento e bocejante,
Ademais,
Por um instante pensou ser aquilo a liberdade.

Sentou-se no sofá
- A devorar bolachas secas que mal matavam a fome -,
Ligou a tevê em mais uma novela de dois lados distintos
- Aqueles que nunca distintos em nós mesmos -,
Aconchegou-se com Manoel no seu colo
E morreu em curto tempo,
Enquanto o vento soprava frio sala adentro.

domingo, 24 de agosto de 2008

Digitais: a Besta

Testifico-me sem motivo
A aguardar o teu estado qualquer,
O teu impulso reativo que me fere sem querer.

Sim,
Prossigo a mentira descarada,
Finjo a tua existência para que me compreendas,
Leio a tua alegoria construída para fundamentos do espírito,
Porém,
Sempre nu de fins
- Um impostor -,
Vagueio sem medo dos teus ataques mortais
A dispor estas peças brilhantes que nada me dizem além do seu próprio medo.

O Que Há Depois do Abraço

Desfaço o laço,
Caminho para onde não posso fugir,
Quebro as tuas cisternas
- Por via remota -,
Percebo que não há mais sinceridade entre nós dois
E, disfarçadamente, cerro as cortinas para nenhum espectador.

sábado, 23 de agosto de 2008

Outra Questão

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Ainda Quedas

Permaneço estatelado pelo sumo do veneno em teu ferrão,
Pela dulcíssima intempérie que me enjaula de surpresa.
De quem posso esperar a vitória
Senão de ti que me arrancaste a própria vida?

Ainda conto os pedaços de quem fui;
Cascas que um dia sangue,
Tema de carnaval das cicatrizes,
Enredo de amantes sobre um fim deplorável.

Faço-me de cor invertida
- Toda uma escala de cinzas entre nós dois -,
Mas teimo,
Desconheço o meu abuso
Em desejar-nos misturados,
Reconheço a minha loucura
Em acordar o inexistente.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Sede

Preciso ver o teu traço,
O peso da mão que é tua,
A identidade marcada na tela.
Quero-te com pouca linhaça;
A textura marcada na sombra,
Nua na fronte da tua perversão.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Gaijinized

Vê as minhas raízes?
Há tempos envelhecem;
Anteriores a este organismo que hoje me chama de vírus,
Que me cerca de proteção para o meu ressecamento,
Que me cobre de cuidados para um definhar grotesco.

Ramos não os tenho,
Folhas não me brotam por falta de luz.

ps: gracias, Haru Girl!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Gineceu

Adormece em mim,
Entende o motivo da dança
- Sou a tua morte,
O nosso recomeço -.

Desvia o teu rumo de reinvenções,
Não há nada a ser descoberto ou alcançado:
Está tudo aqui;
É só.

Solta o teu brado,
Faz-me tremer,
Impõe o jeito que só de um jeito há.

domingo, 17 de agosto de 2008

Cm7

Coisa que já vi,
Coração que acelerei e quase fiz parar.
Senso que senti
Calando a minha prosa com um parto,
Prendendo as minhas mãos com violência,
Negando aos meus sonhos a demência.
Olhos que esculpi
Sem as cores que me bestificaram,
Na direção que um dia me traíram,
Em areia para o tempo destruir.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Ensaio Geral

Após sair do estúdio, ainda com a ardência da quinta e última seção de pintura de uma tatuagem no tórax, acenei apressado para o primeiro táxi que vi, já noite, em meio aos travestis que começavam a trabalhar nas ruas da Vila Buarque. O veículo encostou próximo à calçada, poucos metros à minha frente, e dei um pique para alcançá-lo. Abri a porta rapidamente, entrei e sentei no banco de carona.

- Boa noite! Avenida Moema com Ibirapuera, por favor. – pedi.

- Boa noite! - o taxista, um homem grisalho a aparentar cinqüenta anos ou mais, acionou o GPS, definiu o destino, constatou o resultado no aparelho e me informou: - Quarenta e cinco Reais, senhor, porque o Minhocão está engarrafado, de acordo com a previsão de tráfego.

Desde que os taxistas começaram a cobrar antecipado, com essas engenhocas construídas por estadunidenses, inventam que há um engarrafamento aqui e outro ali quando percebem que não estamos carregando nenhum aparelho celular e não podemos verificar a previsão, mas, cansado, apenas movimentei a cabeça em sinal de afirmativo e paguei no cartão, mantendo um breve silêncio a ser quebrado assim que o motorista sintonizou o aparelho de rádio numa estação de música popular brasileira; tocava Sivuca.

- E o jogo de abertura, vai? – perguntou-me, referindo-se à Copa do Mundo.

- Não, não gosto de futebol. – respondi sem rodeios, mais preocupado com a dor da tatuagem recente.

- Faz bem, com essa seleção é o melhor que se pode fazer! – ensaiando um sarcasmo que eu mal pude entender, por não saber mesmo de nada sobre futebol, mas tentei deduzir.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Segundo o Poetinha...

Há tempos obcecada,
Tentando um contato por uma frase vil,
Um antídoto para o teu veneno,
Uma fraqueza do meu mundo para a figuração do teu.

Há muito impaciente
Para dizer-te que, sim, eu sou feliz,
Mesmo que isso não seja verdade.

Hellas por Ela

Explanam com contornos absolutos sobre a bondade dessa gente,
Mas eu não sou o bem que desejam aos seus filhos,
A conduta reta - ou murcha - que pensam exigir os seus deuses.

Alardeiam sobre o mal contido em qualquer prazer meu,
O aspecto perverso em brumas que afirmam existir em meus lábios exaltados,
Porém, ébria em minha ilha de supostos desvarios,
Não ergo coroas de homens corruptos para homens servis.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Persephone's Kiss

Exibes-te quase nua,
Despudorada,
A atrair o amor de qualquer alma,
O cio de qualquer animal.

Posas a favor da luz,
Trepas com a melancolia,
Reduz o arquétipo sombrio a teu segundo plano.

O Velho Menino e a Musa Aposentada

Eu, quedado diante do teu verso,
Algures na cópia da acrópole em decadência,
Deduzo a tua mentira
E mimetizo a minha em um livro sagrado,
Repleto de desejos torpes,
Sentimentos podres,
Corrupção do ser.

Balcão

Demasiado humano este - eu - que não se priva do teu láudano,
Distribuído em gotas sem censura para a letargia e para a morte.

domingo, 10 de agosto de 2008

Se/Então/Senão

Era só mais uma mina que cobrava por fantasias;
Olheiras camufladas pela pintura de guerra,
Esmalte descascado nas pontas das unhas,
Ironia do destino no que julgam vergonha.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Daidalus

Perdes-te encontrada, poetisa.
Percebes o infinito nos teus amparos d'água,
Nos teus furores quietos...
Quietude,
Volúpia que surge da luz de um pesadelo
- preto,
cego até que sussurres,
morto até que nasças -.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Pequena Clareza

Rendido à tua citação
E ao teu tronco curvado, oposto à sombra,
Cerro lábios e dentes,
Abrando pensamentos e mágoas
Para que a tua dança esteja além do silêncio;
O teu corpo contra o ar,
Percussivo,
Denuncia cada mentira em meu verso.

Desejar e Querer

Pressentindo que me encontraria com Aninha assim que saísse da minha consulta com a dentista, desliguei o celular para não receber uma possível ligação de Alessandra, garota com quem venho saindo, pois não estava paciente o bastante para responder as questões intrusivas daquela mulher. Um certo dia, quando a minha vida parecia ter se aprofundado nas mais temíveis trevas da estupidez, eu me relacionei intimamente com Aninha; era garota ainda, dezessete, baixa e gorda, perspicaz mas mimada, masoquista, traumatizada por ser filha de uma beldade e a própria aparência ser repugnante, enfim, um problema que eu poderia ter evitado.

Não precisei me sentir um Nostradamus, porque, como era de se esperar, lá estava ela, em pé, defronte ao balção da clínica, este que se alinhava no parapeito ao queixo da quase anã. Maldita hora em que comentei que iria à dentista para a estorvosa, abrindo o semblante em dentes assim que me viu.

- Que saudade, Deco! Esqueceu que eu existo? - saudou-me para perguntar o que eu não tinha coragem de responder com todos os 'F's e 'P's.

- Você sabe, Aninha, o trabalho me toma. Como está?

- Estou melhor agora, obrigada. E aí, vai fazer alguma coisa agora?

- Vou para casa, tô sem ânimo para sair. - torcendo para que ela partisse para bem longe de mim.

- Posso ir contigo? - fez a expressão facial que sempre fazia quando queria parecer um personagem de quadrinhos mangá que apetece por algo sem poder, mas, devido a feiúra deplorável, sempre me condicionou à vergonha quando em público.

- Você quem sabe. - tentei ser sutil, porém sabia que aquela catástrofe me acompanharia.

- Então vamos, senhor! - estendeu-me o braço, que segurei meio sem jeito, quando, na verdade, desejava empurrar aquela bolha de carne pelas escadas da saída.

Dia de Chuva

Quando estava a me acostumar com uma mancha a bloquear as luzes do mundo,
Outra interrompe a minha paciência,
O meu equilíbrio.

Não me importaria com fronteiras derrubadas,
Com a Foz do Iguaçu sendo o centro de um amor que ontem foi ódio,
Com o Alto Xingu sendo irmão das descendências Incas (quem diria?),
Mas perco muito tempo, preocupado se um olho cego me tiraria a perspectiva de um dia de chuva.

domingo, 3 de agosto de 2008

Novembro Não Tem Nome

Respiração que me acompanha quase muda,
Ordenando-me para que acumule o passado em qualquer sentido.
Ferida antiga ainda sem cicatrização,
Mácula de um lábio que não ousa a abstinência;
Ninguém se perde igual a mim neste sabor adstringente,
Nesta falta de si mesma para si mesma rendida ao hedonismo.

sábado, 2 de agosto de 2008

O Drible e o Miserável Zagueiro

Considerou ofensa o que era só desvencilhamento;
Miserável este que não alcança a compreensão da arte.
Diante de toda a truculência,
Da vigorosidade pragmática,
Da contundência metódica,
Um giro de criança faz do gigante um bobo;
Um João do Mané,
Um espectador dentro do picadeiro.

De que importa se não é para a meta se a meta é ser feliz,
É desenhar sorrisos nas adormecidas sementes pueris?

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Pobre Diabo

Desprezaram o pobre diabo que morre aos poucos sobre o asfalto;
Flagelo de magro,
As tripas na rua,
Os ossos partidos,
As roupas rasgadas.

O povo segue curioso,
Dizem quase em uníssono a cada grupo de olhares:
- Coitado, meu Deus! - e seguem de volta às suas vidas.

O pobre diabo tosse mucosas,
Borbulha vômito e sangue por boca e narinas,
Contorce-se a sentir dores que findam aos poucos
E morre a observar o céu poluído de todos os dias.

Fica ali,
Deitado,
Enquanto a pressa da cosmópole se desvia aborrecida.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Numa Pocilga da Avenida Rio Branco

Chegou sem pressa,
Trouxe-me duas cervejas e uma trouxinha,
Falou da tensão que sofre no trabalho,
Chorou pelo nojo nos olhos da esposa,
Deitou a cabeça no meu colo feito criança,
Beijou o meu corpo sem parcimônia,
Tocou a minh'alma feito um louco
Que ficaria ali para sempre,
Mas saiu assim que adormeci
E nunca mais voltou.

Circus Maximus

Impressiona-me o teu irretocável traçado,
A maneira com que aproveita o sopro
A desenhar com plumas a tua felicidade.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Um Ocaso e Dois Desejos

Sussurrei
Apenas um cumprimento que não sabia onde colocar-se...
Esperei outra resposta irritada,
Outra afirmação da inexistência de um moto perpétuo,
Porém,
Amedrontado pela esfinge que parecia não me ouvir,
Desprotegido pelo silêncio desnudador,
Afastei-me daquele orgasmo num andor soturno.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Raskaus

Estou grávida de um sentimento que me adoeceu,
Luzes que iluminam lábios rosáceos de um sonho distante.
Estou prenhe de uma mentira delicada,
De uma xarada sem resposta,
De uma paixão posta à prova.
Espero um rebento do vento;
Este que se pronuncia rude,
Que me cala sem me entender.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Os Modernistas Estão Mortos

Libertei-me quando decidi não ser a Tarsila envolta em sombras,
Ao mesmo tempo em que não me assumi a Anita machucada pela crítica de Lobato.

domingo, 27 de julho de 2008

O Vento e o Andarilho

Tinta gasta à toa, verbo dito ao nada,
Busca incessante pela dor que te agrada.
Frase descartada, raiva publicada,
Minutos de silêncio para saber quem tem razão.

sábado, 26 de julho de 2008

Ciranda do Neurótico

Mal durmo por medo dos meus sonhos,
Não vivo por cisma de amar.
Meu quarto é a minha fortaleza,
Nem me atrevo a o abandonar.

Meu corpo é frágil e delicado,
Um olhar pode o destruir;
Minha alma é a doce prisioneira
Da placidez que não pode me ferir.

Lugares, pessoas, avenidas,
Paixões, eu mesmo e você,
Desejos, saraus e compromissos,
Além das foices que só eu consigo ver.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Se Jokin Sinulla On

É lisa a madeixa de lembranças sobre a escrivaninha,
Descolorida antes de arrancada com força,
Ressecada pelo maltrato que sofreu.

É lisa a moldura que escolhi para a representação dos seus olhos;
Alegre o seu semblante,
Corrompido o meu peito.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Pedrinho

Pedrinho, garoto travesso de dezesseis, sentou-se defronte ao seu computador de processamento quântico e escreveu um programinha em linguagem orientada a objetos, um programinha para a emulação de um universo em oito dimensões. Definiu os parâmetros para o início do processo caótico, compilou a sua criação, executou e bum! Um bilisegundo seu para um milhão de anos do universo criado; estrelas e outros astros; civilizações e as suas respectivas culturas: tudo aglutinado sem o seu controle, todos confiantes que o tudo está entre o céu e a terra.

Coisas

Percebeu simplicidade onde naveguei para um universo de sedeniões
(Dos logaritmos polinizados formei a nova bolha a partir de um traque),
Bailou alegre em torno das pétalas e se sentou...

- Sentes as cores, as formas e os aromas?
Não te percas neste mundo numênico! - tentou-me.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Polish Doll

Por que não enxergas a crueldade nos meus olhos,
O pedido da insanidade pela tua alma em retalhos?
Por que crês num acidente do tempo,
Num percalço,
Em vez da minha propensão sórdida à ferida exposta,
À dor à mostra?
Por que buscas o inexistente,
O remorso,
Se o meu valor bipartido morreu com as outras personalidades,
Extinguiu-se com as suas verdades?
Por que queres ser para mim a Mademoiselle Lambercier,
O molde da minha tara,
Se pareço o leão que ainda não é criança
E Tu Deves te beija apaixonado?

Ontem calei um mito,
O mesmo que me extirpou um câncer.
Ontem sonhei com medo,
Pairando sobre as rachaduras do concreto.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Vitreum

Ah, a tua caminhada meticulosa,
Repleta de fome contida,
Suspeita por breves clichês!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Última Primavera

Eu,
O da pá virada,
Encadeando os teus lapsos de publicidade,
Capturo as adagas antes de serem arremessadas
Para que não te firas com a inveja.

Eu,
O da única fala do último ato,
Pintando fractais em paletas octais,
Finjo serem flores os complexos matemáticos
Para que esqueças o último pesadelo.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Versão Obsoleta

Ontem passei mal,
Mal podia andar;
Quase clamei por Deus...
E se Deus for uma criança a jogar The Sims em seu desktop velho?

De vez em quando trapaceia,
Mas quase sempre enfrenta a máquina.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Amina

1 Era uma mulher sozinha, mas erotizada em sonhos de centenas.
2 Caloroso o mundo em que vivia, para aqueles que a idolatravam.
3 Era uma mulher que vendia a aproximação e o toque, embora sem os desfrutar.
4 Rancoroso o mundo que sentia, distante do apreço entre irmãos.
5 Era uma mulher sem paz. Quem no mundo beija a paz?
6 Rendeu-se ao olhar de Lux, o dragão trevoso, e aos sonhos que o mesmo cantava.
7 Morreu ao septuagésimo quinto dia da paixão sombria por Lux.
8 Lux, o alienador de almas, descontente pela morte da sublime escrava, matou mil homens e cem mulheres quando percebeu o seu amor por Amina.
9 Ajoelhado no mar de sangue, uma lágrima vertida mudou a dor do universo.
10 Reuniu os corações das suas vítimas e construiu um altar, costurando-os com fios de medo.
11 Ordenou a todas as almas alienadas que buscassem por Amina em seus delírios.
12 Sem sucesso, mergulhou no próprio pesadelo e a encontrou.
13 Aos gritos, clamou para que Amina voltasse.
14 Amina, recriada por suspiros de horror e insatisfação, sussurrou:
15 Vivo do seu sofrimento, não queira me matar mais uma vez.

domingo, 13 de julho de 2008

O Morto e o Passado

À beira da morte,
Degustando paródias sonolentas,
Mantive-me em silêncio até que, enfim, morri.
Aguardei por uma luz que não fere,
Ou chamas a me devorar,
Portanto,
Observei acerca da imensidão de coisas comuns que não mais me pertenciam para me encontrar,
Busquei por algo que preconcebi ou coisa alguma que jamais ousei imaginar,
Mas só consegui ouvir uma voz que dizia:
- Sai daí, estúpido, isso não é mais teu! -
E nem para mim era a voz,
Só uma curiosidade do tempo.

Prossegui ressentido de tudo o que havera vivido,
Xinguei para o nada de coisas reais que não me notavam
E, num dia de sol que não corava a minha pele,
Calei-me para sempre,
Desliguei-me do passado a entender sua ilusão.

sábado, 12 de julho de 2008

Eu me Repito

Talvez pela revelação,
Pelos olhos que vigiam o nada a contorcer-se de dor,
Pela incitação à idolatria por migalhas de notoriedade,
Pelo desprezo ao conforto dos nossos rebentos em prol das competições de acesso,
Pelo lancinante dia de paz poluído por um timbre rouco e de baixo tom,
Pela humilhação de uma janela que persuade quase toda a lusofonia,
Pela história repetida e revista sem vergonha,
Pela frase mal usada e sempre usada nas esquinas,
Pelos seios quase iguais que hipnotizam por serem muito diferentes,
Pelo púlpito povoado por pessoas comuns a usar auréolas de papel,
Pela contração de ar expelido que é exilada por ser palavrão,
Pela fome atordoada por construções abstratas,
Pela volúpia discreta de um desejo acostumado,
Pelo infinito escondido debaixo de uma pedra coberta de musgo
E por esta mesma arremessada contra a vidraça.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A Mentira e a Espátula

Tu que brincas com as formas,
Distrais as normas que se extinguem letárgicas,
Canta-me o teu fado de pobreza de instinto,
Mata-me num brado de clareza do amor.

Sê a busca por estes estilhaços incontáveis,
O corte num peito que não mais existe,
Pois nasce em tua ânima o que desespera,
Padece sob ti a deidade e a besta.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Colméia, ou a matemática de uma metrópole instintiva

Um ato de bondade notório,
Que inflamou multidões e nutriu o carisma de um grupo qualquer,
Todavia, como todo ato de bondade que se preze,
A ação cruel não foi alarmada, ou sequer percebida, para tornar-se monstro num futuro próximo.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Acerca da Imensidão Ridícula

Eu pedi para que se desprofetizasse,
Esquecesse as alcunhas lúdicas e as fórmulas de tempero para ração canina,
Mas o amor sempre segue por onde não há estrada construída,
Portanto, nem precisou;
Olhei para outro canto que brilha mais do que no começo.

Dorso Seminu

Quando a minha gana se encontrou eclipsada,
Semidesnudou-se publicamente para mostrar os seus sinais,
O desenho de um dorso em curvas que se descrevia além do tempo
E o semicírculo de um seio coberto por mão e penumbra.

Quando a minha gana repousou para não sentir medo,
Você mudou em uma das suas janelas,
Mas permaneceu a mesma para quem prova da sua alma;
A mesma mulher que urge catástrofes sinceras,
Molda belezas venéreas.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ao Redor do Mal

Passeava no infinito de um parque pequenino,
Entre os riscos da calçada e as gramíneas desbotadas.
Tornava as cores mais cinzentas enquanto enxugava os lábios com os dedos,
A censura mais frouxa assim que, distraída, rendia o corpo em abertura ao sol.

domingo, 6 de julho de 2008

Caçador de Borboletas

Se tentei ser gentil com sombras,
Com remendos de pessoas a formar pessoas para entreter a mim mesmo,
Onde está o desvario que te inflama?

sábado, 5 de julho de 2008

Lábios Pintados de Solidão

Inconformei-me com o teu teclado sem acentos
Enquanto lutei contra uma nuvem fria por outro beijo...
Vesti-me de azul,
Imitei o imperador,
Tentei achar os teus soluços,
Arremessei as minhas naus no enxofre do inferno,
Enfrentei os meus demônios para morrer com um senso honrado de mim mesmo.

Onde estás,
Além das frases a partir de mãos que nunca mais vi?
O que compreendes agora,
Além das peças feitas de passado que não mais dizem quem somos?

Um Dente de Engrenagem

Cultivou a lavoura a ser destruída pela praga
E, mesmo assim,
Creu que o presente precisa ser experimentado,
Acreditou que o distante, transtornado, rende-se aos pequenos passos.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Condicionais

Se eu soubesse que só precisamos de absorção e raios laser,
Só me importaria em dormir um pouco mais
A observar os flashs de uma fluorescente posta em um sistema desregulado.

Se eu pudesse dizer o que foi ver-te deitada,
A aguardar um encontro menos esdrúxulo do que as minhas fantasias
- Um encontro tão comum à humanidade -,
Talvez fosse mais fácil do que desfazer o inapagável,
Talvez fosse mais crível do que não desejar ver.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Sangue

Olhos lindos,
Mas cegos;
De que importa?

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Era um Sobrenome Italiano

Pelos ramos tatuados nas tuas costas,
Pelo teu receio no cheiro do cigarro
- Dentes escovados, língua com sabor de menta -,
Pela tua miopia que aguçava todos os demais sentidos,
Pelos teus gemidos estranhos e, às vezes, incompreensíveis,
Quedei os meus impulsos para ver-te viver,
Mas, preso ao teu encanto, deixei-te ir sem saber o que falar.

Procedures

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terça-feira, 1 de julho de 2008

Pseudo-Defectiva

Ainda ouço o sotaque estrambótico,
Livre de arquiteturas banalizadas,
Conspirando contra as feiúras áureas,
Vindo do absurdo para estabelecer-se revolução
E tomar, no aparente modo cíclico, o posto de algo a ser destruído num futuro próximo.

Não quero mais lavar as tuas vestes,
Não quero as minhas mãos femininas só para o teu amparo,
Não quero mais a minha persuasividade só para o teu gozo,
Não quero mais que o meu sangue só abrace o teu.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Segunda Camada

Pintei por cima,
Apaguei os tentáculos a pintar por cima
Os braços trocados, atados e desnudos de uma dor qualquer.

Ainda planejo outra camada;
Uma semana de espera
Para cobrir o preto com um cenário interno atrás do corpo agonizante.

Briga Besta


a tua verdade = aquilo que jamais compreenderei

if (a tua verdade == aquilo que jamais compreenderei)
{
alert("Permaneceremos um olhando para o outro, sem o toque")
}
else if (a tua verdade == algo que possua uma vírgula que me leve ao entendimento)
{
alert("Descerei da minha arrogância, do meu zelo infundado, para perguntar-te se me amas")
}
else
{
alert("Seguindo o caos, render-nos-emos ao indefinido")
}

sábado, 28 de junho de 2008

Conversa com as Janelas

Ela só quer ser rainha,
Vagar incerta durante a noite,
Causar furor com os seus badulaques,
Esconder o que é vergonha para a poluição.

Ela só quer ser sacana,
Exibir a mulher que se esconde no íntimo,
Desnudar o homem que se amordaça com o óbvio,
Queimar as palavras que pedem o contimento.

Ela mistura tamancos neerlandeses com vestidos neo-nipônicos,
Cores de cortesã francesa com poses de anjos renascentistas,
Flores de opulência frígida com laços de miséria deprimente,
Olhos de criança finlandesa com um sorriso clichê de Gioconda.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Leilão de Gado

Confidenciando sonhos que ninguém lê,
Expõe as carnes para a avaliação geral,
Guerreia por olhos de um mundo cego,
Permeia desejos por obsessão.

Vestindo a camisa a fim de tirá-la,
Permite de graça a tentar a fortuna
E finge a pirraça para a libertação.

A Terra Flutuante

Cala-me,
Não me deixe influenciar por tuas alegorias;
Toma-me,
Não te furtes do que importa para o teu instinto.

Canto versos sobre as mouras encantadas,
Preparados em isolamento.
Sou de Al-Andalus,
Mas meus pais não são daqui.

Surpreende-me,
Oferece-me a coroa ainda a repousar sobre a cabeça decapitada;
Ilumina-me,
Tira a minha vida com o teu beijo envenenado.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Mandíbula

Brinco de roda contigo,
Finjo que não te entendo
E, enquanto a ciranda não termina,
Escrevo a vida em sonhos torpes.

Ninguém está só
- Mesmo que eu esteja -,
Por isso encadeio as nossas lembranças;
Sementes sem medo para qualquer pretensão.

Vejo-te em poses,
Paraliso-te por devaneio,
Caço-te por obsessão,
Amo-te sem vergonha.

domingo, 22 de junho de 2008

Foi

Meu corpo contra o seu,
Rodeados de nada,
Impondo-se um para o outro,
Recíprocos,
Em dança para tudo conquistar;
O calor de um suspiro satisfeito,
Tudo o que nos interessou.

sábado, 21 de junho de 2008

Aconteceu

Se te perdes no caminho,
Entregas-te à culpa da solidão,
Como posso ajudar-te?

Se me questionas impositiva,
Transformando carência em ócio,
Como posso mostrar-te o que, aparente, aguarda-te?

São doze os dias que restam
E, destes dias reveladores,
Nenhum explicará o que aconteceu.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Dia Árido

Surpreendo-me facilmente,
Mas também sei me acostumar.
Dias áridos, tais como este,
São aviso para o reconhecimento,
Portanto, abram-se as portas,
Cumpram-se as vidas.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Baú XI


Eu te Usei de Novo





Princípio a ser revisado,
Adeus na falta de opção,
Sincero cumprimento traiçoeiro,
Repetência do abuso que viveste.










Se Queres Cultivar Sombras...



Não há razão para que meçamos as possibilidades;
Há menos paz diante de exacerbadas possibilidades.
Desejo o que está distante,
A flor que esfacela o asfalto e descansa no campo,
A dor que não aconteceu por ser prevenida pelo teu beijo.O que sinto?
Talvez a incompletude após a descoberta,
O assombro que precede o arrepio,
A gana por cada palmo da tua pele,
O repouso sobre o teu cálice inflamado,
O inexato momento,
O sorriso frouxo.










Carícia Extinta





01:
Dbsídjb fyujoub,
Sfttfoujeb tfn rvfsfs:
Rvboupt ejbt cbtubn qbsb rvf fv ftrvfçb?

Gbmádjb ejub,
Foufoejeb fn qbsuf,
Dpotvnjeb qps joufjsp.

Tpv p wfstp rvf oãp csjmib fn tfv eftfkp,
P jotubouf rvf mif bgbtub eb nfoujsb,
Dpouvep, eftwbjsbep qfmb tpmjeãp,
Bçpjup-nf qbsb qfsup ep rvf oãp fyjtuf,
Qsfoep-nf bp pckfujwp eb gbmub ef bobmphjb...
Jnqspwáwfm, efqmpsáwfm, npseba.

02:
Ectíekc gzvkpvc,
Tguugpvkfc ugo swgtgt:
Swcpvqu fkcu dcuvco rctc swg gw guswgçc?

Hcnáekc fkvc,
Gpvgpfkfc go rctvg,
Eqpuwokfc rqt kpvgktq.

Uqw q xgtuq swg pãq dtknjc go ugw fguglq,
Q kpuvcpvg swg njg chcuvc fc ogpvktc,
Eqpvwfq, fguxcktcfq rgnc uqnkfãq,
Cçqkvq-og rctc rgtvq fq swg pãq gzkuvg,
Rtgpfq-og cq qdlgvkxq fc hcnvc fg cpcnqikc...
Kortqxáxgn, fgrnqtáxgn, oqtfcb.

03:
Fduífld hawlqwd,
Uhvvhqwlgd vhp txhuhu:
Txdqwrv gldv edvwdp sdud txh hx hvtxhçd?

Idoáfld glwd,
Hqwhqglgd hp sduwh,
Frqvxplgd sru lqwhlur.

Vrx r yhuvr txh qãr eulokd hp vhx ghvhmr,
R lqvwdqwh txh okh didvwd gd phqwlud,
Frqwxgr, ghvydludgr shod vrolgãr,
Dçrlwr-ph sdud shuwr gr txh qãr halvwh,
Suhqgr-ph dr remhwlyr gd idowd gh dqdorjld...
Lpsuryáyho, ghsoruáyho, prugdc.

04:
Gevígme ibxmrxe,
Viwwirxmhe wiq uyiviv:
Uyerxsw hmew fewxeq teve uyi iy iwuyiçe?

Jepágme hmxe,
Irxirhmhe iq tevxi,
Gsrwyqmhe tsv mrximvs.

Wsy s zivws uyi rãs fvmple iq wiy hiwins,
S mrwxerxi uyi pli ejewxe he qirxmve,
Gsrxyhs, hiwzemvehs tipe wspmhãs,
Eçsmxs-qi teve tivxs hs uyi rãs ibmwxi,
Tvirhs-qi es sfnixmzs he jepxe hi erepskme...
Mqtvszázip, hitpsvázip, qsvhed.

05:
Hfwíhnf jcynsyf,
Wjxxjsynif xjr vzjwjw:
Vzfsytx infx gfxyfr ufwf vzj jz jxvzjçf?

Kfqáhnf inyf,
Jsyjsinif jr ufwyj,
Htsxzrnif utw nsyjnwt.

Xtz t ajwxt vzj sãt gwnqmf jr xjz ijxjot,
T nsxyfsyj vzj qmj fkfxyf if rjsynwf,
Htsyzit, ijxafnwfit ujqf xtqniãt,
Fçtnyt-rj ufwf ujwyt it vzj sãt jcnxyj,
Uwjsit-rj ft tgojynat if kfqyf ij fsfqtlnf...
Nruwtaáajq, ijuqtwáajq, rtwife.

06:
Igxíiog kdzotzg,
Xkyyktzojg yks wakxkx:
Wagtzuy jogy hgyzgs vgxg wak ka kywakçg?

Lgráiog jozg,
Ktzktjojg ks vgxzk,
Iutyasojg vux otzkoxu.

Yua u bkxyu wak tãu hxorng ks yka jkykpu,
U otyzgtzk wak rnk glgyzg jg sktzoxg,
Iutzaju, jkybgoxgju vkrg yurojãu,
Gçuozu-sk vgxg vkxzu ju wak tãu kdoyzk,
Vxktju-sk gu uhpkzobu jg lgrzg jk gtgrumog...
Osvxubábkr, jkvruxábkr, suxjgf.

07:
Jhyíjph leapuah,
Ylzzluapkh zlt xblyly:
Xbhuavz kphz ihzaht whyh xbl lb lzxblçh?

Mhsájph kpah,
Lualukpkh lt whyal,
Jvuzbtpkh wvy pualpyv.

Zvb v clyzv xbl uãv iypsoh lt zlb klzlqv,
V puzahual xbl sol hmhzah kh tluapyh,
Jvuabkv, klzchpyhkv wlsh zvspkãv,
Hçvpav-tl whyh wlyav kv xbl uãv lepzal,
Wylukv-tl hv viqlapcv kh mhsah kl huhsvnph...
Ptwyvcácls, klwsvyácls, tvykhg.

08:
Kizíkqi mfbqvbi,
Zmaamvbqli amu ycmzmz:
Ycivbwa lqia jiabiu xizi ycm mc maycmçi?

Nitákqi lqbi,
Mvbmvlqli mu xizbm,
Kwvacuqli xwz qvbmqzw.

Awc w dmzaw ycm vãw jzqtpi mu amc lmamrw,
W qvabivbm ycm tpm iniabi li umvbqzi,
Kwvbclw, lmadiqzilw xmti awtqlãw,
Içwqbw-um xizi xmzbw lw ycm vãw mfqabm,
Xzmvlw-um iw wjrmbqdw li nitbi lm ivitwoqi...
Quxzwdádmt, lmxtwzádmt, uwzlih.

09:
Ljaílrj ngcrwcj,
Anbbnwcrmj bnv zdnana:
Zdjwcxb mrjb kjbcjv yjaj zdn nd nbzdnçj?

Ojuálrj mrcj,
Nwcnwmrmj nv yjacn,
Lxwbdvrmj yxa rwcnrax.

Bxd x enabx zdn wãx karuqj nv bnd mnbnsx,
X rwbcjwcn zdn uqn jojbcj mj vnwcraj,
Lxwcdmx, mnbejrajmx ynuj bxurmãx,
Jçxrcx-vn yjaj ynacx mx zdn wãx ngrbcn,
Yanwmx-vn jx xksncrex mj ojucj mn jwjuxprj...
Rvyaxeáenu, mnyuxaáenu, vxamji.

10:
Mkbímsk ohdsxdk,
Boccoxdsnk cow aeobob:
Aekxdyc nskc lkcdkw zkbk aeo oe ocaeoçk?

Pkvámsk nsdk,
Oxdoxnsnk ow zkbdo,
Myxcewsnk zyb sxdosby.

Cye y fobcy aeo xãy lbsvrk ow coe nocoty,
Y sxcdkxdo aeo vro kpkcdk nk woxdsbk,
Myxdeny, nocfksbkny zovk cyvsnãy,
Kçysdy-wo zkbk zobdy ny aeo xãy ohscdo,
Zboxny-wo ky yltodsfy nk pkvdk no kxkvyqsk...
Swzbyfáfov, nozvybáfov, wybnkj.

11:
Nlcíntl pietyel,
Cpddpyetol dpx bfpcpc:
Bflyezd otld mldelx alcl bfp pf pdbfpçl?

Qlwántl otel,
Pyepyotol px alcep,
Nzydfxtol azc tyeptcz.

Dzf z gpcdz bfp yãz mctwsl px dpf opdpuz,
Z tydelyep bfp wsp lqldel ol xpyetcl,
Nzyefoz, opdgltcloz apwl dzwtoãz,
Lçztez-xp alcl apcez oz bfp yãz pitdep,
Acpyoz-xp lz zmupetgz ol qlwel op lylwzrtl...
Txaczgágpw, opawzcágpw, xzcolk.

12:
Omdíoum qjfuzfm,
Dqeeqzfupm eqy cgqdqd:
Cgmzfae pume nmefmy bmdm cgq qg qecgqçm?

Rmxáoum pufm,
Qzfqzpupm qy bmdfq,
Oazegyupm bad uzfquda.

Eag a hqdea cgq zãa nduxtm qy eqg pqeqva,
A uzefmzfq cgq xtq mrmefm pm yqzfudm,
Oazfgpa, pqehmudmpa bqxm eaxupãa,
Mçaufa-yq bmdm bqdfa pa cgq zãa qjuefq,
Bdqzpa-yq ma anvqfuha pm rmxfm pq mzmxasum...
Uybdaháhqx, pqbxadáhqx, yadpml.

13:
Pneípvn rkgvagn,
Erffragvqn frz dhrere:
Dhnagbf qvnf onfgnz cnen dhr rh rfdhrçn?

Snyápvn qvgn,
Ragraqvqn rz cnegr,
Pbafhzvqn cbe vagrveb.

Fbh b irefb dhr aãb oevyun rz frh qrfrwb,
B vafgnagr dhr yur nsnfgn qn zragven,
Pbaghqb, qrfinvenqb cryn fbyvqãb,
Nçbvgb-zr cnen cregb qb dhr aãb rkvfgr,
Ceraqb-zr nb bowrgvib qn snygn qr nanybtvn...
Vzcebiáiry, qrcybeáiry, zbeqnm.

14:
Qofíqwo slhwbho,
Fsggsbhwro gsa eisfsf:
Eiobhcg rwog poghoa dofo eis si sgeisço?

Tozáqwo rwho,
Sbhsbrwro sa dofhs,
Qcbgiawro dcf wbhswfc.

Gci c jsfgc eis bãc pfwzvo sa gsi rsgsxc,
C wbghobhs eis zvs otogho ro asbhwfo,
Qcbhirc, rsgjowforc dszo gczwrãc,
Oçcwhc-as dofo dsfhc rc eis bãc slwghs,
Dfsbrc-as oc cpxshwjc ro tozho rs obozcuwo...
Wadfcjájsz, rsdzcfájsz, acfron.

15:
Rpgírxp tmixcip,
Gthhtcixsp htb fjtgtg:
Fjpcidh sxph qphipb epgp fjt tj thfjtçp?

Upaárxp sxip,
Tcitcsxsp tb epgit,
Rdchjbxsp edg xcitxgd.

Hdj d ktghd fjt cãd qgxawp tb htj sthtyd,
D xchipcit fjt awt puphip sp btcixgp,
Rdcijsd, sthkpxgpsd etap hdaxsãd,
Pçdxid-bt epgp etgid sd fjt cãd tmxhit,
Egtcsd-bt pd dqytixkd sp upaip st pcpadvxp...
Xbegdkákta, steadgákta, bdgspo.

16:
Sqhísyq unjydjq,
Huiiudjytq iuc gkuhuh:
Gkqdjei tyqi rqijqc fqhq gku uk uigkuçq?

Vqbásyq tyjq,
Udjudtytq uc fqhju,
Sedikcytq feh ydjuyhe.

Iek e luhie gku dãe rhybxq uc iuk tuiuze,
E ydijqdju gku bxu qvqijq tq cudjyhq,
Sedjkte, tuilqyhqte fubq iebytãe,
Qçeyje-cu fqhq fuhje te gku dãe unyiju,
Fhudte-cu qe erzujyle tq vqbjq tu qdqbewyq...
Ycfhelálub, tufbehálub, cehtqp.

17:
Triítzr vokzekr,
Ivjjvekzur jvd hlvivi:
Hlrekfj uzrj srjkrd grir hlv vl vjhlvçr?

Wrcátzr uzkr,
Vekveuzur vd grikv,
Tfejldzur gfi zekvzif.

Jfl f mvijf hlv eãf sizcyr vd jvl uvjvaf,
F zejkrekv hlv cyv rwrjkr ur dvekzir,
Tfekluf, uvjmrziruf gvcr jfczuãf,
Rçfzkf-dv grir gvikf uf hlv eãf vozjkv,
Giveuf-dv rf fsavkzmf ur wrckr uv rercfxzr...
Zdgifmámvc, uvgcfiámvc, dfiurq.

18:
Usjíuas wplafls,
Jwkkwflavs kwe imwjwj:
Imsflgk vask tsklse hsjs imw wm wkimwçs?

Xsdáuas vals,
Wflwfvavs we hsjlw,
Ugfkmeavs hgj aflwajg.

Kgm g nwjkg imw fãg tjadzs we kwm vwkwbg,
G afklsflw imw dzw sxskls vs ewflajs,
Ugflmvg, vwknsajsvg hwds kgdavãg,
Sçgalg-ew hsjs hwjlg vg imw fãg wpaklw,
Hjwfvg-ew sg gtbwlang vs xsdls vw sfsdgyas...
Aehjgnánwd, vwhdgjánwd, egjvsr.

19:
Vtkívbt xqmbgmt,
Kxllxgmbwt lxf jnxkxk:
Jntgmhl wbtl utlmtf itkt jnx xn xljnxçt?

Yteávbt wbmt,
Xgmxgwbwt xf itkmx,
Vhglnfbwt ihk bgmxbkh.

Lhn h oxklh jnx gãh ukbeat xf lxn wxlxch,
H bglmtgmx jnx eax tytlmt wt fxgmbkt,
Vhgmnwh, wxlotbktwh ixet lhebwãh,
Tçhbmh-fx itkt ixkmh wh jnx gãh xqblmx,
Ikxgwh-fx th hucxmboh wt ytemt wx tgtehzbt...
Bfikhoáoxe, wxiehkáoxe, fhkwts.

20:
Wulíwcu yrnchnu,
Lymmyhncxu myg koylyl:
Kouhnim xcum vumnug julu koy yo ymkoyçu?

Zufáwcu xcnu,
Yhnyhxcxu yg julny,
Wihmogcxu jil chnycli.

Mio i pylmi koy hãi vlcfbu yg myo xymydi,
I chmnuhny koy fby uzumnu xu gyhnclu,
Wihnoxi, xympucluxi jyfu mifcxãi,
Uçicni-gy julu jylni xi koy hãi yrcmny,
Jlyhxi-gy ui ivdyncpi xu zufnu xy uhufiacu...
Cgjlipápyf, xyjfilápyf, gilxut.

21:
Xvmíxdv zsodiov,
Mznnziodyv nzh lpzmzm:
Lpviojn ydvn wvnovh kvmv lpz zp znlpzçv?

Avgáxdv ydov,
Zioziydyv zh kvmoz,
Xjinphdyv kjm diozdmj.

Njp j qzmnj lpz iãj wmdgcv zh nzp yznzej,
J dinovioz lpz gcz vavnov yv hziodmv,
Xjiopyj, yznqvdmvyj kzgv njgdyãj,
Vçjdoj-hz kvmv kzmoj yj lpz iãj zsdnoz,
Kmziyj-hz vj jwezodqj yv avgov yz vivgjbdv...
Dhkmjqáqzg, yzkgjmáqzg, hjmyvu.

22:
Ywníyew atpejpw,
Naooajpezw oai mqanan:
Mqwjpko zewo xwopwi lwnw mqa aq aomqaçw?

Bwháyew zepw,
Ajpajzezw ai lwnpa,
Ykjoqiezw lkn ejpaenk.

Okq k ranok mqa jãk xnehdw ai oaq zaoafk,
K ejopwjpa mqa hda wbwopw zw iajpenw,
Ykjpqzk, zaorwenwzk lahw okhezãk,
Wçkepk-ia lwnw lanpk zk mqa jãk ateopa,
Lnajzk-ia wk kxfaperk zw bwhpw za wjwhkcew...
Eilnkrárah, zalhknárah, iknzwv.

23:
Zxoízfx buqfkqx,
Obppbkqfax pbj nrbobo:
Nrxkqlp afxp yxpqxj mxox nrb br bpnrbçx?

Cxiázfx afqx,
Bkqbkafax bj mxoqb,
Zlkprjfax mlo fkqbfol.

Plr l sbopl nrb kãl yofiex bj pbr abpbgl,
L fkpqxkqb nrb ieb xcxpqx ax jbkqfox,
Zlkqral, abpsxfoxal mbix plifaãl,
Xçlfql-jb mxox mboql al nrb kãl bufpqb,
Mobkal-jb xl lygbqfsl ax cxiqx ab xkxildfx...
Fjmolsásbi, abmiloásbi, jloaxw.

24:
Aypíagy cvrglry,
Pcqqclrgby qck oscpcp:
Osylrmq bgyq zyqryk nypy osc cs cqoscçy?

Dyjáagy bgry,
Clrclbgby ck nyprc,
Amlqskgby nmp glrcgpm.

Qms m tcpqm osc lãm zpgjfy ck qcs bcqchm,
M glqrylrc osc jfc ydyqry by kclrgpy,
Amlrsbm, bcqtygpybm ncjy qmjgbãm,
Yçmgrm-kc nypy ncprm bm osc lãm cvgqrc,
Npclbm-kc ym mzhcrgtm by dyjry bc ylyjmegy...
Gknpmtátcj, bcnjmpátcj, kmpbyx.

25:
Bzqíbhz dwshmsz,
Qdrrdmshcz rdl ptdqdq:
Ptzmsnr chzr azrszl ozqz ptd dt drptdçz?

Ezkábhz chsz,
Dmsdmchcz dl ozqsd,
Bnmrtlhcz onq hmsdhqn.

Rnt n udqrn ptd mãn aqhkgz dl rdt cdrdin,
N hmrszmsd ptd kgd zezrsz cz ldmshqz,
Bnmstcn, cdruzhqzcn odkz rnkhcãn,
Zçnhsn-ld ozqz odqsn cn ptd mãn dwhrsd,
Oqdmcn-ld zn naidshun cz ezksz cd zmzknfhz...
Hloqnuáudk, cdoknqáudk, lnqczy.










41 70 61 69 78 6f 6e 61 64 6f





01000101 01110011 01110100 01101111 01110101 00100000 01100001 01110000 01100001 01101001 01111000 01101111 01101110 01100001 01100100 01101111 00101100 00001101 00001010 01000001 01110011 01110011 01101001 01101101 00100000 01100011 01101111 01101101 01101111 00100000 01100101 01101101 00100000 01110001 01110101 01100001 01101100 01110001 01110101 01100101 01110010 00100000 01100011 01101100 01101001 01100011 01101000 11101010 00100000 01100100 01100101 00100000 01101101 11111010 01110011 01101001 01100011 01100001 00100000 01110000 01101111 01110000 01110101 01101100 01100001 01110010 00111011 00001101 00001010 01000100 01100101 01110011 01110110 01101001 01110010 01110100 01110101 01100001 01100100 01101111 00100000 01100100 01100001 00100000 01110100 01110010 01101001 01110011 01110100 01100101 01111010 01100001 00100000 01110001 01110101 01100101 00100000 01101010 01110101 01101100 01100111 01100001 01101101 00100000 01100011 01101100 01100001 01110011 01110011 01100101 00101100 00001101 00001010 01000001 01110000 01110010 01101111 01111000 01101001 01101101 01100001 01100100 01101111 00100000 01100100 01100001 00100000 01100001 01101100 01100101 01100111 01110010 01101001 01100001 00100000 01110001 01110101 01100101 00100000 01100100 01100101 01101001 01111000 01100001 00100000 01100010 01101111 01100010 01101111 00101110 00001101 00001010 00001101 00001010 01000101 01110011 01110100 01101111 01110101 00100000 01100001 01110000 01100001 01101001 01111000 01101111 01101110 01100001 01100100 01101111 00100000 01110000 01101111 01110010 00100000 01110100 01101001 00101100 00001101 00001010 01000010 01110101 01110011 01100011 01100001 01101110 01100100 01101111 00101101 01110100 01100101 00100000 01100101 01101101 00100000 01100110 01101111 01110100 01101111 01100111 01110010 01100001 01100110 01101001 01100001 01110011 00001101 00001010 01000101 00100000 01110100 01101111 01110010 01101110 01100001 01101110 01100100 01101111 00101101 01100001 01110011 00100000 01100001 00100000 01101101 01101001 01101110 01101000 01100001 00100000 01110000 01110010 01101001 01110011 11100011 01101111 00101100 00001101 00001010 01000010 01100101 01101001 01101010 01100001 01101110 01100100 01101111 00101101 01110100 01100101 00100000 01101110 01101111 00100000 01101001 01101101 01110000 01101111 01110011 01110011 11101101 01110110 01100101 01101100 00001101 00001010 01000101 00100000 01100001 01100111 01101111 01101110 01101001 01111010 01100001 01101110 01100100 01101111 00100000 01100011 01101111 01101101 00100000 01100001 00100000 01101101 01101001 01101110 01101000 01100001 00100000 01101001 01101100 01110101 01110011 11100011 01101111 00101110










Isso





Tens mais que olhos rasos,
A chave para uma criptografia orgânica.
(...)
Há a luz paralisada no tempo,
Num coito implícito com a umbra,
Mas há as tuas tentações
A cobrir os horrores de almas displicentes.










Rasante





Perante janela espelhada,
Acuidade ou prepotência,
Tenacidade ou simplismo?

Fui amigo de Mikoyan,
Quem me guiou a Gurevich;
Fui suspeito de Andropov,
Quem me baniu da sobrevida.

Perante porta fechada,
Desistência ou violência,
Tentativa ou imposição?










vista-me





Estático pra compilar
Ou binário pela pressa?


Querem logo,
Eu sei,
Mas a arquitetura não é comum.

São tantas bibliotecas cruas
Que demoraria uns dois dias ou mais,
Mas a modelo ainda está nua
E preciso de três camadas renderizadas!


Não, sem afoitamentos!

Tá bom,
Lá vai:
./configure a estrutura#
[dez minutos]
faça a verificação das dependências#
[dois minutos]
faça tudo com atribuições de superusuário#
[meia hora]
faça a instalação com atribuições de superusuário#
[cinco minutos]
vista-me
[é todo seu!]










A Poetisa





Enlouqueço com o seu silêncio literário,
Debruçando-me na janela só para vê-la sorrir.
Adormeço ao seu gemido brando
E guardado nos devaneios dos porões da minha alma.










O Espanto e o Ritual





Basta a visão da referência,
A excitação,
Para achar-se aprisionado numa redoma ostracista.

Um mero estímulo é suficiente,
A sugestão,
Para encontrar-se instigado a um passo antes recolhido.

Que uniforme deve vestir, de que tribo?
Recortados em trapos e recosturados em aberração?
Que arquétipo de sentimento, nó de sensação?
Mesclados em poesia, de impossível definição?

Aproximando-se dos signos,
Às vezes os trazendo, levando-se noutros momentos,
Perde-se do instinto a explicar-se para o mundo;
Cumpre o ritual a fim de reproduzi-lo
(O ritual, não o espanto).










Observando a Lótus





Nu, frágil no tempo,
E iluminado a perder
Folhas pelo vento.










Onde Estão





O que tenho a perder, além do teu elogio?
O teu respeito frio é hilário,
Põe idéias na estante por obsessividade
E tenta construir sobre as perspicazes desconstruções.

O que é mais ridículo do que um intelectual frustrado?
O que é mais sensível do que a profundidade do ser?

Eis os nobres que mergulham num infinito impalpável
A degustar o passado por um momento de glória,
A reclamar no presente um posto e uma alforria,
A perder-se no futuro com os olhos vendados!

O que é mais frustrante do que um intelectual ridículo?
O que é mais profundo do que a sensibilidade do ser?










Deslaçado





Quis buscar carinho na ofensa,
Açoitando o medo oculto de quem o ama,
Porém se arreliou ao desespero
De quem bate à porta sem querer.

Fujam daqui, marinheiros,
A deserção não será condenada!
Voem daqui, devaneios,
A ilusão não precisa dormir detrás de grades!










Trimurti





Percebi-te Shiva para o universo,
Contudo, distraído pelos teus passos no espaço,
Todas as pétalas secavam após clamarem pelos amantes.
Provei a carne dulcerosa e esparramada em teus vincos;
Com a extremidade da língua, tateei a rugosidade da tua pele
E umedeci os lábios que desenhas sem querer.

Quem conduz esta dança, amor?
O meu tempo imperativo acredita estar oculto,
Pois é um debater-se em agonia,
Julga-se paúra diante das reconstruções que impeles.

Onde nasce esta canção, mulher?
O seu andamento esquarteja o assassino que sou,
Entretanto, preserva as alamandas dos teus ramos viçosos.










L'état de mon cœur vous appartient





Estado
Para escrever?
Estado
Derramado em ti ou perdido em teus aportes sensoriais?
Estado
Das Minas Geraes ou do bandeirante Anhangüera?
Estado
De felicidade ou de questionamento?
Estado
De miséria ou de morte eminente?

Apaixono-me a perder-me na tua falácia verificada ao torpor que te cicatriza:
Imediata corrupção do corpo que despreza os nervos,
Tendencia-se às memórias distorcidas pelo desejo.
Cri que te usei descaradamente,
Mas era só mais um muro ainda não derrubado...
Quis criar a depravação:
Ah, a minha inocência!










Monstruosidade





Quem de nós, poetisa?
Quem de nós rasgaria o veto?
Quem de nós romperia o tempo e o pensamento por um encontro vulgar?
(...)
Perdão qualquer não cura a culpa
De uma insanidade a exigir a via racional
(Perdão qualquer é só a desculpa
Esquecida através do tempo e desintegrada a partir da morte).

Toda a luz que a tocou não fez parte do papel;
Impactante e contrastante, você está no que criei.
A sedução que desbravou,
Esta campanha sublime por si mesma,
É parte do meu espíríto em voltas minhas após as suas.

Por que me devora, poetisa?
Por que me corta a pele lentamente?
Sempre me toma sem defesa,
Sempre me leva sem certeza.










São João del Rey





Todos os meus dias para redescobrir que preciso de ti,
Da mesma forma que Os Mutantes de Rita,
O ódio da paixão,
Hawking da Física
E vice-versa.

Por que a previsão do clima é tão sem graça sem Rosana?
Talvez tão engessada quanto um congresso de urologia,
Ou tão formal quanto um quadro no consultório de um dentista;
Adoro a francesinha espirituosa e as suas singelas minissaias.

Amanhã, sem muita disposição,
Eu talvez nem use a rede:
Uma ficou na Bahia e a outra carece de novidades.
Hoje, sonolento desde a metade do dia,
Há sombras a mapear e sonhos a coisificar.
Ontem, disposto até o limite da paciência,
Tentei não absorver o mundo para parecer feliz.










Nove Horas





Já são nove horas de uma noite qualquer
E as madalenas desfilam na rua, enfileiradas.
Não há mais garoa, nem encanto há mais,
Só as engrenagens em um disfarce de paixão.

Já são nove horas de uma noite comum
E os viciados contorcem os seus corpos para esquecer
Da vida que foi e da que virá,
A sentir novamente o que nunca voltará.

Já são nove horas de uma noite perversa
E os carros se aglomeram sem saber por que.
Tem ego que vence, tem outro que escuta,
Talvez haja aquele que eu não precise procurar.

Já são nove horas de uma noite apaixonada
E as pessoas voltam cansadas para as suas casas;
Há quem não tem casa, ou quem ama a escuridão,
Mas não há quem se perdeu da própria fábula.










Congo, Gê e Portugal





Sei o que há a ser dito,
Mas me calo...

A aldeia dos seus ancestrais perdeu a guerra,
Portanto, seguindo a sentença,
Toda a corte foi vendida ao império do açúcar.

Qual é o laço que compõe a forca?
Qual é o beijo que inicia a traição?

É muito nova,
Contudo transpira um cio atraente.
É ingênua e simplória,
Entretanto integra uma sabedoria inexorável à nossa época.

Sei o que devo pensar,
Mas me rendo aos meus instintos,
Às minhas paixões...

A tribo dos seus ancestrais foi dizimada,
Porém, durante o interlúdio da violência,
O amor nasceu na alma de um bandeirante.

Qual é a mão que se arrepende de portar a arma?
Qual é o gesto que atrai corpos separados pelo poder?

É nova
E o seu sorriso estilhaça qualquer flor do mal.
É ingênua, simplória
E convive despreocupada com a própria gana de felicidade.










Paedophilia





Tentei encontrar em mim para uma faxina,
Entretanto, felizmente, não tolero os infantes e a suas percepções de novo,
Principalmente a novidade que há muito tempo se tornou irritante para mim.










Remorso





Incontáveis testemunhos
- meu corpo -,
Insaciáveis perdições
- meus sonhos -,
Aludíveis construções
- minh'alma -,
E contratempos torturados
- meus medos -.

Ainda lembro do teu repouso semi-nu sobre o meu ventre
E das piadas minhas que fingiste achar graça por delicadeza,
Contudo, encabulada pelos desvarios meus jamais assumidos,
Fui covarde a não dizer quem sou - ou quem quis ser - com um ato de amor.










Requiem





"Ave, Maria, gratia plena, Dominus tecum.
Benedicta tu in mulieribus,
et benedictus fructus ventris tui, Jesus.
Sancta Maria, Mater Dei,
ora pro nobis peccatoribus,
nunc et in hora mortis nostrae. Amen.

Ave, Maria, gratia plena, Dominus tecum.
Benedicta tu in mulieribus,
et benedictus fructus ventris tui, Jesus.
Sancta Maria, Regina coeli, dulcis et pia, O Mater Dei.
Ora pro nobis peccatoribus, ut cum electis te videmus."

Assim que cerro as tuas pálpebras
E enxugo a lâmina do meu punhal,
Estou pronto para clamar a Deus por teu encontro
Em um juízo que de mim não coube.

Ide em paz,
Fortúnio que nunca possuíste,
E obtenhas a piedade diante do próprio arrependimento.

Ide em luz,
Desprendido dos males que me ordenaram,
A fim de abandonar as feridas que jazem com o teu corpo.

"Requiem aeternam dona eis, Domine.
et lux perpetua luceat eis.
Te decet hymnus Deus, in Sion,
et tibi reddetur votum in Jerusalem.
exaudi orationem meam, ad te omnis caro veniet.

Kyrie eleison. Christe eleison. Kyrie eleison.

Requiem aeternam dona eis Domine.
et lux perpetua luceat eis.
In memoria aeterna erit justus.
ab auditione mala non timebit.

Absolve Domine, anima omnium fidelium defunctorum.
ab omni vinculo delictorum.
Et gratia tua illis succurrente,
mereantur evadere judicium ultionis.
Et lucis aeternae beatitudine perfrui.

Dies irae, dies illa, Solvet saeclum in vavilla:
Teste David cum Sibylla.

Quantus tremor est futurus, Quando judex est venturus,
Cuncta stricte discussurus!

Tuba mirum spargens sonum, Per sepulcra regionum,
Coget omnes ante thronum.

Mors stupebit et natura,
Cum resurget creatura, Judicanti responsura.

Liber scriptus proferetur,
In quo totum continetur, Unde mundus judicetur.

Judex ergo cum sedebit, Quidquid latet, apparebit:
Nil inultum remanebit.

Quid sum miser tunc dicturus? Quem patronum rogaturus?
Cum vix justus sit securus.

Rex tremendae majestatis, Qui salvandos salvas gratis,
Salva me, fons pietatis.

Recordare Jesu pie, Quod sum causa tuae viae,
Ne me perdas illa die.

Quaerens me, sedisti lassus, Redemisti crucem passus,
Tantus labor non sit cassus.

Juste judex ultionis, Donum fac remissionis,
Ante diem rationis.

Ingemisco, tamquam reus, Culpa rubet vultus meus,
Supplicanti parce Deus.

Qui Mariam absolvisti, Et latronem exaudisti,
Mihi quoque spem dedisti.

Preces meae non sunt dignae: Sed tu bonus fac benigne,
Ne perenni cremer igne.

Inter oves locum praesta, Et ab haedis me sequestra,
Statuens in parte dextra.

Confutatis maledictis, Flammis acribus addictis:
Voca me cum benedictis.

Oro supplex et acclinis, Cor contritum quasi cinis:
Gere curam mei finis.

Lacrimosa dies illa, Qua resurget ex favilla
Judicantus homo reus: Huic ergo parce Deus.

Pie Jesu Domine. Dona eis requiem. Amen

Domine Jesu Christe. Rex gloriae,
libera animas omnium fidelium defunctorum de poenis infermi
et de profundo lacu:

libera eas de ore leonis, ne absorbeat eas tartarus,
ne cadant in obscurum:
Sed signifer sanctus Michael repraesentet eas in lucem sanctam:
Quam olim Abrahae promisisti et semini ejus.

Hostias et preces tibi, Domine, laudis offerimus:
tu suscipe pro animabus illis, quarum hodie memoriam facimus:
fac eas, Domine, de morte transire ad vitam.

Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus, Deus Sabaoth
Pleni sunt caeli et terra gloria tua
Hosanna, in excelsis
Benedictus qui venit in nomine Domini
Hosanna, in excelsis.

Pie Jesu Domine, dona eis requiem,
Pie Jesu Domine, dona eis requiem,
Pie Jesu Domine, dona eis requiem sempiternam

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi: dona eis requiem.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi: dona eis requiem.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi: dona eis requiem sempiternam.

Lux aeterna luceat eis, Domine:
Cum Sanctis tuis in aeternum,
quia pius es.
Requiem aeternam dona eis Domine:
et lux perpetua luceat eis.
Cum Sanctis tuis in aeternum,
quia pius es.

Libera me Domine de morte aeterna, in die illa tremenda:
Quando coeli movendi sunt et terra:
Dum veneris judicare saeculum per ignem.

Tremens factus sum ego, et timeo,
dum discussio venerit, atque ventura ira.

Quando coeli movendi sunt et terra.
Dies illa, dies irae, calamitatis et miseriae,
dies magna et amara valde.
Dum veneris judicare saeculum per ignem.

Requiem aeternam dona eis, Domine:
et lux perpetua luceat eis.

Kyrie eleison. Christe eleison. Kyrie eleison.

Requiem aeternam dona ei, Domine.
et lux perpetua luceat ei.
Requiescat in pace. Amen.

In paradisum deducant te Angeli:
in tuo adventu suscipiant te Martyres,
et perducant te in civitatem sanctam Jerusalem.
Chorus Angelorum te suscipiat,
et cum Lazaro quondam paupere aeternam habeas requiem."

Dai-lhe o repouso eterno, Senhor.










Feitos de Gente





Meus deuses são fracos,
São feitos de gente,
Então, de repente, posso parecer imundo.










Hiper-Realidade





Meu mundo hiper-real me deixou bêbado,
Inutilizado por excessos sensoriais que me transportam a outro ego.
Um simulacro de cópias da cópia da realidade foi onde estive,
Fazendo sexo com palavras estruturadas por combinações de magnetos.

Mas quem percebe o íntimo da estrutura quando o amor é a flor d'água?
Quem pensa, talvez (...)
Porém, atordoados por estímulos infindáveis,
Todos só conseguem ver um caminho e são livres dentro dele.

Liberdade;
Astúcia em qualquer gaiola,
Qualquer prisão.










Usuário Padrão





Antes de esquecido, foi a razão de nossa vida;
Depois de ter gozado, foi, no mínimo, ridículo.
Importas-te bem mais, mesmo sendo doutro,
Embora o que há não mude qualquer traço.










Marquise de Pembroke





Oui, je me suis perdu bien proche à la fin,
Enchantée par la pourriture sèche et quelques rares moments,
Mais je ne juge pas l'enfer que je crée,
Il vient par mes blessures cicatrisées.










Catorze de Maio





Alguns graus a menos para irritar a visão,
Levantar a questão sobre o que não há,
Distorcer a perspectiva e romper com a norma.










Memórias da Primeira Guerra





Doze para as cinco;
Virtude na janela e badulaques na lembrança.


Eu não disse nada, seu juiz,
Os nomes que eu dei não são parte da mensagem.

Dez para as cinco...
Importas-te se for dada a minha opinião?


Não me ajudes, seu juiz,
Pois este problema é um deleite!










Fim





Outro visionário a tornar-se usurpador,
Outro iluminado a esperançar a vida dos humilhados,
Outro cadáver a perfumar a tarde dos abutres,
Outro deprimido a postergar a vez na existência.










Condomínio Classe C





A descarga do vizinho coze a minha pele
E o meu áudio bate-estaca destempera o bebê.
Eu gosto de você, mas isso ainda me fere,
Pois nunca compreendi por que se perde sem querer.










Pornographos





Com quem muitos homens se deitaram para estancar as próprias dores,
Para acalmar ou quase curar a falta de amor,
Para regozijar o instinto e fugir da covardia,
Para ludibriar o valor que cria a lei e render-se àquele que faz a vida.