quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Baú VII


Nona Sinfonia





Da busca do significado,
Do abismo nunca crido,
Da hóstia regurgitada,
Do jeito desinibido
Criou-se tudo o que imagino,
Convergiu-me o singular destino.

Minhas roupas cansadas enxugam o sangue de poucos minutos
E a sombra que apaga os traços parece um insulto;
Passado de ventanias e cores...
Que cores? Que ventanias?
A tormenta para o mimetismo das dores:
Do amor para a decepção
Ou do torpor à indagação?

Enxugaste a lágrima para que eu me sentisse bem,
Mas o corte que retalha a alma não se proclama na pele;
É só um fio ou madeixa das inconfundíveis melenas helênicas,
É só um tossir contido durante o alegro assai da nona sinfonia.










Além das Divisas Portuguesas (Sobre Fernando Pessoa)





Parti para nunca mais voltar,
Tentada por minhas ambições
E pelo desejo que guardo por amar
O ímpeto em nossas intenções.

Parti para nunca mais dizer
De coisas que só quero esquecer,
Pois fui alguém sem liberdade
Quando quis ser livre de verdade.

Na terra não estão minhas fronteiras,
Nem zelo pelas cores de uma bandeira,
Porque, se é na voz que me entrego,
Minha palavra não será um gesto cego.










Maldita Noite





Maldita Noite
Ah, maldita noite que encontraste o teu fim,
Perdi-me só quando não te abracei...
Meus olhos não se fecharam em descanso,
Meus lábios não se cerraram ao descaso,
Mas é tu que me deixas só e sem forças;
Para sempre fadado a perder-me às tuas gentilezas sombrias.

Ah, maldita noite de demônios conselheiros,
Fiz-me infinito para que descobrisses a minha insanidade,
Tive-me impossível para que me esfaqueasses sem vontade!

É tua, noite maldita,
É tua esta lástima que não se apaga.










Calafrio





Ó, messa!
Quem de nós sentiu este calafrio?
Quem de nós se enganou mais de uma vez?

Não me importa se há disfarces para afirmar que ele não leu,
Mas me disponho a mostrar-lhe que conheço os seus truques.










Trocadilho (In)Voluntário





Talvez para ocultar o fruto da prevaricação,
Ou para exibir o nascedouro da questão,
Despedi-me da usura catedrática,
Do requinte da gramática,
E me rendi à coerência lingüística naquele discurso.

Um ímpio insulto?
Não, não me tome por tão pouco,
Quiçá por um louco que despreza hospícios e diagnósticos.










Mais Lixo e Menos Distorção





Todo o mundo igual,
Querendo a diferença que não importa ao final.
Todos passamos bem,
Assim que encontramos a metade que não será mais de ninguém.
Tudo traz tanto horror,
Pois somos tão frágeis que sós não há como curar a nossa a dor.
Pra nunca imortais;
Talvez sejam as asas coladas com cera ou o furor destes jornais.

Respostas pra tudo, impedidas por farsas;
Construímos e erguemos as nossas próprias taças.
Respostas por nada, contidas em vícios...
Somos a pergunta abrigada no mesmo lixo.










Desconhecimento Parcial





Eu de braços dados com o passado do presente
E ela sorridente, do outro lado, ao fundo do cinema.
Uma síntese das garotas de Ipanema e de Berlim,
Contudo, importa somente para mim.

Seus óculos de grosso aro e lentes profundas sobre a mesa,
Seu sorriso de sublime beleza e desenho casto, inocente:
Tudo presente nas formas que se repetem sem alívio.

"Meu manco pedido,
Minha mancha e desnível;
O que será que te afasta?
Já não basta toda a distância?

Há de ser a minha ignorância,
Compelindo-me a voltar às cores que te caracterizam...

Desejo que venhas,
Mas te desconheço em parte."










Corpo Submisso a Você





Gosto da forma que morde as minhas coxas,
A parte de trás das minhas coxas
E as dobras entre as minhas coxas e os meus glúteos.

Gosto do jeito que toca os meus seios
E da deliciosa tortura em postergar
Outros toques, para que eu anseie por você.

Gosto da sombra deste corpo musculoso
Sobre o meu corpo delicado,
Submisso a você.










Os Tios





1. A mulher de modo arisco e ímpeto de Luz del Fuego,
Apaixonada pelas ínfimas peculiaridades que despertam a carne,
Voltou de sua jornada para dizer o que viveu.

2. Sim, lembro-me de sua juventude-
Das tardes em que passava trepada na goiabeira
E dos domingos escondida na torre da igreja.

1. Sim, ela está de volta, transformada,
Mas ainda é desbravadora da dúvida sem muita vaidade.










O Banquete dos Que Ficam





(...)
E te julgaram por notícias velhas,
Sonhos encardidos e dispostos em baixos pedestais,
Atos que nem mais te recordas,
Fatos que não te pertencem.

(...)
E te inscreveram numa disputa vil,
Que não importou até o teu conhecimento
E agora é o destino que molda a tua honra.










Luz Sobre Espaço




Lidia Cunha

Esculpida por luz em impulsos desvairados
- Quietude dum achado escondido à claridade -,
Segue em seus contornos que se impõem fagueiros,
Sem pressa,
Em entrevista
E por aquilo que se inflama em sua placidez contemplativa.

Reflexão de cor,
Absorção do olhar;
Há mais tempo neste espaço congelado do que possamos conceber.

*Fotografia de Lidia Cunha.










Flores





Assim que pudermos voltar da lástima,
Toda a crise que te corrompe será verdade.
Prossiga;
Prossiga e percebas que nada se compadece!

Pensaste estar aquém, diante dos acontecimentos,
De todo o mesmo destino de tuas batalhas,
Mas o rastro de teus movimentos desenharam a vida,
O compasso de tua marcha é redentor.

É tua a minha reverência
E a minha compaixão,
Pois sou uma das flores que colheu no desespero.










O Detalhe





Parece que eu te esqueci em um dos rodapés de meus livros,
Perdida entre as explicações para os meus destemperos prolixos...
Aprendi sobre a virgem loura dos anjos,
Mas percebi o meu microfone quebrado quando quis expulsar a interpretação;
Não te conheço,
Pois mudas de forma e lugar,
Idade e modo,
Carinho e agressão-
Mudas conforme o detalhe que não previ.










As Deculpas





Se for só o que aparenta,
Render-me-ei à tua falta de caminho,
Ao teu carinho indiscreto;
Não suporto as desculpas que inventei.

Preciso escolher tempos verbais adequados,
Lugares e fantasias que se prezem,
Perdições de amor que nos valha,
Mas a correção não é um dos meus predicados.

Justiça por mim?
Brincas?










Romena





Era uma flor romena de olhos inexplicáveis;
Amante de Placebo e Velvet Underground,
Cantora da beleza que se deposita ao fundo da dor,
Atriz para os papéis que apenas recitei por doçura e brincadeira.

Era uma flor romena de pétalas inigualáveis,
Aroma cativante, mas esdrúxulo;
Uma flor sem endereço ou jardim.










Juramento (Julgamento)





Talvez seja a minha vontade que você saia daqui,
Carregando estes sonhos que parecem não ter fim;
Eu sei que o meu juramento foi fazer você feliz,
Mas não sinto mais sinceridade nas palavras que me diz.

Ontem esqueci que amo o meu gesto infantil
De ser a dona da verdade e do meu desejo vil,
Pois eu me peguei calada para não lhe aborrecer,
Vestida de calúnia e fuga só para lhe pertencer.

Qualquer julgamento será farsa,
Porque o meu peito me diz não-
A sua destreza não alcança nem a metade de minha imaginação.










sleep by ~lagunadreams





O tecido sobre o cabelo desalinhado,
O brilho nos lábios e a posição da cabeça,
Com os tendões do pescoço esticados,
Em perfeita harmonia.










Dreams on Canvas





Sei que é simplória balbúrdia,
Descompasso inepto para preocupar-se,
Mas continuo pintando o céu através duma lâmina de vidro.

Percebo o que só há em meus sonhos e para mim,
Contudo, afirmo esta beleza sem qualquer declínio,
Confirmo os meus tons a partir dos movimentos do meu pulso.

Muito obrigado, mundo,
Por ser a tela de todos os meus sentimentos,
A textura que tateio às primeiras pinceladas!










Deleite





Aguardei o teu toque como quem suplica pela vida,
Aguardei-te despida de qualquer valor;
Amoral como sou e desejo que sintas o meu corpo...

Nunca será pouco o gosto da tua saliva
Ou a carícia que criva a minha pele de libido.

Beijo-te para que corrompas o abrigo que me prende-
Não entendes, mas mereces que eu seja só momento,
Esmerando-te com o meu ungüento adocicado e venenoso
Para despertar o planger malicioso que me sufoca.










A Cortesã e a Amante Rainha





[Maria Flor]
Este disfarce ético
É um resgate do épico
Descrito por Camões
Em sonetos e ilusões.

[Ana Maia]
Enganada estás,
Pois não há paz!
Esta alma pedante,
Que se faz num instante,
É o teu calvário...
Foges do desafio.

[Maria Flor]
Queres o desafio?
Este desejo bravio
Não me interessa,
Porque é a tua pressa.

[Ana Maia]
Não, és covarde,
Uma mulher de alardes
Que se interessa por honrarias...
Torpe ironia!

[Maria Flor]
Imagino que pensas ser pouco
Um destino que se parece mouco
Para as suas pretensões sociais,
Sonhos de grandeza imorais.










Atos e Palavras





As sensações presas em palavras,
Sem fotografias alteradas em curvas de cores e desfocagens gaussianas,
Sem edições de vídeo e sem toques nanotecnológicos via satélite,
Valem muito mais para mim.










Sépia





Durante o tempo que se perpetua lânguido,
Atenuante é a sua brincadeira lúdica-
Sorrisos na praça da morte,
Beijos na presença do erro.

Quantos gritos mais?
A menina adormeceu sem pranto para que a noite fique em paz.










O Cão e a Normativa





O pedido espera...
Quem suporta?
O carisma da fera foi só uma arma para a caçada.

O pedido alcança...
Quem se importa?
A destreza da besta encantou até a cegueira.










Gaijin em Qualquer Lugar





Quisera estar do teu lado,
Mas isso me parece a minha obsessão.

De todo o mal que te fiz quando enxerguei só a mim,
Permanece o sofrimento alimentado pela dor e destempero,
Enaltecesse-se a lembrança do teu sussurro a embriagar-me.

A mentira é não desejar morrer ao teu lado,
Não me candidatar à mediocridade de ser humano,
Esperar que eu te esqueça,
Açoitar a preservação do teu corpo em meus braços marcada em minha memória.










A Liberdade e as Redondilhas Alternadas





Contra os muros que impedem a minha percepção
Arremesso bombas de chocolate e balas de café...
Quem além de mim mesmo pode sorrir do acaso
Fornicado pelos livros de ficção científica de outrora?

Adicionamos lendas provincianas ao enredo não só por alegoria;
Dizem de gente,
Do que nos incita à satisfação do que desejamos,
Da divinização cunhada em nosso código e descrita pela nossa ciência.

Uma ode à nossa forma de vida
Em seu ludibrio por elites e lentidão por resultados!

Redondilhas alternadas pela natureza desumana:
Menor,
Maior,
Menor,
Maior?
É assim que serei?










O Tal





Era uma mensagem,
Um desvario,
Uma sentença pelo frio.

Não cuidamos de nossas ambições
Para caminharmos até o fim - na falta de um final em comum -.

Por que não me estender?
Porque a conclusão é construída fora do meu controle.










Os Pés





Talvez eu não queira surpreender
A falar destes teus pés delicados,
Pois se eu cresse em perfeição
Este seria o mote para a minha banalidade.

Talvez eu só deseje confirmar para mim mesmo
A tamanha libido que estas formas me dão,
Então, disfarço cá e acolá em alegorias híbridas
E fáceis de serem desvendadas.










Curva





Quero um coração novo,
Daqueles multiprocessados
Com válvulas especiais para super-atletas.
Talvez eu busque conforto naqueles pulmões de mega-filtragem,
Pois os meus - que são clonados - não conseguem suportar este ambiente inóspito.
Aí comprarei uma noiva nova;
Não aquelas ciborgues nojentas,
Cheias de defeitos e riscos de contaminação,
Mas uma moderna emuladora de prazer!










Do Presente





Meu presente carece de heróis
E a imaginação se exorbita alada
Entre a ira que se prende em nós
E a mácula que se solta em chaga.










Mate a Morte





Puseram o cadáver num púlpito
Para no povo causar ânsia de vômito,
Tentando fazer tudo mais cômico
Neste desejo que se torna tão sádico.

Colocaram a dor num pedestal
A fim de um novo traço moral,
Mas desenharam a nova face do mal
Em todo o parecer natural.

Não se despeça da saudade;
Vibre,
Lute!
Não se entregue à caridade;
Mate a morte!