quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Retinopatia Diabética

Enquanto ela brincava de vídeo game com os meus olhos, queimando os coágulos dos vasos sangüíneos da minha retina, com as pernas abertas à minha frente e as coxas encadeadas nos meus joelhos, eu observava o contorno esquerdo do seu queixo - um singelo arredondado -, com dificuldade para perceber a tonalidade alva de sua pele, pois só enxergava um mundo avermelhado e sombrio. A Doutora Cláudia, em minha quinta cirurgia de fotocoagulação a laser, parecia mais bela, dona do poder da situação, portanto, senti-me mais atraído do que da primeira vez em que a vi; com aquela indumentária branca a desenhar o seu corpo esguio, fonte de todos os meus recentes pensamentos libidinosos. Como de costume, pediu-me:

- Olha para cá, para o meu dedo. - apontando o delgado indicador para o canto superior direito do meu campo visual, a fim de buscar um melhor posicionamento dos meus olhos para prosseguir com a cirurgia. Quando realizei o pedido, agradeceu-me: - Isso, assim! - Para mim, era como um orgasmo, apesar da irritação e dor que as facadas de luz me causavam.

Ao ponto em que a operação continuava, a dor parecia um domínio exercido pela Doutora sobre mim, contudo, tinha um apresso por isso, porque comparava a oftalmologista a uma dominatrix que me conduziria a uma experiência sexual indelével. Quanto mais posições oculares eram pedidas, mais eu me excitava, mais eu me sentia prisioneiro daquela mulher incrível! Durante um breve momento, ela se curvou para ajustar o meu assento e denunciou os seus pequeninos seios pelo decote e sob um folgado sutiã; não me contive naquele momento e, num desvario que nem eu compreendi, acariciei a parte posterior de sua coxa esquerda com a minha mão direita.

- O que você está fazendo? - perguntou-me.

- Er... Desculpe-me, eu não pensei. - desajeitado.

- Esquece, Lucas, eu não vi isso. - ajustou o visor sobre os meus olhos e seguiu adiante com a operação.

Terminada a cirurgia, Doutora Cláudia me avisou sobre a data da próxima e sobre a possibilidade de não haver uma nova fotocoagulação, mas da necessidade de consultas periódicas. Informações concluídas, ela se despediu em distinção do habitual aperto de mãos, desejando-me um feliz natal com um cálido abraço. Correspondi com um carinho que nunca havia dado a ninguém, ademais, beijei-a nos lábios quando recuei.

- O que você fez? - interrogou-me.

- Acho que hoje não estou emocionalmente equilibrado. - antes que eu pensasse em mais alguma coisa para me retificar, ela acariciou a minha face para um possível consolo; daí parti para um beijo tórrido e impensado. Arranquei as vestes brancas da mulher e percorri cada centímetro do seu corpo com os meus lábios, pouco me importando onde estava e se iria dar em merda. No culminante ato do delírio, sentei-a na cadeira de cirurgia, a por as suas pernas sobre os meus ombros, e transei com ela ali mesmo.

- Onde está a minha calcinha?

- Aqui. - após catá-la debaixo da pia do consultório.

- Pode me fazer um favor?

- Diga. - beijando-a no pescoço.

- Quando sair, peça para a Rita - a secretária - reservar cinco minutos para que eu fique sozinha.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Baú VII


Nona Sinfonia





Da busca do significado,
Do abismo nunca crido,
Da hóstia regurgitada,
Do jeito desinibido
Criou-se tudo o que imagino,
Convergiu-me o singular destino.

Minhas roupas cansadas enxugam o sangue de poucos minutos
E a sombra que apaga os traços parece um insulto;
Passado de ventanias e cores...
Que cores? Que ventanias?
A tormenta para o mimetismo das dores:
Do amor para a decepção
Ou do torpor à indagação?

Enxugaste a lágrima para que eu me sentisse bem,
Mas o corte que retalha a alma não se proclama na pele;
É só um fio ou madeixa das inconfundíveis melenas helênicas,
É só um tossir contido durante o alegro assai da nona sinfonia.










Além das Divisas Portuguesas (Sobre Fernando Pessoa)





Parti para nunca mais voltar,
Tentada por minhas ambições
E pelo desejo que guardo por amar
O ímpeto em nossas intenções.

Parti para nunca mais dizer
De coisas que só quero esquecer,
Pois fui alguém sem liberdade
Quando quis ser livre de verdade.

Na terra não estão minhas fronteiras,
Nem zelo pelas cores de uma bandeira,
Porque, se é na voz que me entrego,
Minha palavra não será um gesto cego.










Maldita Noite





Maldita Noite
Ah, maldita noite que encontraste o teu fim,
Perdi-me só quando não te abracei...
Meus olhos não se fecharam em descanso,
Meus lábios não se cerraram ao descaso,
Mas é tu que me deixas só e sem forças;
Para sempre fadado a perder-me às tuas gentilezas sombrias.

Ah, maldita noite de demônios conselheiros,
Fiz-me infinito para que descobrisses a minha insanidade,
Tive-me impossível para que me esfaqueasses sem vontade!

É tua, noite maldita,
É tua esta lástima que não se apaga.










Calafrio





Ó, messa!
Quem de nós sentiu este calafrio?
Quem de nós se enganou mais de uma vez?

Não me importa se há disfarces para afirmar que ele não leu,
Mas me disponho a mostrar-lhe que conheço os seus truques.










Trocadilho (In)Voluntário





Talvez para ocultar o fruto da prevaricação,
Ou para exibir o nascedouro da questão,
Despedi-me da usura catedrática,
Do requinte da gramática,
E me rendi à coerência lingüística naquele discurso.

Um ímpio insulto?
Não, não me tome por tão pouco,
Quiçá por um louco que despreza hospícios e diagnósticos.










Mais Lixo e Menos Distorção





Todo o mundo igual,
Querendo a diferença que não importa ao final.
Todos passamos bem,
Assim que encontramos a metade que não será mais de ninguém.
Tudo traz tanto horror,
Pois somos tão frágeis que sós não há como curar a nossa a dor.
Pra nunca imortais;
Talvez sejam as asas coladas com cera ou o furor destes jornais.

Respostas pra tudo, impedidas por farsas;
Construímos e erguemos as nossas próprias taças.
Respostas por nada, contidas em vícios...
Somos a pergunta abrigada no mesmo lixo.










Desconhecimento Parcial





Eu de braços dados com o passado do presente
E ela sorridente, do outro lado, ao fundo do cinema.
Uma síntese das garotas de Ipanema e de Berlim,
Contudo, importa somente para mim.

Seus óculos de grosso aro e lentes profundas sobre a mesa,
Seu sorriso de sublime beleza e desenho casto, inocente:
Tudo presente nas formas que se repetem sem alívio.

"Meu manco pedido,
Minha mancha e desnível;
O que será que te afasta?
Já não basta toda a distância?

Há de ser a minha ignorância,
Compelindo-me a voltar às cores que te caracterizam...

Desejo que venhas,
Mas te desconheço em parte."










Corpo Submisso a Você





Gosto da forma que morde as minhas coxas,
A parte de trás das minhas coxas
E as dobras entre as minhas coxas e os meus glúteos.

Gosto do jeito que toca os meus seios
E da deliciosa tortura em postergar
Outros toques, para que eu anseie por você.

Gosto da sombra deste corpo musculoso
Sobre o meu corpo delicado,
Submisso a você.










Os Tios





1. A mulher de modo arisco e ímpeto de Luz del Fuego,
Apaixonada pelas ínfimas peculiaridades que despertam a carne,
Voltou de sua jornada para dizer o que viveu.

2. Sim, lembro-me de sua juventude-
Das tardes em que passava trepada na goiabeira
E dos domingos escondida na torre da igreja.

1. Sim, ela está de volta, transformada,
Mas ainda é desbravadora da dúvida sem muita vaidade.










O Banquete dos Que Ficam





(...)
E te julgaram por notícias velhas,
Sonhos encardidos e dispostos em baixos pedestais,
Atos que nem mais te recordas,
Fatos que não te pertencem.

(...)
E te inscreveram numa disputa vil,
Que não importou até o teu conhecimento
E agora é o destino que molda a tua honra.










Luz Sobre Espaço




Lidia Cunha

Esculpida por luz em impulsos desvairados
- Quietude dum achado escondido à claridade -,
Segue em seus contornos que se impõem fagueiros,
Sem pressa,
Em entrevista
E por aquilo que se inflama em sua placidez contemplativa.

Reflexão de cor,
Absorção do olhar;
Há mais tempo neste espaço congelado do que possamos conceber.

*Fotografia de Lidia Cunha.










Flores





Assim que pudermos voltar da lástima,
Toda a crise que te corrompe será verdade.
Prossiga;
Prossiga e percebas que nada se compadece!

Pensaste estar aquém, diante dos acontecimentos,
De todo o mesmo destino de tuas batalhas,
Mas o rastro de teus movimentos desenharam a vida,
O compasso de tua marcha é redentor.

É tua a minha reverência
E a minha compaixão,
Pois sou uma das flores que colheu no desespero.










O Detalhe





Parece que eu te esqueci em um dos rodapés de meus livros,
Perdida entre as explicações para os meus destemperos prolixos...
Aprendi sobre a virgem loura dos anjos,
Mas percebi o meu microfone quebrado quando quis expulsar a interpretação;
Não te conheço,
Pois mudas de forma e lugar,
Idade e modo,
Carinho e agressão-
Mudas conforme o detalhe que não previ.










As Deculpas





Se for só o que aparenta,
Render-me-ei à tua falta de caminho,
Ao teu carinho indiscreto;
Não suporto as desculpas que inventei.

Preciso escolher tempos verbais adequados,
Lugares e fantasias que se prezem,
Perdições de amor que nos valha,
Mas a correção não é um dos meus predicados.

Justiça por mim?
Brincas?










Romena





Era uma flor romena de olhos inexplicáveis;
Amante de Placebo e Velvet Underground,
Cantora da beleza que se deposita ao fundo da dor,
Atriz para os papéis que apenas recitei por doçura e brincadeira.

Era uma flor romena de pétalas inigualáveis,
Aroma cativante, mas esdrúxulo;
Uma flor sem endereço ou jardim.










Juramento (Julgamento)





Talvez seja a minha vontade que você saia daqui,
Carregando estes sonhos que parecem não ter fim;
Eu sei que o meu juramento foi fazer você feliz,
Mas não sinto mais sinceridade nas palavras que me diz.

Ontem esqueci que amo o meu gesto infantil
De ser a dona da verdade e do meu desejo vil,
Pois eu me peguei calada para não lhe aborrecer,
Vestida de calúnia e fuga só para lhe pertencer.

Qualquer julgamento será farsa,
Porque o meu peito me diz não-
A sua destreza não alcança nem a metade de minha imaginação.










sleep by ~lagunadreams





O tecido sobre o cabelo desalinhado,
O brilho nos lábios e a posição da cabeça,
Com os tendões do pescoço esticados,
Em perfeita harmonia.










Dreams on Canvas





Sei que é simplória balbúrdia,
Descompasso inepto para preocupar-se,
Mas continuo pintando o céu através duma lâmina de vidro.

Percebo o que só há em meus sonhos e para mim,
Contudo, afirmo esta beleza sem qualquer declínio,
Confirmo os meus tons a partir dos movimentos do meu pulso.

Muito obrigado, mundo,
Por ser a tela de todos os meus sentimentos,
A textura que tateio às primeiras pinceladas!










Deleite





Aguardei o teu toque como quem suplica pela vida,
Aguardei-te despida de qualquer valor;
Amoral como sou e desejo que sintas o meu corpo...

Nunca será pouco o gosto da tua saliva
Ou a carícia que criva a minha pele de libido.

Beijo-te para que corrompas o abrigo que me prende-
Não entendes, mas mereces que eu seja só momento,
Esmerando-te com o meu ungüento adocicado e venenoso
Para despertar o planger malicioso que me sufoca.










A Cortesã e a Amante Rainha





[Maria Flor]
Este disfarce ético
É um resgate do épico
Descrito por Camões
Em sonetos e ilusões.

[Ana Maia]
Enganada estás,
Pois não há paz!
Esta alma pedante,
Que se faz num instante,
É o teu calvário...
Foges do desafio.

[Maria Flor]
Queres o desafio?
Este desejo bravio
Não me interessa,
Porque é a tua pressa.

[Ana Maia]
Não, és covarde,
Uma mulher de alardes
Que se interessa por honrarias...
Torpe ironia!

[Maria Flor]
Imagino que pensas ser pouco
Um destino que se parece mouco
Para as suas pretensões sociais,
Sonhos de grandeza imorais.










Atos e Palavras





As sensações presas em palavras,
Sem fotografias alteradas em curvas de cores e desfocagens gaussianas,
Sem edições de vídeo e sem toques nanotecnológicos via satélite,
Valem muito mais para mim.










Sépia





Durante o tempo que se perpetua lânguido,
Atenuante é a sua brincadeira lúdica-
Sorrisos na praça da morte,
Beijos na presença do erro.

Quantos gritos mais?
A menina adormeceu sem pranto para que a noite fique em paz.










O Cão e a Normativa





O pedido espera...
Quem suporta?
O carisma da fera foi só uma arma para a caçada.

O pedido alcança...
Quem se importa?
A destreza da besta encantou até a cegueira.










Gaijin em Qualquer Lugar





Quisera estar do teu lado,
Mas isso me parece a minha obsessão.

De todo o mal que te fiz quando enxerguei só a mim,
Permanece o sofrimento alimentado pela dor e destempero,
Enaltecesse-se a lembrança do teu sussurro a embriagar-me.

A mentira é não desejar morrer ao teu lado,
Não me candidatar à mediocridade de ser humano,
Esperar que eu te esqueça,
Açoitar a preservação do teu corpo em meus braços marcada em minha memória.










A Liberdade e as Redondilhas Alternadas





Contra os muros que impedem a minha percepção
Arremesso bombas de chocolate e balas de café...
Quem além de mim mesmo pode sorrir do acaso
Fornicado pelos livros de ficção científica de outrora?

Adicionamos lendas provincianas ao enredo não só por alegoria;
Dizem de gente,
Do que nos incita à satisfação do que desejamos,
Da divinização cunhada em nosso código e descrita pela nossa ciência.

Uma ode à nossa forma de vida
Em seu ludibrio por elites e lentidão por resultados!

Redondilhas alternadas pela natureza desumana:
Menor,
Maior,
Menor,
Maior?
É assim que serei?










O Tal





Era uma mensagem,
Um desvario,
Uma sentença pelo frio.

Não cuidamos de nossas ambições
Para caminharmos até o fim - na falta de um final em comum -.

Por que não me estender?
Porque a conclusão é construída fora do meu controle.










Os Pés





Talvez eu não queira surpreender
A falar destes teus pés delicados,
Pois se eu cresse em perfeição
Este seria o mote para a minha banalidade.

Talvez eu só deseje confirmar para mim mesmo
A tamanha libido que estas formas me dão,
Então, disfarço cá e acolá em alegorias híbridas
E fáceis de serem desvendadas.










Curva





Quero um coração novo,
Daqueles multiprocessados
Com válvulas especiais para super-atletas.
Talvez eu busque conforto naqueles pulmões de mega-filtragem,
Pois os meus - que são clonados - não conseguem suportar este ambiente inóspito.
Aí comprarei uma noiva nova;
Não aquelas ciborgues nojentas,
Cheias de defeitos e riscos de contaminação,
Mas uma moderna emuladora de prazer!










Do Presente





Meu presente carece de heróis
E a imaginação se exorbita alada
Entre a ira que se prende em nós
E a mácula que se solta em chaga.










Mate a Morte





Puseram o cadáver num púlpito
Para no povo causar ânsia de vômito,
Tentando fazer tudo mais cômico
Neste desejo que se torna tão sádico.

Colocaram a dor num pedestal
A fim de um novo traço moral,
Mas desenharam a nova face do mal
Em todo o parecer natural.

Não se despeça da saudade;
Vibre,
Lute!
Não se entregue à caridade;
Mate a morte!








terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Medéia


Introdução


12 de novembro de 2332

Em 25 de março de 2334, os governos de todo o mundo se fundiram após a IV Grande Guerra, que dizimou dois terços da população do planeta, cerca de oito bilhões de pessoas. A guerra foi um confronto entre dois blocos de sete nações no total: os Federados (América do Norte, América do Sul, África e Europa) e a Aliança Oriental (Irã, China e Japão). Uma crise mundial armada era esperada há quase um século, pois a discrepância do direcionamento político destes países impedia um consenso para a resolução dos problemas da explosão demográfica e de suas consequências ao meio ambiente. Enquanto os Federados tentavam um controle preventivo, sem um planejamento intrusivo da reprodução na instituição familiar, a Aliança Oriental realizava a vasectomia de todos os garotos a partir dos 15 anos, com reprodução controlada e relacionada à previsão de recursos. A partir do Tratado de Preservação da Humanidade, assinado em 12 de novembro de 2332, Xangai, as três nações da Aliança Oriental declararam guerra a toda forma de poder do globo terrestre que contrariasse a sua visão governamental. Em 25 de dezembro de 2333, as doze maiores metrópoles do bloco Federado são atacadas por bombas de nêutrons, implantadas e detonadas furtivamente. Os Federados assinaram a rendição em 20 de fevereiro de 2334, por pressão popular. Medidas drásticas foram tomadas após evento, como a reprodução através de clones selecionados, estéreis e do gênero feminino, na previsão de extinção do gênero masculino em cem anos.

Seja bem-vindo à saga de Medéia, uma mulher do século XXIV.

Memórias


Lisboa, 15 de outubro de 2346.

Tentei resgatar as minhas recordações mais remotas, mas a minha memória auxiliar atua de maneira tão categórica que distorce a orgânica, fornecendo-me informações que não tenho certeza se são empíricas. Às vezes, imagino que ser um indivíduo da classe C não é tão interessante quanto parece, pois, apesar do material genético e recursos produtivos privilegiados, a minha identidade se compromete pela interação com os sistemas mecânico e de informação. Todos os dias tenho contato com indivíduos de classes D a H, contudo, percebo que as suas vidas são muito mais simplificadas e felizes, levando em conta que são produzidos para trabalhos menos honrosos à aristocracia. Talvez, dentro de algum tempo, eu encontre a minha realidade, pois creio que os meus doze anos de vida dizem pouco de uma oficial planejada para duzentos e vinte.

Fui designada esta tarde para comandar uma operação em São Paulo, América do Sul, a fim de conter um foco de reprodução humana ilegal. O relatório informou que há uma população de trinta homens e quarenta mulheres de genética primitiva; algumas das fêmeas estão em gestação. Ao término da operação, entrarei de férias por seis meses e aproveitarei para conhecer toda a América, porque este último ano de residência na Europa não tem me rendido boas relações interpessoais; a recente tentativa para unir quatro parceiras na intenção de uma filha foi um desastre. Quiçá consiga boas matrizes de minha classe no continente americano, já que esperar vinte anos na fila de reprodução é uma tarefa árdua para uma mulher que sonha em filhas tão precocemente.

Despedida


Lisboa, 16 de outubro de 2346.

Após concluir o seu treinamento de artes marciais no simulador de combate, Medéia adentra em sua câmara higienizadora enquanto conversa com o seu computador pessoal.

- Maia, são que horas? - despindo-se e colocando a roupa no compartimento de lavagem a seco.

- São quinze e quarenta e cinco, Tenente Medéia.

- Qual é o estado de rede da Coronel Perséfone?

- No momento, a Coronel Perséfone está ocupada.

- Quando a Coronel estiver ativa, avise-me. - iniciando a higienização.

- Registrado, Tenente Medéia.

- Preciso de um resumo de clima do meu itinerário para escolher que roupas levar.

- A temperatura média é de 32º Celsius nos últimos seis meses, variando de 28º a 43º. Em 80% das ocorrências, o clima é quente e seco.

- O jogo de roupas que selecionei para a viagem é condizente?

- Por favor, especifique a condizência, Tenente Medéia.

- Ainda não aprendeu sobre os meus desejos, não é, Maia? Digo se o material das roupas condiz com o meu conforto físico diante do clima.

- Sim, condiz perfeitamente. Desculpe-me pela falta de relação com os seus desejos pessoais na memória.

- Registre como módulo do cerne. - terminando a higienização e retirando a roupa para vesti-la.

- Registrado, Tenente Medéia.

- Elabore uma cópia de toda a sua vida e envie para a minha mídia de armazenamento no Departamento das Forças Armadas para a Preservação da Humanidade.

- Feito. A propósito, Coronel Perséfone está ativa.

- Ligue.

- Medéia, meu bem! - Perséfone conversa em holograma.

- Olá, Perséfone!

- Então, está preparada para a viagem?

- Já arrumei as minhas coisas; mais preparada é impossível! - sorrindo.

- Quando você pediu transferência, não imaginei que a aristocracia iria lhe enviar para tão longe... Vou ficar com saudades!

- Ah, Perséfone, sempre estaremos em contato.

- Mas você sabe que não há nada melhor do que a sensação de estar perto.

- É verdade... Quero visitas, certo?

- Quando entrar de férias, daqui há dois meses, prometo que estarei lá. Falar nisso, esta operação é a última antes das suas, não é?

- Sim, é. Aproveitarei para conhecer a América.

- Não vou insistir para saber o motivo desta mudança, mas lhe desejo felicidades em sua nova vida.

- Muito obrigado, Perséfone... É bom ouvir isto de você.

- Saiba que as portas estarão sempre abertas para quando quiser voltar!

- Lembrarei disso... Espero que as saudades não me deixem chorar agora.

- Já está com saudades?

- Claro, há dois dias que não nos vemos e nem poderei me despedir.

- Verdade, só falta uma hora para que vá e eu nem posso sair daqui do DeFAPH. Mesmo assim, saiba que estarei com você durante a viagem.

- Obrigada, Perséfone.

- Então, está na hora, não é?

- Certo... Enviarei a minha bagagem e irei ao Porto Aeroespacial. Fique em paz, minha mestra.

- Você também, minha querida. Até a vista!

- Até a vista!

Chegada


- Senhora?

- Unf...

- Senhora, chegamos.

- Ah, obrigada, aeromoça!

Medéia acorda para a sua nova vida, após repousar durante três horas na viagem de Lisboa para São Paulo. Desembarca e procura por uma lanchonete a fim de beber alguma coisa antes de prosseguir para a sede do DeFAPH sul-americano. Adentra a primeira que vê e pede à balconista:

- Por favor, pode me dar um refrigerante de cafeína?

- Copo, lata ou garrafa?

- Lata, por favor.

- Refrigerante de cafeína em lata saindo. - entrega a Medéia.

- Você sabe como chego à Liberdade?

- É só procurar o portão de embarque da Linha A, logo à esquerda da saída.

- Obrigado. Preciso ir agora, pois ainda confirmarei a entrega de minha bagagem ao destino. - coloca o polegar no analisador biométrico, digita a senha de acesso, a identidade é confirmada e o pagamento efetuado.

- Disponha, Senhorita. Adeus!

- Até a vista!

Ao retirar-se da lanchonete, Medéia observa melhor as pessoas ao seu redor, percebe que há muitos homens no aeroporto e estranha, pois na Europa a população masculina está por volta dos dez por cento.

Caetano


Medéia confirma que as suas bagagens já chegaram ao destino, portanto, dirige-se à saída e encontra facilmente o portão de embarque para a Linha A, conforme indicado pela balconista da lanchonete. Aguarda menos de um minuto até que o metrô chegue e embarca. Já acomodada no vagão, um senhor a questiona:

- Como foi a viagem?

- Como? Não entendi.

- Estou perguntando como foi a viagem, Senhorita.

Relapsa, esqueceu que embarcou na estação em frente ao Porto Aeroespacial; então deduz o óbvio e diz:

- Como tem certeza que eu viajei?

- Você é um indivíduo classe C, não vão ao porto para passear.

- Nossa, você é observador! Como prova que sou um indivíduo classe C?

- Sou engenheiro genético e reconheceria um em qualquer lugar.

- Hum... Como se chama?

- Caetano (...) - silencia-se a observá-la.

- Não irá perguntar como o indivíduo classe C se chama?

- Eu tenho orgulho em ser um primitivo, mas não é por isso que eu lhe acharia uma aberração; não sou assim.

- Afinal, foram vocês, engenheiros genéticos, que contribuíram para que eu existisse.

- Às vezes acho que não foi de todo ruim.

- De todo ruim? O que há com esta maior parte?

- Bilhões de primitivos mortos.

- Você sabe do destino da humanidade se estivessem vivos.

- A aristocracia fala de duzentos anos, mas considero que quatrocentos é um número mais justo.

- Está desmerecendo os dados da aristocracia?

- Sim.

- Isto pode lhe render problemas... Sabe, não é?

- Quantos anos tem, Senhorita? Catorze? Quinze?

- Tenho doze anos.

- Suspeitei; é engraçado como crescem tão rápido... Sou um cientista e tenho este direito previsto em lei.

- É verdade, desculpe-me.

- Acessou a sua memória auxiliar para consultar a Constituição?

- A minha memória auxiliar?

- Sei que todo indivíduo classe C tem memória auxiliar, afinal, foram criados para as Forças Armadas.

- É, subestimo-lhe.

- Nunca subestime um primata.

- Não os subestimo, apenas prendo os arruaceiros e elimino os férteis.

- Você ainda é muita nova, precisa se humanizar!

- Como assim?

- Sempre colocam garotas nas ruas, pois ainda não possuem experiência bastante para um questionamento moral profundo.

- Isso me interessou, sabia? Certas vezes realizo alguns questionamentos que não consigo me certificar da resposta.

- Você tem um gigantesco banco de dados armazenado na memória auxiliar, mas muitos deles são censurados para que tais questionamentos sejam evitados.

- Que tipo de questionamento?

- Para onde vai agora?

- Para a Liberdade.

- Falar em armazenamento, olhe o meu cartão e salve em sua memória auxiliar para me ligar depois, pois você desce nesta próxima estação. - tira o cartão do bolso para que a garota memorize.

- Registrado. Meu nome é Medéia.

- Registrado. - sorri e é correspondido.

- Certo, irei lhe ligar... Adorei lhe conhecer!

- Eu também, Senhorita Medéia. Até a vista!

- Até a vista, Caetano!

Golpe de Estado


Medéia acessa um quiosque de informações para conhecer o caminho correto até o DeFAPH, aproveita e copia todos os dados possíveis para a sua memória auxiliar. Percebe que não precisa andar mais do que dois quarteirões para alcançar o prédio de destino, portanto, deixa a Estação da Liberdade despreocupada.

Caminhando pela calçada, identifica muitos sinais daquilo que a aristocracia chamaria de 'alimentadores do caos': superpopulação, dialetos desconhecidos, mercado informal, porte livre e indiscriminado de armas, primitivos com implantes mecânicos ilegais, além dos seres desconhecidos que parecem provenientes de experiências com mutações genéticas. Aos encontrões de ombros com os transeuntes, aproxima-se do prédio do DeFAPH e é abordada por duas policiais armadas.

- A Senhorita pode se identificar?

- Tenete Medéia, transferida do DeFAPH europeu.

- Posso realizar uma análise biométrica de confirmação? - sacando o aparelho para tal do colete.

- Sim, claro.

- Com licença. - passa o aparelho sobre os olhos da garota, mas é acusado um erro de leitura. - Oras, há um problema!

- Leia as minhas digitais. - a oficial faz o aconselhado.

- Bem-vinda, Tenente! - batem continência e Medéia retribui.

- Descansar, soldados. Preciso me encontrar com a Coronel Obá.

- Pode me acompanhar, Tenente?

Uma das policiais conduz Medéia até o interior do prédio e a indica um elevador privativo.

- Tenente, a Coronel Obá a aguarda em sua sala.

- Muito obrigada, soldado. - bate continência para a soldado, que retribui.

A garota adentra o elevador e chega rapidamente a uma sala grande, com visão privilegiada, de considerável altitude, para a cidade de São Paulo.

- Tenente Medéia? - surge subitamente uma Senhora com aspecto doentio.

- Coronel Obá? - bate continência.

- Pare com esse protocolo comigo.

- Sem problema, Coronel. Estou aqui transferida da DeFAPH europeia e pronta...

- Sei, sei, sei... Eu sei o que você está fazendo aqui. - interrompendo-a com um certo semblante de irritação

- Alguma instrução, Coronel?

- Antes de qualquer coisa, evite me chamar de Coronel ou Senhora... Estamos com problemas, Tenente.

- Sim, entendi... Também não precisa me chamar de Tenente ou Senhorita. O que houve?

- Estamos sem contato com a rede neural da aristocracia... Ainda desconheço o motivo.

- Estranho, a rede tem múltiplas vias de conexão. Seria necessário um apagão de proporções mundiais para que acontecesse.

- O que sugere?

- Posso tentar acessar a rede de seu computador neural?

- Vejo aqui no seu perfil que tem habilitação para isso.

- Sim, recebi enriquecimento de memória para a engenharia de redes.

- Pois não, é por aqui. - indicando a entrada para uma outra sala.

- Este modelo de computador neural está defasado em um ano.

- É, aqui não é a Europa.

- Como assim?

- Xangai não se preocupa muito com os destinos sul-americanos. Creio que preferirão eliminar toda a vida daqui com bombas de nêutrons se algo der errado. Pode tentar acessar a rede, autorizei seu controle.

- Com licença. - assustada pela discrepância com a organização em que foi acostumada.

- À vontade.

Medéia tenta o acesso direto, mas não há sinal de rede, portanto, redireciona suas buscas pela internet civil, entretanto o resultado é idêntico. Tenta navegar por numerosos sítios governamentais e financeiros, contudo, não consegue resultados animadores.

- Temos um problema.

- Eu sei que temos, só quero saber qual é.

- Temos acesso a tudo o que não é do governo.

- Sim...

- A aristocracia está desconectada da rede. Possivelmente, todos os mais de cento e vinte mil servidores de dados sofreram sabotagem.

- Não há a possibilidade de ser uma dificuldade momentânea?

- Há quanto tempo está assim?

- Uma hora.

- Creio que não, pois o máximo registrado até hoje foi três nanosegundos, e aconteceu há dez anos. Estamos diante de um possível golpe de Estado.

- Não pode confirmar?

- Não.

O Ocorrido


Após uma consulta mais apurada em cada um dos servidores governamentais, interceptando as requisições de acesso ao cerne da rede neural, Medéia descobre que muitos hospitais tentam acessar o endereço para o envio de relatórios; acima do normalmente utilizado. Resgata um dos pacotes de transmissão e o descriptografa, assustando-se.

- Coronel, é bem mais sério do que imaginávamos.

- O que se passa?

- Estou baixando pacotes de transmissão entre hospitais de todo o mundo para o cerne da rede: são relatórios de encaminhamento de novos pacientes.

- Referem-se ao tipo de trauma?

- Pior, referem-se a um genocídio no hemisfério norte.

- Como isso aconteceu?

- Por estes dados, são vítimas de bombas sujas.

- Bombas radiológicas? Mas são facilmente detectadas nas grandes metrópoles!

- Também me intriga... Estou preocupada com uma coisa.

- Com o que em especial?

- O hospital que a Coronel Perséfone supostamente seria internada é do governo, portanto, não há como confirmar se está bem.

- A sua antiga comandante?

- Sim. Tenho confirmações de vítimas em Lisboa, mas só daqueles que foram encaminhados ao sistema médico do setor privado.

- O que acha que desencadeou isto?

- Com certeza, foi um ataque conjunto de piratas de rede e guerrilheiros, mas não consigo determinar a origem.

- Aposto que é uma ação dos primitivos.

- Talvez, todavia há classes de indivíduos da neogênese que possuem motivos para tal.

- É verdade. Precisamos contatar a sede do governo em São Paulo.

- Só se você conhecer o endereço privado de alguém num cargo de chefia.

- Isso é o que não me falta. - faz a requisição em massa para toda a lista de contatos que trabalham na torre do governo.

- Sem retorno de todos os indivíduos classe A e B na lista. Temos estes indivíduos classe C e D. - indicando a lista no monitor.

- Pronto! Inicie conversação com a Sargento Denise, número 386.

- Em curso.

- Pois não, Coronel Obá. - Sargento Denise responde em áudio.

- Você tem informações do que está acontecendo nos servidores do governo?

- Sabemos que fomos atacados de surpresa por uma organização criminosa. A razão foi declarada em correio aos nossos servidores, antes do ataque; querem a posse do território da América do Norte e Europa.

- Qual a procedência dos mesmos?

- São primitivos, mutantes e indivíduos de neogênese.

- Temos traidores?

- Sim, norte-americanos e europeus.

- O que há com os indivíduos de classe A e B na torre do governo?

- Os indivíduos classe A estão em assembleia e os classe B à frente do procedimento para a retomada do controle da rede.

- Precisam de reforços?

- Não, Coronel, a situação está sob contro... - a conexão cai.

- O que houve, Medéia?

- Toda a lista de contatos se desconectou... Aconteceu algo por lá.

- Então é para lá que iremos!

Até o Estacionamento


Através do comunicador interno, Obá pede por quatro viaturas e dezesseis policiais do grupo de ações táticas, além de reforços para a proteção do prédio do DeFAPH e atenção para o envio de tropas à torre do governo. Medéia copia os dados consultados no computador neural e acompanha a Coronel até o estacionamento.

- Não estou mais com idade para isso!

- Qual a sua geração de neogênese?

- Sou da primeira geração.

- Então tem cento e nove anos? Já não deveria estar aposentada?

- Sim, deveria, mas não havia nenhuma Tenente que suprisse as necessidades da aristocracia na América do Sul.

- Não havia?

- Estava esperando pela transferência de uma Tenente da divisão europeia.

- Como?

- Quando você voltar de férias, será promovida a Coronel.

Medéia não reconhece o sentimento após a afirmação de Obá, pois é uma surpresa.

- Não sei o que dizer.

- Não diga. Sei que é nova para assumir este cargo, mas foi preparada meticulosamente para isso. Na Europa, seria Coronel em cinco anos; como pediu transferência, a aristocracia só adiantou o planejado.

- Sempre estranhei os enriquecimentos de memória em excesso.

- Não só os enriquecimentos de memória, mas todos os implantes mecânicos e orgânicos... Você é a última palavra em nanotecnologia, menina!

- Tenho conhecimento disto, mas me afasta muito dos primitivos e outras classes de neogênese.

- Eu li a seu respeito na época em que foi gerada, mas nunca poderia imaginar que fosse me substituir.

- Verdade? Fico lisonjeada. O que mais sabe sobre mim?

- Sei que, além da comum seleção de cinco matrizes genéticas, seu código genético foi redesenhado, além de dispor de respiração cutânea, alta tolerância orgânica a metais, visão adaptativa e inúmeros implantes.

- Nossa, você sabe mesmo! Ainda realizei alguns implantes e modificações orgânicas depois do nascimento. A última alteração foi na pele, para a modificação de cor.

- Essa eu não conhecia... Para que uso?

- Para não precisar de vestimentas durante as operações.

- Você trabalha nua?

- Digamos que sim.

- Interessante.

As duas chegam ao estacionamento com as viaturas e o grupo de ações táticas preparados.

- Prefere pilotar, Medéia?

- Sim, gostaria.

- Então, a partir de agora, a viatura 0001 é sua.

Torre do Governo


Do estacionamento, Obá instrui o grupo:

- Garotas, o segundo nome na hierarquia de comando é a Tenente Medéia. Faremos o reconhecimento de área na torre do governo e seus arredores, com uma possível ação invasiva. Quero um grupo de oito voluntárias para tal. - todas dão um passo à frente, inclusive Medéia. - Louise, Greta, Lúcia, Ana, Michele, Penélope, Daniela e Lídia... As demais ficarão de suporte, em sobreaviso para uma segunda ordem de formação.

- Obá, desejo participar do grupo de invasão. - pede Medéia.

- Não, não sabemos o que há lá e não quero postergar a minha reserva. - cochicha ao ouvido. - Garotas, às viaturas! - ordena.

Medéia toma controle da viatura e levanta voo em direção à torre do governo, utilizando o mapa copiado do quiosque do Porto Aeroespacial, entretanto se distancia das demais viaturas.

- Tenente, a direção não é esta. - avisa uma das três ocupantes da viatura guiada por Medéia.

- Perdão, mas o mapa que tenho na memória auxiliar indica esta direção.

- Está incorreto, pois a direção não é esta.

- Verdade, Tenente. - confirma uma outra ocupante.

- Deixe-me consultar o mapa próprio da viatura... Verdade, o meu mapa está incorreto. Perdão, Senhoras. - corrigindo a rota. - Como se chamam?

- Iara.

- Denise.

- Janaína.

Aproximam-se da torre e não avistam as demais viaturas, contudo o ambiente parece calmo.

- Tenente, isto é muito estranho! Entre em contato com as demais viaturas.

- Já tentei e não apresentam sinal... Irei circundar a torre para tentar contato visual.

Dão uma volta completa ao redor da torre e nenhum sinal das viaturas, portanto, resolvem pousar.

- Iara. que tipo de armamento possuímos?

- Rifles e granadas de plasma.

- Passe-me um rifle, por favor... Vamos sair em duplas para fazer uma visitinha à torre.

- Entendido, Tenente! - as três em uníssono.

- O que há com a sua pele, Tenente? - Iara.

- Ela se pinta para a guerra quando me irrito.

Invasão e Fuga


- Iara, você fica comigo na retaguarda. Denise e Janaína, avancem!

Ao segundo metro de progressão, Denise e Janaína são atingidas por um disparo de plasma vindo do céu. Medéia e Iara recuam desesperadas assim que percebem tratar-se de um ataque de maquinaria aérea, contudo, não conseguem avistá-lo na pressa da escapada. Medéia grita:

- Iara, em ziguezague! Corra em ziguezague!

Mal termina de ordenar e Iara também é abatida pelo ataque, portanto, resolve reagir à artilharia para tentar sobreviver. Vira-se e reconhece seis robôs investindo contra ela, então dispara três vezes e derruba dois deles. Vê a viatura ainda aberta e decide voltar para sair imediatamente dali.

- Pare em nome da Nova Lei! - ordena um dos robôs.

Medéia não compreende o que está acontecendo - O que seria esta Nova lei? -, portanto, não se rende e foge às acrobacias para desviar-se dos tiros, ademais, alveja e acerta mais dois. Finalmente, consegue alcançar a viatura e levantar voo, entretanto é perseguida e abatida em menos de um minuto.

O Furto


A viatura cai vertiginosamente de uma altura de quarenta metros até espatifar-se no chão, ainda percorrendo vinte metros até ser parada por um prédio no caminho. Inflados, os bolsões de ar salvam a vida de Medéia que, apesar da tontura, veste-se e se retira pela janela do para-brisa estilhaçado pela queda. Retorna à coloração e tonalidade naturais de sua pele para confundir os robôs e corre em meio à multidão estupefata pelo evento. Depois dobrar aleatoriamente várias esquinas, percebe que as pessoas não a olham mais como 'a vítima do acidente', porém, matem a atenção para encontrar um abrigo seguro. Para numa barraca de ervas e pergunta ao vendedor:

- Por favor? Onde posso encontrar um telefone público?

- Ah, minha Senhorita, você não é daqui, não é? Não colocam mais telefones públicos nas ruas de São Paulo, porque há mais vândalos e bandoleiros do que se possa contar. Se quiser telefonar, vá a uma galeria.

- Então, por favor, onde encontro uma?

- Em uma quadra daqui, nessa direção - indicando com o braço -, tem uma galeria com quatro. Aproveite e compre um banho, porque está toda suja!

- Estou sim... Muito obrigada! - fingindo um sorriso ao passo que se retira.

A caminhada de duas quadras, escondida no meio do povo, parece uma eternidade devido a preocupação em ser descoberta. Assim que está dentro da galeria, seu cuidado é redobrado; da mesma que forma que a qualidade das câmeras de segurança. Não sabe para quem ligar, pois todos os que confia são do governo, então se lembra de Caetano, quem conheceu no metrô há pouco tempo, e resolve arriscar.

- Quem é? Medéia, é você? - reconhece pelo monitor.

- Não fale o meu nome... Estou sendo procurada.

- Eu sei, estou acompanhando as mudanças!

- Que mudanças? Eu não sei o que está acontecendo!

- A aristocracia caiu e o povo do hemisfério norte está festejando, mas aqui no hemisfério sul ninguém deu muita atenção. Você precisa sair daí!

- O que houve com os indivíduos de neogênese?

- Exceto aqueles que conspiraram pelo golpe, estão presos ou mortos. Olha, não se identifique como membro do governo e nem realize movimentações financeiras com a sua identidade... Não sei se irei me arrepender por isso, mas venha para cá! Enviei o endereço por texto criptografado via telefone.

- Obrigada... - baixa o texto, descriptografa e lê - Mas isso fica do outro lado da cidade! Como irei chegar aí sem ser reconhecida?

- Você sabe puxar um carro?

- Diz de furtar um veículo?

- Sim.

- Mas isso é errado!

- É você ou o patrimônio dos outros, garota!

- Mas a polícia será acionada.

- Não há polícia nas ruas, só o exército da Nova Lei. Venha rápido que conseguirá!

- Está certo, vou fazer isso.

- Então faça. Eu lhe espero.

- Até mais!

- Até mais! - desliga.

- Tomara que eu saiba o que estou fazendo. - desanimada.

Medéia escolhe um veículo antigo, simples de ter o sistema biométrico de ignição burlado, e o furta para prosseguir até a casa de Caetano.

Reencontro com Caetano


Medéia se aproxima do ponto zero descrito no mapa, mas não se aventura a usar o comunicador do veículo para não se expor a um possível rastreamento. É um prédio antigo de quatro andares, arquitetura do século XXIII, mas muito bem conservado. Pousa e toca o interfone.

- Pode empurrar a porta, eu lhe vi chegar. - pede Caetano.

A garota entra no prédio e é logo recepcionada.

- Nossa, o que houve com você? Precisa de cuidados médicos! - percebendo as escoriações e sujeira por todo o corpo.

- Fui abatida em pleno voo antes do nosso telefonema.

- Você precisa tomar um banho para limpar estas feridas... Vou conseguir roupas novas e um bom hipercoagulante.

- Antes de qualquer coisa, preciso comer. Desde Lisboa que não ingiro nada sólido.

- Venha cá, vamos subir.

Caetano ajuda Medéia a chegar até o elevador para subirem ao último andar.

- Tenho péssimas notícias.

- O que está acontecendo? Minha vida desmoronou em um dia!

- Uma organização autodenominada Nova Lei está tentando dissolver a aristocracia.

- Pelo que consultei do DeFAPH, creio que já conseguiu. O que sabe mais?

- É uma organização de grandes grupos privados que deseja extinguir o Estado. Não sei ao certo como irão estabelecer isto, mas parece que, a partir de agora, é cada um por si.

A porta do elevador se abre e a garota mal consegue andar, portanto, ele a carrega até o sofá da sala.

- Espera um pouco, vou pegar algo para comer.

Vai até a cozinha e prepara uma farta quantidade de yakisoba instantâneo. Assim que é servida, juntamente com saquê, Medéia devora o prato sem qualquer esmero.

- Assim você irá queimar a língua; está muito quente!

- Você não sabe da fome que estou! - arrisca um sorriso.

- Imagino. - retribui o sorriso.

- Onde arrumou o saquê? A venda de bebidas alcoólicas não estava proibida?

- Ah, você não está dentro do domínio das Forças Armadas! Aqui, as pessoas fazem de tudo um pouco para sobreviver.

- Acho que posso lhe contar um segredo.

- Adoraria.

- Já alterei o registro de quantidade de uma apreensão de uísque, para me embriagar com umas colegas em Coimbra.

- Olha, que danada! (...) Eu também quero lhe contar algo.

- Diga.

- Quero agradecer por confiar em mim. Sei que posso me complicar lhe acoitando, mas sinto que estou fazendo o certo.

- Muito obrigada... Eu lhe procurei por ser a minha única opção no momento em que estava com medo e acuada , mas você me parece uma boa pessoa.

- Obrigado. Já que estamos ficando amigos, irei lhe mostrar onde pode lavar estas feridas.

Novo Visual


Caetano a leva para um quarto com banheiro interno e a avisa:

- O banheiro é logo ali.

- Banheiro com água? - surpresa.

- Sim.

- Você deve ser rico... Tomei banho com água apenas duas vezes em toda a minha vida!

- Então tomará a terceira. - sorrindo.

- Vou controlar o tempo para não lhe sair muito caro. - piscando.

- Não se preocupe... Irei colocar roupas limpas sobre a cama, então você escolhe a que achar melhor. Quando terminar, estarei na sala.

- Novamente, obrigada por tudo, Caetano.

- Não há de que. Vá tomar seu banho, menina!

- 'Tá.

Medéia adentra o banheiro, fecha a porta, despe-se e toma um banho demorado, a limpar as lesões da pele com cautela. Sai do boxe, enxuga-se e volta para o quarto, onde encontra um amontoado de roupas; escolhe um macacão e vai até a sala.

- Poxa, assim você não quer ser medicada!

- Por que?

- Um macacão?

- Isso só atrapalha a minha respiração. Não se preocupe, pois amanhã não terei marcas.

- Você tem respiração cutânea?

- Sim.

- Tenho ma pergunta...

- Sim?

- Você tem células capilares no topo do crânio?

- Não. Aqueles que me projetaram, acreditavam que eu não precisaria. Por que a pergunta?

- Porque acho que vai precisar.

- Por que?

- Você passeou pelas ruas de São Paulo careca, então estive pensando que uma estimulação capilar seria um bom disfarce.

- É verdade, mas não tenho células capilares.

- Isso pode ser resolvido... Venha comigo!

- Para onde?

- Meu laboratório de testes.

- Irá me fazer de cobaia? - brincando.

- Claro que não! Vou fazer com você o que faço para poder tomar banho com água. - sorrindo

- Então vamos ver esse mistério! - ironizando.

Caetano a conduz até o seu laboratório de testes e a exibe alguns aparelhos.

- Vê? É a minha contribuição à cirurgia capilar!

- Vejo, mas não entendo.

- Normalmente, eu faria uma estimulação a partir de células tronco, mas isso demora muito tempo, portanto, preciso de outro caminho.

- Então me diga que caminho é esse!

- Iremos pelo caminho da engenharia cibernética!

- Ai, meu Deus, outro implante em minha vida! - sorri.

- Não quer?

- Quero, sempre quis ser cabeluda! - arqueia as sobrancelhas.

- A técnica é simples, rápida e indolor. Vê o capacete? - tocando o aparelho.

- Sim.

- Sente-se nesta cadeira.

- 'Tá bem! - senta-se.

- É só colocar o capacete e pronto! - realiza o dito com entusiasmo.

- Pronto? O que?

- Aí está o meu diferencial, você não sente os nano-implantes de célula capilar biônica.

- Produzem cabelo?

- Fios, cores e tonalidades que quiser! O comprimento também é variável, atingindo o limite de um metro.

- Nossa... Cadê o cabelo?

- Prove isto. - um bombom.

- Um bombom?

- Chocolate amargo com avelãs.

- Não entendi.

- Coma!

Medéia prova o bombom e, imediatamente, cabelo brota do topo de sua cabeça, então ela se levanta assustada.

- Uau!

- Nunca esqueça este sabor, pois é pensando nele que você controla o seu cabelo. Pense no sabor e depois mentalize o cabelo que quer.

- Uau, estou espantada... É, foi esse cabelo que pensei, mas posso melhorar!

Uma Volta


Medéia começa a brincar com as possibilidades de composição de seu cabelo, mas para cada cinco formatos come um bombom.

- Assim você vai engordar!

A garota sorri.

- Estufo temporariamente, mas não engordo.

- Você e as suas surpresas... Em todo caso, não precisa comer, é só lembrar do sabor.

- Eu sei, mas estou viciada nesse chocolate!

- Esse é um problema que preciso resolver, pois meus clientes sempre precisam de um endocrinologista depois que realizo uma cirurgia capilar. Vamos fazer o seguinte, pare de comer para não passar mal! - resgatando a cumbuca de bombons das mãos de Medéia.

- Ah, só mais um!

- Nem meio. Vai dormir agora?

- Não estou com sono.

- Mas precisa dormir.

- Dormi até o meio-dia em Lisboa e três horas no vôo para cá.

- Já são três horas da madrugada.

- Sabe, desejo dar uma volta para verificar umas coisas.

- Acha seguro?

- Seguro não é, mas fui treinada para encarar situações assim.

- Medéia, preciso trabalhar amanhã!

- Não quero que vá comigo, isso sim é arriscado.

- O que deseja verificar?

- Não sei ao certo, mas preciso saber onde estou pisando.

- Vou lhe ajudar...

- Não, não precisa ir comigo!

- Não irei com você, mas irei lhe ceder um veículo e uma identidade com créditos financeiros.

- Faria isso?

- Sim. Vou lhe dar um cartão de créditos; esse aqui - tirando-o do bolso da jaqueta -, mas evite deixar digitais no caminho e olhos à mostra de câmeras.

- Quanto aos olhos, não se preocupe, pois as minhas íris possuem policromia dinâmica.

- É verdade, esqueci que era das Forças Armadas. Ah, tem uma moto na minha garagem que é acionada por este cartão.

- Qual será o nome para me identificar?

- Evite se identificar.

- Sim, caso eu precise.

- Não irá precisar, mas é Adélia Nabuco de Azevedo.

- Copiei.

- O cartão e a moto estão equipados com rastreadores privados de minha produção... Se precisar, ligue que eu lhe acho.

- Você é um amor, Caetano!

- Obrigado... Sou irresistível! - sorrindo.

- Posso ir?

- Eu lhe acompanho até o elevador.

- Vamos! - ergue o braço e ele a leva até a porta do elevador.

- Pronto, aperte o último botão do painel, o de baixo. O portão da garagem é automático, só precisa dar ignição na moto. - segurando a porta do elevador.

- Obrigado, Caetano. Volto em duas horas.

- Estarei dormindo, mas me acorde para avisar da sua chegada. Até mais! - solta a porta do elevador.

- Até mais! - fecha-se a porta.

- Acho que estou apaixonado por essa mulher.

Em Busca de Informações


Medéia levanta voo em direção a um centro de compras e comunicação, descrito no mapa que obteve na viatura do DeFAPH. Observa a noite paulistana e acompanha as tribos e as suas diversificadas figuras, as ruas poluídas e as praças que misturam uma homenagem às raízes com o contemporâneo híbrido, o idioma Português Brasileiro e os dialetos carregados de influências de todo o mundo. Não sabe precisar se todo aquele universo mudou em apenas um dia, mas nunca havia visto tão gigantesco mercado informal, tráfico de drogas, porte de armas e prostituição.

- Maia, acorde.

- Olá, Tenente Medéia!

- Maia, não sou mais Tenente.

- Como devo lhe chamar, Senhorita?

- Apenas Medéia.

- Registrado. Posso lhe ser útil, Apenas Medéia?

- Acho que Perséfone estava de sacanagem quando me deu essa porcaria de presente.

- Não entendi, Apenas Medéia.

- Mudarei o meu nome, Maia.

- Devo lhe chamar por esse novo nome?

- Sim, deve.

- Como devo lhe chamar, Senhorita?

- Medéia.

- Registrado. Posso lhe ser útil, Medéia?

- Lembra-se da minha última requisição para a cópia de minha vida?

- A sua última requisição para a cópia do banco de dados da sua vida foi realizada em dezesseis de outubro de dois mil trezentos e quarenta e seis, às quinze horas, quarenta e seis minutos e quinze segundos. Ainda pediu para ser enviado à sua mídia de armazenamento no Departamento das Forças Armadas para a Preservação da Humanidade.

- Qual é o estado deste envio?

- No momento, o servidor do Departamento das Forças Armadas para a Preservação da Humanidade está desconectado da rede neural, entretanto o registro de envio acusa a recepção do arquivo pelo domínio.

- No momento da recepção, em que departamento do DeFAPH eu estava registrada?

- Nenhum, Medéia.

- Nenhum? Quero informações do histórico deste registro nas últimas quarenta e oito horas.

- Seu registro foi cancelado no servidor do Departamento das Forças Armadas para a Preservação da Humanidade há trinta e seis horas.

- Quem ordenou o cancelamento?

- Não há informação.

- Como recebeu esta informação?

- Através do monitoramento de estado pessoal junto à rede neural do governo.

- Preciso constatar isto.

- Aconselho buscar informações no Departamento das Forças Armadas para a Preservação da Humanidade.

- Maia.

- Sim.

- Dois pedidos e uma pergunta.

- Faça-os, Senhorita.

- Quero que renomeie o Departamento das Forças Armadas para a Preservação da Humanidade.

- Como devo chamar o Departamento das Forças Armadas para a Preservação da Humanidade?

- DeFAPH.

- Registrado.

- Quero que evite conselhos sem a minha permissão.

- Registrado.

- Sua arquitetura de inteligência artificial aceita expansões?

- Sim.

- É bom saber... Maia!

- Sim, Medéia.

- Durma (...) Já que não sei onde está a cópia de minha vida, tentarei descobrir no servidor do DeFAPH.

Reencontro


Medéia dá uma volta pela torre do servidor com a moto e descobre que há algumas câmeras danificadas no telhado. Estaciona no ponto fragilizado, desce por um duto de ventilação e alcança um corredor que imagina ser o acesso para o elevador. Corre com cuidado, para não ser surpreendida por alguma câmera, e avista o elevador.

- Para onde pensa que vai, menina? - fala alguém, assim que a garota se preparava para camuflar a pele e o cabelo a fim de utilizar o elevador.

- Perséfone! - surpreende-se.

- Sim, sou eu. - enquanto Medéia corre para abraçá-la.

- Pensei que havia morrido!

- Eu sabia que isso iria acontecer e me preparei.

- Por que não me avisou?

- Eu não pude, mas tive certeza que se sairia bem sem a informação.

- O que está acontecendo de verdade?

- O Estado caiu devido a uma imposição anarco-capitalista. A aristocracia estava enfraquecida com o poder que cedeu às grandes corporações.

- O que será de nós?

- Querem eliminar todos os indivíduos da neogênese que sejam contra a nova estrutura de governo, ou, como dizem eles, a favor do mal.

- Do mal?

- Creem que o Estado é o mal. Onde está hospedada?

- Na casa de um amigo.

- E que cabelo é esse? - sorrindo.

- Ganhei de presente deste amigo... Perséfone...

- Diga, meu amor.

- Sabia que eu estaria aqui?

- Fui eu quem recebeu a cópia da sua vida. Agora sabe o porquê do meu presente; Maia.

De Surpresa


- Estava conversando com Maia há pouco.

- Gosta dela?

- Olha, tenho crises de raiva com ela, pois a sua inteligência artificial é muito deficiente.

- Gosta de tudo pronto, não é, Medéia?

- Não é isso...

- Sim, é isso. Eu lhe dei Maia sem uma programação mais elaborada para que você exercitasse o que ganhou de graça com os enriquecimentos de memória.

- Não precisa esfregar na cara, Perséfone!

- Não estou fazendo isso, meu amor.

- É o que, então?

- Estou dizendo que precisa aprender a construir; quero isso para o seu bem.

- 'Tá bem... Estou deprimida pelos últimos acontecimentos.

- Fique calma... Precisamos sair daqui.

- Antes disso, preciso saber do meu arquivo de vida.

- Está comigo, como lhe disse.

- Ninguém mais o tem?

- Não.

- Então está tudo certo.

- Vamos?

- Vamos... Afinal, como entrou aqui?

- Pelo mesmo buraco que você. Por que acha que aquelas câmeras estavam danificadas?

- Esperta; queria que eu entrasse por ali.

- Isso. Vamos?

- Vamos.

Retornam por onde entraram e chegam ao telhado.

- Este é o seu veículo?

- Sim, é a moto do amigo que me hospeda.

- Estou com um flutuador de costas.

- Então lhe encontro lá embaixo.

Descem até a rua e Perséfone pede:

- Preciso lhe mostrar uma coisa a três quadras daqui. Siga-me.

- Certo. - vão até o local. - O que é? - descendo da moto.

- Cancelei o seu registro no DeFAPH, devido a eminência de golpe contra o Estado, em contrapartida, criei um identidade civil com o mesmo nome. Você pode usar todos os recursos que tinha como militar, incluindo um apartamento que adquiri para o seu uso.

- É para lá que estamos indo?

- Sim. Reside no Edifício Primavera, apartamento quinhentos e um; acesso via digital.

- Espera aí... Como cancelou o meu registro se entrei no prédio do DeFAPH?

- Eu lhe persegui pelo monitoramento de segurança, a partir do Porto Aeroespacial, e fui maquiando dados através dos ínfimos recursos de rede neural que dispunha; até alterei os dados de confirmação da bagagem, que, na verdade, foram para o seu novo apartamento.

- Ótimo, senti falta das minhas rou...

Um tiro de plasma atinge o peito de Perséfone, desintegrando metade do seu corpo.

- Afaste-se e se ajoelhe, senão atiramos! - ordena um robô.

Fora de Combate


São dois os robôs que estão na rua, vistos logo após o tiro que matou Perséfone. Medéia se emociona ao ver o que sobrou do corpo da sua amiga e começa a chorar. Não tem forças para correr, portanto, faz o que um dos robôs ordenou; afasta-se e se ajoelha.

- Erga as mãos! O que estava fazendo ao lado da criminosa? - o mesmo robô, enquanto ambos se aproximam a apontar seus rifles contra a cabeça da garota.

- Foi por acaso, eu não a conheço.

- Por que não pode ser identificada pela íris? - o outro robô, a fazer uma análise biométrica ótica.

- Meus olhos são implantes biônicos. - mentindo.

- Então retire uma das luvas e aponte a palma para o meu visor. - Medéia cumpre o ordenado, um tanto ou quanto trêmula. - Agora se explique, Senhorita Medéia. - já identificada.

- Eu caminhava para a minha casa e aquela Senhora me interpelou, pedindo abrigo para a noite.

- Conforme os seus dados pessoais, realmente mora aqui perto. Saiba que aquela Senhora era uma das cabeças do Estado, portanto, uma representante do mal.

- Não irei me esquecer disso.

- Pode se levantar e ir para a sua casa, Senhorita. A segurança privada da Associação Comercial de São Paulo pede desculpas por qualquer infortúnio.

- Sem problemas, Senhores. Até a vista!

- Tenha uma boa noite.

Medéia se levanta e segue procurando pelo Edifício Primavera, que Perséfone se referiu, e logo encontra. Utiliza a digital para acessar as dependências do prédio, subir pelo elevador e entrar no apartamento. Mal confere as acomodações, pois sofre pela perda da amiga e jornada desgastante. Deita-se na cama e continua a chorar, mas o cansaço é tamanho que adormece.

Caminhada


Ainda com os olhos fechados, mas desperta, Medéia se sente incomodada pelo calor. Contorce-se sobre a cama para retirar o macacão, entretanto, mesmo nua, angustiasse-se pela sensação térmica.

- Maia, acorde!

- Sim, Medéia.

- Verfique se o ambiente possui adequação às minhas ordens.

- Sim. Quer um inventário de possibilidades?

- Não, só verifique sobre o controle de temperatura.

- Sim, você pode controlar diretamente o condicionador de ar.

- Quero duzentos e noventa Kelvin no ambiente.

- Feito, Medéia. Há uma mensagem para você.

- De quem?

- Perséfone.

- Que horas foi enviada? - levantando-se depressa.

- Às cinco horas, cinco minutos e vinte e três segundos.

- Não pode ser; foi quando quando estávamos juntas... Reproduza a mensagem, Maia.

- Medéia, sinto muito por mentir sobre os acontecimentos, mas eu creio que foi para a sua proteção, tanto que, antes de minha morte, preparei todos os recursos necessários para que viva em paz. Você tem uma pequena fortuna depositada no Banco Interamericano, para que se reestruture em São Paulo, além de certificações acerca de todos os enriquecimentos de memória que realizou. Seu nome continua o mesmo, mas, para efeito de camuflagem quanto a sua neogênese, alterei a sua idade de registro para vinte e cinco anos. Qualquer dúvida sobre a sua nova identidade, acesse o banco de dados do servidor de perfis Bandeirante. Não volte para a Europa, pois pode ser identificada como um antiga servidora da aristocracia. Eu te amo.

- Perséfone... Você aprontou até uma mensagem de envio condicional. Maia, apague permanentemente. - emocionada.

- Feito, Medéia.

Medéia verifica o apartamento e encontra comida, a sua bagagem e roupas extras. Higieniza-se, veste-se e toma o café da manhã. Sai e busca a moto de Caetano, para estacioná-la na garagem do prédio.

- Maia, ligue para o endereço do proprietário da moto.

- Em curso.

- Pois não? - Caetano.

- Medéia falando, Caetano.

- Medéia! Mais cedo, detectei a moto parada em Interlagos e fiquei preocupado.

- Não se preocupe, entregarei a moto pela tarde.

- Não há pressa. Onde está?

- Ainda estou em Interlagos; irei resolver uns problemas meus.

- Não vá se meter em confusão.

- Essa parte já passou.

- Confio em você. Nos vemos mais tarde?

- Sim. Até mais!

Morgue


- Maia?

- Sim, Medéia.

- Conecte-se ao servidor do Reuters, na rede neural privada.

- Feito.

- Utilize o serviço de busca para me responder algumas perguntas.

- Prossiga.

- O que é a Nova Lei?

- A Nova Lei se trata de uma convenção anarco-capitalista entre trinta e cinco organizações do setor privado para o regimento de mercado e política.

- Política? Quem é o atual chefe de Estado?

- Não há mais chefe de Estado.

- Quem organiza a sociedade?

- A sociedade se organiza em aldeias privadas, onde a responsabilidade de administração é das organizações produtivas e detentoras de capital.

- O que aconteceu aos indivíduos da neogênese?

- Os que não morreram, durante a ação libertária da Nova lei, são considerados nocivos por organizarem um Estado totalitário no passado.

- Há indivíduos da neogênese presos?

- Não.

- Alguém será julgado?

- Não.

- Há registro de sobreviventes ao golpe?

- Não.

- Por que a ação libertária utilizou bombas radiológicas?

- Porque necessitavam de baixo custo na produção de artefato bélico, já que os alvos eram todas as bases de informação do antigo Estado.

- E o risco radiológico?

- Após tomarem os recursos do Estado, promovem uma estabilização ambiental com prazo estipulado de cinco dias.

- Sei... Procure informações da Coronel Obá nesta manhã.

- Foi morta em combate.

- Onde está o corpo?

- No necrotério do Hospital Albert Einstein.

- Consegue descobrir os tipos jurídicos de conexão que o Hospital dispõe?

- Público, clientes, fornecedores, operacional e funcionários.

- Descreva-me a conexão de funcionários.

- Acesso restrito via nome de usuário e senha de caracteres.

- Especifique detalhes do protetor de acesso.

- Não constam dados da pasta anterior a esta.

- Preciso maquiar meu endereço... Verifique se o procurador de acesso da NovaData está disponível.

- Sim.

- Recarregue todos os meus acessos, atribuindo-os ao NovaData.

- Feito.

- Carregue a minha biblioteca de combinações de caracteres.

- Feito.

- Bombardeie tentativas de acesso usando endereços alternados, a cinco yottabytes por segundo, até a primeira conexão válida de conta da alta administração.

- Feito em dois segundos e trinta e dois centésimos. Você está conectada como Alessandra Peixoto, gestora de recursos humanos.

- Verifique o tipo de acesso às dependências do necrotério.

- Análise biométrica da íris direita.

- Inclua um perfil.

- Nome?

- Penélope Rodrigues.

- Data de nascimento?

- Sete de agosto de dois mil trezentos e vinte.

- Cargo?

- Médico legista.

- Íris?

- Utilize a minha variação de íris número cento e cinco.

- Feito.

- Durma, Maia.

Medéia pega um táxi, vai até o Morumbi e consegue o acesso desejado ao necrotério do Hospital Albert Einstein. Consulta onde está o corpo da Coronel Obá, no computador interno, e vai até lá.

Cássia


A garota encontra a sala e a gaveta descritas no registro, mas sente uma certa repugnância em ver o cadáver. Para por um momento e tenta respirar, entretanto o cheiro podre dos mortos, que impera no recinto, termina por induzi-la a concluir rapidamente o que veio fazer.

- Maia.

- Sim, Medéia.

- Bloqueie temporariamente o meu olfato.

- Confirme a ação, Medéia.

- Bloqueie logo isso!

- Feito.

- Responda-me uma coisa.

- Prossiga.

- Onde fica implantada a memória auxiliar da primeira geração de neogênese?

- Fixada na parte posterior da vértebra C7.

- Nossa, essa mulher deve pesar uns cento e vinte quilos! Maia, libere a quantidade padrão de serotonina, dopamina e noradrenalina para me acalmar. - pegando um avental e um par de luvas sobre a mesa ao lado, vestindo-os logo em seguida.

- Liberado.

- Vamos lá, aqui deve ter um instrumento cortante. - buscando num carrinho cheio de instrumentos.

- Pronto, isso deve servir. - segura um bisturi e o coloca no bolso do avental, enquanto vira o cadáver de bruços.

- Maia, como é o formato da memória auxiliar? Instrua-me a extraí-la.

- Assim que realizar a incisão e deixar a vértebra C7 à mostra, perceberá que há um ponto verde na própria, semelhante a um carrapato.

- Vamos lá... - faz a incisão maior do que o necessário, da nuca até mais do início das costas. - Maia, estou vendo. Como retiro sem danificar?

- Utilize um alicate pequeno, sem fazer muita pressão. Irá sair com facilidade.

Busca um alicate de pressão no carrinho de instrumentos e volta para a pequena cirurgia.

- Vou tentar. - prende o pequeno implante no alicate e o puxa com cuidado. - Saiu.

Desvira o cadáver, fecha a gaveta e limpa todos os instrumentos e avental com detergente líquido, para retirar possíveis digitais. Sai do hospital com cautela, como se fosse uma paciente perdida por ali.

- Maia, como acesso os dados?

- O leitor implantado em suas unhas é capaz de decodificar tais dados; apenas prenda do mesmo jeito que estava preso à vértebra.

- E eu pensei que Perséfone estava exagerando. - colocando o artefato na unha do polegar direito. - Maia, leia e transfira os arquivos para a minha memória auxiliar.

- Feito.

- Espera, ela tem uma filha viva! - ao acessar os dados.

- Mora a duas quadras do seu apartamento.

- Ligue para Caetano.

- Em curso.

- Medéia? - Caetano.

- Caetano, vou me atrasar um pouquinho, pois acho que preciso visitar alguém.

- Sem problema, Medéia. No aguardo.

- Até mais!

- Até mais! - desliga.

- Preciso me higienizar, pois estou fedendo a defunto!

Medéia pega um táxi e segue para o seu apartamento, onde se higieniza às pressas. Sai e vai em direção ao endereço descrito nos dados coletados. Ao chegar, interfona.

- Quem deseja?

- Gostaria de falar com Cássia.

- É ela. Quem é?

- Uma amiga de uma das suas mães, a Coronel Obá.

- O que você quer?

- Eu também sou de neogênese e preciso falar com você.

- Estou descendo.

Romance


Cássia desce até a entrada do prédio, onde Medéia a aguarda do lado de fora. Sem abrir o portão, pergunta:

- Como se chama?

- Medéia.

- Conhecia a minha mãe há quanto tempo?

- Sei que parecerá estranho, mas há apenas um dia.

- E como sabe da minha existência?

- Posso entrar para conversar contigo?

- Não, é muito arriscado. - abre o portão e sai. - Vamos caminhar um pouco.

- Vamos. - prosseguem em caminhada.

- Então, o que quer falar comigo?

- Você sabe que a sua mãe foi assassinada?

- Conforme me informaram, foi morta em combate.

- Digamos que sim, mas, aparentemente, ela morreu por uma descarga de micro-ondas de dentro da sua própria viatura.

- Você diz que armaram pra ela?

- Armaram para todas nós.

- Todas nós? Eu sou de neogênese, mas não era das Forças Armadas.

- Eu sei que pediu baixa aos dez anos.

- Afinal, como sabe tanto de minha vida?

- Quis descobrir algumas coisas que haviam me escondido, portanto, visitei o necrotério do Hospital Albert Einstein e retirei a memória auxiliar de sua mãe.

- Como conseguiu permissão para isso?

- Posso lhe garantir que não foi legal e ninguém ficará sabendo.

- Um momento... Você sabe de tudo o que minha mãe sabia. - assustada.

- Quase tudo.

- Menos o que ela conseguia esconder da memória auxiliar, guardando em meio orgânico. - deduz.

- Isso, são poucas as que conseguem. Sei que sua mãe fez isso, pois algumas informações estão intermitentes.

- Onde mora?

- A duas quadras do seu apartamento.

- Nossa, preciso de uma bebida. - atordoada por tantas novidades.

- Vamos ao meu apartamento? Pedimos algo para beber e conversamos melhor por lá.

- Sim, vamos. - sorri pela primeira vez.

- Tem um sorriso bonito.

Vão até o apartamento e Medéia explica a Cássia todo o acontecido, desde a saída de Lisboa, enquanto aproveita para mostrar o seu novo domicílio.

- Você passou por poucas e boas.

- Meus últimos dois dias foram um inferno.

- Por que não desiste de pensar como uma militar e vive a sua vida?

- Ando pensando muito nisso... - uma lágrima desce sobre a face.

- O que há? - preocupa-se, a retirar a lágrima com com o dorso do dedo indicador.

- Não sei, ainda não chorei desde que aconteceu; uma hora a lágrima cairia.

- Calma, venha cá. - abraçando-a.

Medéia se sente confortada e a abraça com força.

- Obrigada... Eu precisava deste abraço. - ao ouvido.

- Sem problema, eu entendo. - afasta-se e a observa olho-a-olho. - Você me parece alguém muito especial. - beija-a nos lábios.

Até a Vista, Planeta Terra


Elas se envolvem numa experiência inédita a Medéia. Cássia percebe e traz a sua magia à experiência; toques sutis, beijos delicados e afagos frouxos. Evolui de acordo com a correspondência de Medéia, até estarem cativas de uma sensação tórrida. Assim que atinge o mais alto grau de excitação, Medéia se contorce de prazer e, logo após, repousa aos braços de Cássia.

- O que foi isso? - extasiada.

- Percebi que era virgem.

- Sabe que nós não fomos planejadas para o sexo. Tudo o que eu sabia sobre isso vem dos enriquecimentos de memória e de minhas pesquisas.

- É o que eu lhe disse; viva a sua vida!

- É verdade, há muito o que viver.

- Sabe, eu gostaria de ficar mais tempo contigo, mas... - interrompe.

- O que?

- Eu preciso partir amanhã cedo.

- Aonde irá?

- Preciso trabalhar.

- Não há informações sobre o seu trabalho na memória de Obá... Qual é o seu trabalho?

- Transporto metais entre as colônias e a Terra. Tenho a minha própria arca.

- Nossa, que interessante!

- Acha interessante? Às vezes é muito cansativo, pois passo muito tempo em companhia de uma androide; a Milla.

- Putz! A companhia da Maia, que é só um computador interno, também não é muito interessante.

- Quer ir comigo?

- Como?

- 'Tá, esqueça.

- Não, espere! Quer mesmo que eu vá?

- Gostaria muito.

- Então há mais um membro em sua tripulação. - piscando.

- Ai, vou fazer de tudo para se sentir muito bem! - empolgada, a abraçá-la.

- Já estou me sentindo... Ei, tenho que devolver a moto e o cartão de Caetano!

- Quer companhia?

- Claro!

As duas se vestem, Medéia pega o cartão e seguem de moto para a casa de Caetano. Chegando à entrada do estacionamento, este se abre automaticamente e Caetano liga para Medéia:

- Olá, Medéia! Estou aqui em cima.

- Estou subindo, Caetano!

Medéia estaciona a moto e sobem pelo elevador.

- Oi! - assim que a porta se abre.

- Oi... Quem é a sua amiga?

- É a Cássia. Cássia, este é o Caetano.

- Prazer, Cássia. - aproximando-se para cumprimentá-la.

- Prazer, Caetano. - beijando-o no rosto.

- Olha o cartão, Caetano. - entrega.

- Medéia, não precisa me entregar se precisa.

- Acho que consegui um emprego. - olha para Cássia e sorri.

- Nossa, temos novidades!

- Irá trabalhar comigo. - Cássia.

- Posso saber em que? - sorrindo.

- Transporte de metais. - Medéia.

- Isso é bom. Desejo-lhe sorte! Não se esqueça de manter contato comigo.

- Nunca me esquecerei do que fez por mim, Caetano. Muito obrigada!

- Querem comer algo?

- Creio que não, pois preciso me preparar para a viagem.

- Quando será?

- Amanhã bem cedo.

- Já?

- Ossos do novo ofício!

- 'Tá certa... Então vão em paz, meninas!

- De novo, obrigada! - abraçando-o.

- Seja feliz, menina.

A Arca


São Paulo, 17 de outubro de 2346.

Cássia acorda e toca o ombro de Medéia, ao seu lado, para acordá-la.

- Já despertei há algum tempo. - responde ao estímulo.

- Vamos? Falta duas horas.

- Vamos. Já me higienizei; pode ir que eu lhe espero.

- Não foge. - sorri.

Cássia se higieniza, veste-se e chama Medéia para seguirem até o Campo de Marte, onde está o seu módulo de desembarque.

- Sabe pilotar?

- Nunca pilotei um módulo de desembarque, aliás, nunca saí da atmosfera.

- Espero compartilhar de muitas das suas iniciações.

- Sabe, estou feliz... Conheço-lhe muito pouco, mas acredito que podemos nos ajudar.

- Espero bem mais do que uma ajuda mútua.

- Verdade?

- Creio que podemos conquistar uma vida nova.

- Fico até acanhada... Você é bem mais atirada que eu, talvez por ser uma novidade para mim.

- Vamos fazer o seguinte: tentarei ir devagar contigo; percebo que fica ruborizada... - acaricia o rosto da garota. - Tente dormir mais um pouco, pois está quase no horário de entrada para a curva gravitacional.

- 'Tá. - aproxima-se e a beija nos lábios.

Medéia se recosta e fecha os olhos; em dez minutos dorme. Cássia pilota atmosfera afora, enquanto, vez ou outra, olha para a nova namorada num misto de admiração e paixão. Assim que atinge a curva gravitacional, calculada para alvejar a arca que orbita em torno da Terra, observa o planeta azul a despedir-se em nome de mais três anos de jornada espacial.

(...)

- Medéia, acorde.

- Oi... Que horas são?

- Passa de uma hora da madrugada.

- Dormi quase um dia inteiro. - com os olhos ainda embaçados.

- Olhe para frente!

- O que? - limpa os olhos. - É linda! - avistando a arca.

- Atracamos em dez minutos.

Abre-se o portão principal da arca e, alguns minutos depois, o módulo adentra. Assim que estão no piso e o portão se fecha, são recepcionadas por Milla:

- Olá, Cássia! Temos uma nova tripulante?

- Olá, Milla! Quero lhe apresentar a Medéia.

- Olá, Medéia. Seja bem-vinda a bordo!

Androides Sentem Saudades?


Apresentações realizadas e ambiente apresentado, Cássia leva Medéia aos dormitórios, enquanto Milla começa a manutenção do módulo de desembarque.

- Aqui está; há camas e câmaras de hibernação. Só usamos as câmaras para viagens mais longínquas, economia de oxigênio, ou risco biológico. - explicando à nova tripulante.

- Gostei das acomodações.

- Ah, uso um modelo de roupa para usar na sala de navegação, pois alguns dos meus clientes e fornecedores são homens que não veem uma mulher há mais de dez anos. - indo até um armário. - Não se preocupe, mas é melhor evitar o pior. - abre o armário e retira uma pequena bolsa. - Tenho peças reservas; esta deve servir. - dá a Medéia, que a abre.

- Nossa, há até um coldre! - assim que vistoria o conteúdo.

- Vou lhe dar uma pistola de plasma. - buscando por uma na parte superior do armário.

- Não foi você quem me disse para não pensar como uma militar? - sorri.

- Ah, estou pensando como uma civil que protege o seu patrimônio; podemos ser vítimas de piratas.

- Já aconteceu?

- Ainda não. - pega a arma.

- Ainda?

- Nunca se sabe. - dá a arma para Medéia. - Sabe usar?

- Ainda pergunta? - sorri novamente.

- Vou me vestir para ajudar Milla. Quando terminar, use aquele mapa da arca para nos encontrar na sala de navegação. - apontando um monitor ao lado da porta de saída. - Se precisar comer, o refeitório está abastecido e a casa é sua. Enfim, está se sentindo bem?

- Sim, estou. - abraça-a.

- É bom ouvir isso... Então vou trabalhar. - beija-a.

Cássia se veste e segue até a sala de navegação, de onde pede a ajuda de Milla pelo comunicador.

- Milla, venha até a sala de navegação.

Em dois minutos, Milla está lá.

- Pois não, Cássia.

- Há alguma novidade na entrega para a colônia Alfa?

- Sim, enviaram novas datas e órbitas de estacionamento para o nosso itinerário, pois houve um atraso de produção das ligas metálicas.

- Atrasos, odeio atrasos! Para quando?

- O carregamento em Marte foi postergado em dois dias, quatro horas e vinte minutos.

- E a entrega na colônia Alfa?

- Um dia exato.

- Precisamos viajar mais de uma dia a menos... Isso é uma merda!

- Cássia...

- Diga, Milla.

- Estava com saudades.

- Androides sentem saudades? - interpela Medéia, assim que chega.

- Diz ela que sente... Na verdade, o pensamento da Milla é pseudo-aleatório, mas ela pode até ficar louca; se já não é! - brinca.

- Posso sim, pois sofro alterações mecânicas diante da solidão. - Milla se defende do preconceito humano.

- ´Tá bem, Milla... Se você diz eu acredito! - Medéia se diverte.

Sistema de Informação


Medéia observa Cássia traçando coordenadas no controle do navegador, portanto, percebe-se sem alguma ocupação e questiona a namorada:

- Cássia, preciso saber o que fazer a bordo.

- Foi bom você perguntar, pois pensei em atualizar o sistema de informação da arca. Acha que consegue?

- Passando-me as especificações da rede interna e do material disponível, tenho certeza que sim.

- Mas é muito metida a besta! - brinca.

- Faço o que posso! - manda um beijo no ar.

- Quer começar agora?

- Claro! Posso abrir uma conexão permanente de Maia para a arca?

- Claro que sim; ao seu sinal.

- Maia, acorde.

- Pois não, Medéia.

- Ative uma conexão de rede sem fio.

- Qual o nome?

- Maia 3.

- Feito.

- Encontrou, Cássia?

- Está aqui; Maia 3.

- Tenho limites?

- Nenhum, pois confio em você!

- Obrigada. Maia, baixe todas as especificações do sistema conectado a Maia 3.

- Concluído.

- Medéia, se você quiser melhores informações sobre o material utilizado, pode ir à sala de máquinas, descrita no mapa do sistema de informação. - aconselha Cássia.

- 'Tá certo, vou para lá.

Marte da Escotilha


Em doze dias de trabalho, Medéia reconfigura a rede e seus terminais, tornando-a vinte por cento mais rápida e ampliando a possibilidade de acesso.

- Medéia, você está de parabéns! - elogia Cássia.

- Muito obrigada... Poderíamos melhorar se dispuséssemos de mais material.

- Posso fazer o pedido do que precisa, pois em três dias receberemos visitas de colonos marcianos para o embarque de carga.

- Seria ótimo!

- Então faça a lista que eu repasso.

- 'Tá certo; não necessitaremos de muita coisa.

- Marte já é visível da escotilha frontal. Quer ver?

- Claro!

- Milla está no controle da arca, na melhor posição para observar o planeta vermelho. Vá lá!

Doutor Silva


Órbita em Marte, 3 de novembro de 2346 do calendário gregoriano.

Cássia, ao controle de navegação, alinha a arca à órbita definida. Prepara a espaçonave para a recepção dos módulos de desembarque, que irão trazer o carregamento de ligas metálicas a ser transportado para a colônia Alfa, e entra em contato com o controle de tráfego espacial marciano.

- Torre, arca de identidade XF-A102, em órbita prevista, pede a confirmação de alinhamento correto.

- XF-A102, confirmado, está em posição correta. Temos um pedido de comunicação para a tripulante Cássia.

- Sou eu. De quem se trata?

- Antônio Moura.

- Prossiga com o pedido.

- Cássia? - Antônio Moura.

- Como está, Tonho?

- Tenho uma notícia para você.

- Então noticie.

- Alteração em parte dos seus planos de vôo.

- Mais uma? Assim não dá, Moura!

- Calma, sei que vai gostar!

- Diga logo.

- Você terá mais um tripulante a bordo.

- Esqueça, nada disso!

- O módulo de desembarque está bem próximo; vai gostar de viajar com ele!

- Porra, você nem me avisa e quer que eu encare numa boa?

- Não quer nem saber o nome dele?

- Como?

- Sim, o nome dele.

- Quem é?

- Doutor Elias Silva.

- O físico?

- Isso.

- Minha Nossa Senhora! O que ele faz aqui?

- O marido dele faleceu na colônia Alfa, portanto, deseja partir na espaçonave que chegará lá mais depressa, para buscar as cinzas .

- Ele é das antigas, heim? Amor por restos mortais é o fim!

- Por favor, não me faça ele se sentir mal!

- Como assim?

- Ele preserva valores seculares.

- Ah, tá... Mas quem disse que ele será meu passageiro?

- Cássia!

- 'Tô brincando! Você acha que eu iria perder a oportunidade de conhecer esse cara?

- Obrigado, Cássia!

- Obrigado? Você vai me pagar duas toneladas embarcadas por esse passageiro!

- Duas toneladas?

- Se não fosse o Doutor Silva, seriam treze, seu tratante! Avise-me da próxima vez!

- Está certo, minha delicada prestadora de serviços!

- Agora sim. Deixe-me trabalhar, Moura. Até a vista!

- Até a vista! - é desconectado por Cássia.

- Medéia, faz um favor? - chama-a da parte de cima da sala de navegação, que se aproxima.

- Diga, meu amor.

- Teremos um passageiro a bordo em quinze minutos. Pode o recepcionar
no portão?

- Claro que sim.

- Sabe quem é Doutor Elias Silva?

- (...) - permanece calada, mas com a boca escancarada e os olhos esbugalhados.

- O que foi?

- Meu Deus! - entra em euforia e dá saltinhos.

- Controle-se, amorzinho... Percebi que gosta de Física! - sorri. - Seja cuidadosa porque o marido dele acabou de morrer. Iremos o transportar para a colônia Alfa.

- 'Tá, desculpa! Serei cuidadosa. - compõe-se. - Estou indo.

Medéia desce até a sala de recepção, enquanto Milla recebe os módulos de desembarque no atracadouro. Assim que o portão se fecha, a ansiedade aflora em seu comportamento e mal vê o momento de encontrar o famoso físico. Senta-se, aguarda e, quando está distraída, pensando sobre o que falar, Doutor Elias Silva adentra a sala. A garota se levanta assustada e o recepciona:

- Seja bem vindo a bordo, Doutor Silva! Chamo-me Medéia.

- Muito obrigado, Senhorita. É um prazer. - beija-a na mão.

- Minhas condolências.

- Já sabes da fatalidade?

- Fui informada pela comandante da arca. Meus sinceros sentimentos.

- Nem poderei fazer nada por ele, pois foi morto em um assalto. É uma perda irreparável em minha vida.

- Eu entendo.

- Entendes?

- Perdi algumas pessoas queridas neste último ano, mas prefiro não falar sobre isso.

- Sem problema, Senhorita. Vamos às dependências?

- Vamos à sala de navegação, para lhe apresentar à comandante.

- Pois não. - enquanto seguem até o elevador.

- Sabe, eu sou uma grande admiradora do Doutor. Li tudo o que escreveu sobre vácuo quântico e propulsores a grávitons e fótons.

- É uma honra, Senhorita!

Susto


Doutor Silva chega à sala de navegação, acompanhado por Medéia, que o apresenta a Cássia:

- Doutor Silva, eis a comandante da arca.

- Bem vindo a bordo, Doutor Silva. - cumprimenta-o. - Estamos dispostas a ajudar no que for preciso para que seja uma viagem confortável.

- Fui informado que a viagem durará quatro dias. É correto?

- Sim, graças a tecnologia que o Doutor ajudou a desenvolver. - sorri. - Iremos viajar em velocidade de cruzeiro, devido a particularidade da sua visita. Do que necessita neste momento?

- Desejo higienizar-me para dormir um pouco, pois não consegui repousar no módulo de transferência.

- Irei providenciar. - diz Medéia.

- Por favor, amor meu, leve-o às dependências de hóspedes e escolha um bom dormitório. - pede Cássia. - Doutor, Medéia o mostrará as dependências.

- Pois não. Até a vista, comandante.

- Até a vista, Doutor.

Medéia estende a mão e o guia às dependências. Mostra alguns quartos até que o Doutor Silva escolhe o de sua preferência.

- Vai ficar bem, Doutor?

- Sim, minha querida.

- Se precisar encontrar alguma dependência na arca, utilize o monitor da porta; há informações sobre as áreas de acesso livre, como o refeitório, saguão e sala de jogos. Descanse. - cumprimenta-o.

- Obrigado e até a vista!

- Até a vista.

Doutor Silva se higieniza e deita para dormir, mas sente fome e resolve ir ao refeitório. No meio do caminho, assustado, encontra um velho amigo.

- Olá, Elias!

Jeremias


- Jeremias!

- Sim, sou eu. - sorri e o abraça.

- Senti saudades, meu querido! Onde estavas?

- Precisei me esconder, pois, aos últimos acontecimentos, não havia outra coisa a ser feita.

- Por que não me procuraste? Ajudar-te seria um prazer!

- Não pude, Elias; você sempre esteve cercado por câmeras.

- É verdade. O que há com a tua nuca?

- Machuquei-me quando entrei em um dos caixões que trouxe as ligas metálicas a bordo.

- Precisas ser medicado.

- É melhor que eu me esconda... Quem está a bordo desta arca?

- São duas Senhoritas e uma androide; não sei se podemos confiar a ciência de tua presença a bordo.

- Logo irão descobrir. - cambaleia e é amparado por Doutor Silva.

- Não estás bem, Jeremias! - tenta observar o ferimento da nunca com mais apreço. - Céus, aqui está muito escuro! Precisamos ir para uma dependência iluminada.

- Vamos, consigo ir sozinho. - dispensa a ajuda de Doutor Silva e consegue caminhar.

- Parado e com as mãos na cabeça! - grita Medéia, empunhando uma pistola.

Vítima da Caçada


Jeremias obedece imediatamente a ordem, mas Doutor Silva entra em pânico e implora:

- Senhorita Medéia, não!

- O que se passa aqui, Doutor? - questiona a garota.

- Ele é meu amigo! Ele é meu amigo!

- Como entrou aqui?

- Eu sou um fugitivo, Senhorita. - abaixa a cabeça e se ajoelha, imaginando que será executado em seguida.

- De quem foge, Senhor?

- Medéia, ele vai explicar se formos até a sala de navegação para conversar! - Doutor Silva tenta fazê-la abaixar a arma.

- Eu quero saber agora!

- Eu sou um indivíduo de neogênese que vivia em Marte; também sou amigo de Elias.

- Ora, pensei que só existissem indivíduos de neogênese do sexo feminino.

- Ele é a última geração de neogênese, que eu ajudei a desenvolver. - explica Doutor Silva.

- O Senhor?

- Sim, integrei-me ao projeto há três anos, em segredo. Por favor, não faça nada contra ele!

- Eu sei o meu lado.

- Espere, Senhorita Medéia!

- O meu lado é o das minhas matrizes.

- Como? - Jeremias, quase a entender.

- Também sou de neogênese... - coloca a pistola no coldre. - Levante-se e vamos à sala de navegação. - aproxima-se e dá a mão a Jeremias, para que se levante. - Maia, acorde.

- Sim, Medéia.

- Ligue para Cássia.

- Em curso.

- Era mesmo um clandestino, Medéia?

- Já ouviu falar em indivíduo de neogênese macho?

- Não.

- Parece que temos um a bordo.

- Como? O que está acontecendo aí?

- Espere que eu já chego.

- No aguardo. - desliga.

Medéia os conduz até a sala de navegação, onde Cássia aguarda ansiosa:

- Quem é ele? - argui Cássia.

- É um amigo meu, Senhorita. - responde Doutor Silva.

- E é de neogênese. - completa Medéia.

- Vocês estão brincando, não é?

- Não, sou de neogênese.

- Então me diga quem são as suas matrizes. - Cássia.

- Leonora 17A, Beatriz 45A, Alice 00A, Cíntia 09B e Geórgia 000C.

- Puta que o pariu! Você é filho de Alice e mais duas classe A? - Cássia, surpreendida.

- E também de uma das minhas mães... - Medéia, estatelada.

Biometria Completa


Todos olham estupefatos para Medéia, que, apesar da constatação, não esboça alegria por conhecer um irmão em um quinto.

- De qual das matrizes de Jerônimo és filha, Medéia? - Doutor Silva.

- Geórgia 000C. - desgostosa.

- Ei, você é a Medéia AAC? - Jerônimo.

- Sim, é ela! - Cássia. - Que coisa, heim?

- Pare com isso, Cássia! - Medéia.

- Você é minha irmã em um quinto!

- Acho que sim... Vamos ao ambulatório para tratar este ferimento.

- Não abraçarás o teu irmão, Senhorita? - pergunta Doutor Silva.

- Irei o ajudar a ir ao ambulatório.

Medéia carrega Jeremias, passando o braço do rapaz sobre o seu ombro, e os demais também seguem para o ambulatório. O silêncio da procissão é interrompido quando Medéia, após sentá-lo no leito e despi-lo, pede:

- Deite-se e permaneça quieto, pois farei uma biometria.

- Sim.

- Quieto. - saindo da área isolada, onde o leito se encontra.

- O que farás, Medéia? - Doutor Silva.

- Uma biometria completa, para verificar se há algum dano interno. - inicia a biometria, concluída em cinco minutos, e estranha. - Ele não tem implantes. Como pode ser um indivíduo de neogênese?

- Ele não tem memória auxiliar ou outros implantes porque tudo é substituído, ou melhor, é desprezado por correspondentes orgânicos.

- Como assim? - Cássia.

- Digamos que ele teria todos os opcionais, mas tais opcionais são parte do padrão que sai da fábrica.

- Homens sempre fazem analogias com veículos; isso é deprimente! - Medéia, sentindo-se subjugada. - Pode ser mais técnico, fale sobre o sistema de memória auxiliar.

- Não é um sistema de memória auxiliar, mas um sistema nervoso que, apesar de ser orgânico, pode se comunicar na linguagem de máquina. Jeremias possui tudo o que o seu modelo genético tem implantado; de modo orgânico, é claro.

- Eu tenho alguns adicionais orgânicos! - Medéia, irritada.

- Calma, meu amor! Você acaba de descobrir que não é mais a última grande coisa; eu sei como é isso. - brinca Cássia.

- Pare, Cássia! Vou dormir. - sai furiosa.

- Medéia! - Cássia chama sem sucesso.

- Achas que fui ofensivo a ela? - Doutor Silva.

- Não, Doutor, ela se acalmará! - consola-o e abre a porta da área isolada. - Jeremias, já que a sua irmã não quer passar o remedinho, a cunhada o fará. Não se meta a besta, viu?

Dura Realidade


Cássia limpa o ferimento da nuca de Jeremias e aplica o hipercoagulante. Pede-o para vestir-se e sai da área isolada.

- O hipercoagulante não era necessário, pois o seu metabolismo se encarrega da cicatrização. - explica o Doutor Silva.

- É melhor não facilitar. - sorri. - O que pretende fazer agora?

- Antes de encontrar o Jeremias, ia para o refeitório comer alguma coisa.

- Nossa, preciso comer algo também! - Jeremias, a sair da área isolada.

- Isso, coma alguma coisa! Doutor, sabe o caminho?

- Sim, eu sei.

- Então nos vemos mais tarde. Preciso conversar com Medéia.

- O que houve para ela sair subitamente? - questiona Jeremias.

- É coisa dela, deixa estar. Olha, sinta-se em casa e, a qualquer dúvida, contate-me através dos comunicadores espalhados pela arca.

- Muito obrigado, Cássia. - agradece Jeremias.

- Obrigado por cuidar do meu protegido, Cássia. - agradece Doutor Silva.

- Não há de que! Vão se alimentar, pois preciso ir. Até mais!

- Até mais! - Doutor Silva e Jeremias, em uníssono.

Cássia segue até o seu dormitório e, assim que entra, Medéia está sentada na cama, com os braços cruzados sobre os joelhos.

- Como está, meu amor?

- Bem.

- Não me parece... O que houve?

- Só um pouco chateada.

- O que lhe chateia?

- Sabe, percebo que vivia uma grande mentira... Enquanto fazíamos de tudo para parecermos especiais, muita coisa era mudada sem o menor conhecimento.

- Espere, não foi clara. Fala da neogênese?

- Sim.

- Medéia, a neogênese era um processo de evolução induzido; um dia iria acontecer! - aproximando-se.

- Do que diz? - levanta-se.

- Fomos condicionadas a nos sentir como a evolução da humanidade, mas, da mesma forma, seríamos postas como parte do passado. Você está viva e é isso que importa!

- Você não entende. - ameaça sair do dormitório, mas Cássia a segura pelo braço.

- Claro que eu entendo... Um dia também fiz parte de um topo evolutivo; hoje sou apenas feliz com o que faço.

- Olha, não estou me sentindo bem com isso. - chora.

- Dê tempo ao tempo, pois irá se acostumar com a ideia. - acaricia a sua face.

- Homens mais evoluídos do que mulheres... Onde já se viu isso? - esboça um sorriso.

- É o seu irmão e isso não importa. Seja homem ou mulher, nada dura para sempre... Aproveite este laço que o destino lhe deu.

- Vou tentar. - abraça-a.

As Intenções de Caetano


São Paulo, 4 de novembro de 2346.

- Bom dia, Professor Caetano! - Josué, estudante de Biologia e aluno de Caetano na USP.

- Bom dia, garoto! Como estamos?

- Estou drenando a célula criogênica para transportar o clone até câmara de animação.

- Quer implantar a memória?

- Seria uma honra!

- Honra? A pensar que a minha invenção para implante de cabelos nos deixará ricos, eu nos vejo como dois canalhas muito espertos! - sorri e dá um tapa nas costas do aluno.

- Sabe se a militar clonada já morreu?

- O meu vírus já deve ter apresentado efeitos. Creio que não passa de dois meses; ela e a sua namoradinha.

Sintoma


Após Cinturão de Asteroides, na rota de cruzamento das órbitas de Marte e Júpiter, 6 de novembro de 2346 do calendário gregoriano.

Cássia acorda e observa Medéia dormindo. Acaricia a face da namorada, levanta-se, veste-se e sai do dormitório em direção à sala de navegação. Assim que chega, encontra Jeremias a conversar com Milla.

- Olá, Jeremias! Como você está?

- Olá, Cássia! Conversava com a Milla sobre Ceres, o planeta anão do Cinturão de Asteróides... Não sabia que a sua androide possui tantas informações a respeito de astronomia.

- Ora, Milla é incomparável! (...) Sabe, preciso lhe dizer sobre Medéia.

- Ele está aborrecida comigo, não é? Eu quero pedir desculpas a vocês duas por estarem me transportando; sei que podem se complicar por isso.

- Não, não se preocupe com isso; também somos fugitivas, apenas melhor maquiadas! - sorri e é correspondida, mas sente uma dor nas têmporas e cambaleia.

- O que houve? - assustado, tenta segurá-la.

- Não se preocupe, é uma dor de cabeça que apareceu por esses dias. - restabelecendo-se.

- Você já fez uma biometria para verificar isto?

- Não é necessário, pois estou bem... - subitamente, cai desacordada.

- Cássia! - apoia a cabeça da moça em suas mãos. - Milla, avise Medéia que Cássia desmaiou e estou a levando para o ambulatório. - carregando-a nos braços.

Cinco minutos depois que Jeremias chega ao ambulatório com Cássia nos braços, a deitá-la no leito de biometria, Medéia entra desesperada.

- O que houve Jeremias?

- Ela desmaiou subitamente!

- Você deu alguma coisa pra ela?

- Não, nem usei o aparelho de biometria.

- Saia da sala, irei examiná-la.

Jeremias sai e Medéia inicia uma biometria que nada constata, portanto, pede a ajuda de Maia:

- Maia, acorde.

- Pois não, Medéia.

- Ligue para a emergência médica da transportadora contratante.

- Em curso.

- Emergência médica; o que deseja? - a atendente.

- Arca de identidade XF-A102 pede atendimento médico urgente.

- Qual a natureza da ocorrência?

- Comandante desacordada por motivo desconhecido.

- Enviaremos uma androide médica; aguarde para que a localizemos... - cinco segundos. - Acabam de ultrapassar o Cinturão de Asteroides na sua rota, portanto, o suporte médico chegará em duas horas, partindo da estação orbital Nova Caiena.

- Copiei e estou no aguardo. - desliga.

Diagnóstico


Medéia acompanha o estado inalterável de Cássia, enquanto envia dados atualizados de biometria para o endereço da emergência médica, a cada trinta minutos. Com atraso de vinte minutos, o módulo médico atraca na arca e Milla conduz a Doutora ao ambulatório, ajudando-a a carregar os seus paramentos.

- É a médica?

- Sim, sou eu. Chamo-me Keiko. - cumprimenta-a.

- Chamo-me Medéia. - cumprimenta-a. - Disseram-me que seria uma androide médica.

- A neogênese acaba de tomar a colônia Alfa, num contra-ataque surpresa. Muitos dos androides foram chamados para ocorrências naquelas localidades, então fui enviada.

- Contanto que a salve, não me importo.

- Pode me fazer um favor?

- Sim.

- Deixa-me sozinha com a paciente.

- Certo; estarei na sala de navegação.

- Quando puder, irei até lá para lhe informar do que se trata.

- Muito obrigada, Doutora Keiko. Estou no aguardo. - cumprimenta-a e sai.

Medéia aguarda inquieta por duradouras duas horas, acompanhada por Doutor Silva e Jeremias, até que a Doutora Keiko chega à sala de navegação.

- E então, Doutora? - pergunta Doutor Silva.

- Com o leitor biométrico que dispõem, nunca encontrariam a causa.

- E o que é? - Medéia.

- Cássia está em coma. Realizei alguns exames e encontrei um retrovírus de imunodeficiência humana que também sintetiza DNA no sistema nervoso. Para piorar, é mutante, sintético e abiogênico.

- Meu Deus... - assusta-se Doutor Silva.

- Espera... É uma cópia sintética do HIV? - Jerônimo.

- Se for SIDA, possui cura, não é? - Medéia.

- Não é AIDS, Medéia. Esse retrovírus não é catalogado e, por ser sintético, possui uma sequência pseudoaleatória de mutação que desconheço. Nunca vi nada igual, pois ataca os sistemas imunológico e nervoso.

- E o que podemos fazer? - Medéia, desesperando-se.

- Em Nova Caiena não há aparato necessário para tentarmos desenvolver uma vacina, portanto, creio que devamos arriscar na colônia Alfa, que está em crise. Além disso, vocês podem estar contaminados, como eu também, e precisaremos esperar por uma descontaminação antes de pisar na colônia. Preciso de amostras de sangue de todos.

Todos retiram sangue para o exame, concluído em quatro horas.

Como estamos, Doutora? - Jeremias.

- Não é a pior das previsões, mas também não é das melhores.

- Então diga, Doutora! - Medéia.

- O retrovírus sintético se propaga por meio aquoso e todos estamos contaminados, mas tem uma particularidade: só sintetiza DNA em células de duplo cromossomo X e com sequência de código definida.

- Mulheres predeterminadas? - Doutor Silva.

- Mulheres de neogênese. - Doutora Keiko.

Esclarecimentos


Todos permanecem em silêncio por algum segundo, num compasso lúgubre que é interrompido por Medéia.

- Doutora Keiko, eu posso explicar.

- Eu sei de muita coisa, até que só eu e o Doutor Silva não somos de neogênese. O que portador do código primordial está fazendo aqui? - irritada.

- Portador do que?

- Não se faça de desentendida!

- Ela não sabe, Doutora. - interrompe Doutor Silva.

- Não sei do que?

- Seu irmão é o único portador do código genético que faz parte do projeto de renovação da neogênese. Como sabe disto, Doutora?- Doutor Silva.

- Ele está em todos os telejornais como fugitivo... Em que universo estão vivendo?

- Eu já expliquei isso a todos. - afirma Jeremias.

- Mas não me explicou isso de ser portador de uma renovação da neogênese! - Medéia.

- Era preciso? O fato de ser um homem de neogênese não levanta uma suposição? - responde Jeremias.

- Eu quero que você vá a merda! Talvez tenha trazido essa porcaria de vírus a bordo! - Medéia.

- Vocês dois tenha calma! Vamos ser racionais e elaborar um plano de ação para sair desta situação! - Doutor Silva.

- Eu aconselho seguirmos a rota para a colônia Alfa e identificar os três indivíduos de neogênese a bordo. - Doutora Keiko.

- E se a aristocracia tiver perdido a batalha por lá? Estaremos mortos! - Medéia.

- Medéia, concordo com a Doutora Keiko... É um risco a se correr, mas a única alternativa viável. - Jeremias.

- Vou ficar no ambulatório com Cássia, então façam o que quiser! - saindo irritada. - Milla, o controle da arca é seu.

- Preciso descansar; irei para o meu quarto. Jeremias, podes levar a Doutora para um dos dormitórios vagos?

- Claro.

Jeremias vai até o ambulatório com Doutora Keiko para carregar a bagagem até dormitório. Medéia sequer olha para os dois, apenas permanece chorando ao lado de Cássia, em coma. Jeremias conduz a nova hóspede até o cômoda e, a exibi-lo, pergunta:

- Deseja alguma coisa mais, Doutora?

- Companhia seria muito bom. - sorri e desabotoa a blusa.

- Que tipo de companhia? - corresponde ao sorriso e se aproxima.

- A melhor que puder. - retira a blusa e busca por outra em suas bagagens. - Se puder dar mais um pouco, também aceito! - veste uma nova blusa, mas, antes que a abotoe, é apanhada por Jeremias pelos quadris.

Nova Geração


- Por favor, ligue-me com a General Alice. - Doutora Keiko.

- Coronel Leila? - atendente.

- Sim, é ela.

- Em curso.

- Coronel? - General Alice.

- General, a primeira fase da missão está completa. Eliminei o seu filho e o implante uterino clonou o DNA do sêmen com sucesso.

- Desintegrou os restos orgânicos de Jeremias?

- Sim, Senhora.

- Parabéns, Coronel Leila, gera a nova geração! Prossiga com o planejado e navegue com o módulo médico na rota para a colônia em Europa, daqui a quatro horas.

- Sim, Senhora. Obrigada, Senhora. Até a vista!

- Até a vista, Coronel! - desliga.

Surdina


Os sinais vitais de Cássia cessam e Medéia entra em pânico. Tenta reanimá-la sem sucesso, portanto, pede ajuda.

- Maia, acorde!

- Sim, Medéia.

- Conecte com a Milla.

- Em curso.

- Medéia, temos um problema! - Milla.

- Deixe pra depois. Qual o endereço de terminal do dormitório da Doutora?

- Esse é o problema, Medéia.

- Como?

- A Doutora partiu pouco antes de cortarmos a linha imaginária da órbita de Júpiter.

- O que aconteceu?

- Ela não informou, apenas partiu.

- Onde estão os outros?

- Doutor Silva está em seu dormitório, mas em baixa impedância. Não há sinais de Jeremias a bordo, nem registro de saída; a última marcação provém da entrada no quarto de Doutora Keiko.

- Cadela! - enraivecida.

- Como, Medéia?

- Não é contigo, Milla. - desliga e chuta a parede.

Medéia acaricia o rosto do cadáver de Cássia e o beija; sai do ambulatório em seguida. Caminha até o quarto de Doutor Silva e chama pelo interfone, mas sem resposta.

- Maia, conecte com a Milla.

- Em curso.

- Pois não, Medéia. - Milla.

- Abra a porta do quarto de Doutor Silva.

- Não é permitido invadir a privacidade dos tripulantes.

- Abre esse caralho, se não quiser virar ferro-velho! - irrita-se e é atendida.

Assim que entra, encontra Doutor Silva morto, degolado.

O Fim da Saga?


Medéia realiza uma busca por Jeremias através do sistema de segurança, portanto, assim que não o encontra, pede para Milla:

- Milla, envie o diário de bordo da arca para a transportadora contratante e para o Banco Livre de Informações Aeroespaciais; inclua todo os registros possíveis.

- Em curso... - cinco segundos. - Enviado.

- Irei para a câmara de hibernação e permanecerei em estado de animação suspensa, pois posso morrer antes de chegarmos ao nosso destino. Se os meus sinais vitais cessarem, entregue a carga e doe a arca à transportadora contratante.

- E se chegarmos?

- Desperte-me.

- Registrado.

- Adeus. - encaminhando-se ao dormitório.

(...)

- Tenente Medéia, acorde! - uma enfermeira.

- Onde estou?

- Colônia Alfa... O retrovírus foi expulso de seu organismo.

- Quero sair daqui!

- Ainda não pode, está se recuperando.

- Deixe-me sair daqui! - arranca os eletrodos e agulhas.

- Não, Tenente!

Medéia sai pela porta, mas se encontra em uma escadaria para uma sacada alta, sob a redoma do planeta artificial. Caminha até a sacada, paralisa-se por um momento, observando a realidade antes desconhecida a ela, e se arremessa no espaço.