quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Senhorita Marta

Enquanto sua mãe e tias choram contidamente à beira do caixão de seu pai, Marta pede uma dose de vodca para o garçom.

- Dona Marta, sua mãe me pediu para que não te servisse qualquer bebida alcoólica.

- Meu docinho, pra começo de conversa, sou maior de idade e Dona Zilda não manda na minha vida... Pega logo essa vodca, meu bem!

- Desculpe, Dona Marta, não posso desrespeitar as ordens de sua mãe.

- Faz o seguinte, diga onde está que eu mesma pego.

- A questão não é essa, Dona Marta, sua mãe deu ordens expressas a todos da copa para que a senhorita não se aproximasse das bebidas.

- Como? Quem ela acha que é?

- Desculpe, Dona Marta... Posso te fazer uma sugestão?

- Sim, faça, benzinho! - disfarçando um sorriso.

- Olha, o velório acaba de começar e todos ainda não te prestaram os pêsames; espera mais um pouco que eu posso te providenciar algo da copa.

- Quanto tempo?

- No máximo trinta minutos.

- Trinta minutos? Daqui até lá morri seca e esturricada!

- Posso te dar um refrigerante ou refresco para passar o tempo?

- Passar o tempo com refrigerante? Você é louco? Até parece!

- Dona Marta, eu te prometo que farei o possível.

- Faça o mais rápido, não o possível!

- Está certo, prometido.

- OK, meu lindinho, vou pra perto da velharada... Não me decepcione.

- Pode deixar, Dona Marta.

- Antes de ir, como se chama?

- Cleiton, seu criado.

- Você é uma gracinha, Cleiton, pena que sou tão tímida. - ajeitando a gravata do garçom, que sorri ruborizado.

- Pena que estou a trabalho, Dona Marta.

- Apenas Marta, docinho, ou Tatá, se quiser ser mais íntimo.

- Marta é mais confortável para mim.

- Quer conforto? Prefiro tensão.

- Tensão?

- Tensão, tesão ou nada de veadagens moralistas; você escolhe.

- Nossa, direta!

- Para que rodeios? Que andemos em linha reta!

- Concordo.

- Depois a gente brinca de pique-esconde no cemitério, tá?

- Dona Marta... Desculpe-me, Marta. Você deve estar pensando que sou um idiota, não é?

- Não me pergunte o que penso de você, gatinho. Seja divertido que eu te dou um pouco de diversão. - correndo o dedo indicador sobre a alça de seu curto vestido preto.

- O que considera diversão?

- Quando eu lhe der, irá saber o que é. - dá uma piscadela marota.

- Irei?

- Sim, irá. - coloca a mão esquerda sobre a cintura e segura o vestido, erguendo-o até quase exibir a virilha.

- Você surpreende.

- É só isso que consegue dizer?

- Na atual condição, sim.

- Na atual condição de falta de criatividade, irei chorar um pouco para tentar ganhar o Kikito de melhor atriz.

- Pois não, vou providenciar a vodca em breve.

- Espero. - desliza a mão direita sobre o braço do graçom até o seu abdôme, enquanto sai lentamente pela esquerda.

- Também esperarei.

- Nada perde por esperar. - já de costas.

- Tatá! - chorosa, Dona Zilda chama pela filha que caminha em sua direção. - Minha filha, fique aqui conosco.

- Mãe, já não está satisfeita em me ver aqui? Não me faça ficar plantada à beira do caixão.

- Filha, não faz assim! Seu pai sempre te amou, despeça-se com respeito.

- Estou fazendo o melhor que posso, não me peça mais do que quero te dar.

- Do que quer me dar? Marta, é o seu pai neste caixão!

- Ou o que restou desse porco.

- Marta!

- Zilda!

- Zilda, fique calma. - Nora, a única das cinco tias estarrecidas que toma uma atitude verbal. - Tatá, venha comigo, não precisa fazer o que não quer.

- Ela vai ficar aqui e e respeitar o pai; o marido que tanto devo! - com a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas, Zilda exige a presença da filha com o dedo em riste.

- Zilda, não vamos tornar a situação mais indelicada do que já está!

- Essa menina me enlouquece!

- Você me considera louca mesmo, vai ver é genético.

- Tatá, vamos!

- Maravilha, tia Nora... Vamos!

- Zilda, acalme-se que já volto.