sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Baú VI


Espera





Quererei o meu orgulho dirimido pelo toque
Das tuas mãos que se alimentam de instinto,
Pela voz que tenta acolher-me no teu cativeiro,
No fim da tua espera sem sossego em anos tenebrosos.










Eu, Megalomaníaca: um poema à hipocrisia





Sobreviver omissa importa quando o meu senhor
foi o realista que nos deu esta opulência,
Este monopólio ditatorial disfarçado de símbolo nacional,
Este recurso do poder que influencia sem querer.

Não rever o passado não é querer enterrá-lo,
Pois precisamos de ídolos - mesmo que calhordas -
E dignidade nos livros de história - mesmo que absurda -.

O meu passado não merece a mancha imoral,
A catástrofe colossal da mesquinharia
E a canalhice calculista sob as alianças,
Portanto, nego o meu pranto.










Antes do Fim





Você simula o medo, mas não desconfio,
E traz ao meu desejo um doce calafrio
(Eu já me rendi na última estação,
Mas não me percebi presa a uma ilusão).

Você usa meus versos pra pintar o mundo
E os transforma em verdade em menos de um segundo,
Portanto, não dispenso este seu retoque
Que julga o que sinto pra que provoque

O que eu nunca vi,
Porém, sinto que está sempre por mim
(...)
O que eu nunca vi,
Porém, dá-me o que pensa antes do fim.










Pare de Adiar Seu Corpo





O que é belo sempre tem seus nomes,
Mesmo que custe um pouco de fome
Para os servos da abstração
Estampada na televisão.

O que é belo sempre tem a forma
Que estabelece a sua própria norma
Em mil estrelas, cores e escravos-
Seja perfeito pra que seja salvo!

Vestimos marcas para ser e poder
Ou, pelo menos, para parecer
Tão notórios quanto o intocável,
Tão incríveis quanto o insaciável.

Diga-me o que lhe conforta:
O que há atrás da sua porta?
Quem é o juiz da sua vida?
Cadê o amor que lhe abriga?

A beleza que imagina é pouco...
Pare de odiar seu corpo!
Cuspa o padrão que nos deixa loucos...
Pare de adiar seu corpo!
Reaja a este mundo torto...
Pare de odiar seu corpo!
Não se venda ao que já está pronto...
Pare de adiar seu corpo!

Pare de odiar seu corpo!
Pare de adiar seu corpo!
Pare de odiar seu corpo!
Pare de adiar seu corpo!

O que é belo segue a sua regra,
Mesmo que seja uma verdade cega
Em folhetins, revistas e jornais;
Uma moldura pra sermos normais.

O que é belo se propõe sem luta,
Como se fosse uma prostituta
Patrocinada por um ditador
E erotizada pelo terror.

Maquiados pela cor da morte
Ou bronzeados pela pouca sorte,
Lá vamos nós em nosso devaneio
(Chegar ao topo indo pelo meio).

Qual é o peso que te satisfaz?
O que deseja nos dias normais?
Quem é a pessoa que você acredita?
Qual é a imagem que você imita?

A beleza que imagina é pouco...
Pare de odiar seu corpo!
Cuspa o padrão que nos deixa loucos...
Pare de adiar seu corpo!
Reaja a este mundo torto...
Pare de odiar seu corpo!
Não se venda ao que já está pronto...
Pare de adiar seu corpo!

Pare de odiar seu corpo!
Pare de adiar seu corpo!
Pare de odiar seu corpo!
Pare de adiar seu corpo!










Desvario





Dum deserto menos árido que o seu humor,
Percebi como a vida se proclama na secura do solo
Em conservação da umidade escassa
E preservação da fragilidade casta.

Não pertenço ao mar que aconteceu e se extinguiu aqui,
Entretanto sou parte da mudança que questiona este valor;
Para sempre é muito quando queremos a natureza descoberta,
Pois o que brota nesta petrificação não nos faz merecedores.

Assim te crio,
Pérfida como o meu desvario.










Treva e Solidão





O que a praia me disse, compreendo com o tempo
Na voz esganada por um milagre descrente.
Postergo a vida em horas de dedicação ao impreciso,
A desalinhar cores que nunca perceberás.

Esta alma ultrajada não diz mais do que da morte
De tudo que se desfaz no barulho estalado de um beijo passado,
Entretanto, hoje não me pede o passado.

Corre livre este medo,
A divergir sem amplitude plausível-
Quiçá a treva se descubra de minha solidão nesta noite.










O Fado e a Mulher





A ânsia que desconforta esses dias
É o destempero de nossas lembranças,
Recordações de outrora sonhadora
Que sangra na tragédia de um fado português.

Um choro cantado é mais sublime na voz de uma mulher,
Um delírio acompanhado de saudade e decepção;
Seja Dulce Pontes, Cristina Branco ou Amália Rodrigues,
Mariza, Ana Moura ou Mafalda Arnauth,
Mísia, Katia Guerreiro ou Maria Teresa de Noronha
Será o canto de uma deusa aprisionada no inferno de viver.










Eu Sou





Não evoluo, eu sou *
Na máscara de um ator
Que esquece de seu personagem no instante final.

Não imagino, eu vi
Seus olhos quando me perdi
Calado neste absurdo nada intencional.

* Pablo Picasso










Que Guerra?





À margem do que me impede de cantar,
Assisti o seu batalhão de anti-heróis marchar sobre as minhas lágrimas-
É novembro, meu amor,
E não consigo encontrar prazer nos seus olhos.

Seu arsenal sofisticado é uma ironia aos seus atos,
Pois o preço desta guerra não vale o resultado;
Que guerra vale?










A Praga





Assim como num espelho,
Vi a minha inveja em você,
Portanto, coloquei-te de joelhos
Sem que pudesse perceber.

Conheço a fio esta praga
E sei moldá-la em natura
Com a persuasão de uma chaga
Ou a beleza de uma jura.

Desperto o teu consentimento
Na silhueta de uma ira,
Um pobre gesto ciumento
Para que sem dor te fira.










À Sombra de Sun Tzu





Desperta o rubro em tua pele e não há o indício,
As flores que matei para imprecionar-te foi um desperdício!
Sobre a tua calma, nada tenho a dizer;
Talvez fui tolo o bastante para acreditar no que criei sem o teu amor.

Queimo as minhas bandeiras por prazer,
Ou por um ódio que não consigo controlar e perceber,
Mas me rendo à intempérie que se forma neste próximo firmamento.

Não mais prometo,
Pois não há tentação que me convença por hoje.
Não mais prometo,
Contudo desejo que seja derrotada sem combate.










Matemática





Cores,
Tons,
Períodos,
Espaços e números...

A arte em cálculos
Submersos na abstração.










Máscara





Dispo-me de mim mesmo para falar do que não sou,
Sabendo que a verdade é o esforço de um ator
Que teme o fracasso em plurais desgovernados
E em composições frias de um outono passado.










Imundície





Se não poderia ser assim, já foi-
Nada apresenta valia quando meus olhos parecem cegar-se.
Não percebo mais a imundície desta sala,
Muito menos aquilo que maquiou em tratamentos fotográficos;
Assinaturas, versos e prosas que precisei converter a áudio
(Doses de freqüências para causar euforia e concentração).

Posso usar o verso que me resta para agradar,
Porém me rendo mais do que entristeço
Neste drama de quinta para nos trazer abrigo...
Quem de nós merece a marca de destreza?

Traio-lhe por espaço e tempo de calmaria
Porque estou distante de minhas raízes.
Expulso-lhe por um párnaso que se propõe amargo
E só desperta quando decantado.










Espelhos Convexos





Por que concorrer?
Talvez por um impulso de vaidade
Ou por uma instigação de liberdade,
Mas não me senti mal por isso.

Sim, eu odeio alinhamentos,
Este é o meu conceito;
Tudo o que parece direito se estabelece fora do lugar depois de um segundo,
Comporta-se imutável diante da dinâmica do mundo.

Espelhos convexos para dizer o que sinto,
A composta distorção para o que virtualmente pinto.










Honra e Segredos





Se honra pagasse as contas, eu seria uma prostituta
Para guardar todos os segredos de quase a metade da população.










O Diálogo




Tentou uma verborragia qualquer,
Uma maneira para se dispor,
Mas recaiu no quinto ato.

(...)

Plagiou uma proporção que não mais se comporta,
Um líbero contratempo para a tormenta,
Portanto, sofreu mais do que de costume.

(...)

O que me faz sentir assim é o disfarce,
A perturbação por relacionar-me com um disfarce
E não entender a completude que isso me dá.

(...)

Continuarei a abster-me destas resoluções
Para que não me conceda culpa ou responsabilidade,
Entretanto estarei aqui para uma carícia que lhe desarme.











Regressão





Machucada e violada,
Regina se arrastou até o acostamento da rodovia,
Mas quando chegou era muito tarde.

Atacada e violentada,
Regina recuou de suas utilidades e da alegria
Para defender-se da torpe iniqüidade.

Sorridente e distraída,
Regina criticou as massas com doce ironia,
Todavia não percebeu a maldade.










A Melhor Forma





A melhor forma que encontrei foi a substituição temporária:
De um cromossomo (virtual),
De um toque (sensorial),
De um querer (sensitivo),
De um amor (apelativo).

A melhor forma contra qualquer preconceito ou discriminação;
Brio sujeito à revisão.

A melhor forma para enfraquecer o alterego-
Mediocridade exposta à revelação.

Eu mesmo sou tão imponente e singular que sou patético
Quando me analiso,
Assim que me separo,
No momento em que me considero raro.










Do Idealismo





No meu exercício do consentimento
Não percebi que precisava esquecer
Estas penúrias mortais marcadas na pedra,
Imortalizadas até o fim da humanidade.

As minhas guerras heréticas dizimaram o meu pranto,
Retiraram por completo a compaixão que tanto preciso;
Meus iguais jazem sem paz num buraco qualquer,
Esquecidos na podridão enlameada dum buraco qualquer.

Lutei por dias melhores,
Pela minha dignidade,
Mas não contemplei a beleza da mudança-
Agora vivo do esgoto daqueles que combati,
A tentar destruir o mundo modificado que pertenci.

Conduzir às últimas conseqüências foi um delírio,
O maldito estopim para o meu martírio:
Liderei um exército de idealistas para os nossos filhos,
Contudo, nenhum dos mesmos reviu os pais.










Intempérie





Da luta contra o tempo
E contra as feridas que surgem pelo ócio,
Tento compor qualquer caminho que provoque esquecimento.

Parei para ouvir as concepções que consideram vanguarda,
Mas pareceram uma mistura de antigas coisas novas.










Pétalas Velhas





Um canto a mais por sofrermos em demasia,
Por querermos estar além de nossa mediocridade.
Um círculo frio por sermos traidores,
Para sermos devorados por Lúcifer com o tato aguçado.

Eu te vejo passar e não guardo memórias,
Abandono-as até que sejam esfareladas pela ação natural
Ou rasgadas por uma criança após cansar do seu barco de papel...
Aonde iremos neste distanciamento geométrico?

Digo de pétalas velhas,
Destacadas das flores (já não mais flores),
Quase absorvidas pela terra,
Esturricadas e humificadas para novas cadeias de cores...
Dizer de morte seria muito egoísmo.










A Vagar Pela Tua Praga





Será onde o seu medo imagina,
Pois a angústia será a sua sina
Afundada neste mar de dúvidas,
Golpeada pelo andor de súplicas.

Saberá que não possuo cores,
Meus mortos não apoiam flores,
O meu Deus somos todos nós
E jamais repousaremos sós.

Se cada kanji me trará uma peste,
Manterei o meu espírito cafajeste
A vagar sem rumo no semi-árido,
A cortar de seco o meu rosto pálido.










Duas Visões





Pela fresta da porta provem um dardo de luz que corta o meu peito,
Destila o ódio que me pede por uma vingança branca,
Suporta a respiração que pretende parar mais uma vez.

Pelas ranhuras da parede mergulho num ambiente ilusório,
Repleto de brumas hora brilhantes, hora obscuras-
Quem sabe possa descobrir onde se esconde a minha ânsia.










Distância





Deixei o seu gesto de lado para esperar o inverno;
É uma pena que só por hoje está distante.
Deixei os meus versos castigados por paixão;
É incrível que se distanciou por tão pouco.










Indiferença





Ele abriu a porta e,
quando adentrou a sala,
prostrou-se à janela a abrí-la e fechá-la num movimento obsessivo e compulsivo.

Disse de coisas do passado
- claramente irritado -
e fez perguntas sobre tal outrora...
Mal respondi (poucas palavras),
ou só quis livrar a alma do ressentimento rapidamente.

Depois de esclarecido (obscuro esclarecimento),
pareceu satisfeito e se foi...
Bem que tentei imaginar que queria brechas no meu discurso,
mas me pareceu apenas indiferente.










A Ganância de Meu Filho





Por que definir meu sentimento a partir destas booleanas insensíveis?
Meu corpo pode sucumbir,
Mas meu espírito jamais,
Pois este é livre e é composto de natureza.

Não pretendo paritr para esta construção de valores pela paz,
Porque o norte subjetivo em seu discurso não é o meu amor
E a sorte sugerida pelo que ouço nos cochichos do poder não é a minha paixão.

Alimenta-se do meu seio de mãe sozinha
Para tentar assassinar-me quando não lhe for útil,
Entretanto rogo pela indulgência de todos os santos
Àqueles que crêem na sua regência.

Cresça,
Torne-se homem para, enfim,
Matar-me na ganância que lhe cabe.










Égide Para a Decepção





Calei a boca,
Vesti a roupa,
Paguei a puta,
Voltei pra casa,
Bebi cachaça,
Sequei a garrafa,
Tentei um livro,
Joguei de lado,
Gofei no piso,
Limpei o chão,
Tomei um banho,
Sequei o corpo,
Deitei pelado,
Liguei a tevê
E troquei os canais indefinidamente até desmaiar de cansaço.










Gisele





Talvez eu só queira dizer que é linda,
Tão linda que me hipnotiza através de fotografias
(...)
Mas desejo falar bem mais,
Fazer bem mais,
Voar mais alto do que esta linha sobre a terra.

Talvez esteja apenas em mais um encanto passageiro;
Mas que encanto dura a eternidade?
Que realidade menos dura não merece ser encantada?










Escória





Só veio aqui pra passar o pano
Adiando os seus loucos planos
Só está aqui pra me convencer
Que preciso muito de você

O bolor está nos lençóis
E todos nós nos anzóis
O sorriso foi dissimulado
E os ladrões crucificados

A intenção é me apaixonar
Por aquilo que te faz gozar
Mas são de trevas a esperança
Uma aliança feita entre crianças

Vai pra agulha a derradeira bala
Um mecanismo para quem se cala
Ou quem não fala por não entender
O organismo de satisfazer

Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!

Amarro os pulsos com a ilusão
Denuncio a minha contradição
Grito a dizer de onde nascemos
E de quais influências recorremos

Quando morro em seu ventre
Não há o que me concentre
Quando você fode a minha mente
Nasce uma frieza que ninguém sente

Com uma flecha no calcanhar
Pude entender o que quis falar
Durante triste noite chuvosa
Em que te dei a última rosa

Assim que pensei estar imune
De todo o terror que me pune
Acusei a sua boca sem a certeza
Que provaria o mal e a impureza

Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!