domingo, 28 de outubro de 2007

Cinza sobre Branco

Lá está ela, a beleza brejeira que Joaquim havia visto na convenção de webdesign da semana passada. A rapariga ruiva chegou a visitar o balcão de programas de código aberto, onde o moço expunha um medíocre conversor de formato para arquivos de imagem - seu trabalho de conclusão do curso de Ciências da Computação -, mas a moça sequer se interessou por aquela quinquilharia digital, pois haviam modernas suítes gráficas que melhor chamavam a atenção dos visitantes, ademais, ela não se prendeu por muito tempo ao universo do 'software livre' e logo se dirigiu ao balcão da Adobe. Enquanto a garota ouvia explicações sobre a a nova versão do Creative Suite, Joaquim a observava sua face através do espelho nos fundos da galeria.

A loja de música está cheia e o varão toma coragem para apresentar-se à sua preterida. Aproxima-se sem jeito, observando-a buscar por algum título na prateleira, e comenta:

- Olá!

A garota volve a cabeça em sua direção e ele percebe os magníficos olhos verdes, brilhantes.

- Oi... - responde desajeitada, perdida em sua busca, e retoma - Você trabalha aqui?

- Não.

- Mesmo assim, pode me ajudar? - sorrindo com explendor.

- Claro que sim! O que precisa?

- Estou procurando o novo do Linkin Park.

- Gosta de Linkin Park?

- Sim, gosto muito! - sorri novamente, a desmontar as barreiras de Joaquim.

- Antes que eu te ajude, como se chama?

- Ah, me desculpe! Me chamo Andreza.

- Joaquim. É um prazer, Andreza. - beija-a no rosto a desejar que dure uma eternidade.

- Então, me ajuda?

- Sim, posso te ajudar, mas não prometo ser de grande valia.

- Por que?

- Não conheço muito o Linkin Park.

- Oh, me desculpe... Com essa camisa preta pensei que gostasse de New Metal.

- Mas eu gosto! - sorrindo.

- Que banda prefere?

- Eu prefiro Rage Against The Machine... Sou mais social do que capital.

Para Andreza, soou como um clichê pseudo-intelectual.

- Hum, quer dizer que é socialista?

- Não necessariamente... Gosto de conteúdo nas letras.

- Do you speak english?

- Yes, I do. - com o sotaque de um cubano que acabou de atravessar o Golfo do México numa balsa.

- Sabe, plagiando a Marisa Monte, eu gosto de um barulhinho bom.

- Marisa Monte é fantástica!

- Por que?

- Como assim?

- Por que a acha fantástica?

- Por que é MPB.

- Só por ser MPB não quer dizer que é bom.

- É verdade.

- Por que?

- Talvez, simplesmente gosto.

- Que música?

- Ah, eu não me lembro de cabeça... Comprei aquele CD dos tribalistas.

- Ah, 'tá... Vai me ajudar?

Um vendedor da loja se aproxima.

- Estão precisando de ajuda?

- Eu 'tô querendo o novo do Linkin Park.

- Nossa, Senhorita, só daqui a dois dias... Houve um atraso do fornecedor.

- Ah, 'tá. Obrigado!

- Disponha sempre. Mais alguma coisa?

- Não, muito obrigado! Vou indo.

- Perdão pela inconveniência.

- Que nada... Tchau!

- Andreza. - Joaquim.

- Oh, havia me esquecido!

- E aí, podemos nos falar uma outra vez?

- Não, lindinho.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Baú VI


Espera





Quererei o meu orgulho dirimido pelo toque
Das tuas mãos que se alimentam de instinto,
Pela voz que tenta acolher-me no teu cativeiro,
No fim da tua espera sem sossego em anos tenebrosos.










Eu, Megalomaníaca: um poema à hipocrisia





Sobreviver omissa importa quando o meu senhor
foi o realista que nos deu esta opulência,
Este monopólio ditatorial disfarçado de símbolo nacional,
Este recurso do poder que influencia sem querer.

Não rever o passado não é querer enterrá-lo,
Pois precisamos de ídolos - mesmo que calhordas -
E dignidade nos livros de história - mesmo que absurda -.

O meu passado não merece a mancha imoral,
A catástrofe colossal da mesquinharia
E a canalhice calculista sob as alianças,
Portanto, nego o meu pranto.










Antes do Fim





Você simula o medo, mas não desconfio,
E traz ao meu desejo um doce calafrio
(Eu já me rendi na última estação,
Mas não me percebi presa a uma ilusão).

Você usa meus versos pra pintar o mundo
E os transforma em verdade em menos de um segundo,
Portanto, não dispenso este seu retoque
Que julga o que sinto pra que provoque

O que eu nunca vi,
Porém, sinto que está sempre por mim
(...)
O que eu nunca vi,
Porém, dá-me o que pensa antes do fim.










Pare de Adiar Seu Corpo





O que é belo sempre tem seus nomes,
Mesmo que custe um pouco de fome
Para os servos da abstração
Estampada na televisão.

O que é belo sempre tem a forma
Que estabelece a sua própria norma
Em mil estrelas, cores e escravos-
Seja perfeito pra que seja salvo!

Vestimos marcas para ser e poder
Ou, pelo menos, para parecer
Tão notórios quanto o intocável,
Tão incríveis quanto o insaciável.

Diga-me o que lhe conforta:
O que há atrás da sua porta?
Quem é o juiz da sua vida?
Cadê o amor que lhe abriga?

A beleza que imagina é pouco...
Pare de odiar seu corpo!
Cuspa o padrão que nos deixa loucos...
Pare de adiar seu corpo!
Reaja a este mundo torto...
Pare de odiar seu corpo!
Não se venda ao que já está pronto...
Pare de adiar seu corpo!

Pare de odiar seu corpo!
Pare de adiar seu corpo!
Pare de odiar seu corpo!
Pare de adiar seu corpo!

O que é belo segue a sua regra,
Mesmo que seja uma verdade cega
Em folhetins, revistas e jornais;
Uma moldura pra sermos normais.

O que é belo se propõe sem luta,
Como se fosse uma prostituta
Patrocinada por um ditador
E erotizada pelo terror.

Maquiados pela cor da morte
Ou bronzeados pela pouca sorte,
Lá vamos nós em nosso devaneio
(Chegar ao topo indo pelo meio).

Qual é o peso que te satisfaz?
O que deseja nos dias normais?
Quem é a pessoa que você acredita?
Qual é a imagem que você imita?

A beleza que imagina é pouco...
Pare de odiar seu corpo!
Cuspa o padrão que nos deixa loucos...
Pare de adiar seu corpo!
Reaja a este mundo torto...
Pare de odiar seu corpo!
Não se venda ao que já está pronto...
Pare de adiar seu corpo!

Pare de odiar seu corpo!
Pare de adiar seu corpo!
Pare de odiar seu corpo!
Pare de adiar seu corpo!










Desvario





Dum deserto menos árido que o seu humor,
Percebi como a vida se proclama na secura do solo
Em conservação da umidade escassa
E preservação da fragilidade casta.

Não pertenço ao mar que aconteceu e se extinguiu aqui,
Entretanto sou parte da mudança que questiona este valor;
Para sempre é muito quando queremos a natureza descoberta,
Pois o que brota nesta petrificação não nos faz merecedores.

Assim te crio,
Pérfida como o meu desvario.










Treva e Solidão





O que a praia me disse, compreendo com o tempo
Na voz esganada por um milagre descrente.
Postergo a vida em horas de dedicação ao impreciso,
A desalinhar cores que nunca perceberás.

Esta alma ultrajada não diz mais do que da morte
De tudo que se desfaz no barulho estalado de um beijo passado,
Entretanto, hoje não me pede o passado.

Corre livre este medo,
A divergir sem amplitude plausível-
Quiçá a treva se descubra de minha solidão nesta noite.










O Fado e a Mulher





A ânsia que desconforta esses dias
É o destempero de nossas lembranças,
Recordações de outrora sonhadora
Que sangra na tragédia de um fado português.

Um choro cantado é mais sublime na voz de uma mulher,
Um delírio acompanhado de saudade e decepção;
Seja Dulce Pontes, Cristina Branco ou Amália Rodrigues,
Mariza, Ana Moura ou Mafalda Arnauth,
Mísia, Katia Guerreiro ou Maria Teresa de Noronha
Será o canto de uma deusa aprisionada no inferno de viver.










Eu Sou





Não evoluo, eu sou *
Na máscara de um ator
Que esquece de seu personagem no instante final.

Não imagino, eu vi
Seus olhos quando me perdi
Calado neste absurdo nada intencional.

* Pablo Picasso










Que Guerra?





À margem do que me impede de cantar,
Assisti o seu batalhão de anti-heróis marchar sobre as minhas lágrimas-
É novembro, meu amor,
E não consigo encontrar prazer nos seus olhos.

Seu arsenal sofisticado é uma ironia aos seus atos,
Pois o preço desta guerra não vale o resultado;
Que guerra vale?










A Praga





Assim como num espelho,
Vi a minha inveja em você,
Portanto, coloquei-te de joelhos
Sem que pudesse perceber.

Conheço a fio esta praga
E sei moldá-la em natura
Com a persuasão de uma chaga
Ou a beleza de uma jura.

Desperto o teu consentimento
Na silhueta de uma ira,
Um pobre gesto ciumento
Para que sem dor te fira.










À Sombra de Sun Tzu





Desperta o rubro em tua pele e não há o indício,
As flores que matei para imprecionar-te foi um desperdício!
Sobre a tua calma, nada tenho a dizer;
Talvez fui tolo o bastante para acreditar no que criei sem o teu amor.

Queimo as minhas bandeiras por prazer,
Ou por um ódio que não consigo controlar e perceber,
Mas me rendo à intempérie que se forma neste próximo firmamento.

Não mais prometo,
Pois não há tentação que me convença por hoje.
Não mais prometo,
Contudo desejo que seja derrotada sem combate.










Matemática





Cores,
Tons,
Períodos,
Espaços e números...

A arte em cálculos
Submersos na abstração.










Máscara





Dispo-me de mim mesmo para falar do que não sou,
Sabendo que a verdade é o esforço de um ator
Que teme o fracasso em plurais desgovernados
E em composições frias de um outono passado.










Imundície





Se não poderia ser assim, já foi-
Nada apresenta valia quando meus olhos parecem cegar-se.
Não percebo mais a imundície desta sala,
Muito menos aquilo que maquiou em tratamentos fotográficos;
Assinaturas, versos e prosas que precisei converter a áudio
(Doses de freqüências para causar euforia e concentração).

Posso usar o verso que me resta para agradar,
Porém me rendo mais do que entristeço
Neste drama de quinta para nos trazer abrigo...
Quem de nós merece a marca de destreza?

Traio-lhe por espaço e tempo de calmaria
Porque estou distante de minhas raízes.
Expulso-lhe por um párnaso que se propõe amargo
E só desperta quando decantado.










Espelhos Convexos





Por que concorrer?
Talvez por um impulso de vaidade
Ou por uma instigação de liberdade,
Mas não me senti mal por isso.

Sim, eu odeio alinhamentos,
Este é o meu conceito;
Tudo o que parece direito se estabelece fora do lugar depois de um segundo,
Comporta-se imutável diante da dinâmica do mundo.

Espelhos convexos para dizer o que sinto,
A composta distorção para o que virtualmente pinto.










Honra e Segredos





Se honra pagasse as contas, eu seria uma prostituta
Para guardar todos os segredos de quase a metade da população.










O Diálogo




Tentou uma verborragia qualquer,
Uma maneira para se dispor,
Mas recaiu no quinto ato.

(...)

Plagiou uma proporção que não mais se comporta,
Um líbero contratempo para a tormenta,
Portanto, sofreu mais do que de costume.

(...)

O que me faz sentir assim é o disfarce,
A perturbação por relacionar-me com um disfarce
E não entender a completude que isso me dá.

(...)

Continuarei a abster-me destas resoluções
Para que não me conceda culpa ou responsabilidade,
Entretanto estarei aqui para uma carícia que lhe desarme.











Regressão





Machucada e violada,
Regina se arrastou até o acostamento da rodovia,
Mas quando chegou era muito tarde.

Atacada e violentada,
Regina recuou de suas utilidades e da alegria
Para defender-se da torpe iniqüidade.

Sorridente e distraída,
Regina criticou as massas com doce ironia,
Todavia não percebeu a maldade.










A Melhor Forma





A melhor forma que encontrei foi a substituição temporária:
De um cromossomo (virtual),
De um toque (sensorial),
De um querer (sensitivo),
De um amor (apelativo).

A melhor forma contra qualquer preconceito ou discriminação;
Brio sujeito à revisão.

A melhor forma para enfraquecer o alterego-
Mediocridade exposta à revelação.

Eu mesmo sou tão imponente e singular que sou patético
Quando me analiso,
Assim que me separo,
No momento em que me considero raro.










Do Idealismo





No meu exercício do consentimento
Não percebi que precisava esquecer
Estas penúrias mortais marcadas na pedra,
Imortalizadas até o fim da humanidade.

As minhas guerras heréticas dizimaram o meu pranto,
Retiraram por completo a compaixão que tanto preciso;
Meus iguais jazem sem paz num buraco qualquer,
Esquecidos na podridão enlameada dum buraco qualquer.

Lutei por dias melhores,
Pela minha dignidade,
Mas não contemplei a beleza da mudança-
Agora vivo do esgoto daqueles que combati,
A tentar destruir o mundo modificado que pertenci.

Conduzir às últimas conseqüências foi um delírio,
O maldito estopim para o meu martírio:
Liderei um exército de idealistas para os nossos filhos,
Contudo, nenhum dos mesmos reviu os pais.










Intempérie





Da luta contra o tempo
E contra as feridas que surgem pelo ócio,
Tento compor qualquer caminho que provoque esquecimento.

Parei para ouvir as concepções que consideram vanguarda,
Mas pareceram uma mistura de antigas coisas novas.










Pétalas Velhas





Um canto a mais por sofrermos em demasia,
Por querermos estar além de nossa mediocridade.
Um círculo frio por sermos traidores,
Para sermos devorados por Lúcifer com o tato aguçado.

Eu te vejo passar e não guardo memórias,
Abandono-as até que sejam esfareladas pela ação natural
Ou rasgadas por uma criança após cansar do seu barco de papel...
Aonde iremos neste distanciamento geométrico?

Digo de pétalas velhas,
Destacadas das flores (já não mais flores),
Quase absorvidas pela terra,
Esturricadas e humificadas para novas cadeias de cores...
Dizer de morte seria muito egoísmo.










A Vagar Pela Tua Praga





Será onde o seu medo imagina,
Pois a angústia será a sua sina
Afundada neste mar de dúvidas,
Golpeada pelo andor de súplicas.

Saberá que não possuo cores,
Meus mortos não apoiam flores,
O meu Deus somos todos nós
E jamais repousaremos sós.

Se cada kanji me trará uma peste,
Manterei o meu espírito cafajeste
A vagar sem rumo no semi-árido,
A cortar de seco o meu rosto pálido.










Duas Visões





Pela fresta da porta provem um dardo de luz que corta o meu peito,
Destila o ódio que me pede por uma vingança branca,
Suporta a respiração que pretende parar mais uma vez.

Pelas ranhuras da parede mergulho num ambiente ilusório,
Repleto de brumas hora brilhantes, hora obscuras-
Quem sabe possa descobrir onde se esconde a minha ânsia.










Distância





Deixei o seu gesto de lado para esperar o inverno;
É uma pena que só por hoje está distante.
Deixei os meus versos castigados por paixão;
É incrível que se distanciou por tão pouco.










Indiferença





Ele abriu a porta e,
quando adentrou a sala,
prostrou-se à janela a abrí-la e fechá-la num movimento obsessivo e compulsivo.

Disse de coisas do passado
- claramente irritado -
e fez perguntas sobre tal outrora...
Mal respondi (poucas palavras),
ou só quis livrar a alma do ressentimento rapidamente.

Depois de esclarecido (obscuro esclarecimento),
pareceu satisfeito e se foi...
Bem que tentei imaginar que queria brechas no meu discurso,
mas me pareceu apenas indiferente.










A Ganância de Meu Filho





Por que definir meu sentimento a partir destas booleanas insensíveis?
Meu corpo pode sucumbir,
Mas meu espírito jamais,
Pois este é livre e é composto de natureza.

Não pretendo paritr para esta construção de valores pela paz,
Porque o norte subjetivo em seu discurso não é o meu amor
E a sorte sugerida pelo que ouço nos cochichos do poder não é a minha paixão.

Alimenta-se do meu seio de mãe sozinha
Para tentar assassinar-me quando não lhe for útil,
Entretanto rogo pela indulgência de todos os santos
Àqueles que crêem na sua regência.

Cresça,
Torne-se homem para, enfim,
Matar-me na ganância que lhe cabe.










Égide Para a Decepção





Calei a boca,
Vesti a roupa,
Paguei a puta,
Voltei pra casa,
Bebi cachaça,
Sequei a garrafa,
Tentei um livro,
Joguei de lado,
Gofei no piso,
Limpei o chão,
Tomei um banho,
Sequei o corpo,
Deitei pelado,
Liguei a tevê
E troquei os canais indefinidamente até desmaiar de cansaço.










Gisele





Talvez eu só queira dizer que é linda,
Tão linda que me hipnotiza através de fotografias
(...)
Mas desejo falar bem mais,
Fazer bem mais,
Voar mais alto do que esta linha sobre a terra.

Talvez esteja apenas em mais um encanto passageiro;
Mas que encanto dura a eternidade?
Que realidade menos dura não merece ser encantada?










Escória





Só veio aqui pra passar o pano
Adiando os seus loucos planos
Só está aqui pra me convencer
Que preciso muito de você

O bolor está nos lençóis
E todos nós nos anzóis
O sorriso foi dissimulado
E os ladrões crucificados

A intenção é me apaixonar
Por aquilo que te faz gozar
Mas são de trevas a esperança
Uma aliança feita entre crianças

Vai pra agulha a derradeira bala
Um mecanismo para quem se cala
Ou quem não fala por não entender
O organismo de satisfazer

Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!

Amarro os pulsos com a ilusão
Denuncio a minha contradição
Grito a dizer de onde nascemos
E de quais influências recorremos

Quando morro em seu ventre
Não há o que me concentre
Quando você fode a minha mente
Nasce uma frieza que ninguém sente

Com uma flecha no calcanhar
Pude entender o que quis falar
Durante triste noite chuvosa
Em que te dei a última rosa

Assim que pensei estar imune
De todo o terror que me pune
Acusei a sua boca sem a certeza
Que provaria o mal e a impureza

Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!
Se me digo escória isso faz tão bem pra você!








segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Baú V


Musa Consolatrix





Abraço flores de marfim;
No seu peito o estopim (da minha coragem).
É cedo para se entregar,
Quem sabe controlar o tempo.

A luz do seu desejo nos afagou-
Tamanha fagulha clara e cheia de cor...
Imunda vontade rara dum crepitar,
Que apalpa toda a secura do paladar
(...)
Num dia cinza como este
Em que a farsa agora é o meu teste.
Num dia cinza como este
A farsa de ouro e luz se veste.
Um tal dia cinza como este,
Um dia cinza como este,
Cinza como este,
Cinza como este.

Abraço flores de marfim;
No seu peito o estopim (da minha coragem).
É cedo para se entregar,
Quem sabe controlar o tempo.

O esquecimento é o seu templo
E este vento é avesso a você.
Não queira retroceder,
Não queira nos surpreender!

Acordamos sem vontade de gritar,
Medrosos por não saber desta razão;
Um chão sem sustento pra nos compreender,
Talvez nos deixar
(...)
Num dia cinza como este
Em que a farsa agora é o meu teste.
Num dia cinza como este
A farsa de ouro e luz se veste.
Um tal dia cinza como este,
Um dia cinza como este,
Cinza como este,
Cinza como este.

De navios piratas a foguetes maranhenses:
Panem et circensis
(...)
Num dia cinza como este
Em que a farsa agora é o meu teste.
Num dia cinza como este
A farsa de ouro e luz se veste.
Um tal dia cinza como este,
Um dia cinza como este,
Cinza como este,
Cinza como este.



Trabalho de Vingança Para a Ladra de Lirismo





Não sigas este rastro de luz,
Pois te encantas por um canto de Osanha.

(Descasquei o feijão e o amassei distraído-
Estes abarás não sairão a contento)

Não copies estes versos trágicos,
Pois o desfecho pode recair sobre a tua alma.

(Aqueci o dendê e separei os camarões-
Ninguém me ajuda na dança dos escravos)

Não te envolvas demais com a feroz entidade,
Pois o que diz para ti pode ser brincadeira.

(Cortei tomates e cebolas para a salada-
Enquanto a massa está no fogo eu me divirto com a pimenta)

Não esqueças dos teus parentes mais próximos,
Pois Xangô se aborrece quando não te atinge.

(Preparei os quitutes e decorei as travessas de barro-
Não posso esquecer dos charutos e da cachaça)

Não te importes se a morte for tua companheira,
Pois pediste a Iansã da tua maneira.

(Conduzi os trabalhos nos lugares e horários-
Despachei meus desejos aos meus Orixás)

Não esperes a tristeza ser pouca e lasciva-
Vai doer de um jeito que não irás esquecer.



Sara e o Amante do Suicídio





[Sara]
Conceda-me a Confraria dos Alaúdes
Em troca de sua saúde
E, então, dar-lhe-ei qualquer beijo de mulher,
Ou transformarei a sua tristeza em ré.

[O Amante do Suicídio]
Saúde já não possuo,
A minh'alma convalesce;
A tragédia em que atuo
Enforca o medo que me aquece.

[Sara]
Tolo! Vão!
Desconhece a intenção
Que é ser do seu lugar
E jamais se importar.

[O Amante do Suicídio]
Subestima-me, musa consoladora:
Sou de antes e não dagora!
O que me pede trar-me-ia tormenta,
Pois a morte se põe atenta.

[Sara]
Se é dor que deseja,
Com dor confortar-lhe-ei,
Mas espero que veja
Os supores da lei.

[O Amante do Suicídio]
Não temo a sua ira,
Sequer a sua paixão
Que sempre me tira
A beleza da ilusão.



Da Criação





Mesmo que o o teto seja o grito, o tapa ou a morte,
Todo o medo reproduzirá o limite relativo para a sorte...
Seguir a tendência que nasce para mim custa caro,
São muitos os chavões preparados para os momentos raros
[Será que raros?
Os astutos não se propõem à exploração do desconhecido?]

Fui criado às correntadas, palavrões e ordens sem questionamento,
Portanto, tornei-me um tormento até perceber que me envenenei-
Devorei o vassalo que se disse rei.

Meus filhos?
Que filhos?
Meu comportamento esdrúxulo extingüiu esta questão.



Felicidade





Seria cálido não fosse o desfecho entristecido,
As promessas não cumpridas de um discurso autoritário
E a surpresa que impede os sorrisos dessa gente.

Outrora nos descobrimos subjetivos,
Estabelecemo-nos submissos e entontecidos por cantos de sirenes,
Ademais, confiamos até o momento em que nos tornamos insensíveis.

Agora há o recurso ímpio,
A degradação de nossas divinizações
E, mais uma vez, retornamos ao esboço do que seria a felicidade.



Rose





Sou você quando minto pra entender do nosso jeito:
Esqueci do que eu sinto a seduzir o imperfeito.
Nossas horas são sagradas quando pedem sedução
E as palavras mais despidas dizem da nossa razão.

Eu me ligo à sua boca, não entendo o que é;
Dou a forma que despreza e não compõe a sua fé.
Eu me separo, sinto falta e ensurdeço o meu desejo,
Mas você se aprisiona entristecida ao que vejo.

Sempre cura as feridas mais profundas da minh'alma,
Abre outras dolorosas que expulsam a minha calma-
Drena a lágrima sangrenta que exibe o meu horror
Pra que eu saiba sem promessa o valor do seu amor.

Chega sem roupa e dança fula - chateada - sobre mim,
Comprime os seios - tentadores - do começo até o fim,
Quer outra foto decadente da nossa última vez
E uma promessa indecente para que sejamos três.

Gostamos de fingir, mas não fingimos sermos breves no prazer:
Alguma coisa aconteceu pra que o mundo se repita sem querer.
Gostamos de tentar fechar os olhos e esquecer por um minuto
A pequenez adormecida em um curto furto do que que sou.



Théâtre Noir





Nos tetos negros de nosso final
Fui a verdade de um falso mistério
A esconder um veneno fatal
Que pretendeu derrubar um império.

Mentimos até pensar ser verdade
Os frutos de nossa incredulidade
A nascer sedentos pela redenção
Do que já sabemos ser vil ilusão.

Das heranças de ícones em distorção,
Dos valores perfeitos da legislação,
Dos homens perpétuos em nosso poder,
Do definhar e da morte do ser
É desordenado desejo de amar,
Pois o excesso calou o que está a faltar-
Há muito soube quem me criou,
Resta saber o que me ocultou.

Eu não sei voltar daqui
E nem quero.



A Problemática da Onipotência





Ontem para ser hoje vivido,
Hoje despido e enrubescido.
Hoje vivi de ontem mas não o ontem,
Entretanto ontem nem vivi.
Sobre ontem não há poder que o altere
E por hoje os passos curtos me enfeitam.



Debaixo da Paciência





Você quem nasce da sina,
Do destoar na calmaria,
Diga-me o que acontece debaixo da paciência.

Você quem ouve o deslizar das lágrimas,
Os significantes imaginados na alma de quem morre,
Por favor, explique-me o absurdo debaixo da paciência.

Sou ronin - errante nesta imensidão -
E a minha fuga se encontra com o seu conhecimento.
Sou ronin - distante da comunhão -
E o meu saber não mais me serve sem você.



Danke





Está descrito nos arranhões de minha guitarra
E nestas fotografias de baixa resolução,
Contudo não há por que sair daqui
Para dizer de coisas que não importam mais.

Está explicado no desgaste de meu coturno surrado
E nos ficheiros quilobyticos destes discos flexíveis,
Porém não preciso traçar caminhos
Para quem já os conhece de cor.



Linha de Seda





Talvez falte apenas um segundo,
Um trago ou um corrompimento,
Mas para todos os lados só há escuridão.

Talvez não importe mais
Ou não exista algo a ser dito,
Todavia é mergulho num infinito de cartas repicadas.



A Direção do Cotidiano





Qualquer resquício cinzento será um gesto amargo,
A frivolidade destemperada de um beijo vago.
Qualquer moralidade se perdeu da parcialidade
A três quadras de sua protegida pretensão.

Se percebi não quis,
Se entendi não vi...
Espero que não se encante por grandes produções,
Pois o que diz pode ser lembrado em qualquer cozinha do Brasil.
Aguardo serenidade quando pedir as direções do cotidiano,
Ademais, amo-lhe demais e não desejo que precise ser lembrado assim.



Sirene





O que esperar desta declaração decepcionada?
Devo esvair-me em lágrimas por teu sentimento
Ou pedir perdão de joelhos para que estejas bem?

Vês o mundo que se declara fora do nosso domínio?
Pretendo explorá-lo sem destino ou limite
Para responder a cada anseio que se revela em angústia.

Vês o mundo que se propõe fora de nossas vidas?
Pretendo absorvê-lo em cada uma de suas cores
Para surpreender a mim mesma nos momentos mais sutis.

Não sou o teu destino por enquanto,
Não possuo a cura para o teu pranto,
Não compreendo o amor que mereces
E nem a precisão que apeteces.



A Dose do Veneno





Qual a dose certa, meu amor?
Receio matar-te ou não te entorpecer.



As Mariposas do Bloco de Infância





Não faça isso contigo,
Não publique a tua alma sem sentido.
As frondes das mangueiras andam tão amareladas
Que mal lembro do nosso tempo lúdico;
Fiapos presos nos dentes e doçura marcada na vida-
Éramos o tipo mais do que perdoável de ladrão.
(...)
Ainda há cheiro de terra no meu bloco encardido,
Ademais, são cinco mariposas em páginas alternadas.



À Última Tempestade do Inverno Passado





Um fragmento de dor que se vexa por teus instintos
Quer alumiar o ventre cálido de minha história
E transformar todo o sentido em compaixão.

Mudam cores, lares e pares,
Exceto os olhos que te perseguem.



Do





Não imagino por que me entreguei à tragédia,
O estapafúrdio me lancinou até que me rendesse ao sofrimento;
Tamanha fraqueza não poderia surgir em meu bushido,
Ademais, nem o seppuku fui capaz de realizar-
Desonro a minha wakizashi pela falta de sangue em sua lâmina.

Faltei com o makoto e a deixei partir,
Exilando-me em mim...
Não mais bushi,
Não mais ai por mim.

Que ela esteja bem,
Que eu a leve para os meus sonhos sem tocar em seu futuro
E que Emma-O me carregue sem remorso para Jigokudo.



Indecisa





De dentro desta cúpula minúscula,
Estou a tentar persuadir a mim mesma,
Contudo, aprisionada em meus valores,
Escolho meus pares pelos sonhos que os iludem.



Hórus Agamenon, o Deus Falcão





Hórus é pai de santo na democracia,
Vive dos seus búzios e de excêntrica terapia.
Hórus Agamenon já não é mais rei,
É perseguido por evangélicos e pelo Opus Dei.

Por mais que eu queira seguir os seus devaneios,
Sou escravo da lei de uma pátria e nação que é seio
De todos os indigentes e colarinhos brancos;
A alma encarnada do faraó não trará mais pranto!

Quem dita o peso das pedras é a abstração
Que é Hórus longe da carne e da aberração
De ser homem tentado pelo vil metal,
Sexo, rock'n roll e ambição do mal.

Mataram os crocodilos do rio Nilo,
Fazendo das peles bolsas e dos olhos brilhos...
Tomado por um sentimento que não entendeu,
O Deus Falcão chorou de dor e adormeceu.



Sobre as Coisas Belas do Mundo





Nunca traga nada a fazer para a metrópole,
Embrulhe pra presente e ofereça a quem interessa.



Desejaria Querer





Prostrei-me lânguida quando me percebi igual a você;
Esta fumaça densa tardou a surpreender-nos...
O meu jeito perene e homeopático perdeu o sentido,
Aspirou pela morte e,
Por sorte,
Não mais se auto-avalia.

Toque,
Sinta o dorso de minhas mãos
E veja as marcas que não são sagradas
(Sei que pensou assim);
Não desejo mais o padecer,
Porém a usura me conduz
(Não desejo, apenas não desejo,
Contudo, desejaria querer a liberdade).



Ciclo Não Sei Lá Qual





Deixa que eu te conte o acontecido,
Pois não desejo que decidas assim
(Encantas-te tanto por estas alegorias distraídas
Que mal olhas para as marcas em teus calcanhares).

Vês?
Criaste um universo sem querer!
Até agora não há bolores por não ser vida,
A enfermidade desapareceu pois não há vida...

Se o ódio faz parte do amor que sinto,
Sinto dizer que este meu ciclo findou;
Que venha o próximo pois hei de beijá-lo até o fim!



Todos os Motivos do Mundo





Grito desesperadamente e, às vezes,
Tento conter-me a criar arranjos de flores no parapeito da janela,
Mas você mal se pronuncia destes estúpidos paramentos tecnológicos.

Eu só desejo um minuto de atenção,
Não percebe?
Estou nua em pelo, a mostrar minh'alma,
Porém me trata como a cobaia de uma idiotice que não chamo vida!

Tome uma atitude que dispense esta hibridez, homem!



Você Não Saiu de Onde Odeia





A cobrir o rosto cicatrizado e doente,
Uma máscara colorida e brilhante.
A persistir na suposta felicidade,
Clichês roubados de novelas e folhetins.

Minta,
Minta de novo para mim;
Disfarçarei o meu sorriso e não revelarei a nossa mediocridade.



Pré-Sakura





Estou presa ao nó de tempo anterior ao teu olhar,
Ao zero kelvin em que não consigo decifrar este esboço de sorriso.
Eu te anseio sem orgulho,
Para sempre durante o nunca mais,
Expectante pelo fim improvável deste suposto interlúdio.



Capítulo XIII





A minha fase obscura é um plágio de sua tristeza,
Um disfarce contra o egoísmo,
Um suporte para a falta de compaixão.

Quando me rendo à prosódia de sua tragédia,
Tento voltar mais rápido do que imagina-
Como se fosse uma sina
Ou uma mancha em meu coração.

Já me cansei de enganar na prosopopéia
De cruzes que findam as vidas que descreveu,
De luzes que se apagam sobre o seu véu,
De trevos nascidos sobre os corpos que corrompeu.

A alta magia da mão esquerda que lhe controla
Foi só um insulto sereno ao que afoga
No sangue ainda úmido de personagens
Que sequer foram previstos em seu pudor.



O Resgate



O seu amor adoeceu por muito pouco,
Por pontos brancos numa cápsula.
O seu amor que sempre me encantou,
Por tua responsabilidade - não é culpa de ninguém -,
Apagou-se em alguma sarjeta da metrópole.

Saber resgatar é entender a quem amar;
Ame-se!



O Saco do Vovô





Ontem vi o saco do vovô
E ele ficou cheio de pudor.
Por que o vovô se constrangeu
Se o saco não feriu os olhos meus?

O saco estava fora da cueca
Enquanto eu tentava ser discreta,
Mas vovô deu um pulo e pôs a mão,
Berrando:
- Menina, não faz mais isso não!

Fiquei triste quando vovô gritou comigo,
Pois não senti para a raiva um sentido...
Entretanto eu perdôo o vovô,
Porque por ele tenho um grande amor!



Dia de Domingo





Acordem, é domingo, não é dia de avareza!
O motivo do sorriso vem do monopólio da cerveja
E em ninfetas semi-nuas das propagandas de tevê;
A perfeita maquiagem para nos satisfazer.

Acordem, é domingo e o prazer é compulsório!
Vamos passear na praia a queimar algum petróleo
Em nossos carros nacionais de engenharia estrangeira,
Ouvindo mais outro sucesso de música passageira.

Acordem, é domingo: um dia pra euforia!
Que se fodam os males do mundo pois queremos alegria,
Mentindo pra nós mesmos que fizemos nossa parte
E que pra escória desse mundo é só questão de corte.

Acordem, é domingo, vamos ser a tentação,
Dando forma e sabor à mais bela ilusão;
Esqueçamos as tormentas bem debaixo do tapete,
Com uma conversa copiada que nos represente.

Dia de domingo: suor e diversão...
Olha como brinco com a nossa imprecisão!
Dia de domingo: suor e diversão...
Hoje não é dia para entrar em depressão!
Dia de domingo: suor e diversão...
Com tantos elogios vamos ceder à pressão!
Dia de domingo: suor e diversão...
Hoje há de tudo pra chamar nossa atenção!

Acordem, é domingo, tem jogo de futebol;
Os letreiros são a fome e a paixão é o anzol.
Embora os melhores vão driblar lá na Europa,
Somos todos brasileiros ao início de outra copa.

Acordem, é domingo, ressaca do sabadão...
A casa está imunda e lavamos nossas mãos
De olho no plim-plim e com uma puta dor de cabeça,
A buscar na idolatria algo que não entristeça.

Acordem, é domingo, dia santo para muitos,
Se não pagarmos nosso dízimo para Deus será um insulto...
E que os anjos iluminem a nossa vida desgraçada
Com um pão que é dividido por uma gente desalmada.

Acordem, é domingo, nossa vida está perdida,
Pois não somos solução, só um dedo na ferida.
Tomara que o dia traga mais do que descanso
E eu entenda de uma vez o motivo por que danço.

Dia de domingo: suor e diversão...
Olha como brinco com a nossa imprecisão!
Dia de domingo: suor e diversão...
Hoje não é dia para entrar em depressão!
Dia de domingo: suor e diversão...
Com tantos elogios vamos ceder à pressão!
Dia de domingo: suor e diversão...
Hoje há de tudo pra chamar nossa atenção!


Fora de Controle





Na briga de foices em que morri
Estava o sentido do que vivi:
Luz apagada e nenhum inimigo;
Eu nem percebi que estava ferido.

Gente gritando na escuridão,
Livre instinto calando a razão,
Tropeços em corpos já machucados
E sina do que nunca foi terminado.

Domínio daqueles que se esconderam
Debaixo das regras que estabeleceram
Bem antes que tudo se tornasse feto
Daquilo que hoje é um soco direto
Na cara de quem se integra sem chance
De poder definir o seu próprio lance
No jogo que há muito é decadente
E foge aos princípios do que é decente.

Fora de controle,
Estamos fora de controle!

Cresci imitando um molde comum
Que não me trouxe benefício algum,
Atrás duma tal de felicidade
Que exigia delírio e boa-vontade.

Um homem sussurra lá de cima, do céu,
Que eu preciso ser bem mais fiel,
Mas em sua casa eu encontro um ladrão
Que quer dez por cento do que tenho na mão.

Ouço no rádio um idiota a cantar
Sobre o modo jovem de se comportar...
Cada um, cada um; em seu próprio lugar!
Se foda, canalha, não vem me enrolar!

Digo as coisas sem ordem ou destino,
Coisas de mim mesmo, o adulto e o menino.
Rimar é fácil, difícil é exibir
Toda a verdade que me obriga a mentir.

Fora de controle,
Estamos fora de controle!

Olho pra mim e vejo um personagem
Daquilo que quero ser a minha imagem;
Creio nesta droga e chego a chorar
De algo que nunca vou vivenciar.

Do bolinho podre, eu sou a cereja,
Regado à minha falta de certeza...
Então há o tempo descoordenado,
Quando classe e luxo morrem abraçados.

Todos prestaram bastante atenção,
Todos aqueles que são ilusão,
Todas as caras de um descarado
Que desenha o futuro e apaga o passado.

Sou por você, sou pra você,
Sou para mim, sou pra morrer,
Sou infinito, sou o limite,
Sou um imbecil, sou quem insiste.

Fora de controle,
Estamos fora de controle!

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Senhorita Marta

Enquanto sua mãe e tias choram contidamente à beira do caixão de seu pai, Marta pede uma dose de vodca para o garçom.

- Dona Marta, sua mãe me pediu para que não te servisse qualquer bebida alcoólica.

- Meu docinho, pra começo de conversa, sou maior de idade e Dona Zilda não manda na minha vida... Pega logo essa vodca, meu bem!

- Desculpe, Dona Marta, não posso desrespeitar as ordens de sua mãe.

- Faz o seguinte, diga onde está que eu mesma pego.

- A questão não é essa, Dona Marta, sua mãe deu ordens expressas a todos da copa para que a senhorita não se aproximasse das bebidas.

- Como? Quem ela acha que é?

- Desculpe, Dona Marta... Posso te fazer uma sugestão?

- Sim, faça, benzinho! - disfarçando um sorriso.

- Olha, o velório acaba de começar e todos ainda não te prestaram os pêsames; espera mais um pouco que eu posso te providenciar algo da copa.

- Quanto tempo?

- No máximo trinta minutos.

- Trinta minutos? Daqui até lá morri seca e esturricada!

- Posso te dar um refrigerante ou refresco para passar o tempo?

- Passar o tempo com refrigerante? Você é louco? Até parece!

- Dona Marta, eu te prometo que farei o possível.

- Faça o mais rápido, não o possível!

- Está certo, prometido.

- OK, meu lindinho, vou pra perto da velharada... Não me decepcione.

- Pode deixar, Dona Marta.

- Antes de ir, como se chama?

- Cleiton, seu criado.

- Você é uma gracinha, Cleiton, pena que sou tão tímida. - ajeitando a gravata do garçom, que sorri ruborizado.

- Pena que estou a trabalho, Dona Marta.

- Apenas Marta, docinho, ou Tatá, se quiser ser mais íntimo.

- Marta é mais confortável para mim.

- Quer conforto? Prefiro tensão.

- Tensão?

- Tensão, tesão ou nada de veadagens moralistas; você escolhe.

- Nossa, direta!

- Para que rodeios? Que andemos em linha reta!

- Concordo.

- Depois a gente brinca de pique-esconde no cemitério, tá?

- Dona Marta... Desculpe-me, Marta. Você deve estar pensando que sou um idiota, não é?

- Não me pergunte o que penso de você, gatinho. Seja divertido que eu te dou um pouco de diversão. - correndo o dedo indicador sobre a alça de seu curto vestido preto.

- O que considera diversão?

- Quando eu lhe der, irá saber o que é. - dá uma piscadela marota.

- Irei?

- Sim, irá. - coloca a mão esquerda sobre a cintura e segura o vestido, erguendo-o até quase exibir a virilha.

- Você surpreende.

- É só isso que consegue dizer?

- Na atual condição, sim.

- Na atual condição de falta de criatividade, irei chorar um pouco para tentar ganhar o Kikito de melhor atriz.

- Pois não, vou providenciar a vodca em breve.

- Espero. - desliza a mão direita sobre o braço do graçom até o seu abdôme, enquanto sai lentamente pela esquerda.

- Também esperarei.

- Nada perde por esperar. - já de costas.

- Tatá! - chorosa, Dona Zilda chama pela filha que caminha em sua direção. - Minha filha, fique aqui conosco.

- Mãe, já não está satisfeita em me ver aqui? Não me faça ficar plantada à beira do caixão.

- Filha, não faz assim! Seu pai sempre te amou, despeça-se com respeito.

- Estou fazendo o melhor que posso, não me peça mais do que quero te dar.

- Do que quer me dar? Marta, é o seu pai neste caixão!

- Ou o que restou desse porco.

- Marta!

- Zilda!

- Zilda, fique calma. - Nora, a única das cinco tias estarrecidas que toma uma atitude verbal. - Tatá, venha comigo, não precisa fazer o que não quer.

- Ela vai ficar aqui e e respeitar o pai; o marido que tanto devo! - com a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas, Zilda exige a presença da filha com o dedo em riste.

- Zilda, não vamos tornar a situação mais indelicada do que já está!

- Essa menina me enlouquece!

- Você me considera louca mesmo, vai ver é genético.

- Tatá, vamos!

- Maravilha, tia Nora... Vamos!

- Zilda, acalme-se que já volto.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Um Fragmento da Vida Conturbada de Claudionor

A nossa vingança foi um fracasso; Adoniran não perdeu o emprego, Luana não se separou e a empresa aproveitou a tragédia como alavanca para a meta de responsabilidade social. Pensar que ainda terei que desovar estes vinte computadores sem deixar rastro também não é muito animador, pois - a esta hora - a polícia deve estar procurando por algum indício e eu não tenho como me deslocar tranqüilamente com estes trambolhos.

Quando disse a Amanda que poderíamos pegar mais leve, não pensei que fosse dar esta merda toda: imaginei que só seria de bom tom não querer destruir a vida alheia, entretanto, aniquilei com a minha. Ela some, me deixa com o flagrante na cozinha do meu apartamento e, se - bem possível - eu for preso, nem provar que ela se envolveu serei capaz.