domingo, 23 de setembro de 2007

Baú IV


Aviso dos Céus





Que toda a relação seja aniquilada,
Corrompida a tal ponto que seque sobre a terra;
Os frutos mestiços que me subtraem a serventia
São baratos e fartos,
Mas despropícios e castos.

A função da foice é rasgar o meu peito,
Findar o capítulo ignóbil que nos trouxe até aqui,
Entretanto, longe das lamúrias que atribuíram aos caboclos,
Intercedo pela compreensão de São José em meu entendimento.

Papo-amarelo carregada,
Amor e ódio no pulso que suporta esta enxada
(...)
E que nenhum homem se revolte antes do aviso dos céus.



O Seu Toque





Creio que sempre renderei lágrimas aos trechos de sua vida,
Todos estes períodos compreendidos em seus poemas sem conclusão.
Eu, quem nunca saiu dos limites da aurora,
Espero por dores que não são minhas
E me encontro sozinha; na companhia de sua solidão.

Tento não levar a sério este meu impulso que chamam de aberração,
Mas a sua cara de sono e beiços túrgidos me trazem o que não creio ser aberração...
Eu me sinto mulher,
Tocada a quilômetros de distância eu me sinto mulher.

O que é o toque?
A brutalidade de peles encontradas
Ou a transgressão do meu modo de viver?



A Minha Nudez Sobre o Teu Ódio





Percebe, querido, a minha pele excitada:
Mais rubra e arrepiada que o de costume...
Toque-me e sinta,
Deslize os teus dedos em mim:
Inflama-me um desejo absurdo,
Um apreço pela tua virilidade!

Traga a tua saliva até meus lábios;
Excite-me,
Inspire-me a conter a repugnância de teu ódio.

Da tua raiva recrio os meus instintos,
Portanto permito outros corpos em meu universo...
Pertenço ao teu desprezo,
Por isso insisto em reconquistar para sempre o teu amor.



Senhorita Persephone





É mulher dominadora da arte da provocação;
Expõe-se em outros corpos,
Outras falas,
Outros destinos preconcebidos.

É mentira maquiada de desejo libidinoso,
Orgasmos múltiplos em sudorese,
Desenhos feitos a unhas na minha barriga
E propostas suicidas pelo prazer.

É fim,
Ladra de instintos,
Carícia antes do assassinato,
Premissa para o derradeiro ato.



Lições





Talvez, além dos golpes contundentes no peito,
Houvesse o amor destronado de mais um semelhante-
Desnaturados somos nós mesmos que desejamos mais do que lágrimas ao espelho.

Em vez das afirmações revoltadas por uma monstruosidade imoral,
A cidade se quieta - às vezes nem isso - para se recompor em fúria no seguinte propósito.

A solução é muita ousadia,
Portanto, ater-se à crítica é o retrato três por quatro do jovem revolucionário,
A saída pseudo-nobre para a mesmice,
O alimento para a frenagem do usual,
A figuração para a aplicação do inviável.

Que as lições não me conformem,
Nem me destronem,
Mas cada dia se torna mais difícil.






Obra do Sarcasmo





Chega então o pior delírio do ciclo vicioso;
Quando nenhuma arte basta para sarar a frustração,
Nenhuma força age a fim de conter o decepcionante enredo,
Nenhuma dor é nobre para encobrir a mediocridade da preponderante,
Nenhuma corte basta para o inexcedível
E nada fede tanto quanto a falta de vontade.

Soube do gozo sepulcral,
A dita esperança dos fracassados,
Mas não há reação melhor do que um sorriso amarelo-
Maldito sarcasmo!



Todos os Sonhos Ocultos





Não tentarei ser liso o bastante para refletir a realidade,
Pois desconheço quão distorcida estará a incidir em mim.
Nem terei certeza do que possuo - se é que possuo -,
Porque a luz não é cabedal para nutrir o meu orgulho.

Espionei o meu próprio lar por um traço novo
E só encontrei a solidão nos pontos de fuga que determinei,
Portanto, disperso em um momento de paz,
Vagueio nas curvas criadas para você.






Pixote





Distante da sede que só nos cega,
Não creio no instante que me nega
Nos braços feridos de quem partiu-
Estou a um passo do teu laço hostil.

Quem mais surpreende é a tua paixão;
Mas em que era os disfarces retornarão?
Sofres, contudo é um zelo ruim
Estirpar as minhas vozes assim.

Até hoje te enganei sem recompensa,
Pela tentação de cuspir nesta doença
Que avança às milhas da tua doce prosa
(Não é um insulto a esta alma gananciosa).

Peço que me entendas
E retire estas vendas;
Estas rimas inúteis e métricas fúteis,
Estes gestos iguais e lampejos mortais.

Quem me entende mais do que tu?
Oxalá que o tempo me esqueça,
Que a luz se entristeça
E que não tenhamos mais vontade.

Quem me julga mais do que tu?
Não se desfigure agora,
Pois é na vida que esta dúvida vigora.



Teu Verso





Cores e lágrimas,
Sonhos e feitos,
Vidas e lástimas;
Teu jeito direito.

Um verso de novo,
Um verso mais novo,
Um verso tão lindo,
Um verso bem-vindo.

Distraia os meus olhos,
Contorça os meus ossos,
Abrigue a minh'alma,
Suspeite da calma.

Teu verso em um ano,
Teu verso profano,
Teu verso na pele
Em tom que congele.



Make Over





Ninguém me convence
ao garrido compasso
travestido em verso
áureo, preso no tempo e na
lama que me
impõe desvios da
alma.

Não testifico
uma
natureza válida
e dispersa,
submersa em meu sangue vil.



Terror em Staccati





Eu te desejo,
Mas não estou contigo,
Portanto, nunca é suficiente.

Começo a crer que não é engano
A creditar ao ato uma provocação,
A entorpecer o silêncio com precipitações
(Este teu medo também é meu,
Contudo esperar distrai o espírito).

Terror em staccati para que, mulher?
Eu me entreguei a tudo o que quer
E não concebo o receio após o teu beijo.



Flores do Ipê-Amarelo





O ipê-amarelo 'tá maluco,
Tem flor o ano inteiro!

Eu não tenho paciência,
Nem olfato;
Estou perto do ultimo ato
E minhas mãos congelam.

Fechei as portas,
Tranquei a alma
E não desejo mais criptografia;
Isso nunca foi paz!






Eu; Alguém





Eu, quem insistiu em te encontrar,
Não imaginei que fosse achar
Um precipício enfeitado de ilusão.

Eu, das cicatrizes sem valor,
Cortei as raízes de um amor
Somente pra julgar a tua paixão.

Eu, do ato falho e imoral,
Aconteci com todo o mal
A me matar com algum poder.

Eu, da fúria fria e servil,
Acreditei no que surgiu
Nas entrelinhas do teu padecer.



Dos Meus Pulsos





Não consigo pintar;
Só sai você dos meus pulsos.

[Uma linha que seja
- Peço aos Deuses que não acredito -,
Faça-se uma imagem,
Um ambiente que não o dela!]

Povôo-me de seus fragmentos abstratos,
De seus traços até o sexto grau nos grupos orgânicos,
Da especulação sobre estas cores encarnadas e perfumadas...
Ninguém se perde? Sinto-me assim.

Quisera eu esquecer esta angústia
A pintar os devaneios bucólicos que odeio,
Ou as friezas urbanas que presencio,
Todavia são seios e pernas,
Boca e olhar,
Invasão e evasão:
Repito-me numa agonia medíocre.



Inteira





Das máscaras de dezenas de perfis,
Permito-me retirá-las uma por vez
Para calar toda a prepotência dos meus atos racionais;
Não quero reconhecer o destino de onde me arremesso,
Pois toda esta parábola terá recompensado cicatrizes ou morte.

Sei dELA a partir do indeterminado,
Do inexplicado,
Da sensação avessa ao completo, mas inteira.



Esta Hora





E agora?
O que vai fazer já que chegou aqui?
O que vai fazer já que não quer sorrir?

Após o limite - a previsão - tudo é tão vazio;
Nenhum mísero sonho depois da euforia,
Alguma decepção que não cura a ironia duma altura em desespero.

E a hora
É agora?
Tanta fome por esta hora?



Minas de um Nome Só





Minas de um nome só que não me importa a família:
Dentes relaxados e depois cravados um contra o outro
Em estupefata ação atenuante...

Não há atenuante para o que sinto;
Pelo menos nas próximas dez horas ou seqüência de atitudes.

Não há pontuação,
Veto ou voto.
Não há significante
Ou significado.
Não há mais do que chorar,
Lutar ou render.

Não há atenuante para o que sinto,
No máximo uma bebedeira perto do fim.

Onde será que se esconde esta palavra dita,
Distante de qualquer procedimento lúdico-literário?
Somos parte do mesmo círculo que queima
(Ninguém percebe,
Pois vejo cinzas da conjunção de espelhos subordinados).

O que há?
Aprecias-te, meu belo horizonte?
Fale,
Fale,
Fale e exponha o meu ridículo,
A minha solidão agonizante-
Não tenho poder sobre o que mais preciso.



Lembro de Doze Passos





Perturbá-la
É só o que desejo,
O que intenciono;
Nenhuma harmonia merece tal ordem plácida de espírito.

Instigá-la,
Forçá-la a mudar os meus valores,
Incitá-la a denunciar o seu íntimo para o meu êxtase pessoal;
Nenhuma divinização da beleza merece ser intocada.

Apesar de progressões formadas para uma espécie de ataque,
É a defesa pela tontura após o golpe de explendor,
É a resposta à vexação pelo toque desequilibrante;
Nenhuma curiosidade consegue ser tão angustiante.



De Tudo, Não Consegui Abstrair Meu Sexo





Sim, consigo perceber o perigo
Na tua face serena diante da janela,
Nos pés em figuração minimalista,
Nas línguas em brincadeira serelepe,
Na mão contra o espelho,
Nos músculos exibidos,
Nas unhas curvilíneas,
No corpo arqueado,
Nos sorrisos de quem vive,
Na luz,
Na sombra,
Nos olhos...

Platão, Sartre e du Beauvoir que me perdoem.



Pizza





Pizza,
Novamente
Pizza...
Até quando
Pizza?
Para sempre
Pizza?

A democracia se despe
E exibe a demagógica alma;
A democracia desde meados dos oitenta
Para ser da roubalheira ferramenta.

Pizza alagoana,
Baiana,
Paulista,
Carioca,
Mineira
E de qualquer lugar.

A pizza não merece ser lírica,
Não consegue ser bela...
É só a pizza do país dos banguelas.



Caminho das Pedras (Transe)





Estamos longe demais e não sei o caminho:
Não sei o motivo de me sentir tão sozinho.
Os olhos são o ataque, os ouvidos a defesa;
Então coloque logo estas cartas sobre a mesa!

A mente mente e sentimos uma verdade sem sentido,
A mente mente e o corpo se engana corrompido,
A mente surta e a regra perde a força num segundo,
A mente sangra e liberta um espírito vagabundo.

É fácil demais fingir estar certo
Na conversa fiada de um mundo concreto
Que se zanga e grita quando confrontado,
Mas parece chorar com os pulsos cortados.

A vida acaba e o mundo continua;
O insubstituível não anda pelas ruas...
A vida explode no meu sangue colorido
Pelo vermelho de estranhos atrativos.

O meu orgulho limita a minha visão
E continuo sendo a luz e o coração,
Vomitando a doença em milhares de palavras,
Imitando a crença em frases manipuladas.

Quero aprender a dizer não para conter
A auto-piedade que enxergo em você,
O desejo eminente que tem em possuir
E as facas que esconde quando se põe a sorrir.

A vida, agora, me parece um transe...
(A mente mente e sentimos uma verdade sem sentido)
A vida, agora, me parece um transe...
(A mente mente e o corpo se engana corrompido)
A vida, agora, me parece um transe...
(A mente surta e a regra perde a força num segundo)
A vida, agora, me parece um transe...
(A mente sangra e liberta um espírito vagabundo)
A vida, agora, me parece um transe
Que se lança nu num abismo de suspeitas infinitas.
A vida, agora, me parece um transe
Que avança até uma idéia que parece favorita.
A vida, agora, me parece um transe
De estilhaços fartos que atravessam o meu corpo e a minha face.
A vida, agora, me parece um transe:
O que seria de mim se o inferno não atravessasse?






Permissão 644





Olhos, lábios e gestos;
O que dizer da perfeição?
Pés, coxas e sexo;
O que sentir com a perfeição?

Contornos e silêncio
Enquanto a luz se molda abismada...
Provoca tão bem deste belo horizonte
Que chego a pensar ser o cômodo vizinho;
Desejo invadi-lo sem permissão
(Não preciso de permissão desde que aprendi a me virar,
Mas, às vezes, tento me conter).



Assim Seja





Não suporto deste jeito,
A arremessar amplos conceitos no espelho;
Espero que seja você,
Mas é só a proximidade do que imagino após percebê-la cauterizando feridas velhas.

Tento continuar,
Responder aos apelos meus a implodir o meu próprio orgulho,
Entretanto, contra a minha fome, uma escuridão me desfigura.

Você está lá
Despida,
Exposta,
Disposta às últimas conseqüências,
Proposta a maquear-se de carência
Para ser o cruel instrumento da tortura.

(Sou arrecife intransponível,
Berço da vida e da morte,
Contudo, desesperado pela sua revelação,
Busco flores negras em pensamento)

Sob minha mão esquerda repousa o seu pedido,
Porém, não acredito em suas especulações,
Não caracterizo um ambiente além-jogo,
Não lhe aconselho continuar.



Vida de Escravo





Acordei e olhei para a tua cara;
Senti nojo por um segundo.
Levantei e olhei para mim;
Percebi que me entreguei à tua insatisfação.

Tentei pensar alegrias,
Mas a tristeza é um muco grosso em nossa vida.
Forcei alguma alegoria,
Todavia não mais suporto ver a tua calçola pendurada no registro do chuveiro.

Oh, vida de escravo!
- Traga o café, mulher, pois estou atrasado!
Oh, vida de escravo!
- Eu pago as contas e bufo onde quiser!

Sim, Sexta-feira fui ao puteiro
E trepei com a vagabunda mais desavergonhada,
Ademais, casaria com ela se não soubesse que tornar-se-ia a tua imagem e semelhança.

Oh, vida de escravo!
- Mova-te um pouco e finja que está gostando!
Oh, vida de escravo!
- Não vivo em paz com as tuas reclamações!



Fui e Volto Já





Fui e volto em pouco tempo,
Fui a guardar teu acalento.
Fui e sinto mais do que paixão,
Fui para curar minha ilusão.

Fui e volto já,
Fui sem avisar...
Fui e volto já,
Fui para encontrar o sacrifício.

Fui e volto em um minuto,
Fui para calar o insulto.
Fui e desde já me preparo
Para mais um momento raro.

Fui e volto já,
Fui sem avisar...
Fui e volto já,
Fui para renovar o meu princípio.



Nem Amar Nos Deu Acordes





Parece brincadeira,
Jogo de azar,
Ilusão desvairada
E medo de amar;
Tudo junto no mesmo peito,
Tudo vivo a pedir a morte.

Digo de mim,
Você pensa que é seu
E me corta os sentidos sem resposta...
Não paro de pensar em você.

Nem amar nos deu acordes,
Nem a verdade compôs canções:
O que é a aceitação?

Nem amar nos deu acordes,
Nem você quis me dizer
O que é a aceitação.



Continuar Para Que?





Continuar para que?
O asterisco talvez não desça no horizonte
E as paixões talvez não desapareçam por encantamento.

Continuar para que?
Soube que um verso dura vinte quatro horas
E uma vida toda a eternidade.

Continuar para que?
Insensatez é ter meu pulso destruído
Pela lida compulsiva no papel e prancheta para fins trágicos.

Continuar para que?



Hagakuri: a revista





Insisto no fim do dia,
Nos trapos presos no arame farpado,
Na epopéia sem desfecho escrito,
No canto subsônico,
Nas falácias abrasivas,
Nos compêndios sem sentido,
Nos abrigos vazios,
No cio.

Persisto por mim,
Pelo que respondes em encantamento,
Pelo tormento em não saber,
Pela vida a entreter-se,
Pela penúria da sentença,
Pela frieza da descrença,
Pelos nós nomeados números,
Pela fratura de teu úmero,
Pela indiferença da realidade.

Nada corrompe tanto quanto este ócio criativo,
Uma fração que me pede para ser indeciso...
Nenhuma dor é maior do que esta de mentira,
Contudo, o impulso também é redenção.
Não levo Tsunetomo mais a sério, meu bem,
Ademais, ele fingiu ser o bem e a verdade-
Assim como a nossa falsa caridade.



Desligamento





Convidei-te para rodopiar neste vermelho-crepúsculo,
Vestida em anáguas engomadas para o dia de Obá;
Tu giraste, giraste, giraste e te confundiste com a poeira
Que alimentava a tristeza pobre de minha imaginação.

Dançaste com Maria Padilha, Rainha Domitila e Menina;
Fêmeas felizes de todos os lugares sem paz.
Puseste a coroa dos tempos para saber do destino do Sol,
Contudo insististe na curiosidade imaculada e tentadora.

Queres finais,
Doces finais,
Mas desonras o templo que desmorona sozinho.

Teu passo soturno desistiu do sabor desta terra,
Pois os nomes que pediste não estão na batida da Quimbanda,
Portanto, assim, atordoado pelos poderes dos Orixás,
Sei que não veremos mais o teu compasso histérico.



Onze Horas





Por ínfimo momento estive perto do sacrossanto pedido,
Corrompido pela anáfora que o induzia em meu descontrole ébrio.
Por que insistir em entrelinhas se o incauto verso me pertence?
Todo o pulsar destes ideais tempera um infinito gélido e sombrio,
Entretanto transformo a nudez de cores em nudez d'amores
(Cabisbaixo fui em meu mundo real até gritar:
- Chega disto, estúpido! És vão!).

Transfiguro-te em puta,
Arranco os teus pigmentos da boca,
Tomo os teus seios nas mãos
E guio os teus olhos,
As tuas falas,
Os teus suspiros.