quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Baú III


Se Você Quiser





Se você quiser, posso esquecer;
Atordoar o eminente com pouca mentira,
Aludir o inviável em desertos de vidro.

Se você preferir, evito cantar;
Não sonho com a maneira mais fácil,
Não grito por um dispersar de dor.

Se você pedir, esqueço o vinho tinto;
Engulo o seco a seco e sem orgulho,
Enfrento o lodo desidratado desta zona de baixo meretrício.



Natália (do que digo)





Digo de algo que me induz a descobri-la,
Tirar-lhe os véus invisíveis quando leio os seus versos.
Digo da beleza que, mesmo descomunal,
É tempero para a voluptuosa gana deste espírito livre.

Digo de perspicácia,
De toque auspício,
De olhar herético em traçado casto,
De pedido lúdico em desejo luxurioso.

Digo do que muda o que sou,
Do que julgo morrer em entendimento singular.






Ausência Repentina





Olhei para a janela só para ver se você estava lá
E procurei - esmiuçando as cores decompostas ao ocaso -
Por algum movimento que se tornasse seu sentimento tímido,
Mas só havia a monotonia de mais um dia cotidiano.

Supri a noite com a doçura que me envenena,
A esperar que e penitência fosse a recompensa
Pela falta reconhecida nos meus atos involuntários.

Que esse dia não se repita mais!
(...)
É só isso que desejo;
Estar presente em minhas decisões.



Confiança





Não creio em quem é bom demais para não se culpar,
Em quem nunca errou para não se responsabilizar,
Em quem não se sentiu bom demais para ser o mal,
Em quem não omitiu o canalha em si para ser normal.

Não vejo a humanidade em terras perfeitas,
Longe de suspeitas...
Não sinto um pingo de verdade na completa sanidade-
Não sou alguém que se pode confiar.

Suspeito da mínima mudança nos suspiros sonolentos,
Dos destinos imprevisíveis de estranhos inventos,
Dos incêndios naturais quem ocorrem em providência,
Das palavras inflamadas que clamam por decência.

Não vejo a humanidade no enfeite angelical,
No beijo matinal...
Não sinto uma regra de verdade na falta de vaidade-
Não sou alguém que se pode confiar.



Valsa Imperial





Nas linhas tortuosas desta inspiração,
Percebi teus lábios trêmulos pelo medo.
Após agradecer ao vento pela carícia,
Como pôde permanecer estática durante a tempestade?

Por que amar a natureza se o natural é ter a sabedoria para a mudança?

Eu tentei, mas não precisei:
Teus pedaços de sonho desapareceram no ar,
Tuas coxas se ocultaram do que desejo
E tuas madeixas sumiram do meu caderno de anotações.

Ressurgi para estar mais próximo,
Entretanto a distância parece maior,
O sofrimento se estabelece pior;
Somos flagelos de um passado sem lembrança.






A Verdade Construída





Não me importa se estes movimentos são absurdos,
Pois são inabaláveis a qualquer força externa:
Não existem no isolamento que se propuseram,
Nem persistem na semelhança de um milisegundo para outro.

É outro som na vitrola antiga,
Outro traço no rascunho velho,
Outra nuvem num céu de festa infantil.

Guardo o jogo como se pudesse jogar sozinho,
Mas não me rendo às nossas possibilidades.
Crio a fome para homens estúpidos, rotos e empanzinados,
Porém me esqueço do último dia em que me fartei.

É outro som na vitrola antiga,
Outro traço no rascunho velho,
Outra nuvem num céu de festa infantil.

Apago o fogo sem o fôlego que me fez auto-confiante
E abandono a sala a desejar que se volte contra mim,
Mas não é momento para isso;
Ainda nos precisamos...

Será verdade quando não esperarmos que seja.



Morte Virtual





Por que tenta impor-me controle
Se é a ausência dos valores que pretende para mim?
Hoje eu lhe traí,
Chutei-lhe a bunda,
Arranquei-lhe a insignificância que pensa ser a sua vida.

Se lhe parece cruel,
Saiba que me fez muito bem;
O prazer em passar uma borracha em sua figuração me causou furores.

Tiro de quem me tirou os sonhos,
De quem tentou desenhar o meu caminho,
De quem pretende viver dos louros alheios
(não os desejo para mim, tente-os você).

Uma boa morte virtual para você!



O Lado Lodo





Não sei o que estarei fazendo,
Nem se estarei,
Portanto, vou ficar por hoje na metrópole.

É estranho, mas freqüento o absurdo
Descrito na peste da realidade e do inadmissível;
Adoro passear nas imediações da Praça da República,
Pois aquele cheiro de mendicância e prostituição me excita!

Não é o apelo do jardim de infância,
Ou sorrisos por um mundo melhor em faces milionárias,
Mas é a carne castigada e marcada que me cativa;
Transpira humanidade
- Animais desesperados por mais -
Sem os desenhos repletos de entrelinhas do ideal de civilização contemporânea.



Estereótipo





Pensou igual a mim, sobre o canto de Osanha,
E me perdi em pensamento coibido pelo sofrimento.
Não pude falar do meu prazer,
Do meu desejo
(Apenas contemplei o tempo apagado sem querer).

Não convivo mais com o dia que me observa com olhos estatelados,
Pois normatizei a liberdade;
Um ato descabido.

Absorvi as vozes discriminadas pelo tom como se fossem só uma,
Porque, dos timbres tão próximos, sintetizei-os em um só canal.
O vento declina em genitivo para que eu obedeça,
Mas, mesmo na fragilidade de um corpo humano, sou eu,
Sou gume,
Sou instrumento do que me extingue.



Auto-Trapaça





Lembranças estilhaçadas pela força do vento,
Desenhos e palavras a não representar esta imensidão,
Diluíram-se nas lágrimas escondidas pela chuva,
Transformaram-se do valor de espírito para um fragmento de universo.

Continuo a aguardar os sussurros de Xapanã
Para que meu destino seja descoberto,
Entretanto há menos eu do que preciso,
Tampouco suspeito dos indícios que nos une.

Você é crível, porém de longínqua compreensão;
Embarcamos para o Índico a fim de cumprir uma promessa obtusa,
Impossível, contudo confiamos em doze gerações que ainda não iniciamos.

Se - neste pudor, nesta moderação -
Eu soubesse mentir melhor,
Ludibriaria o desejo que me tenta a dissimular o nosso gesto em verso.



Mude de Cenário





Mude de cenário, homem,
Há anos não te vejo diferente.
Veja ao contrário, homem,
Procure a beleza no indecente.

Quando brincou, no início da renovação,
Percebi que muito queria no teu coração,
Entretanto os anos trazem comodidades
Que desfazem a gana da nossa vontade.

Recrie o espaço, explore o tempo,
Dê oportunidade ao teu momento.
Ressuscite os mortos e a ironia
Que adormece com a tua alegria.



Conversa com o Caçador





Foi feita da doença que esperaste como amor,
Uma breve inquisição que se desfez com a cabeça que esfarelava em tuas mãos.
Atingiste o que queria;
O soluçar da sabedoria encardida através das eras,
Entre as despedidas exacerbadas antes da curta viagem,
Corrompeu todos os teus inimigos mortais.

Os nobres da ceia foram convidados por engano,
Contudo o teu plano saiu melhor do que esperavas:
Todos aqueles abraços te deixaram orgulhoso,
Apaixonado pelo próprio eu que te entorpeces.

Se só queres ludibriar o teu desgosto,
Para que insistes neste canto mórbido?
Estás exausto, melancólico,
Mas ainda ateia fogo nos valores que concebeste.

Oxalá que este nascituro mude o mundo como disses,
Assim teus filhos poderão, enfim, perdoar a dor desta cumprida lista extensa.



Um Brinquedo





É só um brinquedo nas mãos de um adulto com saudades de uma infância
Sem os requintes e coisas cômodas do presente,
Sem a criatividade dependente de trambolhos tecnológicos.

É só um brinquedo para relacionar com a vida...
Sem vida,
Mas para relacionar com a mesma.

É só um brinquedo semelhante aos demais,
Que, de tão novo, todas as novas crianças possuem;
Diferem nos recordes e pontuações,
Músicas e sons,
Imagens, vídeos e outras particularidades temporárias,
Entretanto,
Até a diferença pode ser agrupada em iguais.

É só um brinquedo feito para que aprendamos...
Aprender,
Apreender,
A prender...
Fica a ser definido pelo tempo.



Neo Romana





A capital do sonho é o medo,
Mas a cidade mais bela será sempre o amor...
Está tudo tão próximo do cruzamento que mal consigo terminar;
As luzes se cruzam antes do tempo que iluminam minh'alma.

Vou até a estação, embarcarei no trem para a angústia
A fim de ver o meu amor aprisionado em xeque-mate.
O planeta está em chamas vivas,
Em fugas cálidas,
E eu estou afoito por uma resposta do futuro.

Tua singela alma italiana diz de algo que não sei,
De um tempero inorgânico que hei de render aos meus poemas,
Todavia, a antítese do que sinto com o que faço me detem...
Ó, Deus, até quando estas forcas?

A serenidade pede para que eu espere,
Ou me engana para que não te veja.



Tempo Real





Você que é acostumado com o som
E está a habituar-se com a letra e a luz,
Passe a afazer-se com a profundidade
E com o aroma do corpo que lhe vende abstração.

Você que transforma o tempo em anedota,
Que viveu as comédias pastelão do nascedouro da vida televisionada,
Acostume-se a ser peça de museu antes da morte,
Anoiteça durante o crepúsculo hebraico
E seja ilustrado pelos ícones ortodoxos da imponente São Petesburgo.



A Alquimia





Fecho as portas pela balbúrdia que se estabeleceu em minha vida,
Pela compulsão mordaz em haver semelhança em meus versos,
Pela supressão exata do meu caminho amoralizado,
Pela extensão herege das cerimônias litúrgicas e dos festivais dinonisíacos.

Não te volvas ao meio do meu círculo de tentações,
Pois eu preciso ficar só para enganá-los.
Espero um destino que não existe no futuro
E, mesmo sabendo da desilusão, arremesso-me contra para que meu corpo se desfaça em pedaços.

Minha criatividade está esgotada...
Já me acostumei com a dor do passado;
Tanto que esta se tornou alimento escasso, base para novos saltos.

De portas fechadas digo:
Preciso tanto de ti que é uma lástima ter que matar os teus sentidos.



Pode Fazer





Pode escrever que estou sozinho,
Que não quero mais te esquecer,
Que não vivo sem o teu carinho
E que estou brincando de sofrer.

Pode falar da minha atrocidade
Em ser o elo para a incoercível
Volúpia que não tem vontade
E rege a frieza intátil do invisível.

Só não pode fingir - novamente - que zela pelo amor.



Essencial





Não pense na catequese esdrúxula do frade
Que quis transformar os seus sonhos em vícios,
Pois é do seu lixo que brotou a mais vívida das lótus
E da sua sede que virá o mais ameno dos tempos.

Não mesure os deslizes gramático-normativos,
As infundadas formas coloquiais
E as cores de vestes desapropriadas;
Todos o esperam ansiosos além do Cabo Bojador
Com baionetas desarmadas e sorrisos sinceros,
Porque é o que falta em nossa medíocre revisão da morte.



O Dono da Luz





Acreditou que poderia ser mais dizendo do que sente
Na película tênue do que capta nos sentidos que lhe cabem.
Agrediu os Deuses e desprezou a existência de sua imortalidade
Cuspindo na tigela de ambrósia com certeza de suas concepções.

Ganimedes chorou ao vê-lo definhar, pois o manjar a ele era destinado
E Zeus, furioso, condenou-o a vagar na escuridão de seu próprio vazio.

As afirmações se tornaram foices para o labor,
Os sentimentos eram dor,
A luz era o cansaço diário
E a noite - que o amedrontava - era o descanso para o sofrimento.



Não Sou Feliz





Não sou feliz,
Apenas um homem que morre aos poucos.
Não sou feliz,
Talvez alguém que pode ser louco.
Não sou feliz,
Entretanto iludo e creio no borrão de tinta.
Não sou feliz,
Todavia lhe suporto mesmo que minta.

Não sou feliz,
Não sou juiz,
Não sou falácia
E nem verdade.



Dona Baratinha





Glória, Dona Baratinha,
A mulher mais bela deste baile encantado!
Glória, Oh, Minha Rainha,
Uma mulher de mil suspiros apaixonados!

Espero que entenda a minha audácia
E que nos presenteie em astúcia
Com mais um requintado movimento,
Em mais um delicado momento.

Glória, Dona Baratinha,
A mulher mais bela deste baile encantado!
Glória, Oh, Minha Rainha,
Uma mulher de mil suspiros apaixonados!



Um Dia de Restos





Pelo ato, o falso desprezo,
O isolamento,
A procrastinação da felicidade.

A usura se fez imaculada pela tez pintada de ternura,
Pela voz embargada de mentira...
Quem de nós pode voltar se é cotidiano?

Tenho o sangue escorrendo em meus dedos,
A lágrima alimentando o meu desejo
E tudo o que posso fazer é a omissão,
Tudo o que posso conter é o que sei.

Além do que vejo está o que não obteve falha,
O fio perfeito da fria navalha
E o ímpio que não recua diante do perigo.



De Acordo





De costas para a 'vida de verdade'
Com café preto na xícara,
Salário ao fim do mês,
Decoração do apartamento
E diversão presa em momentos.

De costas para a 'sanidade',
Possíveis metáforas,
Sensíveis especulações
E canais fechados para o inexorável.

Definhar,
Mendigar,
Apodrecer:
Verbos recusados para o 'bem'.


Não há partida ou perda,
Pois o mundo se encarrega de absorver o impuro e esnobar o conceito.



O Alaúde e a Cortesã





Você não sabe o quanto tenho a lhe dizer,
Falar de dúvidas que maculam o seu cordel.
Você não sabe o quanto vi no que esqueceu
Em seus passos que prosseguiam escrupulosos.

O meu erro maior foi o silêncio,
Mesmo que tenha disfarçado a dor;
Não supus e não quis me preocupar
Com as palavras castas a lhe sufocar.



Anti-Destino





Fótons dançaram mais belos à noite,
Sonhos nutriram desejos amenos e famintos,
Moças bailaram sem medo da morte,
Casas se despedaçaram tão rígidas quanto papel.

Medos criaram mais contos eróticos,
Bichos viveram até saber que pensam,
Beijos perderam o sentido quando dados,
Credos se compararam até ser um só,
Falas se cruzaram assim que sumiu o amor.

É quase desistência,
Não há a aparência num organismo vivo.
É a via da demência
Que encontra a terapia no anti-destino.



Sem Juízo





Há um infinito em seu corpo que me cega,
Uma falta de juízo em tudo o que lhe digo,
Todavia me entrego à angústia de saber
Da sentença à revelia que fizeram do que crê.



La Réponse de ma Douleur





J'essaye de vous comprendre.
Voulez-vous la même chose?
Pouvez-vous toucher l'invisible?
Pouvez-vous embrasser l'impossible?

Já não sei se quero o compreensível
Ou se caio diante da sua bela arte.
Não entendo a força que me move
Para a singela ternura de suas linhas ígneas.

Can I leave my last high stake
To find a breath of love inside my soul?
You can be the answer of my pain...

Oui, la réponse de ma douleur!

Ho provato a parlare alla mia verità
Ed ho trovato una bussola mortale.






A Falácia do Mercado Livre





Sou semelhante a qualquer tralha que está no mercado;
Exposto e disposto a parecer original.
(...)
Um rótulo estampado na cara,
Um conteúdo efêmero a ser devorado
E um jingle apelativo como cafetão.

Sou ignorante a misturar vãs filosofias
Na esperança de encontrar o conceito que me ache,
Entretanto eu acho,
Faço o que não encontro explicação.
(...)
Milhares de cigarros apagados no pulmão,
Frases decoradas dos costumes da cultura
E hábitos requintados para esconder o animal.

Sou a prateleira do que não me considera,
O pulso cortado após a fuga da quimera,
O sangue no piso lustrado para a personificação do mal...
(...)
O que é o mal?
Mau para mim ou para todos?
A metade que me cabe é bem menor do que considero.

Sou o esforço em afirmar o que sou,
O indelével andar a esmo,
O indecifrável suspiro do desejo.
(...)
Perco o tino na prosopopéia do que sinto.



Você





Você é feixe de luz
Que acolhe e desperta,
É beijo no escuro
Que não escolhe meta,
É livro em branco
Que não precisa da letra.

Eu sou um milhão de clichês
Feitos só pra você,
Na hora em que quiser,
Sendo mentira ou verdade,
Do modo que me tiver,
Assim que - você ou eu - precisar.

Tenho saudade no espaço em que não há sinal de vida;
Mesmo que a vida pulse nas folhas estáticas do mar...
Vivo um compêndio de uma língua desconhecida; só por você,
Só pra saber como sente o mundo.


Vinho e Valsa





Paixões findadas em minutos,
Amores mortos em segundos
E prospectos que não duram um verso.

Prefiro estar certo de minha identidade masculina
- Cheia de hormônios que me empurram a um ritual ejaculatório -,
Pois assim não decepciono;
Já entrego o meu jogo antes que se torne sujo.

Do bacanal, do dionisíaco, resta a alma fria que não me basta:
A safadeza em não ser omisso custa caro... Pois é!