domingo, 23 de setembro de 2007

Baú IV


Aviso dos Céus





Que toda a relação seja aniquilada,
Corrompida a tal ponto que seque sobre a terra;
Os frutos mestiços que me subtraem a serventia
São baratos e fartos,
Mas despropícios e castos.

A função da foice é rasgar o meu peito,
Findar o capítulo ignóbil que nos trouxe até aqui,
Entretanto, longe das lamúrias que atribuíram aos caboclos,
Intercedo pela compreensão de São José em meu entendimento.

Papo-amarelo carregada,
Amor e ódio no pulso que suporta esta enxada
(...)
E que nenhum homem se revolte antes do aviso dos céus.



O Seu Toque





Creio que sempre renderei lágrimas aos trechos de sua vida,
Todos estes períodos compreendidos em seus poemas sem conclusão.
Eu, quem nunca saiu dos limites da aurora,
Espero por dores que não são minhas
E me encontro sozinha; na companhia de sua solidão.

Tento não levar a sério este meu impulso que chamam de aberração,
Mas a sua cara de sono e beiços túrgidos me trazem o que não creio ser aberração...
Eu me sinto mulher,
Tocada a quilômetros de distância eu me sinto mulher.

O que é o toque?
A brutalidade de peles encontradas
Ou a transgressão do meu modo de viver?



A Minha Nudez Sobre o Teu Ódio





Percebe, querido, a minha pele excitada:
Mais rubra e arrepiada que o de costume...
Toque-me e sinta,
Deslize os teus dedos em mim:
Inflama-me um desejo absurdo,
Um apreço pela tua virilidade!

Traga a tua saliva até meus lábios;
Excite-me,
Inspire-me a conter a repugnância de teu ódio.

Da tua raiva recrio os meus instintos,
Portanto permito outros corpos em meu universo...
Pertenço ao teu desprezo,
Por isso insisto em reconquistar para sempre o teu amor.



Senhorita Persephone





É mulher dominadora da arte da provocação;
Expõe-se em outros corpos,
Outras falas,
Outros destinos preconcebidos.

É mentira maquiada de desejo libidinoso,
Orgasmos múltiplos em sudorese,
Desenhos feitos a unhas na minha barriga
E propostas suicidas pelo prazer.

É fim,
Ladra de instintos,
Carícia antes do assassinato,
Premissa para o derradeiro ato.



Lições





Talvez, além dos golpes contundentes no peito,
Houvesse o amor destronado de mais um semelhante-
Desnaturados somos nós mesmos que desejamos mais do que lágrimas ao espelho.

Em vez das afirmações revoltadas por uma monstruosidade imoral,
A cidade se quieta - às vezes nem isso - para se recompor em fúria no seguinte propósito.

A solução é muita ousadia,
Portanto, ater-se à crítica é o retrato três por quatro do jovem revolucionário,
A saída pseudo-nobre para a mesmice,
O alimento para a frenagem do usual,
A figuração para a aplicação do inviável.

Que as lições não me conformem,
Nem me destronem,
Mas cada dia se torna mais difícil.






Obra do Sarcasmo





Chega então o pior delírio do ciclo vicioso;
Quando nenhuma arte basta para sarar a frustração,
Nenhuma força age a fim de conter o decepcionante enredo,
Nenhuma dor é nobre para encobrir a mediocridade da preponderante,
Nenhuma corte basta para o inexcedível
E nada fede tanto quanto a falta de vontade.

Soube do gozo sepulcral,
A dita esperança dos fracassados,
Mas não há reação melhor do que um sorriso amarelo-
Maldito sarcasmo!



Todos os Sonhos Ocultos





Não tentarei ser liso o bastante para refletir a realidade,
Pois desconheço quão distorcida estará a incidir em mim.
Nem terei certeza do que possuo - se é que possuo -,
Porque a luz não é cabedal para nutrir o meu orgulho.

Espionei o meu próprio lar por um traço novo
E só encontrei a solidão nos pontos de fuga que determinei,
Portanto, disperso em um momento de paz,
Vagueio nas curvas criadas para você.






Pixote





Distante da sede que só nos cega,
Não creio no instante que me nega
Nos braços feridos de quem partiu-
Estou a um passo do teu laço hostil.

Quem mais surpreende é a tua paixão;
Mas em que era os disfarces retornarão?
Sofres, contudo é um zelo ruim
Estirpar as minhas vozes assim.

Até hoje te enganei sem recompensa,
Pela tentação de cuspir nesta doença
Que avança às milhas da tua doce prosa
(Não é um insulto a esta alma gananciosa).

Peço que me entendas
E retire estas vendas;
Estas rimas inúteis e métricas fúteis,
Estes gestos iguais e lampejos mortais.

Quem me entende mais do que tu?
Oxalá que o tempo me esqueça,
Que a luz se entristeça
E que não tenhamos mais vontade.

Quem me julga mais do que tu?
Não se desfigure agora,
Pois é na vida que esta dúvida vigora.



Teu Verso





Cores e lágrimas,
Sonhos e feitos,
Vidas e lástimas;
Teu jeito direito.

Um verso de novo,
Um verso mais novo,
Um verso tão lindo,
Um verso bem-vindo.

Distraia os meus olhos,
Contorça os meus ossos,
Abrigue a minh'alma,
Suspeite da calma.

Teu verso em um ano,
Teu verso profano,
Teu verso na pele
Em tom que congele.



Make Over





Ninguém me convence
ao garrido compasso
travestido em verso
áureo, preso no tempo e na
lama que me
impõe desvios da
alma.

Não testifico
uma
natureza válida
e dispersa,
submersa em meu sangue vil.



Terror em Staccati





Eu te desejo,
Mas não estou contigo,
Portanto, nunca é suficiente.

Começo a crer que não é engano
A creditar ao ato uma provocação,
A entorpecer o silêncio com precipitações
(Este teu medo também é meu,
Contudo esperar distrai o espírito).

Terror em staccati para que, mulher?
Eu me entreguei a tudo o que quer
E não concebo o receio após o teu beijo.



Flores do Ipê-Amarelo





O ipê-amarelo 'tá maluco,
Tem flor o ano inteiro!

Eu não tenho paciência,
Nem olfato;
Estou perto do ultimo ato
E minhas mãos congelam.

Fechei as portas,
Tranquei a alma
E não desejo mais criptografia;
Isso nunca foi paz!






Eu; Alguém





Eu, quem insistiu em te encontrar,
Não imaginei que fosse achar
Um precipício enfeitado de ilusão.

Eu, das cicatrizes sem valor,
Cortei as raízes de um amor
Somente pra julgar a tua paixão.

Eu, do ato falho e imoral,
Aconteci com todo o mal
A me matar com algum poder.

Eu, da fúria fria e servil,
Acreditei no que surgiu
Nas entrelinhas do teu padecer.



Dos Meus Pulsos





Não consigo pintar;
Só sai você dos meus pulsos.

[Uma linha que seja
- Peço aos Deuses que não acredito -,
Faça-se uma imagem,
Um ambiente que não o dela!]

Povôo-me de seus fragmentos abstratos,
De seus traços até o sexto grau nos grupos orgânicos,
Da especulação sobre estas cores encarnadas e perfumadas...
Ninguém se perde? Sinto-me assim.

Quisera eu esquecer esta angústia
A pintar os devaneios bucólicos que odeio,
Ou as friezas urbanas que presencio,
Todavia são seios e pernas,
Boca e olhar,
Invasão e evasão:
Repito-me numa agonia medíocre.



Inteira





Das máscaras de dezenas de perfis,
Permito-me retirá-las uma por vez
Para calar toda a prepotência dos meus atos racionais;
Não quero reconhecer o destino de onde me arremesso,
Pois toda esta parábola terá recompensado cicatrizes ou morte.

Sei dELA a partir do indeterminado,
Do inexplicado,
Da sensação avessa ao completo, mas inteira.



Esta Hora





E agora?
O que vai fazer já que chegou aqui?
O que vai fazer já que não quer sorrir?

Após o limite - a previsão - tudo é tão vazio;
Nenhum mísero sonho depois da euforia,
Alguma decepção que não cura a ironia duma altura em desespero.

E a hora
É agora?
Tanta fome por esta hora?



Minas de um Nome Só





Minas de um nome só que não me importa a família:
Dentes relaxados e depois cravados um contra o outro
Em estupefata ação atenuante...

Não há atenuante para o que sinto;
Pelo menos nas próximas dez horas ou seqüência de atitudes.

Não há pontuação,
Veto ou voto.
Não há significante
Ou significado.
Não há mais do que chorar,
Lutar ou render.

Não há atenuante para o que sinto,
No máximo uma bebedeira perto do fim.

Onde será que se esconde esta palavra dita,
Distante de qualquer procedimento lúdico-literário?
Somos parte do mesmo círculo que queima
(Ninguém percebe,
Pois vejo cinzas da conjunção de espelhos subordinados).

O que há?
Aprecias-te, meu belo horizonte?
Fale,
Fale,
Fale e exponha o meu ridículo,
A minha solidão agonizante-
Não tenho poder sobre o que mais preciso.



Lembro de Doze Passos





Perturbá-la
É só o que desejo,
O que intenciono;
Nenhuma harmonia merece tal ordem plácida de espírito.

Instigá-la,
Forçá-la a mudar os meus valores,
Incitá-la a denunciar o seu íntimo para o meu êxtase pessoal;
Nenhuma divinização da beleza merece ser intocada.

Apesar de progressões formadas para uma espécie de ataque,
É a defesa pela tontura após o golpe de explendor,
É a resposta à vexação pelo toque desequilibrante;
Nenhuma curiosidade consegue ser tão angustiante.



De Tudo, Não Consegui Abstrair Meu Sexo





Sim, consigo perceber o perigo
Na tua face serena diante da janela,
Nos pés em figuração minimalista,
Nas línguas em brincadeira serelepe,
Na mão contra o espelho,
Nos músculos exibidos,
Nas unhas curvilíneas,
No corpo arqueado,
Nos sorrisos de quem vive,
Na luz,
Na sombra,
Nos olhos...

Platão, Sartre e du Beauvoir que me perdoem.



Pizza





Pizza,
Novamente
Pizza...
Até quando
Pizza?
Para sempre
Pizza?

A democracia se despe
E exibe a demagógica alma;
A democracia desde meados dos oitenta
Para ser da roubalheira ferramenta.

Pizza alagoana,
Baiana,
Paulista,
Carioca,
Mineira
E de qualquer lugar.

A pizza não merece ser lírica,
Não consegue ser bela...
É só a pizza do país dos banguelas.



Caminho das Pedras (Transe)





Estamos longe demais e não sei o caminho:
Não sei o motivo de me sentir tão sozinho.
Os olhos são o ataque, os ouvidos a defesa;
Então coloque logo estas cartas sobre a mesa!

A mente mente e sentimos uma verdade sem sentido,
A mente mente e o corpo se engana corrompido,
A mente surta e a regra perde a força num segundo,
A mente sangra e liberta um espírito vagabundo.

É fácil demais fingir estar certo
Na conversa fiada de um mundo concreto
Que se zanga e grita quando confrontado,
Mas parece chorar com os pulsos cortados.

A vida acaba e o mundo continua;
O insubstituível não anda pelas ruas...
A vida explode no meu sangue colorido
Pelo vermelho de estranhos atrativos.

O meu orgulho limita a minha visão
E continuo sendo a luz e o coração,
Vomitando a doença em milhares de palavras,
Imitando a crença em frases manipuladas.

Quero aprender a dizer não para conter
A auto-piedade que enxergo em você,
O desejo eminente que tem em possuir
E as facas que esconde quando se põe a sorrir.

A vida, agora, me parece um transe...
(A mente mente e sentimos uma verdade sem sentido)
A vida, agora, me parece um transe...
(A mente mente e o corpo se engana corrompido)
A vida, agora, me parece um transe...
(A mente surta e a regra perde a força num segundo)
A vida, agora, me parece um transe...
(A mente sangra e liberta um espírito vagabundo)
A vida, agora, me parece um transe
Que se lança nu num abismo de suspeitas infinitas.
A vida, agora, me parece um transe
Que avança até uma idéia que parece favorita.
A vida, agora, me parece um transe
De estilhaços fartos que atravessam o meu corpo e a minha face.
A vida, agora, me parece um transe:
O que seria de mim se o inferno não atravessasse?






Permissão 644





Olhos, lábios e gestos;
O que dizer da perfeição?
Pés, coxas e sexo;
O que sentir com a perfeição?

Contornos e silêncio
Enquanto a luz se molda abismada...
Provoca tão bem deste belo horizonte
Que chego a pensar ser o cômodo vizinho;
Desejo invadi-lo sem permissão
(Não preciso de permissão desde que aprendi a me virar,
Mas, às vezes, tento me conter).



Assim Seja





Não suporto deste jeito,
A arremessar amplos conceitos no espelho;
Espero que seja você,
Mas é só a proximidade do que imagino após percebê-la cauterizando feridas velhas.

Tento continuar,
Responder aos apelos meus a implodir o meu próprio orgulho,
Entretanto, contra a minha fome, uma escuridão me desfigura.

Você está lá
Despida,
Exposta,
Disposta às últimas conseqüências,
Proposta a maquear-se de carência
Para ser o cruel instrumento da tortura.

(Sou arrecife intransponível,
Berço da vida e da morte,
Contudo, desesperado pela sua revelação,
Busco flores negras em pensamento)

Sob minha mão esquerda repousa o seu pedido,
Porém, não acredito em suas especulações,
Não caracterizo um ambiente além-jogo,
Não lhe aconselho continuar.



Vida de Escravo





Acordei e olhei para a tua cara;
Senti nojo por um segundo.
Levantei e olhei para mim;
Percebi que me entreguei à tua insatisfação.

Tentei pensar alegrias,
Mas a tristeza é um muco grosso em nossa vida.
Forcei alguma alegoria,
Todavia não mais suporto ver a tua calçola pendurada no registro do chuveiro.

Oh, vida de escravo!
- Traga o café, mulher, pois estou atrasado!
Oh, vida de escravo!
- Eu pago as contas e bufo onde quiser!

Sim, Sexta-feira fui ao puteiro
E trepei com a vagabunda mais desavergonhada,
Ademais, casaria com ela se não soubesse que tornar-se-ia a tua imagem e semelhança.

Oh, vida de escravo!
- Mova-te um pouco e finja que está gostando!
Oh, vida de escravo!
- Não vivo em paz com as tuas reclamações!



Fui e Volto Já





Fui e volto em pouco tempo,
Fui a guardar teu acalento.
Fui e sinto mais do que paixão,
Fui para curar minha ilusão.

Fui e volto já,
Fui sem avisar...
Fui e volto já,
Fui para encontrar o sacrifício.

Fui e volto em um minuto,
Fui para calar o insulto.
Fui e desde já me preparo
Para mais um momento raro.

Fui e volto já,
Fui sem avisar...
Fui e volto já,
Fui para renovar o meu princípio.



Nem Amar Nos Deu Acordes





Parece brincadeira,
Jogo de azar,
Ilusão desvairada
E medo de amar;
Tudo junto no mesmo peito,
Tudo vivo a pedir a morte.

Digo de mim,
Você pensa que é seu
E me corta os sentidos sem resposta...
Não paro de pensar em você.

Nem amar nos deu acordes,
Nem a verdade compôs canções:
O que é a aceitação?

Nem amar nos deu acordes,
Nem você quis me dizer
O que é a aceitação.



Continuar Para Que?





Continuar para que?
O asterisco talvez não desça no horizonte
E as paixões talvez não desapareçam por encantamento.

Continuar para que?
Soube que um verso dura vinte quatro horas
E uma vida toda a eternidade.

Continuar para que?
Insensatez é ter meu pulso destruído
Pela lida compulsiva no papel e prancheta para fins trágicos.

Continuar para que?



Hagakuri: a revista





Insisto no fim do dia,
Nos trapos presos no arame farpado,
Na epopéia sem desfecho escrito,
No canto subsônico,
Nas falácias abrasivas,
Nos compêndios sem sentido,
Nos abrigos vazios,
No cio.

Persisto por mim,
Pelo que respondes em encantamento,
Pelo tormento em não saber,
Pela vida a entreter-se,
Pela penúria da sentença,
Pela frieza da descrença,
Pelos nós nomeados números,
Pela fratura de teu úmero,
Pela indiferença da realidade.

Nada corrompe tanto quanto este ócio criativo,
Uma fração que me pede para ser indeciso...
Nenhuma dor é maior do que esta de mentira,
Contudo, o impulso também é redenção.
Não levo Tsunetomo mais a sério, meu bem,
Ademais, ele fingiu ser o bem e a verdade-
Assim como a nossa falsa caridade.



Desligamento





Convidei-te para rodopiar neste vermelho-crepúsculo,
Vestida em anáguas engomadas para o dia de Obá;
Tu giraste, giraste, giraste e te confundiste com a poeira
Que alimentava a tristeza pobre de minha imaginação.

Dançaste com Maria Padilha, Rainha Domitila e Menina;
Fêmeas felizes de todos os lugares sem paz.
Puseste a coroa dos tempos para saber do destino do Sol,
Contudo insististe na curiosidade imaculada e tentadora.

Queres finais,
Doces finais,
Mas desonras o templo que desmorona sozinho.

Teu passo soturno desistiu do sabor desta terra,
Pois os nomes que pediste não estão na batida da Quimbanda,
Portanto, assim, atordoado pelos poderes dos Orixás,
Sei que não veremos mais o teu compasso histérico.



Onze Horas





Por ínfimo momento estive perto do sacrossanto pedido,
Corrompido pela anáfora que o induzia em meu descontrole ébrio.
Por que insistir em entrelinhas se o incauto verso me pertence?
Todo o pulsar destes ideais tempera um infinito gélido e sombrio,
Entretanto transformo a nudez de cores em nudez d'amores
(Cabisbaixo fui em meu mundo real até gritar:
- Chega disto, estúpido! És vão!).

Transfiguro-te em puta,
Arranco os teus pigmentos da boca,
Tomo os teus seios nas mãos
E guio os teus olhos,
As tuas falas,
Os teus suspiros.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Baú III


Se Você Quiser





Se você quiser, posso esquecer;
Atordoar o eminente com pouca mentira,
Aludir o inviável em desertos de vidro.

Se você preferir, evito cantar;
Não sonho com a maneira mais fácil,
Não grito por um dispersar de dor.

Se você pedir, esqueço o vinho tinto;
Engulo o seco a seco e sem orgulho,
Enfrento o lodo desidratado desta zona de baixo meretrício.



Natália (do que digo)





Digo de algo que me induz a descobri-la,
Tirar-lhe os véus invisíveis quando leio os seus versos.
Digo da beleza que, mesmo descomunal,
É tempero para a voluptuosa gana deste espírito livre.

Digo de perspicácia,
De toque auspício,
De olhar herético em traçado casto,
De pedido lúdico em desejo luxurioso.

Digo do que muda o que sou,
Do que julgo morrer em entendimento singular.






Ausência Repentina





Olhei para a janela só para ver se você estava lá
E procurei - esmiuçando as cores decompostas ao ocaso -
Por algum movimento que se tornasse seu sentimento tímido,
Mas só havia a monotonia de mais um dia cotidiano.

Supri a noite com a doçura que me envenena,
A esperar que e penitência fosse a recompensa
Pela falta reconhecida nos meus atos involuntários.

Que esse dia não se repita mais!
(...)
É só isso que desejo;
Estar presente em minhas decisões.



Confiança





Não creio em quem é bom demais para não se culpar,
Em quem nunca errou para não se responsabilizar,
Em quem não se sentiu bom demais para ser o mal,
Em quem não omitiu o canalha em si para ser normal.

Não vejo a humanidade em terras perfeitas,
Longe de suspeitas...
Não sinto um pingo de verdade na completa sanidade-
Não sou alguém que se pode confiar.

Suspeito da mínima mudança nos suspiros sonolentos,
Dos destinos imprevisíveis de estranhos inventos,
Dos incêndios naturais quem ocorrem em providência,
Das palavras inflamadas que clamam por decência.

Não vejo a humanidade no enfeite angelical,
No beijo matinal...
Não sinto uma regra de verdade na falta de vaidade-
Não sou alguém que se pode confiar.



Valsa Imperial





Nas linhas tortuosas desta inspiração,
Percebi teus lábios trêmulos pelo medo.
Após agradecer ao vento pela carícia,
Como pôde permanecer estática durante a tempestade?

Por que amar a natureza se o natural é ter a sabedoria para a mudança?

Eu tentei, mas não precisei:
Teus pedaços de sonho desapareceram no ar,
Tuas coxas se ocultaram do que desejo
E tuas madeixas sumiram do meu caderno de anotações.

Ressurgi para estar mais próximo,
Entretanto a distância parece maior,
O sofrimento se estabelece pior;
Somos flagelos de um passado sem lembrança.






A Verdade Construída





Não me importa se estes movimentos são absurdos,
Pois são inabaláveis a qualquer força externa:
Não existem no isolamento que se propuseram,
Nem persistem na semelhança de um milisegundo para outro.

É outro som na vitrola antiga,
Outro traço no rascunho velho,
Outra nuvem num céu de festa infantil.

Guardo o jogo como se pudesse jogar sozinho,
Mas não me rendo às nossas possibilidades.
Crio a fome para homens estúpidos, rotos e empanzinados,
Porém me esqueço do último dia em que me fartei.

É outro som na vitrola antiga,
Outro traço no rascunho velho,
Outra nuvem num céu de festa infantil.

Apago o fogo sem o fôlego que me fez auto-confiante
E abandono a sala a desejar que se volte contra mim,
Mas não é momento para isso;
Ainda nos precisamos...

Será verdade quando não esperarmos que seja.



Morte Virtual





Por que tenta impor-me controle
Se é a ausência dos valores que pretende para mim?
Hoje eu lhe traí,
Chutei-lhe a bunda,
Arranquei-lhe a insignificância que pensa ser a sua vida.

Se lhe parece cruel,
Saiba que me fez muito bem;
O prazer em passar uma borracha em sua figuração me causou furores.

Tiro de quem me tirou os sonhos,
De quem tentou desenhar o meu caminho,
De quem pretende viver dos louros alheios
(não os desejo para mim, tente-os você).

Uma boa morte virtual para você!



O Lado Lodo





Não sei o que estarei fazendo,
Nem se estarei,
Portanto, vou ficar por hoje na metrópole.

É estranho, mas freqüento o absurdo
Descrito na peste da realidade e do inadmissível;
Adoro passear nas imediações da Praça da República,
Pois aquele cheiro de mendicância e prostituição me excita!

Não é o apelo do jardim de infância,
Ou sorrisos por um mundo melhor em faces milionárias,
Mas é a carne castigada e marcada que me cativa;
Transpira humanidade
- Animais desesperados por mais -
Sem os desenhos repletos de entrelinhas do ideal de civilização contemporânea.



Estereótipo





Pensou igual a mim, sobre o canto de Osanha,
E me perdi em pensamento coibido pelo sofrimento.
Não pude falar do meu prazer,
Do meu desejo
(Apenas contemplei o tempo apagado sem querer).

Não convivo mais com o dia que me observa com olhos estatelados,
Pois normatizei a liberdade;
Um ato descabido.

Absorvi as vozes discriminadas pelo tom como se fossem só uma,
Porque, dos timbres tão próximos, sintetizei-os em um só canal.
O vento declina em genitivo para que eu obedeça,
Mas, mesmo na fragilidade de um corpo humano, sou eu,
Sou gume,
Sou instrumento do que me extingue.



Auto-Trapaça





Lembranças estilhaçadas pela força do vento,
Desenhos e palavras a não representar esta imensidão,
Diluíram-se nas lágrimas escondidas pela chuva,
Transformaram-se do valor de espírito para um fragmento de universo.

Continuo a aguardar os sussurros de Xapanã
Para que meu destino seja descoberto,
Entretanto há menos eu do que preciso,
Tampouco suspeito dos indícios que nos une.

Você é crível, porém de longínqua compreensão;
Embarcamos para o Índico a fim de cumprir uma promessa obtusa,
Impossível, contudo confiamos em doze gerações que ainda não iniciamos.

Se - neste pudor, nesta moderação -
Eu soubesse mentir melhor,
Ludibriaria o desejo que me tenta a dissimular o nosso gesto em verso.



Mude de Cenário





Mude de cenário, homem,
Há anos não te vejo diferente.
Veja ao contrário, homem,
Procure a beleza no indecente.

Quando brincou, no início da renovação,
Percebi que muito queria no teu coração,
Entretanto os anos trazem comodidades
Que desfazem a gana da nossa vontade.

Recrie o espaço, explore o tempo,
Dê oportunidade ao teu momento.
Ressuscite os mortos e a ironia
Que adormece com a tua alegria.



Conversa com o Caçador





Foi feita da doença que esperaste como amor,
Uma breve inquisição que se desfez com a cabeça que esfarelava em tuas mãos.
Atingiste o que queria;
O soluçar da sabedoria encardida através das eras,
Entre as despedidas exacerbadas antes da curta viagem,
Corrompeu todos os teus inimigos mortais.

Os nobres da ceia foram convidados por engano,
Contudo o teu plano saiu melhor do que esperavas:
Todos aqueles abraços te deixaram orgulhoso,
Apaixonado pelo próprio eu que te entorpeces.

Se só queres ludibriar o teu desgosto,
Para que insistes neste canto mórbido?
Estás exausto, melancólico,
Mas ainda ateia fogo nos valores que concebeste.

Oxalá que este nascituro mude o mundo como disses,
Assim teus filhos poderão, enfim, perdoar a dor desta cumprida lista extensa.



Um Brinquedo





É só um brinquedo nas mãos de um adulto com saudades de uma infância
Sem os requintes e coisas cômodas do presente,
Sem a criatividade dependente de trambolhos tecnológicos.

É só um brinquedo para relacionar com a vida...
Sem vida,
Mas para relacionar com a mesma.

É só um brinquedo semelhante aos demais,
Que, de tão novo, todas as novas crianças possuem;
Diferem nos recordes e pontuações,
Músicas e sons,
Imagens, vídeos e outras particularidades temporárias,
Entretanto,
Até a diferença pode ser agrupada em iguais.

É só um brinquedo feito para que aprendamos...
Aprender,
Apreender,
A prender...
Fica a ser definido pelo tempo.



Neo Romana





A capital do sonho é o medo,
Mas a cidade mais bela será sempre o amor...
Está tudo tão próximo do cruzamento que mal consigo terminar;
As luzes se cruzam antes do tempo que iluminam minh'alma.

Vou até a estação, embarcarei no trem para a angústia
A fim de ver o meu amor aprisionado em xeque-mate.
O planeta está em chamas vivas,
Em fugas cálidas,
E eu estou afoito por uma resposta do futuro.

Tua singela alma italiana diz de algo que não sei,
De um tempero inorgânico que hei de render aos meus poemas,
Todavia, a antítese do que sinto com o que faço me detem...
Ó, Deus, até quando estas forcas?

A serenidade pede para que eu espere,
Ou me engana para que não te veja.



Tempo Real





Você que é acostumado com o som
E está a habituar-se com a letra e a luz,
Passe a afazer-se com a profundidade
E com o aroma do corpo que lhe vende abstração.

Você que transforma o tempo em anedota,
Que viveu as comédias pastelão do nascedouro da vida televisionada,
Acostume-se a ser peça de museu antes da morte,
Anoiteça durante o crepúsculo hebraico
E seja ilustrado pelos ícones ortodoxos da imponente São Petesburgo.



A Alquimia





Fecho as portas pela balbúrdia que se estabeleceu em minha vida,
Pela compulsão mordaz em haver semelhança em meus versos,
Pela supressão exata do meu caminho amoralizado,
Pela extensão herege das cerimônias litúrgicas e dos festivais dinonisíacos.

Não te volvas ao meio do meu círculo de tentações,
Pois eu preciso ficar só para enganá-los.
Espero um destino que não existe no futuro
E, mesmo sabendo da desilusão, arremesso-me contra para que meu corpo se desfaça em pedaços.

Minha criatividade está esgotada...
Já me acostumei com a dor do passado;
Tanto que esta se tornou alimento escasso, base para novos saltos.

De portas fechadas digo:
Preciso tanto de ti que é uma lástima ter que matar os teus sentidos.



Pode Fazer





Pode escrever que estou sozinho,
Que não quero mais te esquecer,
Que não vivo sem o teu carinho
E que estou brincando de sofrer.

Pode falar da minha atrocidade
Em ser o elo para a incoercível
Volúpia que não tem vontade
E rege a frieza intátil do invisível.

Só não pode fingir - novamente - que zela pelo amor.



Essencial





Não pense na catequese esdrúxula do frade
Que quis transformar os seus sonhos em vícios,
Pois é do seu lixo que brotou a mais vívida das lótus
E da sua sede que virá o mais ameno dos tempos.

Não mesure os deslizes gramático-normativos,
As infundadas formas coloquiais
E as cores de vestes desapropriadas;
Todos o esperam ansiosos além do Cabo Bojador
Com baionetas desarmadas e sorrisos sinceros,
Porque é o que falta em nossa medíocre revisão da morte.



O Dono da Luz





Acreditou que poderia ser mais dizendo do que sente
Na película tênue do que capta nos sentidos que lhe cabem.
Agrediu os Deuses e desprezou a existência de sua imortalidade
Cuspindo na tigela de ambrósia com certeza de suas concepções.

Ganimedes chorou ao vê-lo definhar, pois o manjar a ele era destinado
E Zeus, furioso, condenou-o a vagar na escuridão de seu próprio vazio.

As afirmações se tornaram foices para o labor,
Os sentimentos eram dor,
A luz era o cansaço diário
E a noite - que o amedrontava - era o descanso para o sofrimento.



Não Sou Feliz





Não sou feliz,
Apenas um homem que morre aos poucos.
Não sou feliz,
Talvez alguém que pode ser louco.
Não sou feliz,
Entretanto iludo e creio no borrão de tinta.
Não sou feliz,
Todavia lhe suporto mesmo que minta.

Não sou feliz,
Não sou juiz,
Não sou falácia
E nem verdade.



Dona Baratinha





Glória, Dona Baratinha,
A mulher mais bela deste baile encantado!
Glória, Oh, Minha Rainha,
Uma mulher de mil suspiros apaixonados!

Espero que entenda a minha audácia
E que nos presenteie em astúcia
Com mais um requintado movimento,
Em mais um delicado momento.

Glória, Dona Baratinha,
A mulher mais bela deste baile encantado!
Glória, Oh, Minha Rainha,
Uma mulher de mil suspiros apaixonados!



Um Dia de Restos





Pelo ato, o falso desprezo,
O isolamento,
A procrastinação da felicidade.

A usura se fez imaculada pela tez pintada de ternura,
Pela voz embargada de mentira...
Quem de nós pode voltar se é cotidiano?

Tenho o sangue escorrendo em meus dedos,
A lágrima alimentando o meu desejo
E tudo o que posso fazer é a omissão,
Tudo o que posso conter é o que sei.

Além do que vejo está o que não obteve falha,
O fio perfeito da fria navalha
E o ímpio que não recua diante do perigo.



De Acordo





De costas para a 'vida de verdade'
Com café preto na xícara,
Salário ao fim do mês,
Decoração do apartamento
E diversão presa em momentos.

De costas para a 'sanidade',
Possíveis metáforas,
Sensíveis especulações
E canais fechados para o inexorável.

Definhar,
Mendigar,
Apodrecer:
Verbos recusados para o 'bem'.


Não há partida ou perda,
Pois o mundo se encarrega de absorver o impuro e esnobar o conceito.



O Alaúde e a Cortesã





Você não sabe o quanto tenho a lhe dizer,
Falar de dúvidas que maculam o seu cordel.
Você não sabe o quanto vi no que esqueceu
Em seus passos que prosseguiam escrupulosos.

O meu erro maior foi o silêncio,
Mesmo que tenha disfarçado a dor;
Não supus e não quis me preocupar
Com as palavras castas a lhe sufocar.



Anti-Destino





Fótons dançaram mais belos à noite,
Sonhos nutriram desejos amenos e famintos,
Moças bailaram sem medo da morte,
Casas se despedaçaram tão rígidas quanto papel.

Medos criaram mais contos eróticos,
Bichos viveram até saber que pensam,
Beijos perderam o sentido quando dados,
Credos se compararam até ser um só,
Falas se cruzaram assim que sumiu o amor.

É quase desistência,
Não há a aparência num organismo vivo.
É a via da demência
Que encontra a terapia no anti-destino.



Sem Juízo





Há um infinito em seu corpo que me cega,
Uma falta de juízo em tudo o que lhe digo,
Todavia me entrego à angústia de saber
Da sentença à revelia que fizeram do que crê.



La Réponse de ma Douleur





J'essaye de vous comprendre.
Voulez-vous la même chose?
Pouvez-vous toucher l'invisible?
Pouvez-vous embrasser l'impossible?

Já não sei se quero o compreensível
Ou se caio diante da sua bela arte.
Não entendo a força que me move
Para a singela ternura de suas linhas ígneas.

Can I leave my last high stake
To find a breath of love inside my soul?
You can be the answer of my pain...

Oui, la réponse de ma douleur!

Ho provato a parlare alla mia verità
Ed ho trovato una bussola mortale.






A Falácia do Mercado Livre





Sou semelhante a qualquer tralha que está no mercado;
Exposto e disposto a parecer original.
(...)
Um rótulo estampado na cara,
Um conteúdo efêmero a ser devorado
E um jingle apelativo como cafetão.

Sou ignorante a misturar vãs filosofias
Na esperança de encontrar o conceito que me ache,
Entretanto eu acho,
Faço o que não encontro explicação.
(...)
Milhares de cigarros apagados no pulmão,
Frases decoradas dos costumes da cultura
E hábitos requintados para esconder o animal.

Sou a prateleira do que não me considera,
O pulso cortado após a fuga da quimera,
O sangue no piso lustrado para a personificação do mal...
(...)
O que é o mal?
Mau para mim ou para todos?
A metade que me cabe é bem menor do que considero.

Sou o esforço em afirmar o que sou,
O indelével andar a esmo,
O indecifrável suspiro do desejo.
(...)
Perco o tino na prosopopéia do que sinto.



Você





Você é feixe de luz
Que acolhe e desperta,
É beijo no escuro
Que não escolhe meta,
É livro em branco
Que não precisa da letra.

Eu sou um milhão de clichês
Feitos só pra você,
Na hora em que quiser,
Sendo mentira ou verdade,
Do modo que me tiver,
Assim que - você ou eu - precisar.

Tenho saudade no espaço em que não há sinal de vida;
Mesmo que a vida pulse nas folhas estáticas do mar...
Vivo um compêndio de uma língua desconhecida; só por você,
Só pra saber como sente o mundo.


Vinho e Valsa





Paixões findadas em minutos,
Amores mortos em segundos
E prospectos que não duram um verso.

Prefiro estar certo de minha identidade masculina
- Cheia de hormônios que me empurram a um ritual ejaculatório -,
Pois assim não decepciono;
Já entrego o meu jogo antes que se torne sujo.

Do bacanal, do dionisíaco, resta a alma fria que não me basta:
A safadeza em não ser omisso custa caro... Pois é!