segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Domingo no Estádio

Ninguém acredita que o Itaraúva venceu o São Paulo em casa por dois gols de diferença e conquistou o título de campeão paulista. Depois de levar dois gols no início do jogo, o time do interior reagiu e venceu o da capital com louvor, sem qualquer falha. Cadu está certo que fez Rita feliz neste dia, pois as emoções foram tantas que ela sorri como nunca. Seu amigo Charles está aos gritos, porque sempre sofria nas discussões sobre futebol por torcer por um time do interior que, em cem anos de existência, nunca havia conseguido um título.

Os três saem aos pulos do estádio, gritando em nome do Itaraúva e da glória que a pequena cidade havia obtido. Cadu beija Rita com alegria e Charles corre conversando com todos que aparecem no caminho.

- Cadu, preciso ir agora! - avisou Rita.

- Agora, Rita? Vamos beber um pouco!

- Não posso, daqui a duas horas preciso estar na reunião do intercâmbio.

- Eu vou contigo. - oferece-se Charles.

- Se alguém tem que levar minha namorada, eu levo! - Cadu se irrita.

- Você não é meu namorado, já conversamos sobre isso.

- Pô, desculpa, mas a casa da família brasileira de Rita fica do lado da minha.

- Perdão, estou indo.

- Calma, Cadu, vem comigo. Acho que dá pra ficarmos um pouco juntos. - segurando o braço do rapaz.

Cadu retorna, segura o rosto de Rita com delicadeza, traz até perto do seu e sussurra:

- Perdão.

- Vamos para a praça em frente a minha casa?

- Vamos. - tomando a mão da moça. - Charles, vou leva-la em casa.

- Beleza, eu vou dar um tempo aqui e depois vou na casa de meu pai.

- Não iria pra casa de sua mãe?

- Desisti.

- Ok, até mais.

Rita dá um beijo no rosto de Charles, Cadu o cumprimenta e o casal caminha para a praça. Ao chegar, Charles e Rita se sentam num banco e observam as pessoas correndo felizes pela avenida.

- É pena que você não vai poder ficar aqui.

- Sabe, eu já estou com saudade de Milano.

- Saiba que eu vou te visitar, Rita.

- Todos dizem isso!

- O que?

- Estou brincando contigo, bobo!

- Olha que eu fico com ciúmes! - beija-a.

- Eu não sei se é uma boa idéia.

- Por que?

- Você está confundindo as coisas, nós não estamos namorando e você quer isso como se fosse a última coisa em sua vida.

- Eu te amo.

- Até parece que você sabe o que diz... Só nos conhecemos há três semanas!

- Para mim foi o bastante.

- Mas para mim não é. Eu disse para você esquecer esse negócio de falar que me ama; não me sinto bem tendo que me preocupar com isso.

- Eu não consigo segurar, sai sem querer.

- O último cara com quem fiquei era igualzinho, sempre dizia que me amava e que queria ficar comigo. Isso é muito chato! Estou aproveitando a minha vida e não quero me amarrar com ninguém.

- Você me parece muito egoísta.

- Egoísta? Dá licença! - levantando-se.

- Espera! - levantando-se e correndo para a frente de Rita.

- Porra, você fica com essa conversinha de namorado e eu que sou egoísta?

- 'Tá, desculpa. Prometo que não digo mais.

- Outra promessa?

- Agora é pra valer, se quer assim.

- Preciso ir.

- Eu te levo até a porta de casa.

Cadu e Rita seguem em silêncio até a porta da casa da família que hospeda Rita no Brasil.

- Pode ir. - Rita diz aborrecida.

- Espera... Perdão, eu sou um chato.

- Ainda bem que sabe.

- Vamos fazer o seguinte? Vou viver contigo um dia de cada vez, sem falar de futuro e de outras coisas que te irritem.

- Menos mal.

Cadu dá um beijo em Rita, espera ela entrar e vai embora. Voltando para casa, resolve ligar para Charles, a fim de esclarecer algumas coisas, mas não consegue; o celular do amigo está desligado.
Antes do jogo

Charles vai até a casa de Cadu para que os dois sigam até o estádio. Cadu liga para Rita e avisa que estão descendo e, como ela mora perto do local da partida, encontrar-se-ão na entrada. Charles veste uma camisa do River Plate, semelhante a do Itaraúva, e Cadu vai fazendo piadinhas sobre a relação desproporcional de títulos entre os times durante o percurso.

Na entrada, Rita fala primeiro com Charles:

- Que camisa bonita! Me dá de presente?

- Só se for agora! - Charles está uma camisa preta por baixo e tira a do River Plate para dar à moça italiana.

Cadu fica sem graça e espera vendo sua amada colocar a camisa do amigo com muita graça.

- Vamos entrar? - pergunta Cadu.

- Vamos, agora estou pronta para ver o Itaraúva vencer!

- E vai vencer! - afirma Charles.
Durante o jogo

O trio se acomoda nas cadeiras numeradas enquanto Rita vê fascinada a geral sentada entre os dois rapazes.

- A geral! Poxa, Cadu, eu não disse que a geral é mais divertida? Lá que é bom, a gente toma banho de cerveja!

- É culpa do Charles, ele queria vir para a numerada.

- Se eu tivesse comprado o meu ingresso, eu teria ida pra geral mesmo, mas eu ganhei a numerada e não iria gastar mais.

- Por que não vendeu pra sobrar dinheiro pra comprar cerveja? - brinca Rita.

- Até que eu queria, mas não consegui vender. - sorrindo.

Eles esperam o apito inicial a beber algumas cervejas e comer biscoitos de polvilho vendidos nas arquibancadas. Charles começa a contar algumas piadas e Rita adora, deixando Cadu com ciúmes e calado.

Os times entram em campo e o Itaraúva é ovacionado pela torcida do pequeno estádio enquanto os três já estão bêbados. O jogo mal começa e o São Paulo faz um golaço.

- Caralho, que azar! - exclama Charles.

- Calma, Charles, tem muito jogo. - consola Rita, despertando o ódio de Cadu.

- Levar um gol logo no início é desmoralizador. - comenta Charles vendo a nova saída de bola.

O São Paulo ataca mais uma vez e faz o segundo gol. Charles coloca a cabeça entre as pernas e se desespera, portanto, Rita acaricia o cabelo do rapaz. Cadu fica irritado, tira o seu braço que estava sobre os ombros da garota e sinaliza para o ambulante por uma cerveja. O ambulante chega, Rita pede uma lata para ela, Cadu compra três, dá uma para Charles e outra para Rita, abre o recipiente enraivecido e bebe entristecido. Quando o conteúdo da lata está na metade, Cadu sente vontade de ir ao banheiro e pede licença aos dois. O rapaz desce a arquibancada, vai até o banheiro do estádio e, assim que sai, o Itaraúva faz um gol. Volta correndo à arquibancada e vê Rita e Charles abraçados a comemorar o tento.

- Está bom aí! - pergunta aos dois.

- Metemos um, metemos um! - comemora Charles.

Ele se senta e Rita dá um beijo em sua boca, portanto, fica mais calmo.

- Vou ao banheiro, guarda o meu lugar. - Charles pede para Rita.

- Eu também vou. Cadu, guarda nossos lugares?

- Podem ir, 'tá guardado.

Os dois descem as arquibancadas enquanto Cadu imagina que os dois podem estar se beijando na sua ausência. Há uns tempos atrás, quando conversava com Rita, ela elogiara Charles de um jeito que o deixou desconfiado. O árbitro apita o fim do primeiro tempo, vem o intervalo, o segundo tempo começa e eles não vêm. Aos cinco minutos do segundo tempo, o Itaraúva faz o segundo gol; Cadu nem dá importância. Rita e Charles sobem a arquibancada pulando e gritando, Charles pede mais uma cerveja.

- Você viu? - Charles contente.

- Vi sim.

- Vimos lá de baixo. Com o empate dá Itaraúva! - lembra Rita.

O jogo prossegue e Cadu não dá mais importância ao que está a acontecer, a alegria de Rita e Charles parece uma ofensa a ele. O Itaraúva faz mais um gol e a cada beijo que Rita o dá, ele sente um punhal imaginário penetrando em seu coração.

- Rita, vou ao banheiro. - o mundo já roda de tantas cerveja bebidas por Cadu.

- Eu vou contigo, bebi demais.

Os dois repetem o percurso e Cadu, quando vê a fila que está no banheiro, percebe que as suas suposições geradas a partir do tempo que Rita e Charles estiveram ausentes podem ter sido errôneas; em menos de quinze minutos não é possível que alguém volte à arquibancada. Ele aguarda um tempo quando Rita o chama:

- Cadu, o banheiro feminino está com uma fila enorme! Vou fazer xixi nas calças. Tem algum lugar que eu possa ir que não seja o baheiro?

- Vem cá. - Cadu se lembra que há uma ligação entre o estádio e o Colégio Municipal, ao lado do estádio. Conduz Rita até lá e chegam até o pátio.

- Está tudo fechado.

- O pátio está vazio.

- Você fica olhando para ver se não vem ninguém?

- Fico, vai lá no cantinho.

Rita se agacha no chão e Cadu observa o corredor por onde entraram enquanto urina. Rita termina e fala:

- Estou completamente bêbada.

- Eu também não estou sóbrio.

- O Itaraúva está ganhando.

- Eu também.

- Você está jogando?

- Não, estou contigo.

Rita sorri e o beija. O rapaz a acaricia com os lábios e arranca as suas roupas. Os dois transam ali mesmo, em pé, longe da vista de todos. Voltam para a arquibancada do estádio com um sorriso abobado. Charles percebe e pergunta ao ouvido de Cadu:

- Onde você estava, danadão?

Cadu nem consegue responder, pois o Itaraúva faz seu quarto gol e a torcida vai ao delírio. São dois minutos para o final e a partida parece estar na mão do time do interior.
Amor e ódio

O fato do celular de Charles estar desligado intriga Cadu, ele vai para casa e pensa se o amigo seria capaz de tamanha traição. Espera terminar o horário da reunião do intercâmbio e vai até lá. Quando chega, vê o que não queria; Charles está abraçado a Rita, aos beijos. Corre em direção aos dois gritando:

- Charles, você é um filho da puta!

Charles, ao ver seu amigo desequilibrado, prepara-se para o pior.

- Calma, Cadu!

- Calma é o caralho! Você é um filho da puta!

- Cadu, você 'tá pensando que é meu dono? - Rita.

- Não, 'tô pensando que vocês são dois safados, sua cadela!

- Cadu, calma! - Charles.

Cadu dá um soco no rosto de Charles, que cai, e puxa a moça pelas melenas.

- Com meu amigo, sua cachorra?

- Me solta, Cadu! - chorando.

- Você quer transar com todo mundo, não é, vagabunda?

- Eu transava com ele antes de te conhecer, seu burro!

- O que?

- É verdade, Cadu. - Charles, levantando-se.

- Eu nunca disse que sou sua namorada ou que te amo. - empurrando-o.

Cadu fica atordoado e sem saber o que fazer. Deixa o casal e volta para casa, chorando pelo amor que havia alimentado sem correspondência. Recorda os momentos bons e ruins, pensa no que poderia ter sido e não foi, culpa-se por ter apostado todas as fichas em algo que não se concretizou. Em casa, deita-se na sua cama e promete a si mesmo não comer e beber até que morra. Percebe que a vida não vale mais depois de tamanha desilusão. Dorme e tem um sonho feliz com Rita.

Às oito horas do dia seguinte, ele acorda e se vê desesperado. Pega o telefone, disca para Rita e pede:

- Fica comigo, Rita. Você pode ser de qualquer um, mas fica comigo.