domingo, 19 de agosto de 2007

Baú II


Para Elisa





Sentir e não saber se o teu beijo é a flor
De uma nova era que não me vende amor,
Parece ser mistério na entrelinha guarnecida
De alegorias deturpadas durante toda a vida.

Desejar e não querer a tua velha fúria
É parte do meu suspiro em forma de injúria
Que sofre em repartições da tua densa alma,
Pedindo para todos a tão escassa calma.

Ah, que tempo vadio!
Não há medida que importe para mim,
Pois estou sem as repostas do teu gesto.

Assegurei que estaríamos bem,
Entretanto mergulhamos numa profundeza abissal
Que só nos deu luzes e membranas delicadas...
O que faremos agora?

Só sei que quereria voar para Trento em minhas asas de Ícaro,
Mas não há Dédalo para me guiar ou o Sol para me matar.
Só sei que o teu sorriso ainda vigora nas conversas de senzala e casa-grande,
Contudo não imagino quando trar-nos-ás o teu olhar fecundo.



Sunny Nus





Oh, meu Deus, que coisa linda!
Seu rosto é Sol, é brilho em minh'alma
E esvazia o vazio que tenho pelas ilusões.
São de olhos verdes que o meu sábado se colore,
É de um sorriso singelo que desenho devaneios.

O meu esforço para parecer menos afoito não é o bastante,
Definha quando a surpresa de ver felicidade me contorna.
O meu intuito de não possuir razão foi um engano,
Não preciso esconder que me apaixono por tudo o que faz.



Macromania Desesperada





Forçando esdrúxulas composições inusitadas,
Impede que a vida seja descrita,
Expõe-se em maquiagens submersas numa pseudo-destreza.

Antíteses impostas sem descobrimento,
Paúra do próprio sofrimento nas entrelinhas da mentira
E a feiúra disfarçada em pixels esmaecidos
São as principais armas.

Shotguns, simples punheteiras, espalharam o chumbo para onde quer,
Mas só você morreu,
Ou melhor,
O excelente pedaço que lhe faz pessoa,



O Esboço da Varíola





Braços e pernas, sentidos e corpos;
Todos dispostos ao sofrimento e ao sacrifício.
Lábios e olhos, almas e surtos;
Todos propostos ao deleite e à tentação.

Aguardo o momento ansioso por dentro,
Velando o cadáver pronto para a ressurreição.
Suporto a mentira fingindo o orgasmo,
Sorrindo das lágrimas que não derramei.

Os andares não sincronizam na calçada
E, no asfalto, os carros calçam espíritos doentes:
Para aquilo que aponto, outro ponto conspira como tal,
Inspira-se no mal das entrelinhas do poema,
Absorve-se para cuspir-se indeciso.

Noite e neblina, luz e morfemas,
Fogo e alarme, velhas e crianças...
Onde está o cadeado que me aprisiona?
Onde estão as grades, os gritos?



O Tabefe da Senhorita Borboleta





Lá estava eu em minha ilusória descrição de um sonho redentor,
Envolvido em meus hexadecimais corantes e variáveis congeladoras,
Entretanto, estafado da mesmice que busca o diferente,
Abandonei o bico-de-pena e o tinteiro para dedicar os meus ouvidos a Callas.

Enquanto navegava na freqüencia homogênea e suave daquele timbre,
Busquei por gente no vazio de minha escuridão
A ligar-me em páginas e páginas de sentimentos adormecidos no tempo passado.
(...)
Eu pensei ter me perdido,
Mas ela havia me encontrado sem saber.
Resgatou-me da mentira com a lâmina afiada dos seus versos;
Diziam de mim como a sua censura, o seu repúdio,
E de toda a excelente ambientação eu me senti ínfimo, insignificante,
Mas, mesmo que eu gritasse como o alvo, não o era.

Eu não sei desta dor de mim mesmo, o ignóbil que se percebe,
Porque não restou nada depois da Senhorita Borboleta.



Ledo Engano





Eu cri no fim da sua dor:
Tentei entender este horror
Rompante da lástima vil
E do amor que lhe fugiu.

Não lhe dei o melhor de mim,
Nem lhe fiz o que precisou,
Pois não precisamos de nada;
Nós nos deixamos enganar.



Menos Tato





Eu te perco sempre que deliras,
Da mesma forma que me inspiras
Com partes do teu corpo no mar;
Dígitos gritantes e torpes no ar.

Eu perco no teu jogo de sombras
E sempre suponho que me sondas
Em estrofes sentidas no abstrato...
Somos tudo, meu bem, menos tato.



Isso Deve Passar





Não, não abri mão para encobrir o seu desuso,
Pois deste procedimento só lembraram do abuso.
Despautério é não levar seu caso a sério,
Fingindo ser o que já sabemos ser mentira,
Mas isso deve passar...
Isso deve passar.



Autumn Leaves





Sim, estou entusiasmado
Pela veracidade das tuas palavras;
Palavras estas que transcendem o tempo pela força e contundência.

Por ter sido do jeito que és,
Senti-me envolvido assim, entristecido,
Pois a dor me surpreende em tua claridade.



Sonhos de uma Dama





Correndo por todos estes poros,
Suspenso na sua volúpia,
Escondido da minha paúra,
Vou contorcendo limites para libertar-me da iniqüidade.

Permita-me que a diga do meu amor pelas coisas fúteis,
Porque desejo afastar esta penumbra de nós mesmos.
Não me importa se faltou sentido à sua história
Ou se a minha memória me perturba,
Pois pintei este afresco para a serenidade do seu sono,
Dos seus sonhos...

Quando me perguntou dos seus sonhos não soube responder,
Mas posso contar que os melhores existem para a sua concretização.
Talvez inocente pareça, mas da inocência que a corrupção sobrevive,
Portanto, sejamos o primordial e o livre pensamento.



Separação





Tudo ficou tão comum que perdeu o sabor:
Você trabalhando na repartição,
Eu todos os dias pegando condução
E à noite aquele mecanismo desangustiador chamado sexo.

Tudo está tão calmo que esvai a calma;
Cômodos em apartamento mobiliado e sem filhos,
Estreitos em vida estável e segura.

Já não sinto paixão no cheiro da sua pele,
Já não sente tesão na minha procura instintiva,
Já não somos carentes por descoberta por parecer que descobrimos tudo.

Você virou a minha caixinha de porra
E eu me tornei seu compromisso, seu aluguel...
Quero me separar, amor da minha vida!



O Seu Sorriso





No retorno sincero à falácia da destreza,
Tentei pedir ao frio que cômodo não fosse.
Uma guerra de temperamentos esdrúxulos
Recriou a nossa odisséia de cartas em papiros digitais
E ousou proclamar a demência do Imperador.

Sim, não é o que pensávamos, minha cara, meu amor,
Entendíamos melhor quando não nos conhecíamos,
Orávamos em desenvoltura sob a inocência dos sentidos.

Não é o perdão, a desculpa, a confirmação;
É a necessidade de entender o seu sorriso.



Espero





Espero que se comprometa a ser você mesma,
Que não respire o metal destes gases urbanos,
Que não se prenda às convenções fúteis que só a atrasam,
Que não precise aparentar,
Que não aparente o que não é,
Que se agarre às oportunidades e as multiplique pela sua criatividade,
Que viva,
Que seja feliz.



Quebrando Molduras





Na carne, sem anestesia,
Sem fitar gentileza,
Sem ironia.

Poucas palavras,
Somente o necessário;
O palpável
E o inalterável.



Do Fim e dos Meios





Qual é o seu fim, demagogo?
Quer dizer que trabalha num meio?
Qual é o seu fim, demagogo?

Pra que vive, demagogo?
Qual é o fim, a intenção, demagogo?
Por qual fim constrói os meios?



Polonesa





Era uma dama polonesa de modos estranhos a mim;
Ávida por novidades,
Contudo apressada e grosseira.

Vi-a tornar o dia de muitos insuportável
E me aproveitei disso também...
Corrompi-a como se fosse um payback,
Mas, na verdade, eu me denunciava baixo como ela.



Ida ao Inferno Branco





Seja o que for,
Pelo tempo que durar...
Seja o tempo,
Ou, quem sabe, Shangri-lá.

Fiz-te formosa na massinha de modelar
E também na argila e argamassa,
Mas não fui capaz de quebrar a tua vidraça.

Cada condimento,
Cada tentação,
Todos descritos na cozinha e imundície,
Todos perdidos no que nunca aconteceu.

Na tua cama a lembrança da escolha ruim:
A fissura em vez da única chance para entender,
A loucura ao invés da sobriedade arrependida.



Lugar Qualquer





Não parece que fui eu,
Mas não desejo esquecer.
Não me lembro se fui eu
E se contive o meu ser.
Não te quero adormecida
Pelo ódio que te mata,
Pois a luz da tua vida
Não reside nesta farsa.
Não espero que obedeças
Aos desmandos desta fé,
Portanto, livre destas seitas,
Eu serei lugar qualquer.



Dia Desses





Fogo nos barracos mal plantados da cidade,
Ladrão encabeçando os construtores da verdade,
Corrupção engavetada para ninguém poder ver,
Agressor de travesti como mocinho na tevê,
Música pra fazer o que o governo não faz,
Poesia pra agredir o que não me satisfaz,
Fotos na internet pra acalmar a mezza vita,
Terapia pra acalmar um coração que só palpita.



Diesel





Ainda assim há muita coisa;
Muito cinza neste jeito de concreto,
Muito 'bastante' nesta fala diferente,
Muita falta nestas vidas transeuntes.

Seja a Avenida Rio Branco, restaurantes e prostitutas,
Ou a Estação da Luz, estruturas de ferro e galpões,
Contenho as evidências do meu desgosto a tentar embelezá-los
Por dentro da minha alma que precisa deste apelo.

Não há antibiótico que contenha este furúnculo,
Explosão desordenada de pessoas e dos seus vícios.
Não há pastilha Valda que segure este pigarro
A arranhar as gargantas ressecadas da saudade.



A Moça da Árvore





Da sua mão sobre o meu peito lembro da marca,
Dos cortes ferozes de suas unhas vermelhas.
Dos seus lábios contra os meus tenho o desejo,
O impedimento pelo jogo de toques,
O procedimento pela satisfação,
Os desenhos feitos frente-a-frente.

O seu corpo está para sempre derramado em mim
E não consigo - nem quero - esquecê-lo.
A sua dança sempre existirá, meu amor,
Pois construiu o que tenho de mais sublime.



Cansado





Estou cansado de bloquear-te quando queres entrar em minha vida,
Cansado de tentar acertar só para agradar quem não conheço
(Acertar alguma coisa que nem sei se mereço ou se desejo merecer),
Cansado de sofrer pela falta que o calor do teu corpo me faz,
Cansado de girar intermitentemente nas ilusões do acaso,
Cansado de roubar aspirações no ar e sem querer,
Cansado de querer voltar,
Cansado de voltar a querer.

Estou cansado e sou tão jovem,
Entretanto dizem que estou ficando velho para algumas coisas
(Sinto-me velho por ver um futuro notório).
Estou cansado e vivo errante,
Pois meus sonhos são mais constantes.

Estou cansado e nada faço para mudar;
Não há a força física de um animal
Ou a sublime de um espírito livre,
Somente a regular de uma pessoa medíocre.



Descompromisso





Que seja,
Venha.
Que venha,
Tome.
Que suma,
Proponha.
Que nasça,
Morra.
Que grite,
Chore.
Que cale,
Sorria.
Que tenha,
Surte.

Por que entender seu descompromisso
Se o meu se faz como uma solução?



A Tulipa e o Espelho





Quem, além de você, pode ser tão graciosa
Em prospecto sutil de vida tão gloriosa?
Quem, além de você, teria amor pelo mal
Que se promove antes do meu ato final?

O seu sorriso prende os mundos num só meio
A interromper o desafio duma razão.
O seu sorriso chama o mundo ao seu seio,
Mundo esse que dispensa a fome de paixão.



Assisti ao Drama





Ah, amor, como és bela no mundo rodriguiano!
Despida de valores e maquiada nos mesmos,
A tua alma pulsa em furor e libido,
O teu espírito geme em múltiplos orgasmos...

Assisti ao drama e estou em êxtase;
Não imaginei que pudesse ser tão 'vagabunda'!



Gulodice II





Hoje sonhei com a minha falha,
A marca de fogo em tua genitália
E o arisco grito dado pela falta
Do pedido não descrito na pauta.

Tentei ser menos druida nos versos
Que louvavam um distante regresso,
Mas perdi o que tinha para mostrar-te
Nas pérolas que separei para conter-te.

Galguei os prantos dos inexoráveis
Para que sentisse paúras deploráveis,
Contudo a falta que me faz desperta
A dor na ferida para sempre aberta.



Gulodice





Perdoa-me, mas preciso sair daqui;
Esta transição é desleal
E denigre a nossa compaixão.

De tudo o que vi
Respeito o que são,
Mas do pouco que resta
Não existe um quinto de linha intermitente.

O fluxo segue o mesmo do resto de nós
E isto seria excelente se não houvesse um recurso material enganoso.
Preciso regular o meu ato pelas feridas na tua pele,
Mas deve me dizer até quando gosta.



Preciosa Torrente





Traumatizada numa pequena frase
- A hipérbole de uma curta fase -,
Decantou a dor numa piscina de angústia.

Perdeu a nascente do seu bom tempero
E conduziu o amor cheia de zelo
Para perder todo o fel da sua feroz astúcia.

Rubra como a chama que inflama o peito
Foi a perspicácia do seu incrível feito,
Pois nos encontramos à margem do lugar
Que esperávamos ser um sopro de Godard.



Corsário Maquiado





A luz diminui a intensidade,
O palhaço diz da sua saudade e chora.
Apesar do picadeiro estar vazio,
Não há mais o frio consternador,
Pois na esperança de um novo amor
Fadas dançam em piruetas
E team leaders exibem as suas bucetas depiladas.

A cicatriz se abre toda vez que o coração quer vomitar,
Entretanto todo sofrimento é repetido e desnecessário.
Tomara que o nosso corsário maquiado descubra o ponto de fuga
Para que não fuja mais de si mesmo.


Oxítona





Se fosse por satisfação, só pelo prazer da feitura,
Eu teria deixado este abuso de lado,
Pois aqui não há a transparência dos sorrisos que imaginei.

Bem que poderíamos ir para algum lugar impossível,
Colorido por esponja em amarelo-ouro e verde-bandeira,
Mas todas as conexões caíram e as estradas envelheceram.

Se pode falar, diga o que sente,
Contudo não se sinta impotente...
Se pode sorrir, sorria se puder,
Todavia não absorva o imprudente
(Apenas abuse do que lhe oferece).