domingo, 5 de agosto de 2007

Baú I

Angola





Se é a fome que te faz podre,
Não tenho culpa de ser tão pobre
Para o teu refinado paladar;
Agora sei o que é instigar
A vil demência que te controla
Em poucos minutos da aurora.

Espero que saibas correr contra o relógio.

Só Por Enquanto





Desde que resolveu retornar ao norte,
Sei que não conseguiu fechar o corte que lhe inibe;
Foi no Sertão de Santa Cruz do Capibaribe que cruzou os braços
E permitiu que os laços fossem queimados.

Mortos de sede, os caprinos abandonados alimentaram os carcarás,
Pois ninguém se prontificou a achá-los - inclusive você -...
Antes de adormecer, estávamos cobertos de pemba
Para a proteção contra as pinimbas dos vivos,
Entretanto nunca estivemos salvos.

Verbos na Escuridão





Se se lembra dela, isso o esvai do bem:
Ele errou ao tentar trocá-la por alguém
E a desilusão tornou a sua alma fria...
Esteve mergulhado em própria agonia.

Despediu-se do que cria ser seu,
Tentando acertar um céu de novidades;
Todas as verdades estavam arrepiadas
Com o desencontro sutil do destino.

É o fim, o assassino está atormentado
Por tudo o que fez deste lado do país,
Agora ele é só mais um homem infeliz...
O risco maior são verbos na escuridão.

À Venda





Vendo vida usada;
Só um pouco surrada,
Mas bastante flexível
E de saúde confiável.

Se assim interessar,
Procure o meu lar
Na Rua dos Aflitos,
Esquina com o infinito.

Segredo Hexadecimal





Espero de mim o desejo
De não me importar com o que vejo
Rendido no espaço sutil
Do meu coração pueril.

Retornei do meu paraíso
Distorcendo o que preciso,
Estendendo o meu caminho
E sentindo-me mais sozinho.

Bumsen Sich





Venha ver
como a luz se contorce
ao sublime enlace
da neblina cinzenta
que se faz sonolenta
neste breve sorriso
em prazer impreciso.

Tente ver
o primeiro algoz
a calar nossa voz
neste mundo distante
a criar-se inconstante
no estampido da dor
desabrochando em flor.

Definhou e o final você sabe,
Não precisei de cruz ou sabre.
Congelou e a cor foi a resposta:
Eu não preciso desta bosta!

Morto





Animal ou não, dentro dos conformes
Para exibir-se fagueiro nos reclames...
Já diria a minha avó, Eró - meu belo fado -:
Quem não ouve cuidado, ouve coitado!

Já fui convidativo e incorreto no verbo,
Mas não estava coerente ao meu credo
(Não desejo expor a fraqueza progressiva
Aos predicados pueris da sua vida lasciva).

Estou morto... Agora entende?

Adeus, Bruxa





Como você é, bruxa?
Tentou dizer algo antes que a visse,
Mas não entendi pela alta criptografia.

Aonde você foi, Lilitu?
Desenhou um astrolábio na areia
E o digitalizou em formato bitmap,
Entretanto foi perdido na última leva de arquivos.

O que acha, necromante?
Está a tentar mudar o que não é,
Ou o que nunca foi.

As suas vestes foram queimadas na lareira do Imperador
E toda a aldeia acordou com as luminescências da combustão.

Paciência no Vermelho





Já a terminar e quase não foi,
Perdi o que deixei para depois
E não vi os teus olhos verdes
A matar a tua própria sede.

Há tempos fora, tempo pequeno
Que pareceu bem menos ameno,
Mas gozamos da ausência vadia
Que nos fez saber da covardia.

Atentes ao feito da única mente,
Citando a ti mesmo aquilo que sente
Nos sonhos sofistas de rebelião,
Num samba oculto na tentação.

Fecundidade Assassina





Do espírito fecundo deste povo provirá a sua extinção,
Render-nos-emos à conceitual humanidade para nos sentirmos melhores;
A paz trará a guerra em espaços miúdos,
Egoísmos históricos,
Palavras mais vorazes do que rifles
E abstrações adormecidas sobre outras abstrações.

Evoluímos contra a seleção das espécies,
Conservamo-nos para a longevidade e o auto-apodrecimento futuro...
Somos fecundos,
Imundos,
Insanos.

Andrômeda





Tão perto que não a enxergo,
Tão fria que me entrego a seus sintomas.
Por que veio em hora tardia?
Por que traz este andar cipreste?

Não quis cair do último andar,
Debruçado a enaltecê-la sem motivo,
Mas o que pensei ser o derradeiro susto
Foi só realidade mergulhada em sonho.

Uma Canção





Este desespero é pouco perante a dor da última batalha,
São mais sinceros os canalhas a quem te vendeste.
Esta falácia não se suportará mais do que uma semana,
Pois quem te difama só existiu em ficção de folhetim.

Assim que o tempo estiver intercalado às pretensões,
Irei render o meu exército de flagelos pela vitória
Da desonrada glória de não me compor a teu asco;
Do repertório vasto restou apenas uma canção.

Brincando de Deus





Então lhe criei mais linda do que previ,
Movimentando-se sinuosa em um ambiente virtual.
Dos seus limites já sabia e, embora livre dentro deles,
Eu desejei que se multiplicasse até que não houvesse mais espaço.
Entretanto, em pedido inesperado, eu me surpreendi:
Você queria um pouco mais para criar os seus filhos
E produzir outros tantos que já seriam milhões.

Eu lhe dei o que queria,
Quase fiquei sem espaço para outros mundos,
Mas você é a maior das minhas criações;
Seria pecado vê-la morrer nas linhas que tracei.

Sem Cartas Para o Mundo





Sozinha em seu quarto tudo parece fugir,
A tormenta é um descompasso que insiste em existir.
Despida está a pele e ela vestida em escuridão,
Perdeu-se a esperança de sua última condição.

Não há receio de segurança para o palpitar
Que aprisiona o desencontro a fazê-la amar
O desejo distante que seu porte afirma;
Da tentação de agora não há a alma.

Sem cartas para o mundo,
Sem versos para o tempo
- A paixão foi um segundo
Na falta de um acalento-.

Além Deste Precipício





Que sou eu nem eu sei,
Ainda bem que há vida para descobrir.
(A ilusão é o que não vejo
E o que tento desdizer como fato do que sinto).

Eu te sinto também
E eu te quero em mim.
Eu te vejo também
E eu te quero assim.

Teus preconceitos são tão teus
Que não ligo se querem menos do que desejo...
Meus preconceitos são tão meus
Que não preciso os mostrar sem zelo.

Eu te tenho também,
Não mais como me tens.
Eu te olho também
E sei que estamos além deste precipício.

Bloco da Maldade





Seria fácil demais dizer que sou brasileiro,
Que toco pandeiro e que o samba é o meu som.

Por que querer felicidade se o bloco da maldade desfilou no carnaval?

Não Chove





Você, quem segura a adaga que matou o medo,
Conceda-me a liberdade de sorrir do seu credo.
Só achei graça, é muito pouco,
São temperos escassos para um rei louco.

Você, quem derruba os sonhos com fetiches falsos,
Persuada-me a tentar ser diferente,
Pois me sinto indecente ao mesmo tempo que correto,
Inda que discreto a tudo o que sinto,

Não chove, mas um frio congela as minhas extremidades,
Ademais, sinto saudades da Bahia e da quentura dos seus versos.
Não chove, entretanto há mais amor no que digo,
Portanto, não desejo esconder o que sigo.

Bate à Porta





Tum, tum, tum...

Bate à porta.

Tum, tum, tum...

Vida torta.

Tum, tum, tum...

Bate à porta.

Tum, tum, tum...

Tô com sono.

Tum, tum, tum...

Bate à porta.

Tum, tum, tum...

Dá-me paz!

Tristonho Viajante





Quem sabe ao fim deste lugar
(Eu gosto muito de você, mas não posso te ouvir)
Queiramos mais do que sonhar
E entendamos o motivo que nos coloca a fingir.

Sei do horror desta paixão,
Mas não sabemos do que há contido na explicação
De um tristonho viajante
Que se apaga na história mudada ao último instante.

Vai ser assim, ao fim do mês,
Que ganharemos um presente de alguém que quer voltar
Ao seu passado português
E à adormecida repugnância do seu lar.

Talvez, então, será o fim
Da beleza enrustida que não veio de mim,
Trançando o céu com o seu calor
E atraindo a luxúria para o seu novo amor.

Egocêntrico





Por enquanto vou mudando conforme as prisões,
Prisões em liberdades e em contimentos,
Sanções às libertinagens e aos amedrontamentos.

Astuto é o momento em que encontro a calma no engano,
Denegrindo todos os procedimentos por insurgências necessárias.

Pretendi afogar meu ânimo nas almas dos altruístas,
Mas sou egocentrismo em gesto e modo...

Por que curvar o meu sentimento?
Creio que não mais!

Da Arte e dos Artistas





A arte é uma cafetina,
Vende o corpo do da performance para descargas de hormônios.
Artistas são putas,
Antigos como as putas
E necessários como o prazer para a conclusão fria dos objetivos universais.

A arte é o inferno,
A sensação de estar contra a paz para atingi-la.
Artistas são os daimons
Que mentem para que a verdade se compadeça.

Alcione





Lindos são os teus contornos delgados,
A tua silhueta em ambiente formado
Por tua presença paraibana no mundo;
Tentadora até em fração de segundo.

Lindos são os teus lábios, toda a boca,
Toda a beleza que torna Campina pouca
Para este gesto dos Deuses que és tu,
Ritmo perfeito que me envolve cru.

Linda, sim, desde menina a mulher:
Amada sangria do silêncio e da fé
A insultar medidas estáveis do espaço,
A compor a superação daquilo que faço.

Por Que Me Acordam?





Sobre a mesa o sofrimento,
A dispersão do acalento
E as minhas fábulas urbanas.

Sobre a boca, o batom
E a vibração de mais um tom
Para canções furtivas e insanas.

Dentro da inspiração
está o medo e a tentação
Àquilo que insiste por finais felizes.

Criei a fome sem saber
E hoje está a me manter
Sereno, mesmo em meus deslizes.

Talvez não queira acordar
Deste verso triste a me surtar,
Desta nuvem negra a me matar,
Porque na solidão encontro companhia.

Assim me esforço a perder
A luta que me faz esquecer
Daquilo que dói por você
Num desejo fútil de perfeita alegria.

Anathema





Ofereço aos céus em nome da intransponível,
A mulher que amadureceu o sentido sensível
Das bestiais inversões morais do bem de outrora
E das lacunas preenchidas pela beleza de agora.

Ofereço para que a sua alma seja penitenciada
Pelos arcanjos que desfizeram toda a jornada
Dos seus servos ímpios e degredadores da luz;
Com sangue e por sangue para o que a conduz.

Banida seja para o exílio desta pluralidade!

Drama Dionisíaco





De repente estou em teu cataclisma,
Dividindo-me nu a partir do prisma
Que se formou no encontro de águas
Das lágrimas por todas estas mágoas.

De repente desencantamos sozinhos
Da mão esquerda que serviu o vinho
A embebedar-nos em tempo vago;
Contemos o discurso do pseudo-sábio.

Eurípedes escreveu mais uma tragédia,
Publicou do púlpito para toda a mídia
E esperou que por mim fosse combatido,
Mas até então estou torpe em alarido.

Mais Um Único





O sonho de ser um não compromete o que deseja;
Não é notório ser aquilo que ninguém mais seja,
Pois sem problemas você é gelo preso no tempo
E, ao contrário do que considera, nada tem de vento.

Moldar-se a si mesmo é o que pretende?
Você não me surpreende;
É tão previsível como uma pedra no rio
Que será esculpida num ritmo feio e frio.

O brilho suave que tenta construir em valores é só agonia,
Portanto, é comida indigesta que não traz prazer e alegria.

Filho da Própria Criação





Tirania daqueles que apreciam a tua lira
E percebem que podem corromper-te;
Quiçá entenderás o bolo fecal sobre teu corpo,
Surgido após o teu despertar.

Serás filho do que criaste novamente?

Não Quero Compreender





Se eu tentar só disfarçar não será fácil,
Pois o que fiz foi caminhar a um precipício
Que não previ ao encontrar a tua paixão
Desesperada por um momento de ilusão.

Eu me perdi nos devaneios que apagamos
Dos muros construídos no que esquecemos,
Então tentei morrer contigo sem desprezar
A forma que nós descobrimos para amar.

Das sombras há o frenesi da despedida,
Breve suspiro entregue em paz à nossa vida;
Hoje suspeito que podemos esquecer.

Sofrer do que se só estou extasiado
Por uma voz a denegrir o meu achado?
Hoje respeito, mas não quero compreender.

Perdão





Espero que me perdoe por isso,
Essa coincidência que parece feitiço.
Espero que eu não me culpe por tal,
Pois estou cansado de achar natural.
Espero que a cura venha com felicidade
E com sorrisos isentos de maldade.
Espero que não seja mais assim,
Pelo motivo de machucar a mim.

Animal Soul





Nenhum corpo merece ser odiado,
Nenhuma vida perece sem cadeados:
Eu te entrego o que tenho de casto
Em meu espírito que não deixa rastro...

Não intenciono um gozo do alterego,
Pois não ambiciono um detalhe cego.

Não preciso te amar por ser o que vejo,
É na alma que sinto o teu sincero beijo.
Não desejo um desejo imediato e social,
Sou mais satisfeito quando sou um animal.