segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Domingo no Estádio

Ninguém acredita que o Itaraúva venceu o São Paulo em casa por dois gols de diferença e conquistou o título de campeão paulista. Depois de levar dois gols no início do jogo, o time do interior reagiu e venceu o da capital com louvor, sem qualquer falha. Cadu está certo que fez Rita feliz neste dia, pois as emoções foram tantas que ela sorri como nunca. Seu amigo Charles está aos gritos, porque sempre sofria nas discussões sobre futebol por torcer por um time do interior que, em cem anos de existência, nunca havia conseguido um título.

Os três saem aos pulos do estádio, gritando em nome do Itaraúva e da glória que a pequena cidade havia obtido. Cadu beija Rita com alegria e Charles corre conversando com todos que aparecem no caminho.

- Cadu, preciso ir agora! - avisou Rita.

- Agora, Rita? Vamos beber um pouco!

- Não posso, daqui a duas horas preciso estar na reunião do intercâmbio.

- Eu vou contigo. - oferece-se Charles.

- Se alguém tem que levar minha namorada, eu levo! - Cadu se irrita.

- Você não é meu namorado, já conversamos sobre isso.

- Pô, desculpa, mas a casa da família brasileira de Rita fica do lado da minha.

- Perdão, estou indo.

- Calma, Cadu, vem comigo. Acho que dá pra ficarmos um pouco juntos. - segurando o braço do rapaz.

Cadu retorna, segura o rosto de Rita com delicadeza, traz até perto do seu e sussurra:

- Perdão.

- Vamos para a praça em frente a minha casa?

- Vamos. - tomando a mão da moça. - Charles, vou leva-la em casa.

- Beleza, eu vou dar um tempo aqui e depois vou na casa de meu pai.

- Não iria pra casa de sua mãe?

- Desisti.

- Ok, até mais.

Rita dá um beijo no rosto de Charles, Cadu o cumprimenta e o casal caminha para a praça. Ao chegar, Charles e Rita se sentam num banco e observam as pessoas correndo felizes pela avenida.

- É pena que você não vai poder ficar aqui.

- Sabe, eu já estou com saudade de Milano.

- Saiba que eu vou te visitar, Rita.

- Todos dizem isso!

- O que?

- Estou brincando contigo, bobo!

- Olha que eu fico com ciúmes! - beija-a.

- Eu não sei se é uma boa idéia.

- Por que?

- Você está confundindo as coisas, nós não estamos namorando e você quer isso como se fosse a última coisa em sua vida.

- Eu te amo.

- Até parece que você sabe o que diz... Só nos conhecemos há três semanas!

- Para mim foi o bastante.

- Mas para mim não é. Eu disse para você esquecer esse negócio de falar que me ama; não me sinto bem tendo que me preocupar com isso.

- Eu não consigo segurar, sai sem querer.

- O último cara com quem fiquei era igualzinho, sempre dizia que me amava e que queria ficar comigo. Isso é muito chato! Estou aproveitando a minha vida e não quero me amarrar com ninguém.

- Você me parece muito egoísta.

- Egoísta? Dá licença! - levantando-se.

- Espera! - levantando-se e correndo para a frente de Rita.

- Porra, você fica com essa conversinha de namorado e eu que sou egoísta?

- 'Tá, desculpa. Prometo que não digo mais.

- Outra promessa?

- Agora é pra valer, se quer assim.

- Preciso ir.

- Eu te levo até a porta de casa.

Cadu e Rita seguem em silêncio até a porta da casa da família que hospeda Rita no Brasil.

- Pode ir. - Rita diz aborrecida.

- Espera... Perdão, eu sou um chato.

- Ainda bem que sabe.

- Vamos fazer o seguinte? Vou viver contigo um dia de cada vez, sem falar de futuro e de outras coisas que te irritem.

- Menos mal.

Cadu dá um beijo em Rita, espera ela entrar e vai embora. Voltando para casa, resolve ligar para Charles, a fim de esclarecer algumas coisas, mas não consegue; o celular do amigo está desligado.
Antes do jogo

Charles vai até a casa de Cadu para que os dois sigam até o estádio. Cadu liga para Rita e avisa que estão descendo e, como ela mora perto do local da partida, encontrar-se-ão na entrada. Charles veste uma camisa do River Plate, semelhante a do Itaraúva, e Cadu vai fazendo piadinhas sobre a relação desproporcional de títulos entre os times durante o percurso.

Na entrada, Rita fala primeiro com Charles:

- Que camisa bonita! Me dá de presente?

- Só se for agora! - Charles está uma camisa preta por baixo e tira a do River Plate para dar à moça italiana.

Cadu fica sem graça e espera vendo sua amada colocar a camisa do amigo com muita graça.

- Vamos entrar? - pergunta Cadu.

- Vamos, agora estou pronta para ver o Itaraúva vencer!

- E vai vencer! - afirma Charles.
Durante o jogo

O trio se acomoda nas cadeiras numeradas enquanto Rita vê fascinada a geral sentada entre os dois rapazes.

- A geral! Poxa, Cadu, eu não disse que a geral é mais divertida? Lá que é bom, a gente toma banho de cerveja!

- É culpa do Charles, ele queria vir para a numerada.

- Se eu tivesse comprado o meu ingresso, eu teria ida pra geral mesmo, mas eu ganhei a numerada e não iria gastar mais.

- Por que não vendeu pra sobrar dinheiro pra comprar cerveja? - brinca Rita.

- Até que eu queria, mas não consegui vender. - sorrindo.

Eles esperam o apito inicial a beber algumas cervejas e comer biscoitos de polvilho vendidos nas arquibancadas. Charles começa a contar algumas piadas e Rita adora, deixando Cadu com ciúmes e calado.

Os times entram em campo e o Itaraúva é ovacionado pela torcida do pequeno estádio enquanto os três já estão bêbados. O jogo mal começa e o São Paulo faz um golaço.

- Caralho, que azar! - exclama Charles.

- Calma, Charles, tem muito jogo. - consola Rita, despertando o ódio de Cadu.

- Levar um gol logo no início é desmoralizador. - comenta Charles vendo a nova saída de bola.

O São Paulo ataca mais uma vez e faz o segundo gol. Charles coloca a cabeça entre as pernas e se desespera, portanto, Rita acaricia o cabelo do rapaz. Cadu fica irritado, tira o seu braço que estava sobre os ombros da garota e sinaliza para o ambulante por uma cerveja. O ambulante chega, Rita pede uma lata para ela, Cadu compra três, dá uma para Charles e outra para Rita, abre o recipiente enraivecido e bebe entristecido. Quando o conteúdo da lata está na metade, Cadu sente vontade de ir ao banheiro e pede licença aos dois. O rapaz desce a arquibancada, vai até o banheiro do estádio e, assim que sai, o Itaraúva faz um gol. Volta correndo à arquibancada e vê Rita e Charles abraçados a comemorar o tento.

- Está bom aí! - pergunta aos dois.

- Metemos um, metemos um! - comemora Charles.

Ele se senta e Rita dá um beijo em sua boca, portanto, fica mais calmo.

- Vou ao banheiro, guarda o meu lugar. - Charles pede para Rita.

- Eu também vou. Cadu, guarda nossos lugares?

- Podem ir, 'tá guardado.

Os dois descem as arquibancadas enquanto Cadu imagina que os dois podem estar se beijando na sua ausência. Há uns tempos atrás, quando conversava com Rita, ela elogiara Charles de um jeito que o deixou desconfiado. O árbitro apita o fim do primeiro tempo, vem o intervalo, o segundo tempo começa e eles não vêm. Aos cinco minutos do segundo tempo, o Itaraúva faz o segundo gol; Cadu nem dá importância. Rita e Charles sobem a arquibancada pulando e gritando, Charles pede mais uma cerveja.

- Você viu? - Charles contente.

- Vi sim.

- Vimos lá de baixo. Com o empate dá Itaraúva! - lembra Rita.

O jogo prossegue e Cadu não dá mais importância ao que está a acontecer, a alegria de Rita e Charles parece uma ofensa a ele. O Itaraúva faz mais um gol e a cada beijo que Rita o dá, ele sente um punhal imaginário penetrando em seu coração.

- Rita, vou ao banheiro. - o mundo já roda de tantas cerveja bebidas por Cadu.

- Eu vou contigo, bebi demais.

Os dois repetem o percurso e Cadu, quando vê a fila que está no banheiro, percebe que as suas suposições geradas a partir do tempo que Rita e Charles estiveram ausentes podem ter sido errôneas; em menos de quinze minutos não é possível que alguém volte à arquibancada. Ele aguarda um tempo quando Rita o chama:

- Cadu, o banheiro feminino está com uma fila enorme! Vou fazer xixi nas calças. Tem algum lugar que eu possa ir que não seja o baheiro?

- Vem cá. - Cadu se lembra que há uma ligação entre o estádio e o Colégio Municipal, ao lado do estádio. Conduz Rita até lá e chegam até o pátio.

- Está tudo fechado.

- O pátio está vazio.

- Você fica olhando para ver se não vem ninguém?

- Fico, vai lá no cantinho.

Rita se agacha no chão e Cadu observa o corredor por onde entraram enquanto urina. Rita termina e fala:

- Estou completamente bêbada.

- Eu também não estou sóbrio.

- O Itaraúva está ganhando.

- Eu também.

- Você está jogando?

- Não, estou contigo.

Rita sorri e o beija. O rapaz a acaricia com os lábios e arranca as suas roupas. Os dois transam ali mesmo, em pé, longe da vista de todos. Voltam para a arquibancada do estádio com um sorriso abobado. Charles percebe e pergunta ao ouvido de Cadu:

- Onde você estava, danadão?

Cadu nem consegue responder, pois o Itaraúva faz seu quarto gol e a torcida vai ao delírio. São dois minutos para o final e a partida parece estar na mão do time do interior.
Amor e ódio

O fato do celular de Charles estar desligado intriga Cadu, ele vai para casa e pensa se o amigo seria capaz de tamanha traição. Espera terminar o horário da reunião do intercâmbio e vai até lá. Quando chega, vê o que não queria; Charles está abraçado a Rita, aos beijos. Corre em direção aos dois gritando:

- Charles, você é um filho da puta!

Charles, ao ver seu amigo desequilibrado, prepara-se para o pior.

- Calma, Cadu!

- Calma é o caralho! Você é um filho da puta!

- Cadu, você 'tá pensando que é meu dono? - Rita.

- Não, 'tô pensando que vocês são dois safados, sua cadela!

- Cadu, calma! - Charles.

Cadu dá um soco no rosto de Charles, que cai, e puxa a moça pelas melenas.

- Com meu amigo, sua cachorra?

- Me solta, Cadu! - chorando.

- Você quer transar com todo mundo, não é, vagabunda?

- Eu transava com ele antes de te conhecer, seu burro!

- O que?

- É verdade, Cadu. - Charles, levantando-se.

- Eu nunca disse que sou sua namorada ou que te amo. - empurrando-o.

Cadu fica atordoado e sem saber o que fazer. Deixa o casal e volta para casa, chorando pelo amor que havia alimentado sem correspondência. Recorda os momentos bons e ruins, pensa no que poderia ter sido e não foi, culpa-se por ter apostado todas as fichas em algo que não se concretizou. Em casa, deita-se na sua cama e promete a si mesmo não comer e beber até que morra. Percebe que a vida não vale mais depois de tamanha desilusão. Dorme e tem um sonho feliz com Rita.

Às oito horas do dia seguinte, ele acorda e se vê desesperado. Pega o telefone, disca para Rita e pede:

- Fica comigo, Rita. Você pode ser de qualquer um, mas fica comigo.

domingo, 19 de agosto de 2007

Baú II


Para Elisa





Sentir e não saber se o teu beijo é a flor
De uma nova era que não me vende amor,
Parece ser mistério na entrelinha guarnecida
De alegorias deturpadas durante toda a vida.

Desejar e não querer a tua velha fúria
É parte do meu suspiro em forma de injúria
Que sofre em repartições da tua densa alma,
Pedindo para todos a tão escassa calma.

Ah, que tempo vadio!
Não há medida que importe para mim,
Pois estou sem as repostas do teu gesto.

Assegurei que estaríamos bem,
Entretanto mergulhamos numa profundeza abissal
Que só nos deu luzes e membranas delicadas...
O que faremos agora?

Só sei que quereria voar para Trento em minhas asas de Ícaro,
Mas não há Dédalo para me guiar ou o Sol para me matar.
Só sei que o teu sorriso ainda vigora nas conversas de senzala e casa-grande,
Contudo não imagino quando trar-nos-ás o teu olhar fecundo.



Sunny Nus





Oh, meu Deus, que coisa linda!
Seu rosto é Sol, é brilho em minh'alma
E esvazia o vazio que tenho pelas ilusões.
São de olhos verdes que o meu sábado se colore,
É de um sorriso singelo que desenho devaneios.

O meu esforço para parecer menos afoito não é o bastante,
Definha quando a surpresa de ver felicidade me contorna.
O meu intuito de não possuir razão foi um engano,
Não preciso esconder que me apaixono por tudo o que faz.



Macromania Desesperada





Forçando esdrúxulas composições inusitadas,
Impede que a vida seja descrita,
Expõe-se em maquiagens submersas numa pseudo-destreza.

Antíteses impostas sem descobrimento,
Paúra do próprio sofrimento nas entrelinhas da mentira
E a feiúra disfarçada em pixels esmaecidos
São as principais armas.

Shotguns, simples punheteiras, espalharam o chumbo para onde quer,
Mas só você morreu,
Ou melhor,
O excelente pedaço que lhe faz pessoa,



O Esboço da Varíola





Braços e pernas, sentidos e corpos;
Todos dispostos ao sofrimento e ao sacrifício.
Lábios e olhos, almas e surtos;
Todos propostos ao deleite e à tentação.

Aguardo o momento ansioso por dentro,
Velando o cadáver pronto para a ressurreição.
Suporto a mentira fingindo o orgasmo,
Sorrindo das lágrimas que não derramei.

Os andares não sincronizam na calçada
E, no asfalto, os carros calçam espíritos doentes:
Para aquilo que aponto, outro ponto conspira como tal,
Inspira-se no mal das entrelinhas do poema,
Absorve-se para cuspir-se indeciso.

Noite e neblina, luz e morfemas,
Fogo e alarme, velhas e crianças...
Onde está o cadeado que me aprisiona?
Onde estão as grades, os gritos?



O Tabefe da Senhorita Borboleta





Lá estava eu em minha ilusória descrição de um sonho redentor,
Envolvido em meus hexadecimais corantes e variáveis congeladoras,
Entretanto, estafado da mesmice que busca o diferente,
Abandonei o bico-de-pena e o tinteiro para dedicar os meus ouvidos a Callas.

Enquanto navegava na freqüencia homogênea e suave daquele timbre,
Busquei por gente no vazio de minha escuridão
A ligar-me em páginas e páginas de sentimentos adormecidos no tempo passado.
(...)
Eu pensei ter me perdido,
Mas ela havia me encontrado sem saber.
Resgatou-me da mentira com a lâmina afiada dos seus versos;
Diziam de mim como a sua censura, o seu repúdio,
E de toda a excelente ambientação eu me senti ínfimo, insignificante,
Mas, mesmo que eu gritasse como o alvo, não o era.

Eu não sei desta dor de mim mesmo, o ignóbil que se percebe,
Porque não restou nada depois da Senhorita Borboleta.



Ledo Engano





Eu cri no fim da sua dor:
Tentei entender este horror
Rompante da lástima vil
E do amor que lhe fugiu.

Não lhe dei o melhor de mim,
Nem lhe fiz o que precisou,
Pois não precisamos de nada;
Nós nos deixamos enganar.



Menos Tato





Eu te perco sempre que deliras,
Da mesma forma que me inspiras
Com partes do teu corpo no mar;
Dígitos gritantes e torpes no ar.

Eu perco no teu jogo de sombras
E sempre suponho que me sondas
Em estrofes sentidas no abstrato...
Somos tudo, meu bem, menos tato.



Isso Deve Passar





Não, não abri mão para encobrir o seu desuso,
Pois deste procedimento só lembraram do abuso.
Despautério é não levar seu caso a sério,
Fingindo ser o que já sabemos ser mentira,
Mas isso deve passar...
Isso deve passar.



Autumn Leaves





Sim, estou entusiasmado
Pela veracidade das tuas palavras;
Palavras estas que transcendem o tempo pela força e contundência.

Por ter sido do jeito que és,
Senti-me envolvido assim, entristecido,
Pois a dor me surpreende em tua claridade.



Sonhos de uma Dama





Correndo por todos estes poros,
Suspenso na sua volúpia,
Escondido da minha paúra,
Vou contorcendo limites para libertar-me da iniqüidade.

Permita-me que a diga do meu amor pelas coisas fúteis,
Porque desejo afastar esta penumbra de nós mesmos.
Não me importa se faltou sentido à sua história
Ou se a minha memória me perturba,
Pois pintei este afresco para a serenidade do seu sono,
Dos seus sonhos...

Quando me perguntou dos seus sonhos não soube responder,
Mas posso contar que os melhores existem para a sua concretização.
Talvez inocente pareça, mas da inocência que a corrupção sobrevive,
Portanto, sejamos o primordial e o livre pensamento.



Separação





Tudo ficou tão comum que perdeu o sabor:
Você trabalhando na repartição,
Eu todos os dias pegando condução
E à noite aquele mecanismo desangustiador chamado sexo.

Tudo está tão calmo que esvai a calma;
Cômodos em apartamento mobiliado e sem filhos,
Estreitos em vida estável e segura.

Já não sinto paixão no cheiro da sua pele,
Já não sente tesão na minha procura instintiva,
Já não somos carentes por descoberta por parecer que descobrimos tudo.

Você virou a minha caixinha de porra
E eu me tornei seu compromisso, seu aluguel...
Quero me separar, amor da minha vida!



O Seu Sorriso





No retorno sincero à falácia da destreza,
Tentei pedir ao frio que cômodo não fosse.
Uma guerra de temperamentos esdrúxulos
Recriou a nossa odisséia de cartas em papiros digitais
E ousou proclamar a demência do Imperador.

Sim, não é o que pensávamos, minha cara, meu amor,
Entendíamos melhor quando não nos conhecíamos,
Orávamos em desenvoltura sob a inocência dos sentidos.

Não é o perdão, a desculpa, a confirmação;
É a necessidade de entender o seu sorriso.



Espero





Espero que se comprometa a ser você mesma,
Que não respire o metal destes gases urbanos,
Que não se prenda às convenções fúteis que só a atrasam,
Que não precise aparentar,
Que não aparente o que não é,
Que se agarre às oportunidades e as multiplique pela sua criatividade,
Que viva,
Que seja feliz.



Quebrando Molduras





Na carne, sem anestesia,
Sem fitar gentileza,
Sem ironia.

Poucas palavras,
Somente o necessário;
O palpável
E o inalterável.



Do Fim e dos Meios





Qual é o seu fim, demagogo?
Quer dizer que trabalha num meio?
Qual é o seu fim, demagogo?

Pra que vive, demagogo?
Qual é o fim, a intenção, demagogo?
Por qual fim constrói os meios?



Polonesa





Era uma dama polonesa de modos estranhos a mim;
Ávida por novidades,
Contudo apressada e grosseira.

Vi-a tornar o dia de muitos insuportável
E me aproveitei disso também...
Corrompi-a como se fosse um payback,
Mas, na verdade, eu me denunciava baixo como ela.



Ida ao Inferno Branco





Seja o que for,
Pelo tempo que durar...
Seja o tempo,
Ou, quem sabe, Shangri-lá.

Fiz-te formosa na massinha de modelar
E também na argila e argamassa,
Mas não fui capaz de quebrar a tua vidraça.

Cada condimento,
Cada tentação,
Todos descritos na cozinha e imundície,
Todos perdidos no que nunca aconteceu.

Na tua cama a lembrança da escolha ruim:
A fissura em vez da única chance para entender,
A loucura ao invés da sobriedade arrependida.



Lugar Qualquer





Não parece que fui eu,
Mas não desejo esquecer.
Não me lembro se fui eu
E se contive o meu ser.
Não te quero adormecida
Pelo ódio que te mata,
Pois a luz da tua vida
Não reside nesta farsa.
Não espero que obedeças
Aos desmandos desta fé,
Portanto, livre destas seitas,
Eu serei lugar qualquer.



Dia Desses





Fogo nos barracos mal plantados da cidade,
Ladrão encabeçando os construtores da verdade,
Corrupção engavetada para ninguém poder ver,
Agressor de travesti como mocinho na tevê,
Música pra fazer o que o governo não faz,
Poesia pra agredir o que não me satisfaz,
Fotos na internet pra acalmar a mezza vita,
Terapia pra acalmar um coração que só palpita.



Diesel





Ainda assim há muita coisa;
Muito cinza neste jeito de concreto,
Muito 'bastante' nesta fala diferente,
Muita falta nestas vidas transeuntes.

Seja a Avenida Rio Branco, restaurantes e prostitutas,
Ou a Estação da Luz, estruturas de ferro e galpões,
Contenho as evidências do meu desgosto a tentar embelezá-los
Por dentro da minha alma que precisa deste apelo.

Não há antibiótico que contenha este furúnculo,
Explosão desordenada de pessoas e dos seus vícios.
Não há pastilha Valda que segure este pigarro
A arranhar as gargantas ressecadas da saudade.



A Moça da Árvore





Da sua mão sobre o meu peito lembro da marca,
Dos cortes ferozes de suas unhas vermelhas.
Dos seus lábios contra os meus tenho o desejo,
O impedimento pelo jogo de toques,
O procedimento pela satisfação,
Os desenhos feitos frente-a-frente.

O seu corpo está para sempre derramado em mim
E não consigo - nem quero - esquecê-lo.
A sua dança sempre existirá, meu amor,
Pois construiu o que tenho de mais sublime.



Cansado





Estou cansado de bloquear-te quando queres entrar em minha vida,
Cansado de tentar acertar só para agradar quem não conheço
(Acertar alguma coisa que nem sei se mereço ou se desejo merecer),
Cansado de sofrer pela falta que o calor do teu corpo me faz,
Cansado de girar intermitentemente nas ilusões do acaso,
Cansado de roubar aspirações no ar e sem querer,
Cansado de querer voltar,
Cansado de voltar a querer.

Estou cansado e sou tão jovem,
Entretanto dizem que estou ficando velho para algumas coisas
(Sinto-me velho por ver um futuro notório).
Estou cansado e vivo errante,
Pois meus sonhos são mais constantes.

Estou cansado e nada faço para mudar;
Não há a força física de um animal
Ou a sublime de um espírito livre,
Somente a regular de uma pessoa medíocre.



Descompromisso





Que seja,
Venha.
Que venha,
Tome.
Que suma,
Proponha.
Que nasça,
Morra.
Que grite,
Chore.
Que cale,
Sorria.
Que tenha,
Surte.

Por que entender seu descompromisso
Se o meu se faz como uma solução?



A Tulipa e o Espelho





Quem, além de você, pode ser tão graciosa
Em prospecto sutil de vida tão gloriosa?
Quem, além de você, teria amor pelo mal
Que se promove antes do meu ato final?

O seu sorriso prende os mundos num só meio
A interromper o desafio duma razão.
O seu sorriso chama o mundo ao seu seio,
Mundo esse que dispensa a fome de paixão.



Assisti ao Drama





Ah, amor, como és bela no mundo rodriguiano!
Despida de valores e maquiada nos mesmos,
A tua alma pulsa em furor e libido,
O teu espírito geme em múltiplos orgasmos...

Assisti ao drama e estou em êxtase;
Não imaginei que pudesse ser tão 'vagabunda'!



Gulodice II





Hoje sonhei com a minha falha,
A marca de fogo em tua genitália
E o arisco grito dado pela falta
Do pedido não descrito na pauta.

Tentei ser menos druida nos versos
Que louvavam um distante regresso,
Mas perdi o que tinha para mostrar-te
Nas pérolas que separei para conter-te.

Galguei os prantos dos inexoráveis
Para que sentisse paúras deploráveis,
Contudo a falta que me faz desperta
A dor na ferida para sempre aberta.



Gulodice





Perdoa-me, mas preciso sair daqui;
Esta transição é desleal
E denigre a nossa compaixão.

De tudo o que vi
Respeito o que são,
Mas do pouco que resta
Não existe um quinto de linha intermitente.

O fluxo segue o mesmo do resto de nós
E isto seria excelente se não houvesse um recurso material enganoso.
Preciso regular o meu ato pelas feridas na tua pele,
Mas deve me dizer até quando gosta.



Preciosa Torrente





Traumatizada numa pequena frase
- A hipérbole de uma curta fase -,
Decantou a dor numa piscina de angústia.

Perdeu a nascente do seu bom tempero
E conduziu o amor cheia de zelo
Para perder todo o fel da sua feroz astúcia.

Rubra como a chama que inflama o peito
Foi a perspicácia do seu incrível feito,
Pois nos encontramos à margem do lugar
Que esperávamos ser um sopro de Godard.



Corsário Maquiado





A luz diminui a intensidade,
O palhaço diz da sua saudade e chora.
Apesar do picadeiro estar vazio,
Não há mais o frio consternador,
Pois na esperança de um novo amor
Fadas dançam em piruetas
E team leaders exibem as suas bucetas depiladas.

A cicatriz se abre toda vez que o coração quer vomitar,
Entretanto todo sofrimento é repetido e desnecessário.
Tomara que o nosso corsário maquiado descubra o ponto de fuga
Para que não fuja mais de si mesmo.


Oxítona





Se fosse por satisfação, só pelo prazer da feitura,
Eu teria deixado este abuso de lado,
Pois aqui não há a transparência dos sorrisos que imaginei.

Bem que poderíamos ir para algum lugar impossível,
Colorido por esponja em amarelo-ouro e verde-bandeira,
Mas todas as conexões caíram e as estradas envelheceram.

Se pode falar, diga o que sente,
Contudo não se sinta impotente...
Se pode sorrir, sorria se puder,
Todavia não absorva o imprudente
(Apenas abuse do que lhe oferece).

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

A Minha Negação



Do que sou sempre desejo um pouco mais;
Peças de Sartre e versos de Vinicius de Moraes
Despidos em cadência que engana em contratempo,
Pois sempre absorvo o sangue de filhos do vento.

Onde nunca vou está encoberto por fissura,
A vergonha de quebrar apenas uma jura
Que nada vale - entretanto nada valer é valor -
Na minha condição de covardia ao amor.

O toque foi esquecido por novas palavras,
Mas sei que ad eternum estarei às favas
Com a preposição de alguém a ser feliz,
Pois da minha negação fui mais um aprendiz.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Roubando o Ladrão

- Ligação para anacarvalho4653 em globallink-ponto-tel.

- Por favor, realize a biometria da retina.

- Já fiz isso, máquina estúpida! - aproximando os olhos da lente de biometria.

- Usuário reconhecido: Letícia de Alvarenga Sampaio, quinhentos e doze créditos.

- Sim, eu sei que sou pobre.

- Ligação em curso, grave mensagem de apresentação.

- Aninha, é a Teca.

- Ligação aceita.

- Teca, estamos com problemas. - fala Ana.

- O que houve?

- Eu tentei utilizar o terminal do Ricardo pelo comando de voz, entretanto está criptografado para timbre.

- Qual o tamanho da chave?

- Dois mil e quarenta e oito bits.

- Putz, não temos processadores para isso. Há outro tipo de entrada de dados?

- Tem o teclado, mas precisa de biometria ocular e digital sob a mesma chave de encriptação... Nem tentei, pois irá trancar as entradas e acionar o sistema de resgate.

- Tentou mais alguma coisa?

- Sim, através das saídas, mas sem sucesso.

- Que saídas?

- Há duas saídas para os servidores de usuários da UFABC, uma para o Colegiado de Ciência e Tecnologia e outra para o de Engenharia de Automação. Descobri por acaso, a cruzar datas de envio de dados.

- Se conseguíssemos acesso a um destes servidores poderíamos burlar a chave?

- É uma boa pergunta.

- Não sabe ou não tem certeza?

- Ricardo precisa possuir uma conta em algum sistema de usuários dos servidores.

- Quanto tempo de percurso é daqui da Liberdade até Santo André?

- Hum, de metrô são dez minutos.

- Espera aí que estou indo.

domingo, 5 de agosto de 2007

Baú I

Angola





Se é a fome que te faz podre,
Não tenho culpa de ser tão pobre
Para o teu refinado paladar;
Agora sei o que é instigar
A vil demência que te controla
Em poucos minutos da aurora.

Espero que saibas correr contra o relógio.

Só Por Enquanto





Desde que resolveu retornar ao norte,
Sei que não conseguiu fechar o corte que lhe inibe;
Foi no Sertão de Santa Cruz do Capibaribe que cruzou os braços
E permitiu que os laços fossem queimados.

Mortos de sede, os caprinos abandonados alimentaram os carcarás,
Pois ninguém se prontificou a achá-los - inclusive você -...
Antes de adormecer, estávamos cobertos de pemba
Para a proteção contra as pinimbas dos vivos,
Entretanto nunca estivemos salvos.

Verbos na Escuridão





Se se lembra dela, isso o esvai do bem:
Ele errou ao tentar trocá-la por alguém
E a desilusão tornou a sua alma fria...
Esteve mergulhado em própria agonia.

Despediu-se do que cria ser seu,
Tentando acertar um céu de novidades;
Todas as verdades estavam arrepiadas
Com o desencontro sutil do destino.

É o fim, o assassino está atormentado
Por tudo o que fez deste lado do país,
Agora ele é só mais um homem infeliz...
O risco maior são verbos na escuridão.

À Venda





Vendo vida usada;
Só um pouco surrada,
Mas bastante flexível
E de saúde confiável.

Se assim interessar,
Procure o meu lar
Na Rua dos Aflitos,
Esquina com o infinito.

Segredo Hexadecimal





Espero de mim o desejo
De não me importar com o que vejo
Rendido no espaço sutil
Do meu coração pueril.

Retornei do meu paraíso
Distorcendo o que preciso,
Estendendo o meu caminho
E sentindo-me mais sozinho.

Bumsen Sich





Venha ver
como a luz se contorce
ao sublime enlace
da neblina cinzenta
que se faz sonolenta
neste breve sorriso
em prazer impreciso.

Tente ver
o primeiro algoz
a calar nossa voz
neste mundo distante
a criar-se inconstante
no estampido da dor
desabrochando em flor.

Definhou e o final você sabe,
Não precisei de cruz ou sabre.
Congelou e a cor foi a resposta:
Eu não preciso desta bosta!

Morto





Animal ou não, dentro dos conformes
Para exibir-se fagueiro nos reclames...
Já diria a minha avó, Eró - meu belo fado -:
Quem não ouve cuidado, ouve coitado!

Já fui convidativo e incorreto no verbo,
Mas não estava coerente ao meu credo
(Não desejo expor a fraqueza progressiva
Aos predicados pueris da sua vida lasciva).

Estou morto... Agora entende?

Adeus, Bruxa





Como você é, bruxa?
Tentou dizer algo antes que a visse,
Mas não entendi pela alta criptografia.

Aonde você foi, Lilitu?
Desenhou um astrolábio na areia
E o digitalizou em formato bitmap,
Entretanto foi perdido na última leva de arquivos.

O que acha, necromante?
Está a tentar mudar o que não é,
Ou o que nunca foi.

As suas vestes foram queimadas na lareira do Imperador
E toda a aldeia acordou com as luminescências da combustão.

Paciência no Vermelho





Já a terminar e quase não foi,
Perdi o que deixei para depois
E não vi os teus olhos verdes
A matar a tua própria sede.

Há tempos fora, tempo pequeno
Que pareceu bem menos ameno,
Mas gozamos da ausência vadia
Que nos fez saber da covardia.

Atentes ao feito da única mente,
Citando a ti mesmo aquilo que sente
Nos sonhos sofistas de rebelião,
Num samba oculto na tentação.

Fecundidade Assassina





Do espírito fecundo deste povo provirá a sua extinção,
Render-nos-emos à conceitual humanidade para nos sentirmos melhores;
A paz trará a guerra em espaços miúdos,
Egoísmos históricos,
Palavras mais vorazes do que rifles
E abstrações adormecidas sobre outras abstrações.

Evoluímos contra a seleção das espécies,
Conservamo-nos para a longevidade e o auto-apodrecimento futuro...
Somos fecundos,
Imundos,
Insanos.

Andrômeda





Tão perto que não a enxergo,
Tão fria que me entrego a seus sintomas.
Por que veio em hora tardia?
Por que traz este andar cipreste?

Não quis cair do último andar,
Debruçado a enaltecê-la sem motivo,
Mas o que pensei ser o derradeiro susto
Foi só realidade mergulhada em sonho.

Uma Canção





Este desespero é pouco perante a dor da última batalha,
São mais sinceros os canalhas a quem te vendeste.
Esta falácia não se suportará mais do que uma semana,
Pois quem te difama só existiu em ficção de folhetim.

Assim que o tempo estiver intercalado às pretensões,
Irei render o meu exército de flagelos pela vitória
Da desonrada glória de não me compor a teu asco;
Do repertório vasto restou apenas uma canção.

Brincando de Deus





Então lhe criei mais linda do que previ,
Movimentando-se sinuosa em um ambiente virtual.
Dos seus limites já sabia e, embora livre dentro deles,
Eu desejei que se multiplicasse até que não houvesse mais espaço.
Entretanto, em pedido inesperado, eu me surpreendi:
Você queria um pouco mais para criar os seus filhos
E produzir outros tantos que já seriam milhões.

Eu lhe dei o que queria,
Quase fiquei sem espaço para outros mundos,
Mas você é a maior das minhas criações;
Seria pecado vê-la morrer nas linhas que tracei.

Sem Cartas Para o Mundo





Sozinha em seu quarto tudo parece fugir,
A tormenta é um descompasso que insiste em existir.
Despida está a pele e ela vestida em escuridão,
Perdeu-se a esperança de sua última condição.

Não há receio de segurança para o palpitar
Que aprisiona o desencontro a fazê-la amar
O desejo distante que seu porte afirma;
Da tentação de agora não há a alma.

Sem cartas para o mundo,
Sem versos para o tempo
- A paixão foi um segundo
Na falta de um acalento-.

Além Deste Precipício





Que sou eu nem eu sei,
Ainda bem que há vida para descobrir.
(A ilusão é o que não vejo
E o que tento desdizer como fato do que sinto).

Eu te sinto também
E eu te quero em mim.
Eu te vejo também
E eu te quero assim.

Teus preconceitos são tão teus
Que não ligo se querem menos do que desejo...
Meus preconceitos são tão meus
Que não preciso os mostrar sem zelo.

Eu te tenho também,
Não mais como me tens.
Eu te olho também
E sei que estamos além deste precipício.

Bloco da Maldade





Seria fácil demais dizer que sou brasileiro,
Que toco pandeiro e que o samba é o meu som.

Por que querer felicidade se o bloco da maldade desfilou no carnaval?

Não Chove





Você, quem segura a adaga que matou o medo,
Conceda-me a liberdade de sorrir do seu credo.
Só achei graça, é muito pouco,
São temperos escassos para um rei louco.

Você, quem derruba os sonhos com fetiches falsos,
Persuada-me a tentar ser diferente,
Pois me sinto indecente ao mesmo tempo que correto,
Inda que discreto a tudo o que sinto,

Não chove, mas um frio congela as minhas extremidades,
Ademais, sinto saudades da Bahia e da quentura dos seus versos.
Não chove, entretanto há mais amor no que digo,
Portanto, não desejo esconder o que sigo.

Bate à Porta





Tum, tum, tum...

Bate à porta.

Tum, tum, tum...

Vida torta.

Tum, tum, tum...

Bate à porta.

Tum, tum, tum...

Tô com sono.

Tum, tum, tum...

Bate à porta.

Tum, tum, tum...

Dá-me paz!

Tristonho Viajante





Quem sabe ao fim deste lugar
(Eu gosto muito de você, mas não posso te ouvir)
Queiramos mais do que sonhar
E entendamos o motivo que nos coloca a fingir.

Sei do horror desta paixão,
Mas não sabemos do que há contido na explicação
De um tristonho viajante
Que se apaga na história mudada ao último instante.

Vai ser assim, ao fim do mês,
Que ganharemos um presente de alguém que quer voltar
Ao seu passado português
E à adormecida repugnância do seu lar.

Talvez, então, será o fim
Da beleza enrustida que não veio de mim,
Trançando o céu com o seu calor
E atraindo a luxúria para o seu novo amor.

Egocêntrico





Por enquanto vou mudando conforme as prisões,
Prisões em liberdades e em contimentos,
Sanções às libertinagens e aos amedrontamentos.

Astuto é o momento em que encontro a calma no engano,
Denegrindo todos os procedimentos por insurgências necessárias.

Pretendi afogar meu ânimo nas almas dos altruístas,
Mas sou egocentrismo em gesto e modo...

Por que curvar o meu sentimento?
Creio que não mais!

Da Arte e dos Artistas





A arte é uma cafetina,
Vende o corpo do da performance para descargas de hormônios.
Artistas são putas,
Antigos como as putas
E necessários como o prazer para a conclusão fria dos objetivos universais.

A arte é o inferno,
A sensação de estar contra a paz para atingi-la.
Artistas são os daimons
Que mentem para que a verdade se compadeça.

Alcione





Lindos são os teus contornos delgados,
A tua silhueta em ambiente formado
Por tua presença paraibana no mundo;
Tentadora até em fração de segundo.

Lindos são os teus lábios, toda a boca,
Toda a beleza que torna Campina pouca
Para este gesto dos Deuses que és tu,
Ritmo perfeito que me envolve cru.

Linda, sim, desde menina a mulher:
Amada sangria do silêncio e da fé
A insultar medidas estáveis do espaço,
A compor a superação daquilo que faço.

Por Que Me Acordam?





Sobre a mesa o sofrimento,
A dispersão do acalento
E as minhas fábulas urbanas.

Sobre a boca, o batom
E a vibração de mais um tom
Para canções furtivas e insanas.

Dentro da inspiração
está o medo e a tentação
Àquilo que insiste por finais felizes.

Criei a fome sem saber
E hoje está a me manter
Sereno, mesmo em meus deslizes.

Talvez não queira acordar
Deste verso triste a me surtar,
Desta nuvem negra a me matar,
Porque na solidão encontro companhia.

Assim me esforço a perder
A luta que me faz esquecer
Daquilo que dói por você
Num desejo fútil de perfeita alegria.

Anathema





Ofereço aos céus em nome da intransponível,
A mulher que amadureceu o sentido sensível
Das bestiais inversões morais do bem de outrora
E das lacunas preenchidas pela beleza de agora.

Ofereço para que a sua alma seja penitenciada
Pelos arcanjos que desfizeram toda a jornada
Dos seus servos ímpios e degredadores da luz;
Com sangue e por sangue para o que a conduz.

Banida seja para o exílio desta pluralidade!

Drama Dionisíaco





De repente estou em teu cataclisma,
Dividindo-me nu a partir do prisma
Que se formou no encontro de águas
Das lágrimas por todas estas mágoas.

De repente desencantamos sozinhos
Da mão esquerda que serviu o vinho
A embebedar-nos em tempo vago;
Contemos o discurso do pseudo-sábio.

Eurípedes escreveu mais uma tragédia,
Publicou do púlpito para toda a mídia
E esperou que por mim fosse combatido,
Mas até então estou torpe em alarido.

Mais Um Único





O sonho de ser um não compromete o que deseja;
Não é notório ser aquilo que ninguém mais seja,
Pois sem problemas você é gelo preso no tempo
E, ao contrário do que considera, nada tem de vento.

Moldar-se a si mesmo é o que pretende?
Você não me surpreende;
É tão previsível como uma pedra no rio
Que será esculpida num ritmo feio e frio.

O brilho suave que tenta construir em valores é só agonia,
Portanto, é comida indigesta que não traz prazer e alegria.

Filho da Própria Criação





Tirania daqueles que apreciam a tua lira
E percebem que podem corromper-te;
Quiçá entenderás o bolo fecal sobre teu corpo,
Surgido após o teu despertar.

Serás filho do que criaste novamente?

Não Quero Compreender





Se eu tentar só disfarçar não será fácil,
Pois o que fiz foi caminhar a um precipício
Que não previ ao encontrar a tua paixão
Desesperada por um momento de ilusão.

Eu me perdi nos devaneios que apagamos
Dos muros construídos no que esquecemos,
Então tentei morrer contigo sem desprezar
A forma que nós descobrimos para amar.

Das sombras há o frenesi da despedida,
Breve suspiro entregue em paz à nossa vida;
Hoje suspeito que podemos esquecer.

Sofrer do que se só estou extasiado
Por uma voz a denegrir o meu achado?
Hoje respeito, mas não quero compreender.

Perdão





Espero que me perdoe por isso,
Essa coincidência que parece feitiço.
Espero que eu não me culpe por tal,
Pois estou cansado de achar natural.
Espero que a cura venha com felicidade
E com sorrisos isentos de maldade.
Espero que não seja mais assim,
Pelo motivo de machucar a mim.

Animal Soul





Nenhum corpo merece ser odiado,
Nenhuma vida perece sem cadeados:
Eu te entrego o que tenho de casto
Em meu espírito que não deixa rastro...

Não intenciono um gozo do alterego,
Pois não ambiciono um detalhe cego.

Não preciso te amar por ser o que vejo,
É na alma que sinto o teu sincero beijo.
Não desejo um desejo imediato e social,
Sou mais satisfeito quando sou um animal.