sexta-feira, 13 de julho de 2007

O Enigma de Rita

Esta noite em Ribeirão Pires está tão fria que a neblina turva a visão à distância de seis metros. As luzes nos postes formam desenhos cônicos da sua fonte ao chão, com tanta clareza que a noção espacial parece estar mais apurada. Rita propõe a Lucas que a leve para casa, mas este discorda.

- Porra, Rita, assim nem dá pra sair contigo! Qualquer friaca já é bastante pra você pedir arrego.

- Não é só isso, não me sinto bem.

- O que você tem?

- Estou grogue pela bebida e pelo sono.

- Faz o seguinte, para de beber e toma um refrigerante.

- Não bebo há uma hora.

- Então bebe um refri.

- Poxa, eu quero ir embora pois já passa da meia-noite.

- A carruagem virou abóbora?

- Engraçadinho.

- Deixa de ser enjoada!

- Qual é a sua, Lucas? Resolveu me chamar pra farra só pra me ofender?

- Que porra! Você só sabe reclamar?

- Também sei me despedir. - levantando-se.

- Ei, espera! Vai andando daqui até o Parque das Fontes?

- Eu me viro.

- Espera, Rita, eu te levo.

- Não quero.

- Deixa de ser orgulhosa, sua chata.

- Agora que não quero mesmo. - distanciando-se.

- Você quer ir? Vai, sua louca!

Rita sai do Canoa Quebrada aborrecida e se dirige até o ponto de táxi do terminal rodoviário, mas não há qualquer carro por lá. Não quer ficar esperando por um ônibus por não ter certeza se irá passar algum em tempo condizente com a sua irritação, então prefere ir andando até a sua casa.

O dia amanhece e ninguém tem notícias de Rita; a sua mãe, Dona Eunice, entra em desespero. Passa-se meses sem uma explicação para o sumiço da moça, enquanto a polícia investiga o caso sem sucesso. Doze anos depois do acontecido, Dona Eunice recebe uma ligação telefônica:

- Mãe?

- Rita, onde você está? Onde você esteve, menina?

- Não sou mais uma menina, mãe.

- Eu sei, está com vinte e nove, meu amor... Mas me diga: onde está? Por que fez isso comigo? Eu me preocupei por todos os dias desde que sumiu!

- Sempre te observei... Ainda bem que aprendeu a usar a internet comigo.

- Minha filha, não me deixe aflita... Diga-me onde está, por favor!

- Estou onde menos imagina. - seguido de um sorriso ouvido pela respiração.

- Não me enlouqueça, Rita! - nervosa e com voz alterada.

- Adivinhou, mãe. - desliga o telefone.