terça-feira, 3 de julho de 2007

Carta de Sofrimento



Eu te vi sangrar no lodo em que dormiu
E quis ludibriar teu prazer infantil.

Não, não me impeça que te escreva este fim,
Não me diga que eu penso só em mim,
Não se afogue na demência do pudor,
Não invente uma mentira de amor.
Eu não sou,
Eu não sou,
Eu não sou o que desperta o teu furor.
Eu não sou,
Eu não sou
Nossa estátua lapidada de torpor.
Eu não sou,
Eu não sou
O princípio que nos prende sem calor.

Atira,
Suspira,
Inova,
Renova,
Insulta,
Deturpa.

Retorno ao começo com o presente gasto;
Quisera eu viver aqueles tempos castos
(Eu sei que a roldana não possui sono
E que para o passado resta o abandono).

Deslizes definem todo o nosso azar,
Mas foram deslizes que me fizeram amar.
Estou compulsivo pelos beijos sangrentos
Que me fizeram vomitar todo este tormento.

Novas alianças reformam velhos hábitos
Enquanto assisto assustado a espasmos súbitos,
Entretanto é o mesmo garoto que escreve estes versos,
A dizer de outras esperanças e outros gestos.

Continuo me inundando de suja verborragia
E cultivando flores sagradas de ironia
Para tentar surtar o tempo apaixonado
Que me induz a um impulso ilustrado,
Para que nunca mais precise me estender
Àquilo que jamais poderei entender.

Atira,
Suspira,
Inova,
Renova,
Insulta,
Deturpa.

Que não me toques pela nuvem estéril,
Pois se volvem no peito dum anjo etéreo
A descansar evidência na boca da pitonisa:
É uma pena não dar ouvidos ao que me avisa.