quinta-feira, 5 de julho de 2007

As Três Irmãs

A briga, se não foi algo de espetacular, rendeu conversa para o bairro durante uns bons meses. Quiqui não desgrudava do cabelo de Lola enquanto Didi tentava apartar a briga. O povo que passava por ali parava para olhar e nada fazia. Leandro corria para tirar a irmã da confusão.

Personagens



Quiqui é uma garota que atrai olhares masculinos por sua voluptuosidade, embora seja uma negação de semblante; tem um nariz estranho, pontiagudo e com narinas deformadas. A pele é alva e cheia de sardas, geralmente muda a cor do cabelo para ressair-se na multidão. Nunca deu sorte com relacionamentos heteroafetivos, pois, no português vulgar da comunidade, é uma daquelas que não dá para deixar de comer: não há o amigo que não resolveu dar uma olhada nos seus decotes ou pernas. É filha de uma ex-prostituta com um rico industrial. É uma puta entre quatro paredes, mas é recatada e disfarça timidez em público.
Lola já é uma mulher, ao contrário das amigas. É gorda e evita andar em público. Adaptou-se a uma vida noturna para fugir dos olhos mesuradores da estética. Freqüenta uma roda de amigos mais jovens na esperança de ser cobiçada por garotos inexperientes. Das três, é a única que trabalha, mas vive chorando miséria para que a Quiqui pague as contas da pastelaria com a mesada que recebe do pai. É boa oradora e escreve muito bem, além de ter uma voz agradável.
Didi é adorada pelas duas amigas por ser pobre, feia e burra. Sempre diz coisas idiotas e concorda com tudo o que dizem, mesmo sem saber com o que está concordando. É muito protegida por elas e pelo irmão mais velho, Leandro. Seria, o que a gíria zela, uma sanguessuga.
Leandro é um rapaz que se vangloria por ser trabalhador, honesto e digno, mas suas pretensões nunca saíram do papel e vive às favas com o seu patrão por melhores salários. Aprecia academias de ginástica e artes marciais. É um brigão explosivo, famoso por muitos olhos roxos nas festas da cidade.
Daniel é um cara que não se pode confiar, sempre pensando em exibir seu predicado físico e dialético. Peca por ser intransigente e malicioso em excesso. É um mentiroso que consegue transformar falácias em verdade.

O grande dia de Lola



Havia um ano que Lola não conseguia um namorado ou ficante, a coitada já havia mudado o seu comportamento; sempre triste e resmungando pelos cantos. Havia ido a uma festa com suas amigas e se deprimiu um pouco mais quando percebeu que até a Didi se atracava com um cabra, na porta do banheiro. Sentou-se à mesa, pediu uma caipirinha; duas, três, quatro.
O mundo já rodava quando Daniel sentou na cadeira ao lado e perguntou:
- O que há, Lola?
- Estou bêbada.
- Olha, segura a onda aí que vou pegar uma cerveja para nós. - Daniel já preparava o plano de misturar destilada com fermentada, deixar Lola embriagada e obrigá-la a pagar a conta.
O rapaz vai até o balcão da casa, pede uma cerveja, pega a garrafa e dois copos, solta uma piadinha para o garçom e volta:
- Pronto, amor meu, agora me diz o que você tem. - cheio de sorrisos.
- Ninguém gosta de mim. - Pelo timbre da voz, Daniel percebe que não será necessário embriagá-la.
- Poxa, Lola, eu gosto de você!
- Gosta nada, você só quer que eu te pague uma breja. - movimentado o braço rapidamente a derrubar o copo no chão, sujando o peito com cerveja a denunciar seus seios.
Daniel olhou para os peitos de Lola e se excitou com a cena. Avistou as redondezas e percebeu que os pares já estavam feitos. Questionou:
- Quer sair daqui comigo, agora?
- Para onde?
- Vou te levar em casa e provar que não sou de todo ruim. - Lola mora a duas quadras da casa de apresentações.
- Poxa, você faria isso por mim?
- Claro, vem, levanta.
Daniel ajuda Lola a levantar e ela pede:
- Deixa eu me despedir das meninas.
- Elas estão acompanhadas e você já está bêbada. Vai chamar a atenção de todos.
- É verdade(…) você é um anjo. - aos soluços.
O casal sai da casa de apresentações e Daniel faz o cálculo de onde encostará Lola para lhe dar uns amassos. É tarde, quatro horas da manhã, e não chamaria tanta atenção. Ele pergunta:
- Você está bem?
- Estou com um pouco de azia(…) Ei, sabe que eu te acho um gatinho! - era o que o lobo precisava para pular na ovelha.
- Acha mesmo? - já olhando para o decote da moça.
- Sim, acho. - “Feito!”: Pensa o lobo.
- Olha, deixa eu te segurar direito. Encosta aqui na parede porque ‘tá escorregando.
Daniel encosta Lola na parede: ela está pálida e suada. Ele não consegue tirar os olhos daqueles seios. Segura-a por debaixo dos braços com as duas mãos e a ergue, dizendo:
- Descansa um pouco.
- É, estou cansada.
- Olha para mim. - Lola, face a face com Daniel, pede:
- Me beija.
Daniel faz uma representação romântica, aproximando-se lentamente quando - na verdade - deseja arrancar as roupas da mulher e fazê-la ali mesmo. Beija-a como se a amasse, abraça-a forte para sentir o troféu contra seu tórax. Indaga:
- Vamos para a praça da prefeitura? - a duas quadras dali, o ninho de amor perfeito; fica vazia na noite de sábado para o domingo.
- Para que?
- Quero ficar mais tempo contigo.
- Vamos.
Daniel a leva para a praça aos beijos que só são apaixonados por parte de Lola, o rapaz só deseja descarregar a sua libido e ir embora. Lola, encantada, confessa:
- Há um ano que eu não beijo ninguém.
- Verdade? - fazendo cara de surpreso, apesar de não estar.
- Bem, de vez em quando eu brinco com a Quiqui e nos beijamos, mas não é sério. - aí sim, causando surpresa.
- Nossa, como é isso?
- Bem, as vezes não é só beijo. Faço umas massagens nela e ela em mim quando estamos muito estressadas. - o queixo de Daniel cai; uma aquisição para os seus trunfos.
- Não sabia que vocês eram tão íntimas, mas entendo. - não entende.
- Olha, acho que fiz besteira. - fez. - Promete que não conta isso pra ninguém? - cismada pela fama de Daniel.
- Prometo, sim.
- Promete mesmo?
- Prometo. Vamos para a praça, esquece isso. Não está aqui quem ouviu.
Lola está tão bêbada que confia no ficante. Já estão perto da praça e Daniel mal vê a hora de tocá-la. Escolhe estrategicamente o banco em que irão sentar e caminha cansado pelo peso da mulher gorda. Senta-a com cuidado - para não estragar o momento dela e, conseqüentemente, o dele - e a beija de pé. Pergunta:
- Está bem, Lola?
- Sim, acho que suei o bastante para melhorar. Vem cá! - puxando-o pelos braços.
Lola dá um grande beijo em Daniel, um beijo com sotaque de convite para tomá-la com força. Daniel entende o sentimento da moça e, ao mesmo tempo que a beija, invade o interior das suas pernas com a mão esquerda, subindo aos seios. Levanta a blusa pela metade e se excita com os belos mamilos rosados; usa a língua para rodeá-los, desenhá-los. Lola geme mais intenso quando melhor e Daniel a ouve para guiá-lo. Os dois são uma só pessoa agora, no mesmo compasso e torpor.

O dia seguinte



Apesar de ter sido deixada em casa sem promessas e com certa indiferença de Daniel, Lola não esquece a história; tenta achar uma maneira para revê-lo, gostou do sexo embora não o considere grande pessoa. Resolve telefonar para a Didi:
- Alô. - Didi.
- Oi, doidinha!
- Oi, Lola! Onde você foi parar ontem, heim? - ironicamente.
- Eu fiquei com um cara.
- Nossa! Quem foi a vítima?
- O Daniel.
- O Daniel? Eca, você abusou!
- Eu estava completamente bêbada, mas ele é bom. Foi uma gracinha comigo até a hora que conseguiu o que queria, mas não prometeu que seria um anjo depois disto. Foi educado.
- Mesmo assim, eca!
- Você vai para a pracinha hoje?
- Vou sim, marquei com Quiqui às cinco horas.
- ‘Tá bom, vou lá também.
- ‘Tá(…), mas o Daniel(…), eca!
- Pára, Didi!
- Já parei, desculpa. Só achei estranho.
- Vou indo. Nos encontramos na praça.
- Tá certo, beijinho.
- Beijinho. Até mais!

A praça



Lola chega na praça e vê Quiqui a conversar nervosa com Didi. Apressa-se para saber o que está acontecendo. Quando a Quiqui a vê, aproxima-se da Lola e diz:
- O que você pensa que fez? - irritada.
- O que fiz?
- Cara, você ficou com o Daniel?
- Até você, Quiqui?
- Você acha que eu fiquei com o idiota do Lucas por que?
- Por que teve vontade?
- Daniel é meu!
- Seu? Como não sei disso?
- Por que não estava certo, fiquei uma vez com ele.
- Fala sério, Quiqui! Eu não poderia saber.
- Você ‘tá gostando dele?
- (…)
- Diga, mulher! Você está gostando dele?
- Não sei.
- Como não sabe?
- Não gosto dele como pessoa, mas você sabe que estou carente.
- Como assim? Você transou com ele?
- Sim.
Sem Lola esperar, Quiqui se arremessa contra ela a segurar-lhe os cabelos.

O fim da briga



Enquanto Leandro afasta as duas amigas, Quiqui grita:
- Estou grávida, sua cadela! Estou grávida!
Lola pára por alguns instantes e pede:
- Quiqui, espera(…) Desculpa, eu não sabia! Vamos para a minha casa conversar melhor.
- Não vou para lugar algum contigo, sua traidora!
- Eu não sabia, Quiqui. Não pode me chamar de traidora. Estava só e ele veio falar comigo.
- Eu vi o que aconteceu, sua cadela! Daniel queria te ajudar e você se aproveitou.
- ‘Ta bom, então eu me aproveitei!
Quiqui pula novamente contra Lola, mas Leandro a segura enquanto a mesma se debate nos braços do rapaz. Lola diz:
- Quem vai embora sou eu. Quando esfriar a cabeça me procure.
- Só se for pra te matar. Ouviu? Pra te matar, sua rampeira!
Lola volta para casa com lágrimas nos olhos, a saber que a personalidade de Quiqui não deixará o suavizar do conflito acontecer. Pensa na amiga grávida e na possibilidade de não conhecer o sobrinho de verdade, que vinha nas conversas das brincadeiras de menina.

O golpe de misericórdia



Lola está trabalhando e desmaia. No posto médico da empresa, acorda e está de frente ao médico e sua mãe. O doutor a anima:
- Você está bem, menina. Não se preocupe, vocês estão bem!